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####CAPÍTULO 04

last update Fecha de publicación: 2026-05-27 03:43:34

O MEDO

— Bom dia, senhor Stewart — minha voz sai firme, surpreendendo até a mim mesma. — Eu sou a sua nova assistente executiva. Sofia Sinclair.

Ele para, e com o sorriso que dividia com a mulher desaparece, dando lugar a uma máscara corporativa fria. Por um segundo longo e denso, ele me analisa.

Os olhos azuis se fixam meu rosto, minha postura, e depois, a mesa perfeitamente arrumada que há duas horas era um campo de destroços.

— Bom dia, Sofia.

A voz dele é grave. Firme. Vai direto ao ponto, sem a menor cerimônia.

— Você pode me trazer um café? Exatamente três gotas de adoçante… e algumas torradas. Não tive tempo de tomar café da manhã.

— Sim, senhor, já estou levando.

Ele começa a caminhar em direção às portas duplas da sua sala, a mulher loira seguindo logo atrás, mas ele para com a mão na maçaneta e olha por cima do ombro.

— E traga minha agenda, quero ver o desastre que herdamos.

— Pois não.

Ele entra e a porta se fecha com um clique suave.

Na copa executiva, escondida no corredor lateral, percebo que minhas mãos tremem levemente enquanto preparo o expresso duplo na máquina italiana.

— Calma, Sofia… o pior já passou… você consegue…

Conto exatamente três gotas de adoçante. Coloco as torradas torradas no ponto perfeito em um pequeno prato de porcelana. Organizo tudo em uma bandeja de prata com um guardanapo de linho, pego a pasta de couro com o cronograma impresso, respiro fundo, inflando o peito de coragem, e volto.

Dou duas batidas leves na porta e entro. A mulher loira já não está na parte principal da sala; ouço o som de água vindo do lavabo privativo.

Senhor Donovan está de pé atrás de sua mesa colossal, sem o paletó, afrouxando a gravata de seda enquanto analisa o horizonte da cidade através das paredes de vidro.

Aproximo-me em silêncio, e entrego a xícara de café sobre o suporte da mesa, posiciono o pratinho e abro a agenda de couro, revelando a planilha impressa. Começo a falar, mantendo o tom de voz profissional e constante, tentando não me deixar intimidar pela presença esmagadora dele.

— Estas são as reuniões do dia, e o cronograma anterior estava com sérios conflitos de logística, então eu reorganizei alguns horários da tarde para otimizar o tempo de deslocamento do senhor. O almoço com os acionistas suíços foi confirmado para as treze horas, e eu já solicitei que enviassem os relatórios trimestrais atualizados para o seu e-mail, para que o senhor possa revisá-los antes da reunião das dez.

Ele leva a xícara aos lábios, toma um gole do café e para. Ele me interrompe, baixando a xícara lentamente. Os olhos cravados em mim.

— Você conseguiu organizar tudo isso hoje de manhã?

Sustento o olhar dele, embora meu estômago esteja dando cambalhotas.

— Sim, senhor, cheguei um pouco antes das sete.

Ele abaixa o olhar para o papel brilhante e impecável à sua frente. Ele folheia rapidamente as páginas seguintes, analisando o planejamento semanal que eu deixei engatilhado. Silêncio. O único som na sala é o tique-taque distante do relógio de parede e o meu próprio sangue zumbindo nos ouvidos.

Meu coração dispara em um ritmo ensurdecedor. Meu Deus… e se eu cruzei uma linha? E se eu mudei reuniões que não devia? E se eu fiz tudo errado tentando parecer proativa demais?

Ele continua olhando para o papel. E então, um som baixo sai da sua garganta.

— Hum.

Ele fecha a agenda com um baque surdo, desliza os dedos sobre o couro, ergue os olhos e os fixa em mim com uma intensidade que faz o ar da sala parecer mais rarefeito.

— Seja bem-vinda à STUART CORPORATION, Sofia.

Solto o ar que nem percebia que estava prendendo há quase um minuto. Meus ombros relaxam uma fração de milímetro.

— Obrigada, senhor.

Ele toma mais um gole do café, claramente satisfeito.

— Agora, não estou para ninguém até a primeira reunião. Quando der o horário exato, me avise.

— Sim, senhor, com licença.

Dou um passo para trás, giro sobre os calcanhares e saio da sala, fechando a porta silenciosamente atrás de mim.

Caminho de volta para a minha mesa, o salto dos meus sapatos afundando no carpete felpudo. Sento-me na cadeira de couro confortável, olhando para o computador à minha frente, para o horizonte da cidade se estendendo além dos vidros do andar executivo, para o império que agora eu ajudo a organizar.

E só então percebo… Sinto um arrepio estranho e quase imperceptível percorrer minha nuca enquanto toco o crachá recém-impresso no meu peito.

Que talvez esse emprego não seja só uma chance desesperada de pagar minhas contas. Talvez seja o começo de algo monumental. O início de uma história que vai mudar e reescrever completamente o destino de toda a minha vida.

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Último capítulo

  • ADEUS QUERIDO, O AMOR ACABOU   FIM DO EPÍLOGO BÔNUS

    O promotor conclui com uma última indagação:— Diante de todo o exposto, o que a senhora espera desta jurisdição soberana?— Não busco a vingança cega. Busco a interrupção definitiva da engrenagem — respondo com firmeza inabalável. — Quero assegurar que eles jamais tenham a oportunidade de destruir a inocência de outra criança. — Quero que todas as vítimas silenciadas compreendam que a culpa jamais lhes pertenceu. Eu sobrevivi, mas a sobrevivência não apaga a cicatriz; exige, ao menos, que a justiça seja cumprida em sua inteireza.— Sem mais perguntas, Excelência.A defesa assume a palavra para o seu cross-examination, tentando invalidar minhas lembranças sob a premissa de lapsos traumáticos, mas cada tentativa é rebatida com a força incontestável da evidência científica e genética.Horas mais tarde, após o encerramento dos debates acalorados entre a promotoria, a assistência jurídica contratada por Damien e os defensores públicos — onde teses de responsabilização por quebra de dev

  • ADEUS QUERIDO, O AMOR ACABOU   ######CONTINUAÇÃO EPÍLOGO BÔNUS

    O magistrado ergue os olhos por sobre os óculos de leitura.— A defesa tem razão quanto à necessidade de estrito rigor técnico temporal. O Ministério Público atenha-se aos marcos fáticos e à tipificação penal descrita na denúncia. Prossiga.— Compreendido, Excelência — redargúi o promotor, imperturbável. Ele se volta novamente para os jurados. — Após o falecimento do general Carl Monsoor Morphy, a ré introduziu Jonathan Waine Gordon no cotidiano da residência principal, albergando-o no mesmo teto em que vivia sua filha adolescente. A partir desse marco, iniciou-se a execução de delitos continuados contra uma vítima em estado de absoluta vulnerabilidade estrutural e emocional.Sinto os dedos de Sebastian deslizarem suavemente sobre os meus, transmitindo o apoio que sustenta a minha coluna.— A ré Cloude não apenas violou o dever jurídico de proteção inerente ao poder familiar; ela desacreditou sistematicamente a vítima, impôs punições severas, isolou-a do convívio exterior e arquitet

  • ADEUS QUERIDO, O AMOR ACABOU   ####EPÍLOGO BÔNUS

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  • ADEUS QUERIDO, O AMOR ACABOU   ####CONTINUAÇÃO EPÍLOGO 3

    Seguro a mão grande dele e a pressiono firmemente contra o centro do meu peito, exatamente onde a cicatriz invisível bate.— Você foi o único ser humano com a capacidade e a sensibilidade de juntar todos os pedaços estilhaçados do meu coração. O Benjamin trouxe de volta aquela parte materna e afetiva que eu julgava sepultada para sempre; mas foi você, Sebastian... foi você quem pegou cada caco cortante e os costurou um a um, com linha de paciência e tecido de amor verdadeiro. É por isso que o nome da nossa ONG não poderia ser outro: Colcha de Retalhos. Porque nenhum coração, por mais dilacerado que tenha chegado até nós, precisa permanecer quebrado para o resto da vida.Sebastian me aperta contra si com tanta força que parecemos fundir num só corpo, o silêncio entre nós pesando mais do que mil palavras.Deixo o olhar vagar novamente pela praia. Sally ri copiosamente enquanto as crianças tentam enterrá-la na areia; os adultos conversam animadamente, erguendo taças e celebrando o milagr

  • ADEUS QUERIDO, O AMOR ACABOU   ####EPÍLOGO 3

    O REFÚGIO DA COLCHA DE RETALHOSAcaricio a curva suave do meu ventre com um sorriso que, para mim, ainda carrega a imensidão de um milagre diário.Quatro meses.Mais uma vida sagrada cresce aqui dentro, pulsando forte, cercada pelo tipo de segurança e amor que eu costumava achar que só existia nos contos de fadas dos quais fui banida muito antes de entender o mundo. Há momentos em que o silêncio se interpõe e eu ainda me pego paralisada, lembrando dos anos em que estive convencida de que a minha existência estava irremediavelmente quebrada. Acreditei, com a força do desespero, que Deus havia se esquecido de mim naqueles cantos escuros e sufocantes da minha própria casa; acreditei que a minha história terminaria ali, selada na culpa, no medo paralisante e na dor silenciosa que ninguém ousava ouvir.Como eu estava terrivelmente enganada.Hoje, bastando erguer os olhos para a vasta extensão de areia branca e o mar cristalino das praias de Ibiza, tudo o que vejo é a prova viva da ressurre

  • ADEUS QUERIDO, O AMOR ACABOU   ####EPÍLOGO 2

    O REFÚGIO DA ESPERANÇA E A PROMESSA DO AMANHÃObservo meu tio Damien profundamente abraçado à Sofia, os dois absortos em uma sintonia silenciosa enquanto os filhos correm e brincam livremente pela extensão de areia branca. À distância, percebo o modo como trocam sorrisos e olhares cúmplices, exatamente da mesma forma genuína que fizeram durante todos os anos de lutas e superações. É impossível observar essa cena sem constatar o óbvio: eles nasceram absolutamente um para o outro, esculpidos pelo destino para curar as feridas um do outro.Solto um suspiro de alívio e gratidão, sentindo o peito aquecido. A vida, com todas as suas curvas tortuosas e imprevisíveis, realmente sabe como nos surpreender da maneira mais bela possível. Quem, no auge daquela tragédia insuportável e das sombras que quase nos devoraram, poderia imaginar que todo o sofrimento acabaria nos conduzindo exatamente para o lugar onde deveríamos estar? Desvio meus olhos daquela pintura familiar e os direciono para a mulh

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