FAZER LOGINNATÁLIA
A gerente de Recursos Humanos fechou a pasta que continha meu currículo e me lançou um sorriso acolhedor. — Bom, Natália, sua entrevista comigo terminou. Gostei bastante do seu perfil e acredito que você possa se encaixar na vaga. Senti um pequeno alívio. — Fico feliz em ouvir isso. — Mas preciso explicar uma coisa. Como a vaga é para secretária executiva da presidência, a decisão final não será minha. Meu coração acelerou. — Não? Ela balançou a cabeça. — O presidente gosta de avaliar pessoalmente quem trabalhará diretamente com ele. Então, você ainda terá uma entrevista com o senhor Lucas Almeida. Engoli em seco. Eu sabia quem Lucas Almeida era. Afinal, seu nome estava espalhado por praticamente todos os jornais de negócios e revistas sobre grandes empresários. O filho do fundador do Grupo Almeida havia acabado de assumir a presidência da empresa. — Entendi. — Não precisa ficar nervosa — ela disse, percebendo minha expressão. — Apenas seja sincera. Conte sobre suas habilidades e mostre disposição para aprender. Assenti. — Vou fazer o meu melhor. Ela se levantou e estendeu a mão. — Boa sorte, Natália. Apertei sua mão e agradeci antes de sair. Assim que atravessei a porta, respirei profundamente. Até aquele momento, eu estava nervosa. Agora estava apavorada. Uma coisa era conversar com a gerente do RH. Outra completamente diferente seria sentar diante do presidente da empresa e tentar convencê-lo de que eu era a pessoa certa para trabalhar ao lado dele. Caminhei até os elevadores e apertei o botão. Enquanto aguardava, olhei meu reflexo nas portas espelhadas. Minha roupa estava arrumada. O cabelo permanecia no lugar. Minha maquiagem era discreta. Não havia nada que eu pudesse fazer além de confiar em mim mesma. As portas se abriram. Entrei. Apertei o botão do andar da presidência. O elevador começou a subir. Durante o trajeto, tentei imaginar as perguntas que Lucas poderia fazer. Por que quero trabalhar ali? Quais são minhas qualidades? Como lido com pressão? Por que deveria ser escolhida? Eu sabia as respostas. Só precisava conseguir dizê-las sem deixar o nervosismo tomar conta. Quando as portas finalmente se abriram, dei um passo para fora. Parei por alguns segundos. O andar da presidência era impressionante. Diferente dos outros setores, aquele ambiente transmitia uma sensação de poder. O corredor era amplo, elegante e silencioso. Havia enormes janelas de vidro, móveis sofisticados e apenas quatro portas. Olhei para as placas. Presidência — Lucas Almeida. Arquitetura e Sócio — Gabriel Ferreira. Diretoria Financeira — Alex Moreira. Engenharia — Pedro Vasconcelos. Eu ainda observava as placas quando uma das portas se abriram e dois homens saíram conversando. Um deles era alto, tinha cabelos escuros e uma expressão divertida. O outro era um pouco mais sério, mas carregava um sorriso no rosto. Assim que perceberam minha presença, interromperam a conversa. — Você deve ser a candidata para a vaga de secretária do Lucas — disse o primeiro. — Sim — respondi. Ele olhou para o amigo e sorriu. — Então acho que deveríamos desejar boa sorte. Franzi a testa. — Ah, obrigada! O outro homem soltou uma risada. — Vai precisar. — Muito — completou o primeiro. Fiquei ainda mais confusa. — Por quê? Ele cruzou os braços. — Se você for trabalhar para o Lucas, vai precisar de muita calma. — E paciência — acrescentou o outro. — Muita paciência. — Principalmente quando ele estiver de mau humor. Os dois começaram a rir. — Esperem! — falei — Ele é tão difícil assim? — Não. O primeiro fez uma pausa dramática. — É pior. Eles riram novamente. — Não deem ouvidos a eles! A voz familiar fez meu coração disparar. Virei-me. Marina vinha pelo corredor segurando alguns documentos. Ela veio rapidamente até mim e me abraçou. Retribuí o abraço com força. — Eu estava morrendo de medo de chegar aqui sozinha. — Eu sabia que você conseguiria. Marina se afastou e segurou minhas mãos. — Estou nervosa. — É normal. Ela olhou para os dois homens. — E vocês estão fazendo o quê? — Preparando sua amiga para a realidade — respondeu um deles. Marina revirou os olhos. — Não escute esses dois. Depois voltou sua atenção para mim. — Aliás, já pensou? Se você conseguir essa vaga, nós duas vamos trabalhar juntas! Sorri. — Seria maravilhoso. — Vai ser incrível! — ela disse, animada. — Nós duas trabalhando para os poderosos deste andar. Ri. — Você fala como se eles fossem reis. — E não são? Os dois homens riram. Marina apontou para eles. — Esses são Alex, diretor financeiro, e Pedro, engenheiro-chefe. Alex estendeu a mão. — Prazer, Natália. — Prazer. Pedro também se apresentou. — Boa sorte na entrevista. — Obrigada. Marina então apontou para uma das portas. — Aquele é o escritório do Gabriel. Ele é arquiteto e sócio da empresa. Antes que pudesse responder, a porta da sala de Lucas se abriu. Um homem saiu segurando uma pasta. Era Gabriel. Ele conversava com alguém pelo telefone, mas desligou assim que nos viu. Marina sorriu. — Gabriel, essa é a Natália. Ele se aproximou. — Então você é a candidata que o RH selecionou. — Sou eu. — Prazer. Gabriel Ferreira. Apertei sua mão. — Prazer. Ele olhou para a porta atrás de si. — O Lucas já terminou a reunião. Está esperando por você. Meu estômago se revirou. — Agora? Gabriel sorriu. — Agora. Marina apertou meu braço. — Você consegue. Respirei fundo. — Obrigada. Gabriel abriu a porta e fez um gesto para que eu entrasse. — Pode entrar, Natália. Agradeci e atravessei a porta. Meu coração parecia bater dentro dos meus ouvidos. A sala era enorme. Uma parede inteira de vidro mostrava a cidade. No centro havia uma mesa grande de madeira escura. Atrás dela, sentado em uma cadeira de couro, estava Lucas Almeida. Ele analisava alguns documentos. Por alguns segundos, não levantou os olhos. Fiquei parada diante da mesa. Então ele fechou a pasta. Levantou o olhar. Nossos olhos se encontraram. Senti um arrepio percorrer meu corpo. Ele era ainda mais impressionante pessoalmente. Sua expressão era fechada e seus olhos carregavam um cansaço que não combinava com alguém que acabara de assumir a presidência. — Natália Monteiro? — Sim. Ele apontou para a cadeira. — Sente-se. Obedeci. Lucas pegou meu currículo. — Formada em Administração. — Sim. — E está se candidatando à vaga de minha secretária executiva. — Exatamente. Ele me observou por alguns segundos. — Você sabe que essa não é uma função simples? — Sei. — Minha agenda é extremamente complicada. Reuniões, viagens, compromissos, documentos confidenciais... — Estou preparada para aprender. Ele arqueou uma sobrancelha. — Você não tem experiência nessa função. — Não tenho experiência como secretária executiva — corrigi. — Mas tenho conhecimento em Administração e sou uma pessoa organizada. Além disso, aprendo rápido. Lucas permaneceu em silêncio. — Por que quer trabalhar aqui? Pensei por alguns segundos. — Porque quero uma oportunidade para crescer. Quero construir minha carreira e provar que sou capaz. Ele continuou me encarando. — E se eu disser que não tenho tempo para ensinar alguém? Meu coração apertou. Mesmo assim, mantive a postura. — Então eu vou aprender sozinha. Pela primeira vez, percebi uma pequena mudança em sua expressão. Quase um sorriso. — Confiante. — Apenas determinada. Ele apoiou os braços sobre a mesa. — E como você lida com pressão? — Procuro não agir por impulso. Primeiro entendo o problema e depois encontro uma solução. Lucas me encarou por alguns segundos. — Interessante. Pegou novamente meu currículo. — Você parece diferente das outras candidatas. Meu coração acelerou. — Isso é bom? Ele finalmente esboçou um pequeno sorriso. — Ainda estou tentando descobrir. Não consegui evitar um sorriso também. A entrevista continuou por mais alguns minutos. Ele fez perguntas sobre minha formação, minhas habilidades, minha organização e minha disponibilidade. Respondi a todas com sinceridade. Quando finalmente terminou, Lucas fechou a pasta. — Muito bem, Natália. Levantei-me. — Obrigada pela oportunidade. — O RH entrará em contato. Assenti. Só depois que fechei a porta atrás de mim, soltei o ar que nem percebi que estava prendendo. Marina estava me esperando no corredor. Assim que me viu, correu até mim. — E aí? Olhei para ela e sorri. — Acho que não fui tão mal. Marina me abraçou. — Eu sabia! Enquanto caminhávamos juntas pelo corredor, senti algo que não sentia havia muito tempo. Esperança. Talvez aquela entrevista fosse o começo de uma nova fase da minha vida.POV NATÁLIAA manhã estava tranquila no andar da presidência. Eu estava sentada à minha mesa revisando alguns documentos e respondendo aos e-mails que haviam chegado logo cedo. Ao meu lado, Pedro e Gabriel conversavam sobre um projeto enquanto esperavam por uma reunião.Eu tentava me concentrar no trabalho, mas os dois não pareciam dispostos a manter o silêncio.— Se você continuar alterando esses números, o orçamento nunca vai fechar — Alex comentou, olhando para a planilha.— O problema não são os números. O problema é que você está cortando justamente onde não deveria — Gabriel respondeu.Pedro soltou uma risada.— Vocês dois estão discutindo por causa disso desde cedo?— Porque ele não entende que algumas mudanças são necessárias — Gabriel rebateu.— E você não entende que precisamos respeitar o orçamento — Alex respondeu.Pedro balançou a cabeça, divertido.Revirei os olhos, mas não consegui evitar um pequeno sorriso.— Vocês dois deveriam discutir isso em outro lugar — falei, se
POV LUCASA noite estava agradável e, pela primeira vez naquela semana, eu não precisava pensar em contratos, reuniões ou problemas da empresa.Estava sentado em uma mesa no canto do bar com Gabriel, Pedro e Alex. Os três discutiam sobre alguma partida de futebol enquanto eu apenas observava, tomando minha bebida.— Eu ainda não entendo como vocês conseguem discutir tanto por causa de futebol — Alex comentou.— Porque você não entende nada de futebol — Pedro respondeu.— E você entende?— Muito mais que você.Gabriel soltou uma risada.— Vocês dois são ridículos.— Ridículo é você torcer para aquele time — Pedro rebateu.— Vamos mudar de assunto — falei, já cansado daquela discussão.Pedro apontou para mim.— Está vendo? É por isso que ele é o único sensato dessa mesa.— Não. Ele só quer que vocês parem de falar — Alex corrigiu.— Também. — Ri baixo.Era exatamente por isso que gostava de estar com eles. Apesar das provocações, eram os poucos momentos em que eu conseguia esquecer um p
NATÁLIASábado à noite.Depois de uma semana intensa de trabalho, eu só queria esquecer um pouco da rotina. Precisava rir, conversar e passar algumas horas longe de planilhas, reuniões e, principalmente, dos pensamentos que vinham me acompanhando nos últimos dias.Pensamentos sobre Lucas. Balancei a cabeça diante do espelho.— Para com isso, Natália — murmurei para mim mesma.Peguei minha bolsa e saí de casa. Quando cheguei ao apartamento de Marina, toquei a campainha. Poucos segundos depois, a porta se abriu.— Finalmente! — Marina falou, abrindo um sorriso. — Achei que você tinha desistido de vir.— Claro que não. Eu só demorei um pouco para me arrumar — respondi, entrando.— Um pouco? — Luísa apareceu atrás dela. — Você demorou quase uma hora.— Vocês estavam contando?— É claro — Camila respondeu, sentada no sofá com uma taça de vinho nas mãos. — Não temos nada melhor para fazer.Ri e deixei minha bolsa sobre uma cadeira.— Vocês são impossíveis.Marina fechou a porta e me entrego
Acordei lentamente, o corpo ainda preso numa espécie de névoa quente e confusa. Por alguns segundos, o cérebro teimou em acreditar que eu estava no meu próprio quarto, na cama larga e fria que compartilhava com Helena. Mas o cheiro era diferente. O colchão, não. Era o sofá. O tecido macio contra a minha pele, o apoio um pouco baixo demais para as costas, a posição torta em que eu tinha desmaiado horas antes.O apartamento estava silencioso. Silencioso demais.Abri os olhos de verdade. A luz da manhã filtrava pelas cortinas finas, pintando o chão de um dourado pálido. Levantei o tronco, sentindo cada músculo reclamar. Passei a mão pelo rosto, pelo cabelo bagunçado, e olhei ao redor como se o ambiente pudesse me dar alguma resposta.— Natália?A voz saiu mais baixa do que eu pretendia. Rouca. Estranha até para mim.Nenhuma resposta.O silêncio me incomodou de imediato. Ontem ela parecia forte, firme, resolvida a não se deixar abalar. Mas eu tinha visto o tremor nas mãos dela quando falo
NatáliaA segunda-feira parecia não ter fim. Desde que cheguei ao Grupo Almeida naquela manhã, minha mesa não ficou vazia nem por cinco minutos. Eram contratos para conferir, reuniões para remarcar, ligações de clientes importantes e uma sequência interminável de e-mails que pareciam se multiplicar sempre que eu respondia um.Quando olhei para o relógio do computador, já passava das dezoito horas.Finalmente.Alonguei discretamente os ombros e comecei a organizar minha mesa. Gostava de deixar tudo impecável antes de ir embora. Era uma mania antiga, daquelas que minha mãe dizia que eu herdara dela.O último andar já estava praticamente vazio. Marina apareceu ao lado da minha mesa segurando a bolsa.— Até amanhã, Nat.Sorri.— Até amanhã. Vai descansar.— Você também. Não fica trabalhando até tarde.Ela lançou um olhar divertido para a porta da presidência antes de entrar no elevador.— E tenta convencer o chefe a fazer o mesmo.Balancei a cabeça, rindo.— Boa noite.Assim que ela foi e
LUCASO ronco do motor ecoou pelo autódromo no instante em que pisei mais fundo no acelerador. O carro respondeu imediatamente. A curva surgiu à minha frente e reduzi apenas o suficiente para manter o controle. Alguns metros atrás, Gabriel tentava diminuir a distância, enquanto Pedro e Alex disputavam posição logo depois.Sorri de lado. Fazia semanas que não dirigia daquele jeito. Ali, dentro do carro, eu não era presidente do Grupo Almeida. Não existiam contratos, reuniões, investidores ou funcionários esperando respostas. Muito menos um casamento fracassado me esperando em casa. Ali, existia apenas velocidade. Cruzei a linha de chegada alguns segundos antes dos outros.Diminuí a velocidade e conduzi o carro até os boxes. Assim que desliguei o motor, Gabriel estacionou ao meu lado.— Você continua insuportável.Abri a porta e saí do carro. — Perdeu de novo. — Porque você roubou.Ri.— Essa desculpa já tem uns dez anos.Pedro estacionou logo atrás.— Eu falei que ele ia levar isso c







