INICIAR SESIÓNC
Helena leu o bilhete mais uma vez. Depois outra. Como se, em algum momento, as palavras pudessem mudar. Mas elas continuavam ali. Negras. Frias. Ameaçadoras. "Não se case com Dante Valenti. Você não faz ideia de quem ele realmente é." Ela segurava o papel entre os dedos enquanto permanecia parada no meio da sala. O silêncio do apartamento parecia mais pesado do que antes. Durante todo o dia, Helena tinha tentado entender Dante. O homem por trás das notícias. Por trás da fama de CEO implacável. Por trás da expressão sempre controlada. E, pela primeira vez, alguém dizia que havia algo escondido. Um segredo. Ela deveria contar a ele. Essa seria a atitude mais lógica. Mas uma pergunta a impediu: E se o bilhete fosse verdade? Helena caminhou até a mesa e colocou o papel dentro de uma pasta. Não era porque confiava no remetente. Também não era porque desconfiava completamente de Dante. Era porque ainda não sabia em quem confiar. E essa talvez fosse a parte mais perigosa. --- Na manhã seguinte, Helena chegou à Montenegro antes do horário habitual. Precisava se concentrar. Precisava lembrar que, antes de qualquer casamento, antes de qualquer contrato, havia uma empresa dependendo dela. Mas não conseguiu evitar. A imagem de Dante protegendo-a diante dos fotógrafos continuava voltando à sua mente. O gesto tinha sido real. A preocupação nos olhos dele também. Então por que alguém tentaria alertá-la? — Você parece estar em outro lugar. A voz de Ricardo fez Helena levantar o olhar. Ele entrou na sala carregando alguns documentos. — Estou apenas cansada. Ricardo não pareceu convencido. Ele conhecia Helena há anos. Sabia quando ela escondia alguma coisa. — Aconteceu algo depois da entrevista? Por um momento, ela pensou em contar. Mas parou. — Não. A resposta saiu rápido demais. Ricardo percebeu. Mas decidiu não pressionar. — A parceria com a Valenti já começou a trazer resultados. Alguns fornecedores voltaram a conversar conosco. Helena respirou aliviada. Pelo menos uma parte daquele acordo estava funcionando. — Ótimo. Ela olhou para os documentos. — Vamos usar essa oportunidade para recuperar a confiança do mercado. Ricardo sorriu. — Eu sabia que você conseguiria. Helena sorriu de volta. Mas, por dentro, a dúvida permanecia. --- No final da tarde, Helena recebeu uma mensagem de Dante. "Precisamos conversar sobre a convivência durante o contrato." Ela encarou a tela. Ainda não estava acostumada com a forma direta dele. Sem introduções. Sem explicações. Apenas informações. "Onde?" A resposta chegou rapidamente. "Na cobertura." Helena respirou fundo. A cobertura. O lugar onde, oficialmente, começariam a construir a imagem de um casal. --- Quando chegou, percebeu que o espaço era diferente do que imaginava. Não havia luxo exagerado. Era elegante. Organizado. Mas tinha uma característica marcante: Tudo parecia perfeitamente planejado. Como Dante. Ele estava na sala, analisando alguns documentos. — Você chegou. Helena tirou o casaco. — Você sempre recebe as pessoas como se estivesse começando uma reunião? Dante levantou os olhos. — Você sempre faz comentários antes de sentar? Ela quase sorriu. Quase. — Talvez. Ele indicou o sofá. Sobre a mesa havia uma pasta. Helena abriu. — Regras de convivência? — Sim. Ela começou a ler. Respeito à privacidade. Participação em eventos públicos quando necessário. Manutenção da imagem do casal perante a imprensa. Tudo parecia exatamente como ela esperava. Frio. Organizado. Calculado. Até chegar à última cláusula. Ambos terão liberdade para manter suas próprias rotinas e escolhas pessoais. Helena ergueu o olhar. — Você colocou isso aqui? — Sim. — Por quê? Dante pareceu surpreso com a pergunta. — Porque um acordo não deve significar perda de liberdade. Ela ficou em silêncio. A resposta não combinava com a imagem que ela tinha criado dele. — Você sempre pensa em tudo? — Tento. — Deve ser cansativo. Pela primeira vez, ela viu uma pequena mudança no rosto dele. Quase imperceptível. Como se aquela frase tivesse tocado em algo pessoal. — Às vezes. A resposta simples a surpreendeu. Antes que pudesse continuar, o celular dele tocou. Dante olhou para a tela. A expressão mudou. Não completamente. Mas o suficiente para Helena perceber. Ele ficou sério. Mais sério do que o normal. — Preciso sair. Ela observou. — Agora? — Sim. Dante pegou o paletó. — Aconteceu alguma coisa? Ele hesitou. Por um segundo, pareceu pensar em responder. Mas escolheu o silêncio. — É uma questão de trabalho. Helena assentiu. Mas sabia reconhecer quando alguém escondia algo. E Dante Valenti escondia muitas coisas. --- Mais tarde naquela noite, Helena estava na sala quando ouviu o som de um carro deixando a garagem. Ela caminhou até a janela. Dante saía sozinho. Sem motorista. Sem segurança. Algo dentro dela dizia que aquilo não era uma simples reunião de trabalho. Ela sabia que não deveria segui-lo. Sabia que invadir a privacidade dele ultrapassava os limites do contrato. Mas a curiosidade venceu. Pegou um casaco e saiu discretamente. Manteve distância. O carro de Dante parou diante de um restaurante reservado em uma área pouco movimentada da cidade. Ela observou de longe. Dante entrou. Alguns minutos depois, um homem apareceu. Helena não conseguia ouvir a conversa. Mas viu a postura de Dante. Não era uma reunião comum. Era uma conversa entre pessoas que carregavam um problema. Dentro do restaurante, o homem colocou uma pasta sobre a mesa. — Ela já assinou o contrato? Dante permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu: — Sim. O homem abriu a pasta. — Então o plano começou. Dante ficou sério. — Ela não pode descobrir a verdade agora. Helena sentiu o coração acelerar. Verdade? Plano? Sobre o que eles estavam falando? O homem continuou: — Você tem certeza de que ela é a pessoa certa? Dante olhou para os documentos. Depois respondeu em voz baixa: — Ela é a única pessoa capaz de fazer isso. Helena deu um passo para trás. A única pessoa capaz de fazer o quê? Naquele momento, percebeu que o bilhete talvez não fosse apenas uma tentativa de destruir Dante. Talvez fosse um aviso. E talvez o maior segredo daquela história ainda estivesse apenas começando.Adrian permaneceu parado no alto da escada.Pela primeira vez, o homem que parecia controlar todos os movimentos ao redor deles não tinha uma resposta imediata.Helena percebeu.E aquilo lhe deu coragem.— Você passou anos planejando nossas vidas — disse ela. — Escolheu o que deveríamos saber, quem deveríamos temer e até com quem eu deveria me casar.Adrian desceu mais um degrau.— Eu apenas garanti que o destino seguisse o curso correto.Dante soltou uma risada amarga.— Não chame manipulação de destino.Adrian olhou para ele.— Você sempre foi mais inteligente do que seu pai.— Não use meu pai para justificar seus crimes.A expressão de Adrian endureceu.— Seu pai sabia exatamente o que estava fazendo.— Ele tentou sair.— E pagou o preço.Dante avançou.— Foi você quem mandou matá-lo?Adrian ficou em silêncio.Helena olhou para ele.— Responda.— Seu pai descobriu demais.— Isso não foi o que ele perguntou.Adrian respirou fundo.— Sim.Dante ficou imóvel.Sua mãe tentou segurá-lo.
Helena permaneceu diante da tela.Não conseguia desviar os olhos da fotografia.O homem que aparecia ali era o mesmo que havia chamado de avô.O mesmo que dizia ter sido vítima de uma traição.O mesmo que afirmara querer destruir a organização.Mas o nome abaixo da fotografia destruía toda aquela história.ADRIAN MONTENEGRO.— Não... — Helena sussurrou.Dante aproximou-se.— Precisamos descobrir quando essa fotografia foi tirada.Henrique pegou o teclado e abriu as informações do arquivo.A data apareceu.Quinze anos atrás.Dante ficou imóvel.— Foi no mesmo ano em que meu pai morreu.Helena sentiu o estômago revirar.— Então ele estava vivo quando meu pai morreu.Henrique assentiu.— E não apenas vivo.Ele apontou para a tela.— Ele estava no controle.Helena fechou os olhos.Todas as lembranças começaram a se reorganizar.As conversas interrompidas.Os documentos escondidos.As mentiras.A insistência para que ela se casasse com Dante.Tudo.— Ele nos manipulou.Dante segurou sua mã
A casa dos Adalwolf ficava no alto de uma colina, distante do centro da cidade.Helena observava a propriedade pela janela do carro.— Você cresceu aqui?Dante assentiu.— Até os dezessete anos.— E nunca voltou?— Depois que meu pai morreu, não.Helena apertou a pequena chave entre os dedos.— Então talvez esteja na hora de voltar.Dante desligou o motor.Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.— Tem certeza? — ele perguntou.Helena olhou para ele.— Depois de tudo que descobrimos, não tenho mais certeza de quase nada.Ela sorriu.— Mas tenho certeza de uma coisa.— O quê?— Não vou entrar lá sem você.Dante segurou sua mão.— Nunca vai precisar.Eles desceram.A porta principal estava destrancada.Dante franziu a testa.— Meu pai nunca deixava essa porta aberta.Entraram.O cheiro de madeira antiga trouxe lembranças que Dante havia enterrado durante anos.Fotografias.Móveis cobertos por lençóis.Um piano antigo.Helena percebeu a mudança em seu rosto.— Está tudo bem?— Esto
O livro vermelho permanecia no chão.Helena olhava para Dante como se estivesse tentando enxergar nele uma pessoa que conhecia havia anos e, ao mesmo tempo, alguém completamente desconhecido.— Ele está mentindo — disse ela.Eduardo sorriu.— Então pergunte a ele.Dante não desviou o olhar.— Eu não sabia.— Você sabia de quê? — Helena perguntou.— De absolutamente nada disso.Eduardo soltou uma risada.— Seu pai sabia.Dante ficou tenso.— Não fale do meu pai.— Por que não? Ele deixou tudo preparado para você.Helena abaixou-se e pegou o livro.— Quero provas.Eduardo apontou para uma página.— Leia a última anotação.Ela abriu.Havia uma árvore genealógica desenhada à mão.Os nomes das famílias Montenegro e Adalwolf estavam ligados.No centro havia dois nomes.Helena Montenegro.Dante Adalwolf.Abaixo deles, uma frase:“A união dos dois herdeiros encerrará o ciclo.”Helena sentiu um arrepio.— União...Dante pegou o livro.— Isso não significa necessariamente casamento.Eduardo sor
Helena não conseguiu respirar por alguns segundos.— Meu... verdadeiro avô?O homem assentiu.— Seu avô materno.A mãe de Helena, que havia permanecido alguns passos atrás, empalideceu.— Você...Ele voltou os olhos para ela.— Demorou para nos reencontrarmos.— Eu pensei que você estivesse morto.— Era exatamente isso que eu queria que todos pensassem.Dante avançou.— Então você é o homem por trás de tudo?O homem sorriu.— Não. Sou o homem que perdeu tudo para aqueles que vieram antes de mim.Henrique segurou o livro vermelho.— Você não deveria estar aqui.— E você não deveria ter sobrevivido por tanto tempo.Henrique ficou em silêncio.Helena olhou para o avô.— Quero a verdade.— Você merece.Ele caminhou até a mesa.— Meu nome é Augusto Montenegro.Helena arregalou os olhos.— Augusto?— Seu pai recebeu meu nome.Ela sentiu um arrepio.— Então meu pai recebeu seu nome?— Sim.Dante observou os dois.— E por que todos acreditavam que você estava morto?O homem respondeu:— Porqu
Helena não conseguia tirar os olhos de Henrique.— Você viu meu pai há quinze anos?— Sim.— E ele estava vivo?Henrique assentiu.— Estava.O coração dela disparou.— Por que você nunca me contou?— Porque ele me pediu.— Ele pediu para você esconder de mim que estava vivo?— Não.Henrique respirou fundo.— Ele pediu para que eu deixasse você acreditar que ele estava morto.Helena sentiu as lágrimas surgirem.— Por quê?Henrique olhou para Dante.— Porque seu pai estava tentando proteger vocês dois.Dante franziu a testa.— A mim também?— Sim.Henrique colocou um envelope sobre a mesa.— Isso foi entregue a mim naquela noite.Helena abriu.Dentro havia uma fotografia.Augusto estava ao lado de um homem desconhecido.Mas Helena reconheceu o rosto.Era o mesmo homem do vídeo.O suposto líder da organização.— Quem é ele?Henrique respondeu:— Adrian Montenegro.Helena ficou imóvel.— Meu bisavô?— Não.Henrique balançou a cabeça.— Esse é o nome usado por alguém que assumiu a identida







