FAZER LOGINPAUL
Convocamos uma reunião extraordinária com acionistas e novos compradores, pois a Silver Moon Estate, nossa vinícola no Oregon, dirigida pelo tio Peppe, estava apresentando resultados inesperados. Historicamente, sempre produziu com excelência, entrelaçando a tradição italiana ao solo americano, mas a situação atual era diferente. — O aumento nas vendas era apenas a ponta do iceberg; uma transformação na identidade da vinícola chamava a atenção de todos, como uma mariposa que, ao se transformar em borboleta, revelava cores vibrantes. A sala estava cheia de empreendedores atentos, potenciais compradores em busca de contratos exclusivos, e representantes de restaurantes renomados, que apreciavam nossos espumantes como a cereja do bolo em seus pratos autorais. — Enquanto observava tudo em silêncio, Peppe me lançou um olhar significativo, como se dissesse que ele tinha um trunfo na manga. Um acionista, inclinando-se na cadeira, questionou Peppe: — Como a Silver Moon conseguiu essa transformação nos últimos dois anos? —Sempre fomos bons, mas agora estamos... superiores, o que está acontecendo lá? Peppe, cruzando as mãos sobre a mesa e apreciando o momento, respondeu: — Vocês realmente desejam saber? Alguns riram, atentos à expectativa, ele virou-se para mim, revelando o enigma: — Há três anos, uma italiana chegou à nossa vinícola, jovem, e com muita disposição para trabalhar, com poucos meses descobriu está grávida, mesmo com uma barriga enorme, atrapalhou até o bambino nascer. Ergui a cabeça, intrigado: — Italiana? — Sim, jovem e determinada. Começou como colona na coleta de uvas. — Observava tudo atentamente, como um maestro analisando sua orquestra, e logo começou a levantar questões e fazer reclamações. Na sala, algumas pessoas esboçaram sorrisos, divertidos pela ideia: — Reclamar? — Ela disse que nossas parreiras eram tratadas como números, e não como seres vivos, como se fossem apenas máquinas a produzir uvas. — Afirmou que a poda era feita na época errada, que a terra precisava de descanso para se recuperar, e que a lua influenciava mais do que uma simples planilha de produção, como as marés afetam o movimento do oceano. Um dos investidores soltou uma risada baixa: — Lua? Peppe sorriu satisfeito e explicou: — Ela comentou que as uvas têm um tempo apropriado para amadurecer, como um filme que precisa de tempo para se desenvolver. — Existem dias específicos para a colheita; não se deve arrancar a fruta como se fosse um lucro imediato. — No começo, achei sua abordagem ousada, mas comecei a observar e refletir sobre suas palavras. Ele se inclinou para frente, enfatizando a importância da abordagem: — Ela ensinou os funcionários a colher as uvas como se estivessem lidando com algo sagrado, comparando o processo a um artista moldando sua obra-prima. — Ela destacou que não se deve empilhar as caixas de qualquer jeito ou esmagar as frutas antes do tempo; assim como um chef respeita cada ingrediente, deve-se respeitar a uva, e então, ela olhou para mim e afirmou que nosso vinho se parecia com vinagre. A sala caiu em silêncio, levantei uma sobrancelha, surpreso: — Ela falou assim com o senhor? — Disse, diretamente na minha frente, sem hesitar. Alguns riram novamente, mas Peppe continuou: — Ela demonstrou como o vinho era produzido na vinícola de seus pais, destacando o respeito pelos métodos tradicionais. — Era como ensinar a cozinhar um prato clássico, enfatizando a importância da fermentação natural controlada e do tempo adequado de descanso. — Focou na importância do respeito pela madeira dos barris, dizendo que a paciência é como o tempo necessário para assar um pão perfeito: a pressa não tem lugar na vinificação de qualidade. Peppe respirou fundo: — Gradualmente, comecei a testar em pequenos lotes, como um cientista que ajusta sua fórmula. — O resultado? Nossos espumantes passaram a ser utilizados na culinária de alto padrão: reduções, molhos e harmonizações específicas. Com essa abordagem, não estávamos apenas oferecendo bebidas; estávamos elevando a experiência gastronômica ao integrá-las como ingredientes essenciais nas criações de chefs renomados, como um artista que usa as melhores tintas para sua tela. Eu me recostei na cadeira e perguntei: — E ela? — Eu a promovi a enóloga — respondeu Peppe com um brilho nos olhos. — Mas ela não se contenta em ficar apenas no escritório. Assim como um maestro em uma orquestra, ela vai ao parreiral, ensina, exige resultados e supervisiona pessoalmente a primeira coleta. — Para ela, a liderança é como cultivar um jardim: se constrói com as mãos sujas de terra, numa plantação que requer dedicação constante e um entendimento profundo do terroir. Um dos compradores fez uma observação: — Isso explica o caráter artesanal, porém limita a escala. — Exatamente — confirmou Peppe. — Por isso não firmamos contratos de grande volume. — Produzir em massa seria como tentar encher um balde com um vazamento; não é viável. —O verdadeiro valor está na exclusividade, no cuidado que colocamos em cada garrafa, em cada lote que representa o nosso compromisso com a qualidade. Permanecei em silêncio por alguns segundos e, então, perguntei: — Qual é o nome dessa jóia? Peppe sorriu de canto e respondeu: — Gio. O nome passou por mim como um eco distante, mas não se fixou, pensei: Giovanna, talvez. Um dos investidores questionou: — Ela possui formação acadêmica? — Não no sentido formal — respondeu Peppe. — Mas possui algo que nenhuma universidade pode ensinar: um profundo respeito pela terra e um instinto aguçado. — É esse entendimento intuitivo que lhe permite criar vinhos que não são apenas agradáveis ao paladar, mas que também contam uma história, como os aromas que mudam conforme as estações. Ele fez uma pausa antes de acrescentar: — Ela chegou grávida, trabalhou até o final da gestação e retornou três meses depois, carregando o menino nas costas, se necessário. — Essa determinação dela é admirável e reflete a paixão que ela tem por este trabalho, como um agricultor que semeia suas plantas com carinho, mesmo em tempos difíceis. Algo dentro de mim se agitou, embora eu não conseguisse explicar o porquê. — Eu sentia que aquela reunião não era apenas mais um encontro de negócios; havia um peso emocional nas palavras de Peppe, como um eco distante que ressoa nas montanhas, representando uma conexão profunda com algo maior. Encerramos a reunião com contratos seletivos e estratégicos, focando em restaurantes especializados, não discutimos volumes, mas sim o valor. Assim que os investidores deixaram o local, fiquei sozinho com Peppe, refletindo sobre o impacto que tudo aquilo poderia ter, como uma onda em um lago tranquilo que se expande e altera a superfície. — Você precisa visitar o Oregon — afirmou ele. — Ver o que está se desenrolando lá. Conhecer essa força da natureza. Forcei um sorriso ameno: — E você está orgulhoso. — Estou muito curioso para observar sua reação ao conhecer a Gio, ela é uma força da natureza.. — Por quê? Ele apenas deu de ombros: — Porque algumas pessoas têm o poder de transformar uma vinícola. — Outras têm a capacidade de mudar destinos inteiros, e a Gio, está transformando nossa vinícola em algo grande. — Pense em como certas vinícolas se tornaram verdadeiros pontos turísticos, onde o prazer de degustar vinho se entrelaça com experiências sensoriais e culturais, como um artista que, com cada pincelada, transforma uma tela comum em uma obra-prima. Eu não disse nada, mas algo dentro de mim indicava que aquela viagem seria muito mais do que apenas uma apreciação do vinho. — Era como se o próprio Oregon estivesse chamando, oferecendo promessas de novas descobertas, assim como um mapa misterioso que promete aventuras incríveis a quem se atreve a segui-lo.FLORESCER DE UMA NOVA GERAÇÃODezesseis anos.Às vezes, eu ainda me surpreendo profundamente quando paro para pensar em tudo o que acontece desde o dia em que fujo daquela igreja na Itália, vestida de noiva e tomada pelo desespero, e entro no carro de um completo desconhecido que, contra todas as probabilidades, acaba se tornando o grande e único amor da minha vida.Hoje, a nossa mansão na Toscana se mostra um pouco mais silenciosa do que costuma ser nos tempos passados. Não porque tenha menos gente circulando pelos corredores, mas porque os nossos filhos crescem e começam a trilhar os seus próprios caminhos no mundo. O Felipo agora está na universidade e se prepara com muita dedicação para assumir parte dos negócios de exportação da família. Os trigêmeos já estão terminando o High School e discutem todas as noites, ao redor da mesa de jantar, qual carreira desejam seguir. O Francesco fala com entusiasmo em cursar administração; a Luísa sonha acordada em
A FAMÍLIA QUE ESCOLHEMOSCinco anos haviam se passado desde o meu casamento com Paul, e às vezes eu ainda me pegava observando nossa vida com uma sensação de gratidão difícil de explicar. Tudo aquilo que parecia impossível quando fugi da Toscana havia se transformado em realidade. Nossas vinícolas prosperavam, e o método artesanal que eu tanto defendia agora era utilizado em todas as propriedades da família. Paul continuava administrando os grandes negócios do grupo, mas a produção das vinícolas ficou sob meus cuidados e os de tio Giuseppe. Meu irmão tornou-se nosso sócio na Itália e administrava pessoalmente as propriedades da Toscana, algo que fazia com orgulho e competência.Nossa família também cresceu e se fortaleceu. Os trigêmeos eram uma verdadeira força da natureza. Francesco, Luísa e Lucrécia enchiam a casa de alegria, bagunça e risadas do amanhecer até a hora de dormir. Já Felipo, que estava com quase oito anos, acreditava sinceramente que era responsável
Nesse meio tempo, a Sabine é julgada perante o tribunal italiano e condenada a longos anos de prisão pelo crime de tentativa de sequestro internacional e invasão. As notícias do escândalo tomam conta de todas as redes sociais e portais do mundo. Durante semanas seguidas, jornais influentes, programas de televisão de grande audiência e colunas da alta sociedade discutem os detalhes sórdidos do crime que ela comete na nossa propriedade.E, pela primeira vez na história desse folhetim público, ninguém ousa culpar a Gioconda por nada. Ninguém questiona a minha reputação de mãe, ninguém inventa mentiras sobre o meu passado e ninguém cria teorias da conspiração. As pessoas finalmente enxergam a psicopatia e a maldade real de quem a Sabine sempre é por trás das aparências. A verdade vence o jogo de forma esmagadora.Por outro lado, os meus pais biológicos continuam tentando uma reaproximação forçada conosco. Eles telefonam de números diferentes, mandam
CAPÍTULO — A NOSSA FELICIDADEQuinze dias depois, finalmente recebo alta médica. Os trigêmeos também. Depois de tantas noites em claro naquele quarto de hospital, tantos exames de rotina, tantas preocupações com o ganho de peso e tantas visitas emocionadas à incubadora do berçário, nós finalmente estamos indo para casa. Nossa casa. O nosso verdadeiro lar. O lugar abençoado onde a nossa família começa, de fato, uma nova e limpa etapa de vida.O Felipo está tão animado com a nossa chegada que mal consegue ficar parado no mesmo lugar. Assim que entramos pelos grandes portões, o meu menino corre de um lado para o outro da mansão, eufórico, querendo mostrar cada canto do jardim e dos quartos aos irmãos recém-nascidos, como se os três pequenos realmente entendam alguma coisa de arquitetura.— Mama! Bambini! — ele grita, apontando para os bebês nos nossos braços.Eu rio da sua empolgação genuína.— Sim, amore mio. Os seus irmãos finalmente cheg
ESCUDO DO AMORAssim que tenho a certeza absoluta de que o Felipo está perfeitamente seguro e bem protegido, respiro fundo pela primeira vez desde que recebo aquele telefonema desesperado. O meu filho ainda está visivelmente assustado no colo do tio Pepe, a minha cunhada continua chorando copiosamente no sofá da sala e o meu cunhado Valentino parece pronto para sair da propriedade e procurar a Sabine com as próprias mãos para fazer justiça.Levanto uma das mãos, gesticulando para pedir serenidade a todos eles.— Não contém absolutamente nada sobre essa invasão e sobre o susto para a Gioconda — ordeno, com o olhar fixo neles.Os dois me olham imediatamente, com expressões de dúvida.— Mas Paul... ela é a mãe, precisa saber... — Valentino tenta intervir.— Não — balanço a cabeça de forma negativa, cortando qualquer possibilidade de debate. — Ela acaba dando à luz os nossos trigêmeos. O corpo dela está frágil, ela está se
ÚLTIMO ATO DA INSÂNIAEnquanto permaneço no quarto do hospital desfrutando daquela paz inédita, Paul cumpre a sua palavra e segue direto para a sede da empresa para assinar os documentos de exportação. O clima na mansão, na Toscana, é de aparente tranquilidade, mas nos arredores da propriedade, o perigo ronda silenciosamente.Sabine não aceita a derrota. Consumida por um ódio doentio e obsessivo, ela arquiteta um plano desesperado. Usando roupas simples, um lenço amarrado na cabeça e o uniforme característico das trabalhadoras da vinícola que descobre em um varal da região, ela consegue se misturar ao fluxo de funcionários que entram e saem para o manejo diário das videiras. A sua presença passa despercebida pela segurança periférica, que está acostumada com a movimentação intensa da colheita.No jardim da frente, o pequeno Felipo brinca alegremente com os primos, os filhos de Valentino. A cunhada de Gioconda supervisiona a brincadeira das crianças sob o







