INICIAR SESIÓNA afirmação dela atinge os meus ouvidos de forma tão direta, crua e cortante que meu corpo inteiro se enrijece instantaneamente como se tivesse tomado uma descarga elétrica, enquanto um pavor primitivo e inexplicável domina cada célula do meu organismo.
— Sabrina… pelo amor de Deus, você perdeu o juízo completamente? — , lanço um olhar de pura reprovação e pânico, com a voz trêmula enquanto tento processar a dimensão monstruosa daquilo que ela acaba de sugerir em plena luz do dia. — Escute o que eu estou te dizendo com calma e preste muita atenção — ela continua insistindo, adotando um tom imperativo, frio e irredutível. — Existem eventos corporativos e sociais estritamente privados onde homens bilionários pagam cifras astronômicas por exclusividade absoluta. — E a grande vantagem disso tudo para a sua situação crítica é que você só precisa fazer isso uma única vez na vida. Se você conseguir o dinheiro necessário logo no primeiro lance, acabou! — Você resolve de uma vez por todas a vida financeira da sua família inteira, quita a porcaria da casa, e pronto, ninguém mais precisa saber jamais que aquilo aconteceu, pois tudo é acobertado por contratos pesados de sigilo absoluto e identidades preservadas. Ninguém na faculdade, ou sua família vai saber que era você por trás do disfarce. — As implicações morais, psicológicas e sociais daquela proposta descabida me deixam completamente paralisada, com a respiração suspensa na garganta. Fecho os olhos com força por um instante prolongado, sentindo o peso esmagador daquela sugestão me comprimir o peito até a exaustão, exatamente como se uma tempestade violenta estivesse se formando dentro da minha alma, rasgando todas as minhas convicções éticas e valores morais construídos ao longo de toda a minha vida. — Eu sempre sonhei… eu sempre quis que a minha primeira vez fosse algo especial, com alguém que eu realmente amasse e que me amasse de volta na mesma intensidade… — confesso, deixando escapar um lamento doloroso e frustrado, revelando o desejo mais íntimo, puro e profundamente enraizado em todo o meu ser, agora prestes a ser sacrificado na necessidade financeira. Sabrina não demonstra qualquer traço de piedade ou romantismo diante da minha confissão dolorosa; pelo contrário, endurece ainda mais a feição e responde com uma franqueza cortante, seca e realista que destrói qualquer ilusão restante. — Acorde para a vida, Mariana, pois nem sempre as pessoas que a gente ama de verdade têm condições de nos salvar ou se importam o suficiente quando a corda aperta no nosso pescoço — rebate ela, sem suavizar absolutamente em nada nas palavras. — Quer saber de uma coisa? Eu mesma perdi a minha preciosa virgindade acreditando em historinhas de amor com alguém que eu amava profundamente, entreguei-me de corpo e alma, e no dia seguinte fui descartada como se fosse um lixo imprestável. — Infelizmente, as nossas emoções mais bonitas, os nossos sentimentos puros e as nossas ilusões românticas jamais garantem qualquer tipo de proteção real ou segurança financeira contra as rasteiras que a vida nos dá. A realidade é dura, fria e cruel, e quer saber a maior verdade? — Você pode usar exatamente essa mesma virgindade que tanto preza como uma ferramenta fria de resgate para salvar a sua família da ruína total e colocar um teto seguro sobre a cabeça dos seus irmãos. As palavras duras e pragmáticas dela ecoam e reverberam dentro da minha mente como golpes de martelo, misturando uma dor dilacerante, um medo paralisante e uma revolta indescritível com uma verdade nua, crua e amarga que se torna cada vez mais difícil de contestar ou ignorar. — Fico em absoluto silêncio, paralisada, enquanto desfilam diante dos meus olhos todos os fatores cruciais que estão em jogo neste exato momento: restam apenas dois meses até a concretização da perda irreparável da nossa casa; há um pai debilitado, machucado e deprimido em casa; uma mãe completamente entregue ao desespero chorando pelos cantos; e dois irmãos menores que dependem integralmente das minhas decisões para não terminarem jogados na sarjeta da rua. É uma situação terrivelmente agonizante, um dilema moral dilacerante e sem saída aparente, mas é exatamente essa a realidade suja, implacável e real que preciso encarar de frente, sem filtros e sem ilusões românticas para me proteger. — Respiro fundo, puxando o ar gelado dos meus próprios pulmões numa tentativa desesperada de reunir os últimos farelos de coragem que restam dentro de mim, e abro os olhos lentamente, encarando a minha amiga com uma expressão vazia, resignada e fria. — Se eu aceitar entrar nessa loucura com você… vai ser mesmo só uma única vez, não é? — E você tem certeza absoluta de que ninguém da minha família ou do meu círculo vai descobrir jamais quem eu sou por trás de tudo isso? — pergunto, a voz saindo num sopro frágil, rouco e quase inaudível, carregando o peso de uma rendição irrevogável. — Sim, eu juro para você que será estritamente uma única vez, desde que você dê a sorte grande no leilão e algum bilionário pague o lance alto o suficiente para arrematar a sua noite de estreia logo de cara — confirma Sabrina, assentindo firmemente com a cabeça, com um misto de alívio e triunfo nos olhos. O silêncio denso e pesado que se estabelece imediatamente entre nós duas logo em seguida não carrega mais o vazio da dúvida; pelo contrário, transforma-se no som pesado de uma sentença irrevogável, com a minha decisão definitiva sendo forjada a ferro e fogo diretamente a partir do peso esmagador da necessidade, da fome e da ruína iminente da minha família. — Está bem… eu aceito ir com você para esse lugar — digo, fechando os olhos e sentindo a minha antiga vida ruir para sempre. — Farei isso, quer eu queira ou não. Farei qualquer coisa para salvar a minha família da rua.Nós nos preparamos para ir embora do shopping. — A Márcia está virando de costas ao meu lado para pegar uma das sacolas quando uma voz masculina, alterada e nojenta, atravessa o barulho do corredor e surge bem atrás de nós:— Eu sabia que você não tinha ido embora de Curitiba, sua desgraçada!Eu reconheço aquela voz repugnante no mesmo instante.— É o Pedro, justo hoje ele tinha que estar aqui?.A Márcia congela no lugar, ficando completamente pálida. — Quando eu me viro rapidamente, eu vejo o Pedro avançando com tudo na nossa direção, cego de raiva e visivelmente transtornado. — Eu não espero nem meio segundo para ver o que ele pretende fazer. — Entrego o Michael imediatamente para os braços da Sabrina e me coloco com o meu corpo inteiro entre o Pedro e a Márcia, encarando o miserável de frente:— Cai fora daqui agora, cara!— Você não vai tocar um único dedo na minha mulher!O Pedro para abruptamente a dois passos de mim, surpreendido com a minha postura, e me encara enfurecido:
RICARDOAmanhã é o nosso casamento civil, o mês passou rápido demais entre a separação de documentos, as conversas constantes com os meus advogados, os preparativos necessários e tudo aquilo que eu preciso organizar antes da minha mudança definitiva para os Estados Unidos. — O contrato de casamento está totalmente pronto e a Márcia faz questão absoluta de deixar registrado no papel que não quer nenhum direito sobre o meu patrimônio.—' Eu até poderia discutir com ela sobre isso, mas eu sei que essa exigência é fundamental para que ela se sinta confortável com o nosso acordo.— Para a Márcia, precisa ficar totalmente claro que ela não está se casando comigo por dinheiro e que o nosso casamento tem um objetivo muito definido: dar a ela e ao Michael a oportunidade de começarem uma vida nova e digna, bem longe das garras do Pedro.Hoje é domingo e amanhã, exatamente às nove horas da manhã, nós estaremos no cartório.— Eu olho para a Márcia enquanto ela está sentada na sala brincando c
MÁRCIA Continuamos o jantar, mas minha cabeça ainda está presa ao que Ricardo me contou sobre a visita de Pedro ao escritório. — Tento imaginar como ele conseguiu descobrir quem é Ricardo, porque naquela noite não sabia sequer o nome do homem que havia me tirado da casa de Madame Edith. — Pedro ficou na parte de baixo da mansão enquanto Ricardo me levava para longe daquele lugar, portanto alguma coisa deve ter acontecido durante esses dias para que ele descobrisse sua identidade e chegasse até a empresa. — Quanto mais penso nisso, mais preocupada fico, principalmente porque começo a perceber que nem mesmo o silêncio de Pedro durante essas duas semanas significa que ele desistiu de me procurar. — Seguro os talheres por alguns instantes, olho para Ricardo e resolvo perguntar: — Ricardo, como foi que o Pedro descobriu o seu escritório? Ricardo termina de mastigar antes de responder. — Ele parece realmente cansado, e agora consigo compreender que o dia dele deve ter sido muito mai
PEDRO Eu jogo o celular sobre o sofá e me levanto pisando fundo, sentindo o peito bufando de raiva. — Até o Jean, um cara que eu conheço há anos e que devia me dar uma luz como advogado, resolveu ficar do lado daquele desgraçado. — Fica me dando lição de moral, falando de crime, de cativeiro e dizendo que a Márcia teve sorte, Sorte? Aquela mulher me deve tudo o que tem, me deve o teto onde morou durante três anos e o prato de comida que colocou para dentro. Caminho até a janela e fico olhando para a rua vazia da minha vila. — O sol da tarde b**e no asfalto quente e eu sinto a raiva se transformar numa frustração amarga. O Jean disse que eu posso ir parar na cadeia se pisar numa delegacia. —Disse que o Ricardo tem advogados, tem dinheiro, tem o nome da empresa e ainda tem a Madame Edith do lado dele para testemunhar. Eu sei como esse pessoal rico funciona. Eles pagam quem for preciso, colocam o delegado no bolso e fazem a justiça virar do lado deles em questão de minutos. Se
PEDRO Eu chego em casa ainda com o sangue fervendo nas veias e olho furioso para todos os lados daquela sala modesta. — A humilhação amarga que eu passei nas mãos daquele franguinho do Ricardo, me escorraçando da empresa dele como se eu fosse um cachorro vira-lata, não vai ficar barato de jeito nenhum. — O Ricardo pode ter rios de dinheiro, empresa multinacional, segurança na porta e aquele gigante do sócio dele para ficar me fazendo ameaças veladas, mas ele não pode simplesmente esconder a Márcia de mim e achar que eu vou aceitar essa situação de braços cruzados. Eu vou direto dar parte dele na delegacia de polícia. Eu vou dizer para o delegado que ele sequestrou a minha esposa e o meu filho. — É exatamente isso o que eu vou fazer para ferrar a vida dele. Eu começo a andar de um lado para o outro na sala, mas, quanto mais eu penso na ideia, mais eu percebo que existe um problema enorme nessa história toda. —Já faz duas semanas inteiras que a Márcia desapareceu. —Se eu
MÁRCIA Meu Deus, Michael, você viu? O Ricardo vai te dar um nome de verdade, meu filho. — Agora você vai ter um pai, um pai de verdade para te proteger. Eu olho para o meu bebê no meu colo e sinto meus olhos se encherem de lágrimas instantaneamente, mas, desta vez, não são lágrimas de medo, de vergonha ou de desespero. — Eu aperto o meu filho contra o meu peito e beijo a cabecinha macia dele, tentando compreender como a nossa vida consegue mudar de forma tão drástica e abençoada em tão pouco tempo. — Eu faço absolutamente tudo por você, meu filho sussurro para ele, com a voz embargada. — Eu faço qualquer coisa para te ver bem. — Eu vou até o inferno se for preciso para te proteger. Só existe uma parte daquela conversa com o Ricardo que ainda deixa o meu coração apertado e sobressaltado dentro do peito. — O Pedro teve a coragem e a cara de pau de ir até o escritório dele. — Depois de duas semanas do leilão, aquele homem continua atrás de mim e eu nem preciso pergunt







