FAZER LOGINMais um almoço em que Antonella ocupava sozinha o lugar à mesa. Mais uma vez, fingia que seu casamento permanecia intacto.
Constância observava a filha em silêncio. Havia muito deixara de acreditar nas desculpas que ela inventava para justificar a ausência de Felipe. Tentara convencê-la inúmeras vezes a pedir o divórcio, mas sem jamais mencionar a traição que sabia existir. Conhecia o caso do genro havia meses.
O que Antonella ignorava era que Rafaela — a enfermeira que a mãe de Felipe considerava uma amiga — era justamente a mulher com quem ele mantinha um relacionamento.
Constância repousou os talheres sobre o prato e encarou a filha.
— Seu marido vai acompanhá-la ao jantar com os diretores do banco, não vai?
Antonella ergueu os olhos devagar. Já esperava alguma ironia. A mãe nunca desperdiçava uma oportunidade de provocar.
Mesmo assim, respondeu com um sorriso ensaiado.
— Vai, sim. Ele confirmou presença.
Fez uma breve pausa antes de continuar.
— Também estou pensando em viajar para São Paulo com a minha sogra. Aproveito para deixar o Lorenzo alguns dias com a senhora e com o papai.
Constância assentiu.
— Acho uma ótima ideia. Seu pai vai adorar passar um tempo com o neto... nem que seja por apenas um dia.
Levantou-se da mesa.
— Vou pedir à Joana que nos traga um café.
Assim que a mãe deixou a sala, Antonella soltou lentamente o ar que nem percebera estar prendendo.
O silêncio parecia pesar toneladas.
Ela tinha certeza de que Constância conhecia toda a verdade. Conhecia as ausências de Felipe. Conhecia suas mentiras. Talvez até soubesse o nome da outra mulher.
Mas nunca dizia nada.
Porque havia prometido respeitar a decisão que a filha tomara anos antes.
Antonella caminhou até a varanda.
A chuva caía constante, desenhando pequenas ondas sobre o jardim.
Seu olhar se perdeu entre as gotas.
Onde Felipe estaria naquele momento?
Com quem?
Sua terapeuta insistia que era hora de abandonar aquele amor adolescente que ainda insistia em carregar.
Mas não era apenas amor.
Era orgulho.
Era vergonha.
Era admitir que sua mãe estivera certa desde o início.
"Ele nunca vai amar você."
Aquela frase ainda ecoava dentro dela como uma maldição.
Aceitar o divórcio significava aceitar que Constância sempre enxergara o que ela se recusara a ver.
Respirou fundo, enxugando discretamente os olhos antes que alguma lágrima escapasse.
Então caminhou até a varanda para brincar com Lorenzo e conversar com o pai.
***
Rafaela e Felipe permaneciam na cama, aproveitando cada minuto que tinham juntos.
A chuva continuava forte do lado de fora.
Felipe passaria mais uma noite ao lado da amante.
Mais cedo, telefonara para Helena avisando que permaneceria na cidade por causa do mau tempo. A mãe comentou que Antonella e Lorenzo haviam ido almoçar com os avós.
Ele apenas respondeu que ligaria para a esposa mais tarde.
— Felipe... já viu que horas são?
Rafaela murmurou, ainda abraçada a ele.
Os dois permaneciam nus sob os lençóis desarrumados.
— Só mais um pouco.
Ele sorriu, apertando-a contra o peito.
— Peço alguma coisa para almoçarmos. Assim você não precisa cozinhar.
Beijou-lhe a testa.
— Quero aproveitar cada segundo ao seu lado. Você esqueceu que vou passar dias sem te ver?
Puxou Rafaela sobre seu corpo, deslizando as mãos lentamente por suas costas.
Ela sorriu.
— Vou passar o fim de semana na casa dos meus pais.
Fez uma pequena pausa.
— Depois disso... tenho planos para nós dois.
Felipe arqueou uma sobrancelha.
— Planos?
Ela riu, divertida.
— Nem adianta perguntar. É surpresa.
Ele segurou seu rosto entre as mãos.
— E desde quando você sabe guardar segredos?
— Desde que descobri que adoro ver você curioso.
Ela roubou um beijo rápido.
— Agora levanta dessa cama. Ficamos tempo demais aqui.
Olhou pela janela.
— A chuva diminuiu. Podemos passear um pouco de carro.
Felipe finalmente se sentou.
— Depois do almoço podemos ir ao centro. Talvez naquela praça de que você tanto gosta.
Os dois, vez ou outra, conseguiam viver a ilusão de um casal comum.
Sempre longe de qualquer lugar onde Felipe pudesse encontrar alguém conhecido.
Era pouco.
Mas, para Rafaela, aqueles momentos bastavam para alimentar a esperança de um futuro ao lado dele.
— Então vamos tomar banho.
Ela entrelaçou os dedos nos dele.
— Depois você pede o almoço e saímos. Você sabe o quanto eu amo dias de chuva... principalmente quando posso dividi-los com você.
Sorrindo, puxou Felipe em direção ao banheiro.
***
Helena estava sentada na poltrona favorita do marido, aguardando a chegada da nora e do neto.
Felipe dissera que passaria mais uma noite na cidade por causa da chuva.
Ela fingira acreditar.
Mas, no fundo, desconfiava de que havia muito mais por trás daquela desculpa.
Ainda assim, preferia não interferir no casamento do filho.
Quando viu o carro de Antonella cruzar o portão da fazenda, levantou-se imediatamente para recebê-los.
***
— Mamãe... o papai vem hoje?
Depois de uma tarde inteira brincando com o avô Alessandro, Lorenzo começava a sentir sono.
Também sentia falta do pai.
Antonella sorriu com dificuldade.
— Não, meu amor. O papai teve muito trabalho e só volta amanhã.
As palavras queimaram em sua garganta.
Helena havia avisado que Felipe permaneceria mais um dia na cidade por causa da chuva.
Uma desculpa.
Antonella sabia exatamente onde ele estava.
E sabia com quem.
Desceu do carro, soltou o cinto da cadeirinha e pegou o filho no colo.
Enquanto caminhava até a sogra, percebeu o olhar triste que Helena lhe lançava.
Era um olhar carregado de culpa.
Como se ambas dividissem um segredo que nenhuma das duas tinha coragem de colocar em palavras.
***
Felipe e Rafaela caminhavam tranquilamente por um parque em Goiânia.
Depois do almoço, a chuva dera uma trégua, e ele decidira levá-la a um dos lugares de que ela mais gostava.
Raramente se arriscavam em locais públicos.
Mas, naquela tarde, Felipe queria proporcionar a Rafaela algumas horas de normalidade.
Estacionou o carro e a ajudou a descer.
Os dois seguiram de mãos dadas pela alameda quase vazia.
— Depois daqui podemos jantar naquele restaurante que você adora.
Rafaela lançou-lhe um olhar inseguro.
— Tem certeza de que isso não vai trazer problemas?
Felipe sorriu com tranquilidade.
— Sei exatamente onde podemos ir sem encontrar ninguém conhecido.
Aproximou-se e beijou sua testa.
— Hoje não quero pensar em mentiras, nem em medo.
Segurou sua mão com mais firmeza.
— Quero apenas viver esta tarde com você.
Rafaela sorriu.
E, por algumas horas, permitiu-se acreditar que aquele amor roubado poderia, um dia, deixar de viver escondido.
Antonella permanecia na sala do apartamento da sogra enquanto Helena tomava banho. As duas haviam combinado de jantar em um restaurante próximo.Mais cedo, ela conversara com Antônio e Lorenzo. O menino confessara que sentia muita falta da mãe, e aquelas palavras ainda ecoavam em sua mente.Somente agora, sozinha, teve tempo para organizar os pensamentos depois de um dia tão conturbado.O encontro inesperado com Isadora não saía de sua cabeça.Durante anos, Antonella acreditou que havia vencido aquela disputa silenciosa. Fez de tudo para afastar Isadora da vida de Felipe, determinada a impedir que a jovem ocupasse qualquer espaço ao lado dele. No entanto, o destino parecia zombar de todos os seus esforços.Enquanto ela vivia presa a um casamento sustentado por mentiras, aparências e frustrações, Isadora seguira em frente.Pelo pouco que conseguira observar, a antiga garota de programa transformara completamente a própria história. Agora era uma mulher realizada, casada com um homem qu
Rafaela acordou antes de Felipe. O casal havia chegado de madrugada, e ele ainda dormia profundamente quando ela saiu da cama com todo o cuidado para não despertá-lo.Pegou a camisa dele, que estava sobre o sofá, vestiu-a e foi até o banheiro lavar o rosto. Ao voltar, abriu a porta do quarto silenciosamente e caminhou até a sala, lançando um olhar para o relógio na parede. Ainda era cedo.Decidiu esperar Felipe acordar para saber quais eram os compromissos do dia. Embora ele tivesse dito que aquela viagem seria para descansarem e comemorarem, ainda que com atraso, o aniversário dela, Rafaela sabia que os negócios sempre vinham antes do lazer.Foi até a varanda e observou o céu limpo daquela manhã. Talvez aproveitasse para passear pela cidade enquanto Felipe estivesse ocupado com Fernando. Durante o voo, ele já havia comentado que jantaria com o amigo naquela noite.A ideia de conhecê-lo ainda a deixava um pouco envergonhada, mas Felipe garantira que Fernando sabia da relação dos dois
Rafaela aguardava Felipe para buscá-la. Estava ansiosa com a viagem. Depois de tantos anos, voltaria a viajar ao lado dele, e isso a deixava nervosa e feliz ao mesmo tempo.Finalmente tinha conseguido uma semana de folga no hospital. Tudo estava organizado para a lua de mel que viveriam na Argentina. As roupas de frio já estavam na mala, e a expectativa de passar dias inteiros sozinha com Felipe em outro país fazia seu coração acelerar.Pela primeira vez, poderiam caminhar de mãos dadas, sem o medo constante de encontrar alguém conhecido.O celular vibrou.Era uma mensagem de Felipe.— Estou na garagem. Pode descer.Rafaela conferiu mais uma vez se portas e janelas estavam trancadas. Pegou a mala, a bolsa e saiu do apartamento.***Felipe aguardava dentro da caminhonete.Tudo estava preparado para aquela semana ao lado de Rafaela. Não havia deixado nenhuma pendência no trabalho; queria aproveitar cada minuto da viagem.Na volta, porém, teria outro compromisso.Pretendia ir até a cidad
Rafaela foi visitar os pais no meio da semana. Felipe estava ocupado com os afazeres da fazenda e, como o casal viajaria para a Argentina em alguns dias, a jovem decidiu passar um tempo com a mãe antes da viagem.— Filha, você vai viajar com uma colega do hospital?Flora perguntou enquanto preparava o lanche da tarde.— Sim. Vamos passar uma semana viajando. Nós duas conseguimos uma ótima promoção nas passagens.Rafaela respondeu com naturalidade, tentando impedir que a mãe desconfiasse de qualquer coisa. Ainda assim, Flora tinha a impressão de que a filha escondia algo.— Então aproveitem bastante. Se puder, compre algumas lembrancinhas para nós e tire muitas fotos.Rafaela se levantou, abraçou a mãe com carinho e sorriu.— Pode deixar. Vou aproveitar bastante. E a senhora não precisa se preocupar comigo.***— Papai, quando eu vou poder viajar com o senhor?Naquele dia, Lorenzo passeava a cavalo pela fazenda ao lado de Felipe.O empresário ficaria fora por uma semana novamente, e o
Felipe ouvia o pai conversar com Inácio, mas sua atenção permanecia presa à mulher abraçada ao marido.Anos depois, finalmente voltava a ver Isadora.Jamais imaginara que ela tivesse se casado justamente com Bruno. A revelação o atingiu como um golpe inesperado. Logo aquele homem... o ex-gerente que, anos atrás, vivia rondando Isadora na boate.O destino tinha um senso de humor cruel.Felipe manteve a expressão impassível, embora por dentro fosse tomado por uma inquietação difícil de controlar. Precisava falar com ela antes que a festa terminasse.— Felipe, seu pai estava me contando que você pretende expandir os negócios para algumas cidades do interior — comentou Inácio.Ele fez um esforço para se concentrar na conversa, mas seus olhos insistiam em procurar Isadora. Quando a viu afastar-se discretamente de Bruno e seguir pelo corredor, aproveitou a oportunidade.— Com licença. Preciso atender uma ligação.Sem esperar resposta, caminhou atrás dela.Isadora entrou no banheiro feminino
A semana passou com Rafaela no hospital e Felipe na fazenda, ao lado do filho. Quando finalmente voltou para casa, percebeu que a esposa estava diferente. Mais distante, mais silenciosa. Ela sorria, conversava, fazia tudo como sempre, mas havia algo em seu olhar que o incomodava.Felipe tentou convencer a si mesmo de que era apenas cansaço. Talvez fosse impressão sua.Enquanto falava com Rafaela ao telefone, preparava uma surpresa para o aniversário dela. Antes de sair para almoçar com os pais, ela receberia uma linda cesta de flores em seu apartamento. A joia que havia comprado seria entregue durante a viagem que fariam juntos. Queria que aquele momento fosse inesquecível.**O dia da festa amanheceu diferente.Lorenzo acordou reclamando de dor de cabeça e estava levemente febril.Preocupada, Antonella ligou para a pediatra, que foi até a fazenda examinar o menino.— É apenas uma virose leve — tranquilizou a médica. — Com repouso, bastante líquido e a medicação correta, ele ficará be







