INICIAR SESIÓN
DOIS MESES
Nunca imaginei que o espaço de apenas dois meses pudesse ser implacável o suficiente para arruinar uma vida inteira, mas a realidade faz questão de provar que sim, é totalmente possível. — Ao entrar em casa, arrastando os pés e ainda com a mochila pesada a tiracolo, sinto de imediato que algo está terrivelmente errado, pois o ar parece denso, pesado e completamente estagnado, como se a residência inteira estivesse prendendo a respiração coletivamente diante de uma tragédia iminente. — Mãe? — chamo, fechando a porta com uma cautela exagerada, e então a encontro na sala. — Sentada no sofá com os olhos vermelhos e profundamente inchados, ela segura um papel amassado entre as mãos trêmulas, parecendo completamente perdida em meio à própria dor. Ao lado dela, meu pai está curvado sobre si mesmo, carregando um ar de derrota e abatimento de uma forma tão profunda que eu nunca havia testemunhado antes em toda a minha vida. — Meu irmão caçula se encosta rigidamente na parede da cozinha, excessivamente quieto e mudo para sua idade, enquanto minha irmãzinha parece pequena demais para compreender a extensão do problema, mas grande o suficiente para absorver a eletricidade pesada do desespero no ambiente. Meu coração dá um salto violento no peito e dispara sem controle. — O que aconteceu aqui? — pergunto, a voz falhando. Minha mãe demora uma eternidade angustiante para conseguir responder, limitando-se a estender o pedaço de papel em minha direção com um gesto mecânico. — Com os dedos frios e igualmente trêmulos, pego o documento oficial e começo a ler as linhas impressas. À medida que as palavras se tornam claras e compreensíveis demais para serem ignoradas ou negadas, sinto o sangue escoar completamente do meu rosto, congelando minhas veias: a nossa casa vai a leilão judicial. — Descubro, em um choque paralisante, que estamos inadimplentes com as parcelas há quase um ano inteiro, e agora restam apenas dois meses exatos para quitar a dívida integral acumulada, caso contrário perderemos o único teto que temos para morar. Meu estômago se aperta em um nó doloroso, a náusea sobe pela garganta, e eu levanto os olhos lentamente, encarando a expressão devastada dos meus pais. — E agora, papai… como nós vamos resolver uma situação dessas? — questiono, implorando internamente por uma resposta milagrosa. — Ele esconde o rosto cansado entre as palmas das mãos, visivelmente envergonhado por não conseguir prover o sustento básico, e essa demonstração de fragilidade masculina me impacta de forma muito mais dolorosa do que qualquer xingamento ou palavra agressiva poderia fazer. — Eu não sei, minha filha, você sabe perfeitamente que continuo desempregado há algum tempo… desde aquele maldito acidente na obra — ele confessa, a voz embargada pela humilhação. — Continuo tendo muita dificuldade para caminhar longas distâncias, sinto dores constantes, e parece que nenhuma empreiteira da cidade quer me contratar nas condições físicas em que me encontro agora. Trabalhei a vida inteira na construção civil, subi na carreira até me tornar mestre de obras respeitado, mas agora simplesmente ninguém confia na minha capacidade para liderar uma equipe. — Faz seis meses inteiros que estou preso dentro de casa, cruzando os braços e vendo você e sua mãe carregarem todo o peso financeiro e emocional nas costas… e essa sensação de inutilidade está me matando por dentro aos pouquinhos. Percebo o exato momento em que a voz dele se quebra totalmente no final do desabafo, revelando um homem completamente quebrado pelas circunstâncias. — Minha mãe, incapaz de conter a dor ao ver o marido naquele estado, coloca as mãos trêmulas sobre a boca, abafando um soluço agudo e chorando copiosamente. — Estou completamente desesperada, minha filha… se nós perdermos esta casa por falta de pagamento, para onde iremos morar? Você sabe muito bem como são os nossos parentes e a nossa família… ninguém vai nos acolher de braços abertos, ou ter o trabalho e dor de cabeça de carregar um fardo financeiro alheio, e agora nós nos tornamos exatamente esse tipo de problema indesejado — lamenta ela, enquanto o futuro se projeta diante de nós de maneira incerta, sombria e terrivelmente assustadora. A simples ideia de não ter um único lugar no mundo para chamar de lar me preenche o peito com uma angústia profunda, densa e sufocante, como se uma sombra gigantesca e fria passasse a pairar permanentemente sobre as nossas cabeças. — E os dias que passam velozmente no calendário trazendo consigo uma nova e implacável incerteza, transformando a nossa rotina diária em um ciclo interminável de ansiedade paralisante, exatamente como um barco frágil navegando sem rumo em pleno oceano durante uma tempestade violenta. Olho ao redor, absorvendo com dor cada detalhe daquela casa simples, mas repleta de significado. — As pequenas marcas deixadas pelo tempo nas paredes, as lembranças felizes impregnam os cantos de nossa casa, desde os risos estridentes da infância até os momentos simples de aconchego familiar nos dias frios, me faz perceber, pela primeira vez com total clareza, que aquele refúgio aconchegante já está escapando velozmente entre os meus dedos sem que eu possa impedir. Meu irmão continua evitando cruzar o meu olhar, tentando mascarar o desespero e fingir ser forte para não piorar as coisas, mas o medo genuíno está estampado de forma evidente em seu semblante jovem, refletido nas rugas de preocupação prematura que marcam a sua testa. — Minha irmãzinha, por sua vez, permanece calada e quieta demais para os padrões dela, como se já tivesse absorvido intuitivamente que algo catastrófico está prestes a acontecer e que teremos de abandonar o nosso lar em breve. Em um segundo exato de pura lucidez, compreendo com todas as forças que dois meses não representam apenas um prazo burocrático no calendário; são, na verdade, os segundos finais de uma contagem regressiva cruel, cujo tique-taque implacável ecoa incessantemente dentro da minha mente atormentada. — No dia seguinte, sentada na sala de aula da faculdade, encontro-me completamente incapaz de absorver qualquer conteúdo ou me concentrar nas explicações passadas na lousa. As palavras do professor simplesmente se dissolvem e se perdem no meio de uma névoa densa de pensamentos obsessivos, todos eles voltados implacavelmente para aquela sala abafada em casa, para o papel amassado da ordem de leilão, e para as imagens dolorosas do meu pai com o olhar totalmente perdido e da minha mãe chorando copiosamente sem saber qual direção tomar. — Sinto-me exatamente como se estivesse assistindo a uma peça teatral trágica e inevitável, onde a cada nova cena o peso esmagador da realidade aumenta exponencialmente, comprimindo o meu peito até faltar o ar. — A Sabrina, que convive comigo diariamente e me conhece tempo suficiente para ler minhas expressões mais sutis, percebe a minha agitação extrema e o meu estado de transe antes mesmo que eu consiga balbuciar uma única palavra de explicação. Com a familiaridade de quem é quase uma irmã, ela puxa a cadeira bruscamente para mais perto da minha carteira, senta-se ao meu lado e me observa com uma atenção profunda, focada, sem demonstrar a menor pressa para falar, esperando o momento certo. — O que aconteceu com você para estar nesse estado de nervos? — pergunta ela, usando aquele tom de voz carregado de uma preocupação genuína, leal e verdadeira que apenas os amigos de verdade conseguem demonstrar nos momentos de crise.Nós nos preparamos para ir embora do shopping. — A Márcia está virando de costas ao meu lado para pegar uma das sacolas quando uma voz masculina, alterada e nojenta, atravessa o barulho do corredor e surge bem atrás de nós:— Eu sabia que você não tinha ido embora de Curitiba, sua desgraçada!Eu reconheço aquela voz repugnante no mesmo instante.— É o Pedro, justo hoje ele tinha que estar aqui?.A Márcia congela no lugar, ficando completamente pálida. — Quando eu me viro rapidamente, eu vejo o Pedro avançando com tudo na nossa direção, cego de raiva e visivelmente transtornado. — Eu não espero nem meio segundo para ver o que ele pretende fazer. — Entrego o Michael imediatamente para os braços da Sabrina e me coloco com o meu corpo inteiro entre o Pedro e a Márcia, encarando o miserável de frente:— Cai fora daqui agora, cara!— Você não vai tocar um único dedo na minha mulher!O Pedro para abruptamente a dois passos de mim, surpreendido com a minha postura, e me encara enfurecido:
RICARDOAmanhã é o nosso casamento civil, o mês passou rápido demais entre a separação de documentos, as conversas constantes com os meus advogados, os preparativos necessários e tudo aquilo que eu preciso organizar antes da minha mudança definitiva para os Estados Unidos. — O contrato de casamento está totalmente pronto e a Márcia faz questão absoluta de deixar registrado no papel que não quer nenhum direito sobre o meu patrimônio.—' Eu até poderia discutir com ela sobre isso, mas eu sei que essa exigência é fundamental para que ela se sinta confortável com o nosso acordo.— Para a Márcia, precisa ficar totalmente claro que ela não está se casando comigo por dinheiro e que o nosso casamento tem um objetivo muito definido: dar a ela e ao Michael a oportunidade de começarem uma vida nova e digna, bem longe das garras do Pedro.Hoje é domingo e amanhã, exatamente às nove horas da manhã, nós estaremos no cartório.— Eu olho para a Márcia enquanto ela está sentada na sala brincando c
MÁRCIA Continuamos o jantar, mas minha cabeça ainda está presa ao que Ricardo me contou sobre a visita de Pedro ao escritório. — Tento imaginar como ele conseguiu descobrir quem é Ricardo, porque naquela noite não sabia sequer o nome do homem que havia me tirado da casa de Madame Edith. — Pedro ficou na parte de baixo da mansão enquanto Ricardo me levava para longe daquele lugar, portanto alguma coisa deve ter acontecido durante esses dias para que ele descobrisse sua identidade e chegasse até a empresa. — Quanto mais penso nisso, mais preocupada fico, principalmente porque começo a perceber que nem mesmo o silêncio de Pedro durante essas duas semanas significa que ele desistiu de me procurar. — Seguro os talheres por alguns instantes, olho para Ricardo e resolvo perguntar: — Ricardo, como foi que o Pedro descobriu o seu escritório? Ricardo termina de mastigar antes de responder. — Ele parece realmente cansado, e agora consigo compreender que o dia dele deve ter sido muito mai
PEDRO Eu jogo o celular sobre o sofá e me levanto pisando fundo, sentindo o peito bufando de raiva. — Até o Jean, um cara que eu conheço há anos e que devia me dar uma luz como advogado, resolveu ficar do lado daquele desgraçado. — Fica me dando lição de moral, falando de crime, de cativeiro e dizendo que a Márcia teve sorte, Sorte? Aquela mulher me deve tudo o que tem, me deve o teto onde morou durante três anos e o prato de comida que colocou para dentro. Caminho até a janela e fico olhando para a rua vazia da minha vila. — O sol da tarde b**e no asfalto quente e eu sinto a raiva se transformar numa frustração amarga. O Jean disse que eu posso ir parar na cadeia se pisar numa delegacia. —Disse que o Ricardo tem advogados, tem dinheiro, tem o nome da empresa e ainda tem a Madame Edith do lado dele para testemunhar. Eu sei como esse pessoal rico funciona. Eles pagam quem for preciso, colocam o delegado no bolso e fazem a justiça virar do lado deles em questão de minutos. Se
PEDRO Eu chego em casa ainda com o sangue fervendo nas veias e olho furioso para todos os lados daquela sala modesta. — A humilhação amarga que eu passei nas mãos daquele franguinho do Ricardo, me escorraçando da empresa dele como se eu fosse um cachorro vira-lata, não vai ficar barato de jeito nenhum. — O Ricardo pode ter rios de dinheiro, empresa multinacional, segurança na porta e aquele gigante do sócio dele para ficar me fazendo ameaças veladas, mas ele não pode simplesmente esconder a Márcia de mim e achar que eu vou aceitar essa situação de braços cruzados. Eu vou direto dar parte dele na delegacia de polícia. Eu vou dizer para o delegado que ele sequestrou a minha esposa e o meu filho. — É exatamente isso o que eu vou fazer para ferrar a vida dele. Eu começo a andar de um lado para o outro na sala, mas, quanto mais eu penso na ideia, mais eu percebo que existe um problema enorme nessa história toda. —Já faz duas semanas inteiras que a Márcia desapareceu. —Se eu
MÁRCIA Meu Deus, Michael, você viu? O Ricardo vai te dar um nome de verdade, meu filho. — Agora você vai ter um pai, um pai de verdade para te proteger. Eu olho para o meu bebê no meu colo e sinto meus olhos se encherem de lágrimas instantaneamente, mas, desta vez, não são lágrimas de medo, de vergonha ou de desespero. — Eu aperto o meu filho contra o meu peito e beijo a cabecinha macia dele, tentando compreender como a nossa vida consegue mudar de forma tão drástica e abençoada em tão pouco tempo. — Eu faço absolutamente tudo por você, meu filho sussurro para ele, com a voz embargada. — Eu faço qualquer coisa para te ver bem. — Eu vou até o inferno se for preciso para te proteger. Só existe uma parte daquela conversa com o Ricardo que ainda deixa o meu coração apertado e sobressaltado dentro do peito. — O Pedro teve a coragem e a cara de pau de ir até o escritório dele. — Depois de duas semanas do leilão, aquele homem continua atrás de mim e eu nem preciso pergunt







