MasukKivia
Terminei o dia completamente exausta. Troquei os jogos de cama e limpei cada quarto daquele maldito lugar. Minhas pernas tremiam de tanto correr para dar conta de tudo e evitar um castigo. Tudo o que eu queria era tomar um banho e despencar na cama. — Kivia, precisamos de ajuda para desfiar a carne na cozinha.- Uma outra escrava chamou. Se pudesse, teria me deitado no chão e começado a chorar. Mas o medo da governanta era maior que o meu cansaço. — Certo. Já estou descendo. Uma tontura me atingiu. Passei rapidamente no banheiro para lavar o rosto e espantar o sono antes de descer as escadas. Enquanto caminhava, calculava todas as possibilidades de escapar dali. Muitos lobos viriam de terras distantes, e eu torcia para que ao menos um fosse do Sul. Talvez eu pudesse pedir ajuda. Minha alcateia era pequena, mas todos respeitavam o nome do meu pai. Ele era um homem honrado, e continuamos servindo ao reino mesmo depois que Luna Eliz entregou seu posto ao filho, Aquiles. Nossa alcateia fornecia ervas raras que só cresciam em nosso território, e isso nos trouxe prosperidade, prestígio e estabilidade financeira. Peguei uma panela grande e comecei a trabalhar. Meu estômago roncava e minha boca salivava com o cheiro da comida, mas a maldita governanta não tirava os olhos de nós. — Kivia, você vai servir no entretenimento também? Achei que só o mestre pudesse possuir você. Uma das escravas perguntou, e havia pena em sua voz. — Ele deve ter cansado dela. Também, com essa cara de cadáver... Outra comentou, como se fosse melhor do que qualquer uma de nós. Era a mesma que já havia se insinuado várias vezes para o mestre sem jamais receber um único olhar. — Talvez seja isso. — Continuei concentrada no meu serviço. — Não acredito. Acho que é porque ela nunca engravidou. Se tivesse dado um filhote a ele, estaria no harém. Talvez até fosse uma das favoritas. A Kivia tem modos, é educada, fala bonito. Logo se vê que não era qualquer uma. — Calem-se! Kivia é uma escrava como todas as outras. A governanta falou, me lançando um olhar venenoso. — Senhora... o mestre chamou Kivia aos aposentos dele. Foi como se o chão desaparecesse sob meus pés. Meu coração disparou, e um suor gelado escorreu pela minha testa. Deixei a panela na pia e subi para o quarto. Tomei um banho rápido, vesti a camisola obrigatória e segui até os aposentos do mestre. Parei diante da porta por alguns segundos. Por um breve instante, lembrei dos momentos felizes ao lado do meu companheiro escolhido. Bati duas vezes, de leve. — Entre, Kivia.- A voz grave me alcançou. Entrei e permaneci no centro do quarto, aguardando as ordens. O mestre começou a andar ao meu redor, analisando cada marca em meu corpo. — Ainda tem cicatrizes. Sua loba já não é mais a mesma. — Não, senhor. — Logo ela morrerá. Ele estalou a língua em reprovação. — Que prejuízo... Nem sequer me deu um filhote. Não demonstrei emoção alguma. Aprendi havia muito tempo a controlar meus sentimentos. Descobri que minhas lágrimas apenas o incentivavam a me machucar ainda mais. — Ajoelhe-se. Obedeci sem hesitar. Ele segurou meu queixo, obrigando-me a encará-lo. Seu polegar pressionou meus lábios com força. — Uma fêmea tão bonita... Pena que seja frígida. Ele nunca conseguiu me fazer sentir nem um resquício de excitação logo em sua mente sou frígida. Lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto a sensação de sufocamento voltava a ser minha velha conhecida. Quando minha visão começou a escurecer, ele finalmente me soltou. Já não existia vergonha dentro de mim. O mais difícil era esconder o nojo. Nojo dele. Nojo de mim mesma. Cada movimento fazia pontadas agudas atravessarem meu ventre. Logo senti o sangue escorrer por minhas coxas. Às vezes eu me perguntava se aquele era o único líquido que realmente o satisfazia. Minha alma, porém, estava muito longe dali. Eu imaginava o momento em que reencontraria minha filha. Imaginava seu cheiro. Seu abraço. Seu rostinho outra vez. Era apenas esse pensamento que me dava forças para suportar mais uma noite. Quando tudo terminou, ele simplesmente se afastou. Sentei-me na cama e observei o filete de sangue escorrendo pelas minhas pernas. Então... Tudo ficou escuro.KiviaQuando saí do banheiro, já não pensava em Mikael com desejo. Foquei em suas palavras, claras o suficiente para que eu tomasse consciência de uma coisa: precisava me colocar em primeiro lugar.Esperar até que as amigas de Lia se acalmassem. Cuidar para que Lia não se magoasse.Claro.Ele nem sequer perguntou como eu estava.Para quê se importar com a queda da própria Luna?Maldição.A mistura de raiva e frustração começava a se tornar minha companheira constante.A Luna Alina tinha razão. Não importava o que eu fizesse, eu já era o espetáculo de Garras Venenosas.Então, de que adiantava me conter? Por que continuar tentando ser discreta?Como se adivinhasse meus pensamentos, a tela do celular se acendeu.A mensagem era de Alina.— Segue uma lista com três opções de investimento que me pareceram excelentes.Logo abaixo, ela havia colocado uma análise detalhada de cada empresa: projeção de lucro, margem de crescimento, fotos, nomes dos proprietários e até os riscos envolvidos.Pas
Kivia Mikael praticamente roçou os lábios nos meus, mas me soltou como se eu estivesse em chamas. — Ela é minha Luna agora, Kivia. E devo respeito à Lia — falou mais para si mesmo do que para mim. — É claro, Mikael. Eu entendo a sua posição. Foi com ela que você se satisfez durante esses três anos, não foi, "companheiro"? Falei, deixando o sarcasmo escorrer pela voz. — Eu sei que está ferida, mas não podemos deixar nossas feridas sangrarem sobre os outros. Ela não criou esse problema. Fui eu, em um momento de fraqueza. A culpa é minha, Kivia. É a mim que você deve culpar. — Um Alfa renomado, um investidor de grande sucesso, bonito, talentoso e bem-sucedido desde jovem... Lia se enfiou na nossa casa, na nossa cama e aproveitou a oportunidade para fisgá-lo assim que pôde. — Você não sabe o que aconteceu. Já falei para não falar dela desse jeito. Ele falou entre dentes, e sua aura de Alfa se espalhou pelo lugar. A prova de que eu ainda era sua companheira estava ali, seu lobo não
Kivia O carro parou em frente à minha casa, ao lado do carro de Mikael, que também estava estacionado ali. O que será que ele queria agora? Defender quem me atacou ? — Raniel, fomos dar uma volta na Cidade do Sul para eu me acalmar. Lembre-se de que você só pode se mexer sob minhas ordens. — Eu fui contratado para proteger você... Ele tinha aquele olhar teimoso que eu estava começando a reconhecer. — E é assim que você vai me proteger. Deixe que ele pense que tem o controle. Será mais fácil nos defender quando a pancada chegar. E acredite: ela vai chegar, mais cedo do que imagina. Desci do carro. Eu tinha escutado tudo o que a Luna Alina havia falado e já tinha dado início ao meu plano de defesa. Ainda assim, dentro de mim, havia uma pequena esperança de que Mikael não fosse aquele monstro. De que tudo fosse apenas influência de Lia. Afinal, ele era o pai da minha filha. Abri a porta e encontrei Mikael sentado no sofá, rolando a tela do celular, com uma expressão preocupada. M
Kivia — Um conto de fadas?! — Na minha cabeça, minha história poderia facilmente virar um filme de terror. — O que toda jovenzinha sonha? — Com seu príncipe encantado. — Arqueei uma sobrancelha. — Exatamente. Enquanto você age discretamente para derrubar seus inimigos, na superfície, sentará à minha mesa no baile como uma princesa, mostrando que ainda tem aliados poderosos. Então, um belo lobo de linhagem real se aproximará diante de todos, encantado com você, em um espetáculo capaz de fazer qualquer jovenzinha suspirar. Essa será sua imagem pública. A imagem que nos ajudará a atrair investidores e, finalmente, permitirá que você convença os membros da alcateia de que é capaz. Pisquei algumas vezes, tentando entender como ela conseguia fazer aquilo parecer tão fácil. Como alguém conseguia jogar com Alfas enormes e sanguinários sem demonstrar o menor receio? — Eu deixarei tudo por sua conta. Faça seus planos de negócios e eu os seguirei à risca. — Afinal, que opção eu tinha? Ela
Kivia — Na melhor das hipóteses, ele sabe que, enquanto você continuar ligada a ele, ainda terá uma forma de controlar cada passo seu. E, enquanto estiver presa a Mikael, ninguém vai acreditar que você pode se interessar de verdade por outro. Ela fez uma pausa. As sobrancelhas se arquearam, e era quase possível enxergar as engrenagens girando a toda velocidade em sua mente enquanto tentava encontrar as palavras certas. — Mas existe uma possibilidade ainda pior. Daqui a cinco dias haverá um grande baile real. Para Mikael, seria muito mais vantajoso aparecer ao lado de Lia: uma Luna linda, elegante e obediente. Ele vai sorrir para todos, agir como se tivesse tudo sob controle e deixar você trancada em casa. Meu estômago se revirou. — E sabe o que vão pensar? Que você é uma coitadinha quebrada, incapaz até de colocar o nariz para fora de casa. E, pior: que não tem condições de reassumir a própria vida. Capaz de ainda agradecerem a ele por cuidar da sua alcateia por você. Ela me enca
Kivia No caminho, Raniel ainda mantinha a aura tempestuosa. Vez ou outra, olhava para mim pelo retrovisor, provavelmente esperando que eu começasse a chorar ou tivesse alguma reação. Quando percebeu que eu não iria me desmanchar em lágrimas diante dele, foi movido pela curiosidade e finalmente perguntou: — Como conseguiu ficar tão tranquila diante daquela vadia? Não tem mais sangue nas veias? Ele mantinha as sobrancelhas unidas e a expressão fechada. Um sorriso lento surgiu no canto dos meus lábios. Ele não fazia ideia do que eu já havia enfrentado para me preocupar com um pouco de molho quente. — Acalme-se, Raniel. Treine melhor o controle das suas emoções daqui para frente. E procure alguns companheiros fiéis para trabalhar com você. A partir de amanhã, meus inimigos vão crescer consideravelmente. Ele me lançou um olhar desconfiado pelo retrovisor. — Ela é filha de qual ancião?- Perguntei, o nome do meu primeiro alvo. — O nome dela é Kátia. O pai é Leontes, um ancião da alca







