MasukLucanSua primeiro. A frase mudou o ar. Elara me puxou para a cama como se o sonho inteiro fosse curto demais para tanta ausência. O reencontro não foi delicado. Foi maduro, feroz, cheio de pausas em que a raiva voltava e era beijada sem ser negada. Senti o corpo dela contra o meu, o calor impossível de uma mulher presa em pedra e viva no vínculo, as pernas envolvendo minha cintura, a boca exigindo e recusando ternura na mesma respiração. Cada toque tinha pergunta. Cada resposta vinha em dedos, suspiros, unhas, nomes ditos como juramento e acusação.Eu a beijei com a fome que negara ao meu corpo por onze anos e a contenção de quem sabia que ela não era lembrança para ser consumida. Suas mãos abriram minha camisa no sonho, dedos percorrendo marcas, cicatrizes, pele. Segurei seu rosto, beijei a testa, a pálpebra, a cicatriz na clavícula, cada lugar onde a mina deixara sinal. Elara tremia quando minha boca descia para seu ombro, não de fraqueza, mas de memória sendo reescrita pelo toque
LucanO sonho inteiro mudou. A lareira apagou. O quarto escureceu. A cama desapareceu. Ficamos apenas nós dois em um campo de neve sob lua azul, as correntes dela fincadas no chão. Elara disse que me chamava até a garganta sangrar. No início, achava que eu viria no mesmo dia. Depois, na mesma lua. Depois, no inverno seguinte. Depois parou de contar. Avancei um passo. Ela ergueu a mão. Não. Parei. Ela tremeu e disse que sentiu quando deixei de senti-la. Meu rosto fechou. Eu nunca deixei. Mentira. Não. Ela sentiu. A voz falhou pela primeira vez.Eu preferia mil facas.Elara disse que o vínculo ficou longe, frio, como se eu tivesse coberto sua voz com terra para que parasse de gritar dentro de mim. E então vieram outras. O silêncio caiu pesado. Não desviei. Sim. Ela fechou os olhos como se a confirmação ainda tivesse poder de ferir, mesmo depois de já saber. Sentira o cheiro delas nos restos do vínculo. Não como cena. Não como imagem. Pior. Como eco. Pele que não era dela no homem que er
LucanElara estava ajoelhada entre correntes, mas o sorriso em sua boca não pertencia a ela. Soube antes de respirar. A mulher diante de mim tinha o rosto da minha fêmea, o cheiro da minha fêmea, a curva feroz da boca que assombrara onze anos de noites vazias. Mas os olhos estavam negros. Negros demais. Sem inverno, sem raiva verdadeira, sem aquela luz azul cortante que sempre fez Elara parecer capaz de discutir com deuses e vencer por teimosia. A porta azul se fechou atrás de mim. O corredor desapareceu. O mundo virou sonho. Não uma lembrança. Não a mina. Sonho. O tipo de território onde o vínculo não andava; sangrava.Senti o chão mudar sob meus pés. A pedra azul derreteu em neve. O teto da mina abriu-se em céu noturno, e a cela se transformou no antigo quarto de Estrela Fria: paredes de madeira escura, lareira acesa, cortinas brancas se movendo ao vento de uma janela que não deveria estar aberta. O cheiro de Elara ficou mais forte. A cópia inclinou a cabeça e disse que eu chegara t
LucanA voz de Elara cantou meu nome como se puxasse correntes. Não era uma canção inteira, apenas Lucan alongado em melodia ferida, uma sílaba presa entre dor e promessa. Avancei um passo. Vaela segurou meu braço. Não sozinho. Tentei puxar. Ezra ficou do outro lado, bloqueando sem tocar demais. Ela estava chamando. Vaela apertou os dedos. Ou a mina estava usando a voz dela. Olhei para Selene, porque ela havia ouvido Liora, porque caminhava com a mãe dentro da própria ferida. Disse que ela sabia a diferença. Selene ficou em silêncio por um segundo. Depois respondeu que nem sempre.Aquilo foi pior que negação.A parede à frente abriu uma fenda estreita, revelando um corredor lateral banhado por luz azul escura. O cheiro de Elara veio mais forte por ali. Tão forte que senti na língua. Lembranças de pele, cama, sonho, unhas em minhas costas. A mente se encheu da imagem dela na visão: presa à coluna, ainda selvagem, ainda minha e nunca posse de ninguém. A voz cantou novamente. Lucan… aqui
SeleneA mina começou a cantar mais baixo, e o corpo de Darius veio atrás de mim como muralha quente contra o frio azul. Ele não me puxou contra si. Não me envolveu demais. Apenas me sustentou, deixando que meus pés permanecessem nos degraus, deixando que a escolha continuasse minha. Mesmo assim, o contato explodiu. Senti a mão dele em minha cintura como se estivesse direto sobre a pele, embora houvesse tecido entre nós. Grande. Quente. Firme. O polegar não se moveu, mas a pressão bastou para que meu corpo lembrasse de tudo que não deveria: a boca dele em minha mão, a respiração quando me viu escolher prazer diante dele, a forma como meu nome ficava preso na garganta daquele homem.A mina percebeu. Claro que percebeu. As paredes brilharam, e o canto mudou de tom, mais íntimo, quase provocador. Darius prendeu o ar. Disse que ela estava usando o vínculo. A mina ou ele? A mina. Resposta segura. A boca dele ficou perto demais da minha nuca quando falou que, se fosse ele usando o vínculo,
SeleneA escada descia como uma garganta que aprendera a engolir mulheres em silêncio. Fui a primeira a pisar no azul, e o degrau sob minha bota sangrou luz. Não rachou, não cedeu, não gemeu. Apenas reconheceu meu peso com uma pulsação fria que subiu pela sola, atravessou minha perna e mordeu a palma recém-cortada. A bandagem feita por Darius já estava úmida. Cada gota que escapava parecia encontrar caminho próprio pelos meus dedos, como se a mina chamasse meu sangue pelo nome e eu tivesse passado a vida inteira sendo conduzida até aquela boca escondida sob a fortaleza.Atrás de mim, o grupo se movia em ordem tensa. Darius logo depois. Não à frente. Não tão perto que seu calor virasse interferência. Perto o bastante para que eu sentisse o lobo dele roçando a borda do vínculo, furioso, atento, acorrentado por uma palavra que eu não pronunciara, mas que ele respeitava mesmo assim. Espere. A palavra parecia ter se instalado nos ossos dele. Odiei isso. E senti meu corpo responder. Maldit







