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CAP 4

Author: Sah Quele
last update Petsa ng paglalathala: 2026-07-18 00:35:29

Mais um almoço em que Antonella ocupava sozinha o lugar à mesa. Mais uma vez, fingia que seu casamento permanecia intacto.

Constância observava a filha em silêncio. Havia muito deixara de acreditar nas desculpas que ela inventava para justificar a ausência de Felipe. Tentara convencê-la inúmeras vezes a pedir o divórcio, mas sem jamais mencionar a traição que sabia existir. Conhecia o caso do genro havia meses.

O que Antonella ignorava era que Rafaela — a enfermeira que a mãe de Felipe considerava uma amiga — era justamente a mulher com quem ele mantinha um relacionamento.

Constância repousou os talheres sobre o prato e encarou a filha.

— Seu marido vai acompanhá-la ao jantar com os diretores do banco, não vai?

Antonella ergueu os olhos devagar. Já esperava alguma ironia. A mãe nunca desperdiçava uma oportunidade de provocar.

Mesmo assim, respondeu com um sorriso ensaiado.

— Vai, sim. Ele confirmou presença.

Fez uma breve pausa antes de continuar.

— Também estou pensando em viajar para São Paulo com a minha sogra. Aproveito para deixar o Lorenzo alguns dias com a senhora e com o papai.

Constância assentiu.

— Acho uma ótima ideia. Seu pai vai adorar passar um tempo com o neto... nem que seja por apenas um dia.

Levantou-se da mesa.

— Vou pedir à Joana que nos traga um café.

Assim que a mãe deixou a sala, Antonella soltou lentamente o ar que nem percebera estar prendendo.

O silêncio parecia pesar toneladas.

Ela tinha certeza de que Constância conhecia toda a verdade. Conhecia as ausências de Felipe. Conhecia suas mentiras. Talvez até soubesse o nome da outra mulher.

Mas nunca dizia nada.

Porque havia prometido respeitar a decisão que a filha tomara anos antes.

Antonella caminhou até a varanda.

A chuva caía constante, desenhando pequenas ondas sobre o jardim.

Seu olhar se perdeu entre as gotas.

Onde Felipe estaria naquele momento?

Com quem?

Sua terapeuta insistia que era hora de abandonar aquele amor adolescente que ainda insistia em carregar.

Mas não era apenas amor.

Era orgulho.

Era vergonha.

Era admitir que sua mãe estivera certa desde o início.

"Ele nunca vai amar você."

Aquela frase ainda ecoava dentro dela como uma maldição.

Aceitar o divórcio significava aceitar que Constância sempre enxergara o que ela se recusara a ver.

Respirou fundo, enxugando discretamente os olhos antes que alguma lágrima escapasse.

Então caminhou até a varanda para brincar com Lorenzo e conversar com o pai.

***

Rafaela e Felipe permaneciam na cama, aproveitando cada minuto que tinham juntos.

A chuva continuava forte do lado de fora.

Felipe passaria mais uma noite ao lado da amante.

Mais cedo, telefonara para Helena avisando que permaneceria na cidade por causa do mau tempo. A mãe comentou que Antonella e Lorenzo haviam ido almoçar com os avós.

Ele apenas respondeu que ligaria para a esposa mais tarde.

— Felipe... já viu que horas são?

Rafaela murmurou, ainda abraçada a ele.

Os dois permaneciam nus sob os lençóis desarrumados.

— Só mais um pouco.

Ele sorriu, apertando-a contra o peito.

— Peço alguma coisa para almoçarmos. Assim você não precisa cozinhar.

Beijou-lhe a testa.

— Quero aproveitar cada segundo ao seu lado. Você esqueceu que vou passar dias sem te ver?

Puxou Rafaela sobre seu corpo, deslizando as mãos lentamente por suas costas.

Ela sorriu.

— Vou passar o fim de semana na casa dos meus pais.

Fez uma pequena pausa.

— Depois disso... tenho planos para nós dois.

Felipe arqueou uma sobrancelha.

— Planos?

Ela riu, divertida.

— Nem adianta perguntar. É surpresa.

Ele segurou seu rosto entre as mãos.

— E desde quando você sabe guardar segredos?

— Desde que descobri que adoro ver você curioso.

Ela roubou um beijo rápido.

— Agora levanta dessa cama. Ficamos tempo demais aqui.

Olhou pela janela.

— A chuva diminuiu. Podemos passear um pouco de carro.

Felipe finalmente se sentou.

— Depois do almoço podemos ir ao centro. Talvez naquela praça de que você tanto gosta.

Os dois, vez ou outra, conseguiam viver a ilusão de um casal comum.

Sempre longe de qualquer lugar onde Felipe pudesse encontrar alguém conhecido.

Era pouco.

Mas, para Rafaela, aqueles momentos bastavam para alimentar a esperança de um futuro ao lado dele.

— Então vamos tomar banho.

Ela entrelaçou os dedos nos dele.

— Depois você pede o almoço e saímos. Você sabe o quanto eu amo dias de chuva... principalmente quando posso dividi-los com você.

Sorrindo, puxou Felipe em direção ao banheiro.

***

Helena estava sentada na poltrona favorita do marido, aguardando a chegada da nora e do neto.

Felipe dissera que passaria mais uma noite na cidade por causa da chuva.

Ela fingira acreditar.

Mas, no fundo, desconfiava de que havia muito mais por trás daquela desculpa.

Ainda assim, preferia não interferir no casamento do filho.

Quando viu o carro de Antonella cruzar o portão da fazenda, levantou-se imediatamente para recebê-los.

***

— Mamãe... o papai vem hoje?

Depois de uma tarde inteira brincando com o avô Alessandro, Lorenzo começava a sentir sono.

Também sentia falta do pai.

Antonella sorriu com dificuldade.

— Não, meu amor. O papai teve muito trabalho e só volta amanhã.

As palavras queimaram em sua garganta.

Helena havia avisado que Felipe permaneceria mais um dia na cidade por causa da chuva.

Uma desculpa.

Antonella sabia exatamente onde ele estava.

E sabia com quem.

Desceu do carro, soltou o cinto da cadeirinha e pegou o filho no colo.

Enquanto caminhava até a sogra, percebeu o olhar triste que Helena lhe lançava.

Era um olhar carregado de culpa.

Como se ambas dividissem um segredo que nenhuma das duas tinha coragem de colocar em palavras.

***

Felipe e Rafaela caminhavam tranquilamente por um parque em Goiânia.

Depois do almoço, a chuva dera uma trégua, e ele decidira levá-la a um dos lugares de que ela mais gostava.

Raramente se arriscavam em locais públicos.

Mas, naquela tarde, Felipe queria proporcionar a Rafaela algumas horas de normalidade.

Estacionou o carro e a ajudou a descer.

Os dois seguiram de mãos dadas pela alameda quase vazia.

— Depois daqui podemos jantar naquele restaurante que você adora.

Rafaela lançou-lhe um olhar inseguro.

— Tem certeza de que isso não vai trazer problemas?

Felipe sorriu com tranquilidade.

— Sei exatamente onde podemos ir sem encontrar ninguém conhecido.

Aproximou-se e beijou sua testa.

— Hoje não quero pensar em mentiras, nem em medo.

Segurou sua mão com mais firmeza.

— Quero apenas viver esta tarde com você.

Rafaela sorriu.

E, por algumas horas, permitiu-se acreditar que aquele amor roubado poderia, um dia, deixar de viver escondido.

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