Masuk(POV Christian)
O caminho até a van é um borrão de dor e portas se abrindo. Daniel e Thiago me erguem rápido, sem cerimônia — meus pés ficam suspensos, longe de qualquer apoio no chão, enquanto o staff do CT me empurra na direção do veículo. Atrás da grade, as câmeras disparam sem parar. Reconheço a lente da Rafaela entre as outras, focada, paciente, esperando o ângulo certo da minha desgraça. Dois seguranças abrem um guarda-chuva gigante de golfe na frente do alambrado, tampando o disparo das fotos. É ridículo. Mas funciona o suficiente pra eu entrar na van sem virar manchete antes da hora. A porta lateral desliza e fecha. O ar-condicionado tá no talo, gelado contra o calor que ainda sobe da minha pele. Thiago estica minha perna no banco oposto e começa a imobilizar com uma faixa elástica, o rosto fechado, sem soltar uma palavra de conforto. — Não aperta tanto — rosno. — Se quiser que o inchaço baixe, cala a boca e deixa eu trabalhar — ele responde sem olhar pra mim. A porta lateral desliza outra vez. Pietro entra e fecha com um movimento seco, nos trancando no cubículo blindado. Ele não senta. Fica de pé, terno impecável — mas a mão que solta a maçaneta treme um milímetro antes de ele esconder atrás das costas. Ninguém além de mim ia notar isso. — Me dá o diagnóstico real, Christian — ele tenta soar frio, mas eu conheço esse tom. É o mesmo tom que ele usa quando está com medo de verdade. — O assessor já saiu inventando torção leve, "preservação por precaução". Quanto tempo de campo? Olho pro Thiago. Ele hesita um segundo. — Fala, Thiago. Sem rodeio. — Ligamento cruzado anterior rompido. Completo. Protocolo padrão são seis meses parado. Ele tá fora da Copa. O silêncio que cai na van pesa mais que o ar-condicionado no talo. Pietro caminha até o vidro, espia pela fresta da cortina. Lá fora, os jornalistas ainda rondam, tentando entender por que o camisa dez saiu antes da hora. — Seis meses não é opção — Pietro murmura, virando pra mim. Se inclina, rosto a centímetros do meu, e por um segundo o terno desaparece e fica só o cara que jogou bola antes de virar presidente de qualquer coisa. — Eu vi essa cena antes, Christian. De dentro. Não vou ficar de braço cruzado vendo você jogar a carreira no lixo do mesmo jeito que eu joguei a minha. — Eu tô tentando, porra — tento levantar o tronco, a dor escurece a visão por um segundo, caio de volta no banco. — Eu não escolhi romper o ligamento. — Eu não posso te dar mais tempo, Christian. Só queria poder — Pietro endurece a voz pra não rachar no meio da frase. — Thiago. Tem alternativa? Alguma gambiarra que segure esse joelho dentro de cento e cinquenta dias, quando sairá a convocação? Thiago para de mexer na maleta. — Existe o tratamento conservador intensivo. É uma tortura. Sem cirurgia agora — fortalecimento agressivo de quadríceps, bloqueio de dor com corticoide e PRP, estabilização. Risco de colapso no primeiro drible sério: noventa por cento. E precisa de acompanhamento total. Alguém que durma, coma e respire essa recuperação junto com ele. — Quem? — Pietro pergunta, direto. — Liah Mendes. O nome não me diz nada de imediato. Só depois, vasculhando a memória, encontro um resto: alguém comentou esse nome num vestiário, ano passado. Fisioterapeuta que trabalhou com atleta de elite e desapareceu do circuito sem explicação. — Ela ainda atende esse tipo de caso? — Pietro questiona, e tem desconfiança na voz. — Atende. Mas escolhe quem quer — Thiago responde, sem desviar o olhar da maleta. — Depois do que aconteceu com o último paciente dela, ela ficou seletiva. Cobra o que quiser e não dá desconto pra ego de jogador. — O que aconteceu com o último paciente? — pergunto. — Não importa agora — Thiago corta, e o jeito como ele desvia o assunto me diz que importa, sim, só não pro momento. Pietro estreita os olhos, calculando. — Traz ela. Mas isso fica entre a gente, Christian. Quanto menos gente souber, melhor pra todo mundo — pra ela, pra você, pro clube inteiro. Eu não tô em posição de proteger ninguém se isso estourar antes da hora. Ele abre a porta da van, pronto pra enfrentar os repórteres com a mentira já pronta na ponta da língua. Para no batente um segundo de mais. — Você tem cento e cinquenta dias pra ser herói, Christian. — A voz baixa, só pra mim ouvir, antes de ele voltar pro modo presidente. — Eu sei o que é não ter os cento e vinte dias. Não desperdiça os seus. Sai. A porta b**e com um baque surdo. Thiago suspira, termina a bandagem, puxa o celular do bolso. — Vou ligar pra ela. Já aviso: se você for arrogante do jeito que costuma ser com gente que você não conhece, ela desliga em cinco minutos. E dessa vez eu não vou tá aqui pra te salvar. Ele disca. Coloca no viva-voz. O tom de chamada soa uma, duas, três vezes. Na quarta, uma voz corta o silêncio da van. — Quem fala? Fria. Sem rodeio, sem aquele verniz de simpatia que todo mundo usa quando atende telefone de número desconhecido. — Liah? Aqui é o Thiago. Departamento médico da Seleção. — Thiago — Ela repete o nome como quem confirma um dado, não como quem cumprimenta. — Faz tempo. — Eu sei. Preciso de um favor grande. — Você sempre precisa. Thiago olha pra mim, sobrancelha erguida, como quem diz "viu, eu avisei". — O Christian Barbosa rompeu o ligamento cruzado hoje de manhã. Tratamento padrão é seis meses. A Copa é em cento e oitenta dias, a convocação em cento e vinte dias. Do outro lado, silêncio. Não o silêncio de quem não entendeu — o de quem já tá calculando o tamanho do problema antes de abrir a boca. — E o que isso tem a ver comigo, Thiago? — a voz dela tem um fio de tédio que me irrita mais do que devia. — Eu não atendo mais atleta de elite. Você sabe por quê. — Eu sei. Mas não existe outra pessoa no Rio capaz de fazer o que precisa ser feito em cento e conquenta dias. — Existe, sim. Você só não confia em mais ninguém. Ela vai desligar. Sinto isso pelo tom, pela pausa antes da última frase. Tomo o celular da mão do Thiago antes que ele consiga argumentar de volta. — Liah — minha voz sai mais rouca do que eu queria. — Aqui é o Christian. — Eu sei quem é — ela responde, sem um pingo de impressão na voz. — Seu nome tá em outdoor da Linha Amarela. — Eu preciso que você venha pra Barra. Eu pago o que for. — Todo mundo paga o que for, até descobrir o que "o que for" significa de verdade. — Então me diz o preço. Ela demora pra responder. Quando volta a falar, o tom mudou — não ficou mais quente, ficou mais afiado. — O preço é eu mandar em você dentro da sua própria casa por cento e cinquenta dias. Sem exceção, sem charme, sem você decidindo que sabe mais do que eu sobre o seu próprio corpo. Se isso for um problema, desliga agora e poupa o meu tempo. — Não é problema. — Vai ser. — Ela faz uma pausa breve. — Eu não confirmo nada agora. Vou ver a ficha clínica primeiro. Manda o Thiago me enviar. — Liah. Ela já desligou. O celular fica morto na minha mão. Thiago me encara, as sobrancelhas arqueadas. — Ela vem? — eu pergunto, devolvendo o aparelho. — Ela disse que ia ver a ficha — Thiago pega o celular de volta, guarda no bolso. — Com ela, isso já é mais resposta do que a maioria recebe. Olho pela janela da van. A neblina de Teresópolis sobe de novo, engolindo o gramado, os fotógrafos, a Granja Comary inteira. — Então a gente espera — falo, sentindo o peso de depender de alguém que eu nunca vi na vida pra decidir se a minha Copa ainda existe. Ela desligou sem prometer nada. Sem confirmar, sem aceitar, sem dar esperança. O que eu não sei, olhando pra neblina engolir o gramado vazio, é que em vinte e quatro horas essa mulher vai atravessar o portão da minha mansão — e que o joelho vai deixar de ser, longe, o meu maior problema.POV: ThiagoParte 2 - Comemoração ParticularDaniel não respondeu com palavra nenhuma. Segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou com uma urgência que carregava tudo que a gente tinha represado o dia inteiro — a tensão da final, o medo contido na beira do campo, a felicidade que não tinha espaço pra se expressar diante de câmera nenhuma.Senti o tremor leve nos dedos dele contra a minha pele, e entendi que ele também estava tentando segurar o mundo inteiro dentro daquele gesto. Meu peito apertou de um jeito bom, quase doloroso. Durante horas eu havia sido o médico, o profissional, o homem que não podia deixar nada transparecer — e agora, finalmente, eu podia ser só dele.Retribuí o beijo com a mesma fome, as mãos encontrando a cintura dele, puxando ele contra o meu corpo sem nenhuma cautela sobrando. O gosto de champanhe ainda estava na boca dele, misturado a alguma coisa mais quente, mais nossa, que nenhuma comemoração oficial jamais conseguiria replicar.Pensei, por um segundo,
POV: ThiagoParte 1 - O Gol E O OlharO caos que tomou conta do gramado depois do apito final não tinha comparação com nada que eu já tivesse presenciado em anos de trabalho no futebol profissional. Corri pro meio de campo assim que o gol saiu, a maleta médica batendo contra o quadril, os olhos fixos só em Christian.Ele tinha caído de joelhos, o corpo cedendo ao limite que vinha empurrando havia tempo demais, a perna que eu já sabia estar no limite desde o intervalo da prorrogação finalmente cobrando o preço de tanta teimosia, e cheguei o mais rápido que consegui, abrindo caminho entre companheiros que já se amontoavam em cima dele numa pilha só de gritos e lágrimas.— Deixa eu ver essa perna — falei, firme, afastando dois jogadores que insistiam em abraçar o capitão machucado sem pensar no risco de piorar qualquer coisa.Christian recusou a maca que um dos auxiliares trouxe correndo, insistindo em se levantar pelas próprias pernas, e discuti com ele ali mesmo, no meio do gramado, a
POV: DanielO apito inicial disparou e o estádio inteiro vibrou num rugido que sacudiu o próprio ar, cento e trinta mil pessoas gritando ao mesmo tempo numa energia que eu nunca tinha sentido antes, nem nas finais de estadual que joguei sonhando com aquele momento exato.O primeiro tempo passou equilibrado, os dois times estudando espaço, cada disputa carregando peso extra de quem sabia que um erro podia custar a taça inteira. Zero a zero no intervalo, Christian sentindo a perna já incomodada, Thiago examinando ele rápido no vestiário com aquela concentração profissional que eu já aprendera a admirar de um jeito que ia muito além do médico de time.O segundo tempo seguiu no mesmo ritmo tenso, nenhum gol, nenhuma folga, até o apito final do tempo normal empurrar tudo pra prorrogação. Sentia as pernas pesadas, o corpo inteiro gritando exaustão acumulada de noventa minutos inteiros mais a pressão de uma Copa inteira pesando nas costas.Christian mancava visivelmente, a dor na perna evide
POV: DanielAcordei antes do despertador, o quarto ainda escuro, a cortina deixando passar só um fiapo de luz que anunciava a manhã sem se comprometer de vez com ela. Thiago já tinha saído — reunião cedo com a comissão técnica, dessas que aconteciam mesmo nos dias de descanso do elenco. Quando rolei pro lado, vi uma mensagem discreta deixada no travesseiro ao lado, um bilhete rabiscado às pressas: "Não te acordei porque você dormia bonito demais. Te vejo depois da reunião. T."Passei a mão pelo espaço vazio da cama, ainda morno, o lençol amassado carregando o formato do corpo dele feito prova física de que a noite anterior tinha sido real e não só um sonho bom demais pra confiar.Fiquei ali, deitado sozinho, encarando o teto branco do quarto que já não era mais só o quarto de Thiago pra mim — tinha virado o único lugar do mundo onde eu conseguia respirar sem calcular cada movimento, sem medir cada palavra antes de dizer, sem precisar decidir qual versão de mim mesmo cada pessoa ao r
POV: DanielA madrugada tinha aquela qualidade rara de silêncio que só existe quando ninguém tem pressa, mas também ninguém sente necessidade de preencher o espaço com palavra nenhuma.Eu acordei, Thiago dormia ao meu lado, tranquilo, sereno.Estávamos achando um jeito só nosso de viver nosso amor em segredo, mais equilibrado sem pensar muito nos medos.Dei um beijo em seu peito. O cheiro dele era algo que eu não conseguia mais viver sem.Acabei acordando Thiago.— Dani, o que faz acordado?— Estou só te admirando.— Gosto disso. Mas você tem que descansar.— Você me relaxa. Com você eu respiro.— Quer dizer então que sou seu oxigênio?Sorri.— Você é tudo. — dei um beijo em sua boca. — Só não fique convencido.— Tarde demais.Ficamos deitados, de frente um pro outro, o quarto iluminado só pela luz fraca que escapava por baixo da porta do banheiro.Meus dedos traçavam linhas soltas no peito dele, sem propósito nenhum além do próprio movimento. Thiago tinha os olhos meio fechados, aque
POV: ThiagoParte 3 — O que fica depoisA noite avançou sem que eu prestasse atenção ao relógio.A iluminação do quarto pareceu forte demais, e Daniel se levantou para apagar a luz principal.O ambiente ficou tomado pela claridade discreta do abajur.Ele voltou para perto de mim.Passou os dedos pela minha nuca.— Está tudo bem mesmo? — perguntou.A preocupação na voz dele não tinha diminuído.Talvez tivesse até aumentado, porque agora havia mais intimidade entre nós do que quando ele chegara.— Está — respondi. — Mas você precisa parar de perguntar como se estivesse esperando que eu mude de ideia.Ele baixou os olhos.— Não estou esperando isso.— Então o que está esperando?Daniel demorou a responder.O polegar continuou desenhando movimentos lentos na minha nuca.— Não sei. Acho que estou tentando entender o que isso significa.A honestidade dele me fez respirar fundo.— Você precisa entender hoje?— Não.— Então não vamos transformar uma noite boa numa reunião.Ele soltou uma risad







