FAZER LOGINÉ hoje.Passei a noite inteira em claro. A ansiedade tomou conta de mim desde o instante em que Álvaro avisou que o casamento seria antecipado. Desde então, não consigo mais dormir direito. Viro de um lado para o outro na cama até o dia amanhecer.A fazenda estava cheia de parentes e amigos de dona Carmen. Tias, primos, primas… todo mundo veio prestigiar o casamento.E era estranho observar dona Carmen agora. Até poucos dias atrás, ela me chamou naquele escritório e falou comigo daquela forma cruel. Mas, na frente dos parentes, fingia ser quase uma mãe para mim. Tudo para manter as aparências e garantir que ninguém descobrisse a verdade sobre o testamento.— Ceci! — a voz de Catarina ecoou do lado de fora da casa.Levantei da cama e fui direto abrir a janela. Lá estava ela, com um sorriso enorme estampado no rosto.Sorri de volta e caminhei até a porta, abrindo espaço para que ela entrasse.— Bom dia — cumprimentei.Catarina entrou toda animada, praticamente dançando pela varanda.— É
Os sonhos que antes me assustavam agora me deixavam frustrada quando eu acordava e percebia que tinha sido apenas um sonho. Bem na hora em que ele ia me beijar, o Jericó cantou. Juro que me deu vontade de colocar aquele galo na panela.Terminei de pentear os cabelos com as lembranças da noite anterior rondando minha mente: o beijo que Álvaro deixou no meu rosto, o toque da sua mão na minha. Às vezes fico confusa, e chega a passar pela minha cabeça que ele também sente algo por mim… mas isso deve ser só caraminhola da minha cabeça.Sem querer me aperrear com esse assunto, fui preparar a canja da Sueli.Tomara que eu ainda esteja por aqui quando o bebê nascer… Como dona Carmen deixou bem claro que não vai me querer na fazenda quando esse casamento de mentira acabar, talvez eu nem possa ajudar Sueli a cuidar do bebezinho.Só de pensar nisso, meu peito se encheu de tristeza. Eu não queria deixar a fazenda, mas isso não estava em meu poder.— Bom dia!A voz de Álvaro tomou conta do ambiente
Os dias que passei no Rio de Janeiro foram esclarecedores para mim. Foi lá que tive certeza dos meus sentimentos por Cecília. A saudade que senti e a forma como ela tomava conta dos meus pensamentos, até mesmo nas reuniões mais importantes, não me deixaram mais espaço para negar o óbvio. Eu acordava pensando nela e dormia com ela na cabeça. Cecília surgia até nos pequenos detalhes do dia: no vento balançando os galhos das árvores diante do meu apartamento, nas músicas que eu ouvia, nos silêncios entre um compromisso e outro. E, no fim, eu só queria uma coisa: voltar correndo para a fazenda.A primeira coisa que fiz ao chegar hoje foi procurá-la, mas me vi frustrado — e, para minha irritação, tomado por ciúmes — quando Vitor me disse que ela havia saído com um amigo. Mateus. Ainda me custa acreditar que eu, um homem sempre tão controlado, tenha ficado naquela varanda por horas esperando seu retorno. Mas Vitor tinha razão: Cecília sentia algo por mim. Ainda assim, a ideia dela perto da
A noite estava linda. A lua cheia iluminava o caminho, e o vento tocava minha pele enquanto eu galopava devagar, sem pressa de chegar. Talvez eu só estivesse evitando entrar em casa e me sentir sozinha.A tarde com Mateus tinha sido boa. Relembrar os tempos da fazenda onde morávamos trouxe uma nostalgia dolorida… um tempo que não volta mais. Nunca mais.Fiquei me perguntando o que Álvaro estaria fazendo agora. Será que sentia minha falta? E se não quisesse mais voltar?Só de pensar nisso, um desespero apertava meu peito.Quem diria que eu ficaria assim… uma boba apaixonada. E logo por alguém totalmente fora da minha realidade.Oh, vida desgramada.Quando cheguei à fazenda, fui direto levar o Menino para a baia. Fiz carinho em sua cabeça antes de fechar a porteira.— Boa noite, Menino. Se comporta, viu?Saí do estábulo e, no meio do caminho, encontrei Cosmi. Perguntei por Sueli e prometi visitá-la no dia seguinte. Com toda aquela confusão dos últimos dias, nem tinha percebido que fazia
Uma Semana depois... Isso é o amor? Se isso é amor, então é o sentimento mais louco do mundo. E, se me dessem a chance de escolher não senti-lo… estranhamente, meu peito se aperta só de imaginar essa possibilidade. Então, mesmo se eu pudesse escolher entre amar ou não amar meu borra-botas, ainda assim escolheria amá-lo. A saudade tem me maltratado desde o dia em que soube que ele partiu para aquelas bandas do Rio de Janeiro. E tá aí outro sentimento desgraçado que também sabe machucar. Por mais que eu já conhecesse essa dor por causa da falta que meu pai faz… agora eu tô aqui, quase morrendo de saudade daquele infeliz do Álvaro. E, nessas horas, amaldiçoo a mim mesma por ficar igual uma tansa, sofrendo por aquele boco que nem sequer me ligou. Mas pra quê ele ligaria? Não sou nada além da futura esposa de mentira dele. Oh, martírio desgraçado em que fui me meter… Mas também foi bem feito para mim. Paguei pela minha língua. Cuspi pra cima e o cuspe voltou bem na minha cara.
Lembro que, há alguns meses, dona Carmen me chamou naquele mesmo escritório para confiar a mim a cozinha da casa. Foi naquele dia que vi Álvaro pela primeira vez… mas agora era diferente. O olhar dela sobre mim não era apenas firme; havia algo mais ali: intimidação e superioridade.Hoje eu estava tão nervosa quanto naquele dia. Talvez por pressentir que aquela conversa seria dura… cruel comigo.— Creio que já saiba o motivo de eu tê-la chamado aqui — quebrou o silêncio.Sua voz era firme e cortante.Na verdade, eu sabia. Mas preferi fingir que não, negando com um leve aceno de cabeça.Uma de suas sobrancelhas se arqueou, e um sorriso sem humor surgiu em seus lábios. Estava claro que ela não acreditava em mim.— Tudo bem. Vamos fingir que você realmente não sabe o motivo, então irei direto ao assunto — recostou-se na cadeira, acomodando-se melhor.Então, olhando fundo nos meus olhos, continuou:— Você sempre foi muito querida pelo Joaquim, e talvez tenha sido exatamente por isso que el







