Mag-log inO jantar na fazenda dos Martinelli transcorreu em um clima estranho. Lorenzo falava sem parar, arrancando sorrisos do avô, Antônio, que o ouvia com atenção e respondia a cada pergunta do neto. Enquanto isso, Helena e Antonella permaneciam em silêncio, mergulhadas em seus próprios pensamentos.
Felipe não voltou para casa, apesar da promessa feita ao filho. Para evitar que Lorenzo percebesse a ausência do pai, Antônio fazia o possível para distraí-lo, respondendo às inúmeras perguntas do menino.
— Meu amor, daqui a alguns dias vou a Goiânia me encontrar com o diretor do banco. O que acha de levarmos o Lorenzo? Podemos passar o dia com nosso neto, passear no shopping de que ele tanto gosta.
Helena voltou-se para a nora. Antonella remexia distraidamente a comida no prato, tão perdida em seus pensamentos que nem havia escutado o sogro.
— Filha, o que acha do convite? Você também podia ir conosco. Aproveitamos para comprar seu vestido aqui mesmo em Goiânia. Vai lhe fazer bem sair um pouco, espairecer. Como o Felipe vai viajar, acho que será um ótimo passeio.
Antonella ergueu os olhos lentamente. Forçou um sorriso para tranquilizar a sogra.
— Eu gostaria, sim. Vai ser bom passar um dia com vocês e com o Lorenzo.
***
Felipe e Rafaela chegaram ao apartamento tarde da noite. Depois de passarem o dia juntos, passeando por vários lugares e jantando no restaurante favorito dela, os dois voltavam com a leveza de um casal apaixonado.
— Que pena que o dia passou tão rápido.
Disse Rafaela enquanto entrava no quarto e começava a tirar a roupa.
Sentado na cama, Felipe observava cada movimento da amante. Ela pegou a toalha e caminhou em direção ao banheiro.
— Vamos repetir isso em breve, eu prometo. Enquanto você toma banho, vou responder algumas mensagens da Leila. Depois eu entro.
Rafaela aproximou-se, deu-lhe um selinho demorado e desapareceu atrás da porta do banheiro.
Felipe pegou o celular. Leila confirmava a viagem da semana seguinte: seriam cinco dias fora. Se tudo corresse como planejado, voltaria praticamente na véspera da festa do banco. Ainda precisaria encontrar o diretor mais uma vez, mas, dessa vez, Antônio assumiria parte dos compromissos.
Depois das mensagens da secretária, abriu as da mãe.
Helena perguntava se ele estava trabalhando demais. Dizia que Lorenzo sentia sua falta, perguntava pelo pai o tempo todo e torcia para que ele voltasse logo para casa.
Por alguns instantes, Felipe ficou pensativo.
Imaginava como seria sua vida depois do divórcio. Sonhava em assumir Rafaela publicamente, sem precisar esconder o relacionamento. Sabia que Helena jamais aceitaria aquela decisão. Para ela, abandonar a esposa significaria manchar o nome da família Martinelli.
Mas aquilo já não tinha importância.
Do banheiro vinha a voz de Rafaela cantarolando despreocupadamente.
Felipe sorriu, levantou-se, tirou a roupa e decidiu se juntar a ela.
**
Na tarde seguinte, Felipe entrou na estrada que levava à fazenda.
Havia deixado o apartamento de Rafaela logo após o almoço. Ela passaria o restante do dia trabalhando, enquanto ele dedicaria a semana ao filho.
Antes de sair, avisara Leila de que só queria ser interrompido em caso de extrema necessidade.
Ao passar pelos pastos, observou os peões conduzindo o gado. Aquela paisagem sempre lhe trazia uma sensação de paz.
Estacionou em frente à casa e mal desligou o motor quando viu Lorenzo correndo pelo jardim.
— Meu papai chegou!
O menino lançou-se em seus braços com tanta força que Felipe quase perdeu o equilíbrio.
— O papai chegou e vai ficar com o meu campeão o resto da semana. Agora me diga... onde estão sua mãe e seus avós?
Com Lorenzo no colo, entrou na casa e acomodou-se na antiga poltrona do avô.
— Eu almocei na fazenda da vovó e do vovô!
O menino começou a contar cada detalhe, interrompendo a história apenas para perguntar onde o pai havia estado.
Felipe respondia com paciência, inventando justificativas simples para que o filho não percebesse o quanto ele estivera ausente.
Nesse momento, Antonella desceu as escadas.
Ao encontrar pai e filho conversando e rindo juntos, aproximou-se discretamente.
— Você chegou faz muito tempo?
— Acabei de entrar. Minha mãe está na cozinha?
— Está, sim.
— Vou apenas trocar a roupa. Vamos comigo, campeão?
Lorenzo estendeu imediatamente os braços.
Felipe o ergueu e saiu fazendo aviãozinho pelo corredor. A gargalhada do menino encheu a casa.
Antonella permaneceu parada, observando a cena.
Era impossível não perceber.
Todo aquele carinho, toda aquela alegria, aquele sorriso espontâneo... pertenciam apenas ao filho.
Jamais a ela.
Sentiu um aperto silencioso no peito e desviou o olhar antes que alguém percebesse seus olhos marejados.
**
Os dias seguintes passaram rapidamente.
Felipe dedicava toda a atenção a Lorenzo. Com Rafaela, mantinha contato apenas por mensagens.
No fim de semana, ela ficaria na casa dos pais, enquanto ele organizaria os preparativos para a viagem.
Na cozinha, Flora ajudava a filha a preparar o almoço.
— Filha, por que você não larga o hospital particular? Você já trabalha no serviço público. Não precisa se sobrecarregar.
Rafaela sorriu enquanto cortava os legumes.
— Mãe, eu amo os dois lugares. O hospital faz parte da minha história, e trabalhar na emergência me faz sentir útil. São experiências diferentes, mas igualmente importantes para mim.
Flora apenas assentiu.
Sabia que insistir não mudaria a decisão da filha.
— Vou deixar a senhora terminar aqui. Está muito quente, e quero me refrescar antes do almoço.
***
Felipe terminava de arrumar a mala.
Na manhã seguinte embarcaria para a Argentina.
Sentado no tapete, Lorenzo brincava distraído com o celular do pai enquanto Felipe conferia documentos, passagens e contratos.
Se resolvesse tudo rapidamente, voltaria antes do previsto. Assim poderia passar dois dias inteiros com Rafaela.
O aniversário dela se aproximava.
Talvez preparasse uma surpresa.
Quem sabe uma viagem romântica logo após a festa do banco.
Perdido nesses pensamentos, não percebeu quando Antonella entrou no quarto.
— Você precisa de ajuda?
Felipe nem levantou os olhos.
— Não. Já estou terminando. Depois vou brincar um pouco com o Lorenzo.
Ele fechou a mala, colocou-a sobre o sofá e conferiu novamente a pasta de documentos.
Antonella sentou-se ao lado do filho.
Hesitou por alguns segundos antes de perguntar:
— Você volta antes da festa do banco, não é?
Felipe respondeu enquanto organizava os últimos papéis.
— Sim. Pode ficar tranquila. Estarei de volta. Afinal, meu avô também está envolvido nessa parceria.
Sem acrescentar mais nenhuma palavra, aproximou-se do filho, pegou delicadamente o celular de suas mãos, guardou-o no bolso e o colocou nos braços.
— Vamos brincar lá fora, campeão?
Os dois desceram para o jardim.
Antonella permaneceu imóvel no quarto.
O silêncio que Felipe deixava para trás era mais doloroso do que qualquer discussão.
Ela já não era sua companheira.
Era apenas alguém que dividia a mesma casa.
Respirando fundo, caminhou até o banheiro. Abriu a torneira e deixou a água fria escorrer sobre o rosto.
Quando ergueu a cabeça diante do espelho, tentou desenhar um sorriso.
Precisava parecer bem.
Não queria que Helena percebesse o vazio que, a cada dia, consumia um pouco mais seu coração.
Restava-lhe apenas uma esperança.
Talvez, depois da festa, Felipe voltasse a olhá-la como um dia olhou.
Mesmo que, no fundo, ela já começasse a temer que aquele homem tivesse desaparecido para sempre.
Antonella saiu do bar com o coração acelerado. A proximidade daquele jovem a deixava estranhamente nervosa. Enquanto caminhava até o estacionamento, percebeu que Gustavo vinha logo atrás, mantendo uma distância respeitosa.Ela havia saído apenas para espairecer, mas acabara encontrando alguém que despertara dentro dela uma sensação que acreditava estar adormecida havia anos.— Acho que você já pode voltar. Não preciso de escolta até o meu carro.Ela falou com delicadeza, sem soar grosseira.Gustavo sorriu.— Eu sei. Mas me sentiria mais tranquilo se visse você entrar no carro em segurança. Mesmo com esse movimento todo, nunca se sabe.Antonella balançou a cabeça, quase rindo.— Você sempre é tão teimoso?— Só quando acho que vale a pena.Ela desviou o olhar para esconder o sorriso involuntário.Ao chegarem ao carro, Antonella apertou o controle da chave, destrancando as portas.Virou-se para ele.— Pronto. Cheguei. Agora pode voltar.— Posso pedir uma coisa antes?Ela arqueou uma sobr
Helena reclamou de dor de cabeça depois do jantar, e Antonella voltou com a sogra para o apartamento de Felipe. Assim que chegaram, Helena avisou que iria dormir, deixando a nora sozinha, atormentada pela ideia de que o marido estava com outra mulher enquanto ela passava a noite na companhia da sogra.Antonella olhou o relógio. Ainda era cedo. Precisava sair um pouco, respirar e colocar os pensamentos em ordem. Rever Isadora havia despertado questionamentos que ela tentava ignorar havia muito tempo.Como um encontro tão simples podia fazer alguém perceber que a vida que levava era apenas uma ilusão?Escreveu um bilhete para Helena, avisando que daria uma volta de carro pela cidade e que voltaria antes de ficar muito tarde.Parou diante do espelho da entrada. Vestia uma saia jeans, uma blusa de botões e as botas que sempre usava. Pegou a bolsa, as chaves do carro e o celular, seguindo para o elevador sem destino definido. Queria apenas ficar sozinha, longe da sogra e de qualquer pessoa
Antonella permanecia na sala do apartamento da sogra enquanto Helena tomava banho. As duas haviam combinado de jantar em um restaurante próximo.Mais cedo, ela conversara com Antônio e Lorenzo. O menino confessara que sentia muita falta da mãe, e aquelas palavras ainda ecoavam em sua mente.Somente agora, sozinha, teve tempo para organizar os pensamentos depois de um dia tão conturbado.O encontro inesperado com Isadora não saía de sua cabeça.Durante anos, Antonella acreditou que havia vencido aquela disputa silenciosa. Fez de tudo para afastar Isadora da vida de Felipe, determinada a impedir que a jovem ocupasse qualquer espaço ao lado dele. No entanto, o destino parecia zombar de todos os seus esforços.Enquanto ela vivia presa a um casamento sustentado por mentiras, aparências e frustrações, Isadora seguira em frente.Pelo pouco que conseguira observar, a antiga garota de programa transformara completamente a própria história. Agora era uma mulher realizada, casada com um homem qu
Rafaela acordou antes de Felipe. O casal havia chegado de madrugada, e ele ainda dormia profundamente quando ela saiu da cama com todo o cuidado para não despertá-lo.Pegou a camisa dele, que estava sobre o sofá, vestiu-a e foi até o banheiro lavar o rosto. Ao voltar, abriu a porta do quarto silenciosamente e caminhou até a sala, lançando um olhar para o relógio na parede. Ainda era cedo.Decidiu esperar Felipe acordar para saber quais eram os compromissos do dia. Embora ele tivesse dito que aquela viagem seria para descansarem e comemorarem, ainda que com atraso, o aniversário dela, Rafaela sabia que os negócios sempre vinham antes do lazer.Foi até a varanda e observou o céu limpo daquela manhã. Talvez aproveitasse para passear pela cidade enquanto Felipe estivesse ocupado com Fernando. Durante o voo, ele já havia comentado que jantaria com o amigo naquela noite.A ideia de conhecê-lo ainda a deixava um pouco envergonhada, mas Felipe garantira que Fernando sabia da relação dos dois
Rafaela aguardava Felipe para buscá-la. Estava ansiosa com a viagem. Depois de tantos anos, voltaria a viajar ao lado dele, e isso a deixava nervosa e feliz ao mesmo tempo.Finalmente tinha conseguido uma semana de folga no hospital. Tudo estava organizado para a lua de mel que viveriam na Argentina. As roupas de frio já estavam na mala, e a expectativa de passar dias inteiros sozinha com Felipe em outro país fazia seu coração acelerar.Pela primeira vez, poderiam caminhar de mãos dadas, sem o medo constante de encontrar alguém conhecido.O celular vibrou.Era uma mensagem de Felipe.— Estou na garagem. Pode descer.Rafaela conferiu mais uma vez se portas e janelas estavam trancadas. Pegou a mala, a bolsa e saiu do apartamento.***Felipe aguardava dentro da caminhonete.Tudo estava preparado para aquela semana ao lado de Rafaela. Não havia deixado nenhuma pendência no trabalho; queria aproveitar cada minuto da viagem.Na volta, porém, teria outro compromisso.Pretendia ir até a cidad
Rafaela foi visitar os pais no meio da semana. Felipe estava ocupado com os afazeres da fazenda e, como o casal viajaria para a Argentina em alguns dias, a jovem decidiu passar um tempo com a mãe antes da viagem.— Filha, você vai viajar com uma colega do hospital?Flora perguntou enquanto preparava o lanche da tarde.— Sim. Vamos passar uma semana viajando. Nós duas conseguimos uma ótima promoção nas passagens.Rafaela respondeu com naturalidade, tentando impedir que a mãe desconfiasse de qualquer coisa. Ainda assim, Flora tinha a impressão de que a filha escondia algo.— Então aproveitem bastante. Se puder, compre algumas lembrancinhas para nós e tire muitas fotos.Rafaela se levantou, abraçou a mãe com carinho e sorriu.— Pode deixar. Vou aproveitar bastante. E a senhora não precisa se preocupar comigo.***— Papai, quando eu vou poder viajar com o senhor?Naquele dia, Lorenzo passeava a cavalo pela fazenda ao lado de Felipe.O empresário ficaria fora por uma semana novamente, e o







