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Capítulo 9: O envelope

Author: Maria Anita
last update publish date: 2026-03-06 13:34:41

"Érick"

O sol mal tinha nascido quando eu parei diante da cama, já vestido, e observei a mulher que havia me levado ao mais delicioso dos infernos deitada de bruços completamente adormecida. A peruca vermelha e azul era como um emaranhado de fios cobrindo o seu rosto, meus olhos desceram pela pele clara e perfeita das suas costas nuas e eu quase arranquei o lençol da sua cintura só para ter mais um vislumbre do seu corpo perfeito. Mas eu não tinha tempo.

Eu tirei da carteira uma quantia que seria obscena para uma noite comum, mas aquela não tinha sido uma noite comum. Era claro que eu não estava pagando por um serviço, eu estava deixando um tributo, que falava mais alto que qualquer elogio verbal. Eu queria que, ao abrir os olhos, ela entendesse que o seu "veneno" era a mercadoria mais valiosa que eu já tinha encontrado e ela era a única que tinha me feito perder o fôlego e o controle.

Eu saí dali convencido de que havia carimbado um passaporte de luxo e que, na semana seguinte, ela seria minha de novo, porque eu não tinha ideia do que aquela capetinha tinha, mas eu queria mais do seu "veneno".

Quando eu entrei na minha sala na empresa, meu amigo e sócio entrou atrás de mim e ele só queria uma coisa, notícia fresca.

- Conte-me tudo, não me esconda nada! - O Julian fechou a porta atrás dele e caminhou despreocupadamente até a cadeira em frente a minha mesa.

- Pensei que você estaria em casa ainda. - Eu comentei e me sentei.

- Cara, a ressaca que aquela capetinha me deu é épica! - O Julian levou as mãos ao rosto como se nem suportasse se lembrar. - Mas pra você ela deu mais do que uma ressaca e foi isso que me fez tomar dois analgésicos e sair de casa tão cedo. Me conta, como foi?

- Épico! - Eu respondi com um sorriso. - E isso é tudo o que você vai saber, eu sou um cavalheiro, mesmo ela sendo uma capetinha.

- Me explica, Érick, eu nunca te vi se interessar por uma das garotas do Barão, porque a novata te chamou a atenção?

- Se eu pudesse explicar... - Eu dei um longo suspiro. - Simplesmente não sei. Talvez tenha sido o perfume ou ela se fazendo de difícil a noite inteira. Cara, eu só sei que aquilo não é uma mulher, ela é fogo puro e na próxima quinta nós vamos àquela boate de novo.

- Rá! Vamos? - O Julian nem tentou conter a diversão.

- Vamos. Você vai comigo. Agora me dê dois dos seus analgésicos.

Os dias passaram como um borrão e a quinta feira chegou cheia de expectativas. Eu já estava indócil na empresa e quando a noite finalmente chegou eu praticamente arranquei o Julian de detrás da mesa dele. Assim que entramos na boate eu procurei pela sombra da peruca vermelha e não a encontrei. Ao entrarmos no camarote eu parei diante do vidro procurando por ela, mas não a vi. Onde ela tinha se metido?

- Boa noite, senhores! - A voz mais manhosa me irritou e eu me virei para reconhecer a garçonete da peruca cacheada verde e vermelha. O Julian adorava ser atendido por ela.

- Pandorinha, você é um colírio para os meus olhos. - O Julian se aproximou da garçonete e colocou uma nota na saia dela, lhe dando um beijo na rosto muito amigável.

Eu bufei e fui me sentar no mesmo lugar da semana anterior, enquanto a Pandora servia uma dose de whisky para cada um de nós.

- Onde está a Scarlat, Pandora? - Eu perguntei com a voz um tantinho irritada.

- Ah, sinto muito, senhor, mas a Scarlat não está na casa hoje e o Barão me mandou para atendê-los. - Ela se aproximou e me entregou o copo. - No entanto, ela pediu que eu lhe entregasse isso, caso o visse. - Ela puxou um envelope pardo da saia e me entregou. - Então, como vocês querem se divertir hoje?

- Ah, Pandorinha, senta aqui e bebe comigo até nossos amigos chegarem, acho que esse aí está mal humorado hoje. - O Julian chamou a moça, que foi se sentar ao lado dele obedientemente.

Eu abri o envelope e não precisei contar para saber que aquele maço de notas tinha exatamente a quantia que eu deixei sobre o criado mudo do hotel na manhã de sexta da semana anterior, além das notas que eu coloquei no decote dela naquele dia.

Meu sangue não ferveu, ele entrou em combustão! Ver aquelas notas voltando para mim dentro de um envelope foi como levar um tapa em público. E foi ainda pior quando eu puxei de dentro o bilhete impresso com a mensagem: "Você não pode comprar o meu tempo, cavalheiro!". As palavras ficaram ecoando em minha mente como um deboche inaceitável.

Não precisou de mais para que eu soubesse o que aquilo significava e sem perceber eu apertei o copo com tanta força que ele se espatifou em minha mão, chamando a atenção do Julian e da Pandora. Eu tirei o lenço do bolso e envolvi a minha mão para estancar o sangue do corte feito pelos cacos.

- Por que ela não está aqui hoje, Pandora? - Eu perguntei com a voz fria, tentando retomar o meu controle.

- Dia de folga. - Ela disse simplesmente e se levantou. - Eu vou providenciar outro copo e a limpeza.

Quando ela passou por mim, eu segurei o seu braço.

- Onde ela está? - Eu ia encontrar aquela capetinha e ela se arrependeria por ter me desafiado.

- Em casa, eu acho, ou talvez não. Não sei. - A Pandora respondeu com o cinismo de quem sabia muito mais do que estava dizendo.

- Eu quero o endereço. - Eu exigi.

- Sinto muito, senhor, não podemos divulgar informações pessoais, regras da casa. - Ela colocou a cabeça meio de lado e deu uma olhada para a minha mão que prendia o braço dela, como um ultimato para soltá-la.

- Acho que você finalmente esbarrou em algo que não está ao seu alcance, Érick. - O Julian bebeu do próprio copo com um sorriso irônico. - Vai ser divertido assistir a isso.

- Vamos ver!

Quando a Pandora voltou para o camarote os nossos amigos já tinham chegado, eu peguei a caneta no meu bolso e um guardanapo da bandeja dela, risquei um recado quase rasgando o papel, coloquei dentro do envelope e o entreguei para a Pandora outra vez.

- Entregue isso a sua amiga. - Eu avisei e vi o revirar de olhos da Pandora de quem não gostou de ser puxada para o meio daquele temporal. - Divirtam-se, eu vou pra casa.

Eu saí daquele camarote enraivecido! Como aquela mulher ousava me afrontar assim? Ah, mas ela iria aprender que comigo ela não podia brincar. O Julian que ficasse com o whisky e a diversão, eu tinha uma caçada para organizar. Eu voltaria naquela boate toda semana até que ela ficasse frente a frente comigo, então eu a ensinaria quem ditava as regras. A Scarlat estava prestes a descobrir que, no meu inferno, eu não aceitava devoluções.

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