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⚠️ Atenção: este livro contém gatilhos.
Kivia Abro os olhos, amaldiçoando o fato de não ter morrido durante a noite. Por alguns segundos, permaneço imóvel, encarando o teto escuro. Uma parte de mim torce para que tudo seja apenas um pesadelo. Que, quando eu fechar os olhos novamente, vou acordar em minha antiga casa, com o cheiro do café vindo da cozinha e os sons da minha filha enchendo o ambiente. Mas a dor está aqui. Sempre está. Desço da cama com dificuldade. Meus pés mal tocam o chão quando uma pontada atravessa minhas pernas. Seguro a beirada do colchão para não cair. Hematomas de diferentes tons cobrem minha pele. Alguns recentes, outros já começando a desaparecer. Minha loba tenta curá-los, mas até ela parece cansada. Hoje faz exatamente três anos que meu tormento começou. Três anos. Parece uma eternidade. Eu já fui uma Luna respeitada. Já fui uma mãe amorosa. Já fui uma fêmea amada. Agora? Sou apenas um troféu de guerra. Um objeto que alguém ganhou depois de destruir tudo o que eu conhecia. Os renegados invadiram minha alcateia. Ainda consigo ouvir os gritos daquela noite. O barulho de portas sendo arrombadas. O cheiro de sangue. Os rosnados que vinham de todos os lados. Meu companheiro me alcançou pelo elo mental segundos antes de eles entrarem em nossa casa. Esconda-se. Leve Naissa. Agora. Nossa filha tinha apenas três meses. Corri com ela nos braços, apertando seu pequeno corpo contra o meu peito. Ela começou a chorar, assustada com o barulho. — Shhh... mamãe está aqui. Abri o guarda-roupa e coloquei minha pequena entre as roupas. Cobri seu corpinho com um cobertor e beijei sua testa. Meu coração estava tão acelerado que mal conseguia respirar. Fechei as portas. E aquela foi a última vez que toquei minha filha. Voltei para a sala. E meu mundo desabou. Mikael estava caído no chão. Havia um enorme ferimento aberto em seu peito, e o sangue escorria por sua pele, formando uma poça sob seu corpo. Um renegado estava sobre ele. Suas garras estavam levantadas, prontas para atravessar sua garganta. — Não! Avancei sem pensar. Agarrei seus pulsos antes que ele atacasse. Minhas unhas se transformaram em garras, e golpeei seu rosto uma, duas, três vezes. Eu não sentia dor. Não sentia medo. Só ódio. Queria matá-lo. Queria arrancá-lo de perto de Mikael. Mas outros renegados surgiram atrás de mim. Mãos agarraram meus braços. Lutei como uma louca. Chutei. Mordi. Gritei. — MIKAEL !! Foi a última coisa que consegui dizer antes de ser arrastada para fora de casa. Ouvi seu nome ecoar na minha mente enquanto me levavam para longe. Ninguém veio atrás de mim. Ninguém me salvou. Durante dias, fui arrastada de um acampamento para outro. Meus pés sangravam, minha roupa estava coberta de poeira e o corpo inteiro doía. Mas nada doía tanto quanto não saber o que havia acontecido com minha família. Todas as noites, eu fechava os olhos e via Mikael no chão. Depois via Naissa. Minha pequena, sozinha dentro daquele guarda-roupa. — Naissa... — sussurrava, abraçando os joelhos contra o peito. — Mamãe vai voltar. Eu precisava acreditar nisso. Precisava. Mas, a cada amanhecer, estávamos mais longe de casa. Até que finalmente me levaram diante do Alfa dos renegados. Dois homens seguravam meus braços enquanto eu permanecia ajoelhada diante dele. Olhei ao redor. Guardas por todos os lados. Nenhuma saída. Levei a mão ao pescoço, procurando o elo com Mikael. Silêncio. Tentei novamente. Nada. Meu coração começou a bater descontroladamente. E se ele estivesse morto? E se ninguém tivesse encontrado Naissa escondida? Fechei os olhos com força para impedir as lágrimas. Pensei em seu rostinho. No cheiro de sua pele. Queria voltar. Queria pegá-la nos braços e dizer que tudo ficaria bem. Mas eu estava ali. Sozinha. Ajoelhada diante de um estranho. Com as mãos sujas de sangue e terra e sem saber se algum dia voltaria para casa. Naquela época, eu tinha apenas uma certeza: Eu precisava sobreviver. Três anos depois, continuo respirando. Mas já não sei se isso significa estar viva. Porque hoje eu sou apenas... um troféu de guerra, uma escrava.KiviaAo sair do hospital, senti a tensão que tomava conta de Kairon e fiquei apreensiva. Dividir a companheira não era algo comum entre os lobisomens, muito menos para um macho poderoso como ele.Kairon me conduzia silenciosamente pelo estacionamento, com a mandíbula travada e o olhar determinado. Eu, por minha vez, prestava atenção em cada um de seus gestos. Era um hábito que havia adquirido durante os anos de escravidão: observar cada movimento sutil para antecipar as reações do meu mestre, da Regina e dos lobos superiores. Assim, conseguia evitar surras desnecessárias.Meu carro havia ficado na estrada, junto aos guerreiros, quando eu partira para socorrer Raniel. Por isso, havia enviado o endereço do hospital de Garras de Gelo ao meu pai, pedindo que fosse me buscar lá. Disse a Kairon que fizera isso por ser mais perto, mas a verdade era outra. Eu não queria presenciar nele a mesma reação de medo que vira no rosto de Raniel quando conhecera Kairon.Ele abriu a porta do passageiro
Kivia Quando chegamos ao consultório de Jamile, nos sentamos lado a lado nas cadeiras diante de sua mesa. Kairon mantinha minha mão firmemente entre as suas, como se temesse que eu pudesse escapar a qualquer momento. Jamile, por sua vez, tinha um brilho nos olhos e um sorriso contido no canto dos lábios. Aquela expressão era suspeita demais para o meu gosto. — Primeiro, quero parabenizar vocês dois. Nunca torci tanto para um casal se acertar na vida! Cheguei até a fazer uma promessa à deusa, sabiam? Não consegui continuar séria. Soltei uma risadinha e me inclinei para a frente, curiosa. — Amiga, prometeu o quê? Jamile ergueu as sobrancelhas, alternando o olhar entre mim e Kairon, que parecia tão interessado na resposta quanto eu. — Que, na união pública de vocês, eu passaria sete dias no Templo da deusa Selene, cuidando dos jardins sagrados e cumprindo os rituais de purificação ao amanhecer. Sem reclamar, sem fugir e sem usar meus conhecimentos médicos como desculpa para escapar
Kivia O pequeno cubículo pareceu ficar ainda menor com a aura de Kairon se espalhando pelo ambiente, mas eu já tinha exigido demais dele por hoje. Levantei-me da cadeira e caminhei até ele com um gingado provocante. Perto daquele macho, eu me sentia confiante o suficiente para brincar com seu ciúme. Encostei-me em seu peito forte e ergui o rosto para encará-lo, fazendo meu melhor biquinho manhoso. — Lobinho, estou toda dolorida... Acho que você pegou pesado demais comigo na última hora. — Fiz um carinho distraído em seu peito, tentando conter um sorriso travesso. — Agora me diz, com um lobo como você na minha cama, por que diabos eu ia querer outro? Ele estreitou os olhos e inclinou a cabeça para me observar. Um vinco surgiu em sua testa, mas logo desapareceu, dando lugar a um sorriso lento e convencido. — Claro, companheira. Afinal, gozei tantas vezes dentro de você que provavelmente já está carregando uma ninhada minha em vez de um único filhote. Minhas pernas bambearam, e ele
Mikael Trancado no meu escritório, sem conseguir prestar atenção verdadeiramente em nenhum documento. A imagem de Kivia tinha grudado na minha mente. Ela ainda não era a sombra do que era, esquelética e cheia de cicatrizes, estava longe de ser aquela minha lobinha doce e gentil. Mas cada vez que ela me desafiava eu conhecia a sensação dolorida do mesmo dia que a perdi, eu quiz abraça-la desde o primeiro dia. Sentir seu cheiro novamente e uma tortura deliciosa, eu ansiei tanto por senti-lo novamente. Peguei a garrafa de vinho elfico- o único que embebeda seres sobrenaturais, e tomei. Já estava bêbado o suficiente. quando subi para o meu quarto e vi Lia deitada com uma camisola fina de seda, ela lembrava tanto a Kivia quando nos unimos, mas agora tinhamos tabtas lembranças nossas. Ela me sustentou na hora que estava caído. Ela ajudou minha filha nos primeiros passos. Fez da minha casa um lar. Tomei um banho eu sabia que ela estava acordada e esperando por mim, beijei a
Lia Coloquei Naissa na cama e, por alguns segundos, fiquei admirando o quartinho iluminado pelas pequenas luzes de fadas que havíamos decorado juntas. Cada detalhe guardava um pedacinho de nós, e vê-la adormecer ali sempre despertava em mim uma mistura de ternura e saudade. Desde que Kivia partira, cuidar de Naissa havia se tornado minha responsabilidade. Mikael estava sempre ocupado com suas inúmeras obrigações e, sem perceber, eu acabara assumindo muito mais do que apenas a rotina da pequena loba. Soltei um suspiro, afastei uma mecha de cabelo do rostinho adormecido e ajeitei a coberta sobre seu corpinho. Então, inclinei-me para depositar um beijo delicado em sua testa. — Boa noite, minha lobinha... — sussurrei, sorrindo ao vê-la se aconchegar no travesseiro. Aquela não deveria ser a minha vida. Nunca imaginei que acabaria dedicando meus dias a cuidar da filha de outra mulher com o macho que amava, muito menos que precisaria me contentar com um lugar tão incerto ao lado dele. M
Kivia Ele pareceu um pouco desapontado, e me encolhi ligeiramente, incomodada com a culpa que começou a pesar no meu peito. Não era minha intenção magoá-lo. — Não faça essa cara. Somos companheiros destinados. Eu sei que sua regra era não se envolver emocionalmente, mas peço que reconsidere. Me dê uma chance de conquistar você de verdade. Fiquei em silêncio, sem saber o que responder. Ele havia interpretado minha expressão de uma maneira completamente diferente. — Kairon, eu não consigo sentir um vínculo de almas entre nós. É claro que tivemos um cio muito bem satisfeito, mas não é bom misturarmos as coisas. E que história é essa de nó? Mudei de assunto deliberadamente. Ele comprimiu os lábios em uma linha fina, e seu olhar escureceu. Apesar disso, não insistiu. Pegou minha mão e a levou até nossa junção. Na base de seu membro, as duas protuberâncias ainda estavam inchadas, embora começassem a diminuir de tamanho dentro do meu corpo. — Os lobos reais são os mais próximos de fer







