INICIAR SESIÓNNATÁLIA
Acordei antes mesmo de o despertador tocar. Abri os olhos e permaneci alguns segundos encarando o teto do quarto, tentando controlar a ansiedade que havia me acompanhado durante toda a noite. Fazia meses que eu não sentia aquela mistura de esperança e medo ao mesmo tempo. A oportunidade de trabalhar no Grupo Almeida Construções & Infraestrutura parecia boa demais para ser verdade. E era justamente isso que me assustava. Passei as mãos pelo rosto e me sentei na cama. Respirei fundo algumas vezes, tentando convencer a mim mesma de que aquela seria apenas mais uma entrevista. Se criasse expectativas demais, a queda seria muito mais dolorosa caso recebesse outra negativa. Levantei-me e fui direto para a cozinha. Abri a geladeira e encontrei exatamente o que esperava: uma garrafa de água, dois ovos e o restante do pão que havia comprado dias atrás. Era tudo o que havia. Olhei aqueles poucos alimentos por alguns segundos. Nunca imaginei que chegaria a uma situação como aquela. Peguei uma fatia de pão e preparei um café preto. Enquanto a água fervia, meus olhos recaíram sobre a pilha de contas espalhadas sobre a mesa. O aluguel. A conta de luz. A conta de água. Respirei profundamente. Aquele emprego não era apenas uma oportunidade profissional. Era a chance de manter um teto sobre minha cabeça. Terminei o café em silêncio, lavei a xícara e segui para o quarto. Abri o guarda-roupa e observei minhas poucas roupas sociais. Escolhi uma camisa branca, uma calça preta de alfaiataria e um blazer bege que eu costumava usar nas entrevistas de emprego. Passei uma maquiagem discreta apenas para disfarçar as olheiras e prendi os cabelos em um coque baixo. Quando terminei, encarei meu reflexo no espelho. Não parecia uma executiva, mas também não parecia alguém que havia desistido. Sorri para mim mesma. — Você consegue. Peguei minha pasta e conferi, pela terceira vez, se todos os documentos estavam ali. Tudo em ordem. Antes de sair, lancei um último olhar para o apartamento. Nos últimos meses, aquele lugar havia se tornado silencioso demais. Mas eu faria qualquer coisa para continuar chamando aquele pequeno apartamento de lar. Tranquei a porta e caminhei até o ponto de ônibus. A cidade já estava desperta. As calçadas estavam movimentadas, pessoas seguiam apressadas para seus trabalhos e o trânsito começava a ficar intenso. Enquanto esperava o ônibus, fiquei imaginando como seria fazer parte daquela rotina novamente. Sentir que eu também tinha um lugar para onde ir todas as manhãs. O ônibus chegou poucos minutos depois. Sentei-me próxima à janela e observei a paisagem mudar conforme nos aproximávamos do centro financeiro da cidade. Durante o trajeto, tentei ensaiar algumas respostas. Por que deseja trabalhar na empresa? Quais são seus objetivos profissionais? Como lida com pressão? Sabia exatamente o que responder. Só precisava convencer alguém de que eu merecia uma chance. Quase cinquenta minutos depois, desci em frente ao imponente edifício do Grupo Almeida Construções & Infraestrutura. Por alguns instantes, fiquei apenas observando o prédio. A fachada de vidro espelhado refletia o céu daquela manhã, enquanto dezenas de funcionários entravam e saíam pelas portas automáticas. Meu celular vibrou. Era uma mensagem de Marina. "Já cheguei. Estou esperando você no saguão." Guardei o aparelho na bolsa, respirei fundo e atravessei a entrada principal. O interior do edifício era ainda mais impressionante do que eu imaginava. O piso de mármore brilhava sob a iluminação sofisticada, enormes vasos decoravam o ambiente e um painel dourado exibia o nome da empresa. Enquanto admirava tudo ao redor, ouvi alguém chamar meu nome. — Natália! Virei-me imediatamente. Marina caminhava em minha direção com um sorriso acolhedor no rosto. Ela me abraçou. — Eu sabia que você viria. Sorri. — Confesso que quase não consegui dormir. — É normal. Também fiquei assim no meu primeiro dia. Ela percebeu meu nervosismo e segurou meus ombros. — Escuta. Não deixe o tamanho desta empresa intimidar você. Eles estão procurando alguém competente, não alguém perfeito. Suas palavras me tranquilizaram um pouco. Seguimos até os elevadores. Enquanto aguardávamos, Marina comentou que o antigo presidente havia se aposentado e que, desde o dia anterior, a empresa estava sob o comando do herdeiro da família Almeida. — O nome dele é Lucas Almeida. Assenti. Era impossível não conhecer aquele sobrenome. Assim que entramos no elevador, Marina apertou o botão do último andar. As portas se abriram poucos segundos depois e, instintivamente, dei um passo para sair. Ela segurou meu braço e sorriu. — Ainda não. Este é o andar da presidência. O escritório do presidente fica aqui. O Recursos Humanos funciona um andar abaixo. Olhei rapidamente para o corredor elegante antes que as portas se fechassem novamente. Tudo ali transmitia luxo, poder e sofisticação. Segundos depois, o elevador parou no andar inferior. — Agora sim — disse Marina. Saímos do elevador e caminhamos por um corredor amplo e moderno. Funcionários passavam apressados carregando pastas e notebooks, enquanto outros conversavam discretamente sobre reuniões e prazos. O ambiente era organizado e silencioso, transmitindo a sensação de que cada pessoa sabia exatamente qual era sua função. Marina parou diante de uma porta de vidro. Ao lado, uma placa dourada identificava o setor: Recursos Humanos. Meu coração voltou a acelerar. Ela sorriu para mim. — Pronta para mudar a sua vida? Respirei fundo, ajeitei o blazer e apertei a pasta contra o peito. Marina abriu a porta e fez sinal para que eu entrasse. Fui recebida por uma recepcionista elegante, que sorriu educadamente ao me ver. — Bom dia. Senhorita Natália Monteiro? Assenti. — Sim, sou eu. — Seja bem-vinda. A gerente de Recursos Humanos já foi informada sobre a sua chegada. Peço apenas que aguarde alguns minutos. Agradeci e me sentei em uma das poltronas da recepção. Minhas mãos estavam geladas, apesar do ambiente climatizado. Observei discretamente as pessoas entrando e saindo das salas, todas muito concentradas em suas tarefas. Aquela movimentação me fazia perceber o quanto aquela empresa era importante e o quanto aquela oportunidade poderia mudar completamente a minha vida. Cruzei as mãos sobre a pasta de documentos e fechei os olhos por um breve instante, fazendo uma oração silenciosa. — Mãe... onde quer que você esteja, torça por mim. Hoje eu preciso que as coisas finalmente deem certo. Talvez esse fosse o primeiro passo para o recomeço que eu tanto esperava.POV NATÁLIAA manhã estava tranquila no andar da presidência. Eu estava sentada à minha mesa revisando alguns documentos e respondendo aos e-mails que haviam chegado logo cedo. Ao meu lado, Pedro e Gabriel conversavam sobre um projeto enquanto esperavam por uma reunião.Eu tentava me concentrar no trabalho, mas os dois não pareciam dispostos a manter o silêncio.— Se você continuar alterando esses números, o orçamento nunca vai fechar — Alex comentou, olhando para a planilha.— O problema não são os números. O problema é que você está cortando justamente onde não deveria — Gabriel respondeu.Pedro soltou uma risada.— Vocês dois estão discutindo por causa disso desde cedo?— Porque ele não entende que algumas mudanças são necessárias — Gabriel rebateu.— E você não entende que precisamos respeitar o orçamento — Alex respondeu.Pedro balançou a cabeça, divertido.Revirei os olhos, mas não consegui evitar um pequeno sorriso.— Vocês dois deveriam discutir isso em outro lugar — falei, se
POV LUCASA noite estava agradável e, pela primeira vez naquela semana, eu não precisava pensar em contratos, reuniões ou problemas da empresa.Estava sentado em uma mesa no canto do bar com Gabriel, Pedro e Alex. Os três discutiam sobre alguma partida de futebol enquanto eu apenas observava, tomando minha bebida.— Eu ainda não entendo como vocês conseguem discutir tanto por causa de futebol — Alex comentou.— Porque você não entende nada de futebol — Pedro respondeu.— E você entende?— Muito mais que você.Gabriel soltou uma risada.— Vocês dois são ridículos.— Ridículo é você torcer para aquele time — Pedro rebateu.— Vamos mudar de assunto — falei, já cansado daquela discussão.Pedro apontou para mim.— Está vendo? É por isso que ele é o único sensato dessa mesa.— Não. Ele só quer que vocês parem de falar — Alex corrigiu.— Também. — Ri baixo.Era exatamente por isso que gostava de estar com eles. Apesar das provocações, eram os poucos momentos em que eu conseguia esquecer um p
NATÁLIASábado à noite.Depois de uma semana intensa de trabalho, eu só queria esquecer um pouco da rotina. Precisava rir, conversar e passar algumas horas longe de planilhas, reuniões e, principalmente, dos pensamentos que vinham me acompanhando nos últimos dias.Pensamentos sobre Lucas. Balancei a cabeça diante do espelho.— Para com isso, Natália — murmurei para mim mesma.Peguei minha bolsa e saí de casa. Quando cheguei ao apartamento de Marina, toquei a campainha. Poucos segundos depois, a porta se abriu.— Finalmente! — Marina falou, abrindo um sorriso. — Achei que você tinha desistido de vir.— Claro que não. Eu só demorei um pouco para me arrumar — respondi, entrando.— Um pouco? — Luísa apareceu atrás dela. — Você demorou quase uma hora.— Vocês estavam contando?— É claro — Camila respondeu, sentada no sofá com uma taça de vinho nas mãos. — Não temos nada melhor para fazer.Ri e deixei minha bolsa sobre uma cadeira.— Vocês são impossíveis.Marina fechou a porta e me entrego
Acordei lentamente, o corpo ainda preso numa espécie de névoa quente e confusa. Por alguns segundos, o cérebro teimou em acreditar que eu estava no meu próprio quarto, na cama larga e fria que compartilhava com Helena. Mas o cheiro era diferente. O colchão, não. Era o sofá. O tecido macio contra a minha pele, o apoio um pouco baixo demais para as costas, a posição torta em que eu tinha desmaiado horas antes.O apartamento estava silencioso. Silencioso demais.Abri os olhos de verdade. A luz da manhã filtrava pelas cortinas finas, pintando o chão de um dourado pálido. Levantei o tronco, sentindo cada músculo reclamar. Passei a mão pelo rosto, pelo cabelo bagunçado, e olhei ao redor como se o ambiente pudesse me dar alguma resposta.— Natália?A voz saiu mais baixa do que eu pretendia. Rouca. Estranha até para mim.Nenhuma resposta.O silêncio me incomodou de imediato. Ontem ela parecia forte, firme, resolvida a não se deixar abalar. Mas eu tinha visto o tremor nas mãos dela quando falo
NatáliaA segunda-feira parecia não ter fim. Desde que cheguei ao Grupo Almeida naquela manhã, minha mesa não ficou vazia nem por cinco minutos. Eram contratos para conferir, reuniões para remarcar, ligações de clientes importantes e uma sequência interminável de e-mails que pareciam se multiplicar sempre que eu respondia um.Quando olhei para o relógio do computador, já passava das dezoito horas.Finalmente.Alonguei discretamente os ombros e comecei a organizar minha mesa. Gostava de deixar tudo impecável antes de ir embora. Era uma mania antiga, daquelas que minha mãe dizia que eu herdara dela.O último andar já estava praticamente vazio. Marina apareceu ao lado da minha mesa segurando a bolsa.— Até amanhã, Nat.Sorri.— Até amanhã. Vai descansar.— Você também. Não fica trabalhando até tarde.Ela lançou um olhar divertido para a porta da presidência antes de entrar no elevador.— E tenta convencer o chefe a fazer o mesmo.Balancei a cabeça, rindo.— Boa noite.Assim que ela foi e
LUCASO ronco do motor ecoou pelo autódromo no instante em que pisei mais fundo no acelerador. O carro respondeu imediatamente. A curva surgiu à minha frente e reduzi apenas o suficiente para manter o controle. Alguns metros atrás, Gabriel tentava diminuir a distância, enquanto Pedro e Alex disputavam posição logo depois.Sorri de lado. Fazia semanas que não dirigia daquele jeito. Ali, dentro do carro, eu não era presidente do Grupo Almeida. Não existiam contratos, reuniões, investidores ou funcionários esperando respostas. Muito menos um casamento fracassado me esperando em casa. Ali, existia apenas velocidade. Cruzei a linha de chegada alguns segundos antes dos outros.Diminuí a velocidade e conduzi o carro até os boxes. Assim que desliguei o motor, Gabriel estacionou ao meu lado.— Você continua insuportável.Abri a porta e saí do carro. — Perdeu de novo. — Porque você roubou.Ri.— Essa desculpa já tem uns dez anos.Pedro estacionou logo atrás.— Eu falei que ele ia levar isso c







