LOGINSeleneAgora Darius perguntava para não roubar, e isso era muito mais perigoso do que sedução. Disse não. Ele fechou os olhos, e o lobo dele gemeu pelo vínculo. Senti o som no próprio ventre como calor humilhante. Certo, respondeu, sem ressentimento. Isso me irritou ainda mais. Disse que odiava quando obedecia bem. Os olhos dele abriram. Algo escuro passou neles. Eu também, respondeu. A resposta foi quase um toque. Desviei o rosto antes que a vontade de sorrir se tornasse crime. A água morta ondulou, e o rosto de Liora reapareceu mais nítido. Minha mãe chamou. Voltei-me para a fonte, agradecendo e odiando a interrupção.Liora disse que a verdadeira Luna não era aceitação cega do Alfa. Eu sabia. Ela corrigiu que eu não sabia inteiro e precisava saber antes da mina. A água tremeu, mostrando imagens fragmentadas: Darius ajoelhado na neve; eu de pé no círculo; uma mulher sem rosto com uma coroa de prata; Nara gritando dentro de uma câmara azul; Liora acorrentada no coração da mina. A verd
SeleneA água morta tremeu como se já tivesse escolhido quem substituir, e Darius perguntou, com o lobo rosnando por baixo da voz, quem seria substituído. Morvan olhou para mim. A Dominante central, respondeu. Liora ocupava o coração do selo havia anos. A mina estava faminta por uma Voz mais jovem, mais inteira. Se eu entrasse ligada a um Alfa que se oferecia como culpa, a mina leria sacrifício. E todo sacrifício precisava de altar. A água negra tremeu. Liora fechou os olhos na superfície e sussurrou que ele dizia uma parte da verdade. Senti o sangue gelar e perguntei qual parte faltava. O rosto de minha mãe se distorceu, como se uma corrente a puxasse para longe.A voz veio mais fraca. A mina não queria apenas minha Voz. Queria minha escolha. Darius levantou-se devagar. Ninguém se moveu para impedi-lo. Senti cada centímetro daquele movimento no vínculo: dor nos joelhos, ferimentos nos pulsos, o peso da memória da rejeição ainda pregado aos ossos. Ele ficou de pé atrás de mim, mas não
SeleneA água morta mostrou o rosto de Liora sem devolver reflexo algum aos vivos. A fonte escondida na parede da sala inferior escorria negra como noite sem lua, mas, em sua superfície, os olhos de minha mãe permaneciam abertos. Prateados. Fundos. Feridos por uma sobrevivência que já não parecia vida inteira, mas também não aceitava o nome de morte. Não me aproximei. O corpo queria. A filha queria. A Dominante dentro de mim ficou imóvel. Havia armadilhas demais naquele lugar para que qualquer desejo inocente merecesse confiança. Então apenas encarei a água, sentindo a marca lunar responder com dor, como se meu corpo reconhecesse minha mãe antes que minha mente conseguisse suportar.— Filha — a água sussurrou de novo.A voz de Liora vinha quebrada, atravessando pedra, corrente e febre. Cada sílaba parecia arrancada de uma garganta usada por outros por tempo demais. Atrás de mim, Darius ainda estava de joelhos. Não porque a prova o prendesse. Porque talvez não soubesse como levantar se
ElaraQuebrei contra a palma dele antes que o orgulho pudesse protestar. A mão de Lucan cobriu meu rosto como se tentasse aprender outra vez minha forma, como se onze anos tivessem transformado minha pele em território sagrado e perigoso. O polegar passou sob meu olho, recolhendo uma lágrima que eu não autorizara. Inclinei-me contra ele. Lucan fechou os olhos, e um som baixo saiu de sua garganta, não prazer, mas alívio tão profundo que quase parecia dor. Então minha mão presa subiu até onde a corrente permitia e agarrou a gola dele. Puxei-o. A boca de Lucan encontrou a minha com uma violência que não era tomada; era retorno.Abri para ele com um soluço raivoso, mordendo seu lábio, sentindo gosto de sangue e neve. Ele rosnou contra minha boca e me beijou mais fundo, como se onze anos fossem uma distância que a língua pudesse medir e destruir. O sonho brilhou. As correntes apertaram. Gemi de dor. Lucan tentou se afastar. Mordi o lábio dele de novo e disse não. Ele falou das correntes. E
ElaraMinha pele acordou, humilhada e deliciosamente viva, sob o tecido fino que o sonho me dava como roupa e sob a prisão fria que insistia em me chamar de coisa. A pele sob as correntes arrepiou. Minha boca secou. Lucan percebeu. Claro que percebeu. O lobo dele sempre soube ler meu corpo antes que eu permitisse. Disse que não tocara nenhuma mulher para esquecer. A voz estava rouca. Perguntei se mentia. Não. Se era santo. Pior, respondeu. Fiel e furioso. A resposta entrou em mim como calor. Odiei. Amei. Odiei de novo. Onze anos, Lucan, murmurei. Onze anos, ele repetiu, como se cada sílaba tivesse passado pela garganta dele com sangue.Disse que agora ele vinha me dizer que precisava de outra fêmea para me tirar dali. Lucan respondeu que precisava da Voz de Selene, não do corpo, não do vínculo, não do desejo dela. Mas ela era bonita, provoquei. Ele fechou os olhos por um segundo. Sim. A honestidade foi lâmina. Mostrei os dentes. Então olhou. Ele abriu os olhos e disse que olhara como
ElaraSenti Lucan antes de vê-lo. O sonho mudou de temperatura, e a pedra azul, que durante onze anos fora fria como a boca de uma sepultura, aqueceu em volta das minhas correntes. Não muito. Não o bastante para libertar. Apenas o suficiente para ferir mais fundo, porque calor, quando uma mulher passa tempo demais congelada, não consola. Lembra. Lembra pele, mãos, uma boca roçando atrás da orelha no escuro, um rosnado baixo contra a nuca, o peso de um corpo amado cobrindo o meu como promessa e ameaça. Lembra o cheiro de um macho que era casa antes de virar ausência.Abri os olhos. A câmara onírica respirava ao meu redor. No sonho, as correntes pareciam mais bonitas do que eram no mundo físico, fios de prata azulada descendo das paredes, envolvendo meus pulsos, minha garganta, meus tornozelos como joias cruéis. A mina sempre embelezava a prisão. Homens também. No centro do nevoeiro, Lucan Thorne apareceu. Não como rei. Não como Alfa. Como homem que atravessara onze anos de culpa e aind







