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Capítulo Seis — A mesa dos King

last update Fecha de publicación: 2026-06-12 07:41:15

Longe dali, onde as ruas largas cedem lugar a avenidas arborizadas e os muros crescem até a altura em que ninguém mais consegue ver o que há do outro lado, ficava a mansão da família King.

Era uma construção de três andares com fachada em pedra clara e janelas altas que de manhã pegavam o sol de um jeito que fazia a casa inteira parecer acesa por dentro. O jardim da frente era cuidado por um homem que vinha às terças e às sextas e nunca falava muito, e os jardins dos fundos tinham uma piscina de borda infinita, uma área de churrasqueira que raramente era usada pelos donos e uma alameda de palmeiras imperiais que o Sr. Álvaro havia mandado plantar quando a casa foi construída, vinte e dois anos atrás, porque achava que palmeiras transmitiam autoridade.

Às sete da manhã, quando a maior parte da cidade ainda estava esquentando o café, Elena King já havia descido os dois lances de escada, atravessado o corredor principal e empurrado a porta da cozinha com a mão espalmada — um gesto que ela fazia todo dia e que Rosa, a empregada, já reconhecia de longe pelo som dos passos no corredor de mármore.

Elena tinha cinquenta e três anos e a postura de quem nunca se permitiu encostar completamente no encosto de uma cadeira. O cabelo castanho-escuro, com fios brancos que ela não tingia porque dizia que branco em cabelo é distinção, estava preso num coque baixo e preciso. Ela usava um robe de seda cor de vinho e chinelos de salto baixo que faziam barulho no piso frio.

Rosa estava de costas, mexendo numa panela, quando a sentiu entrar.

— Bom dia, dona Elena.

— Bom dia, Rosa. — Elena foi direto ao fogão, levantou a tampa da frigideira e examinou os ovos com bacon. Estavam no ponto certo, a gema firme mas não ressecada, o bacon dourado sem queimar nas bordas. Ela assentiu imperceptivelmente. — Os ovos estão bem. O jornal do Sr. Álvaro já está na mesa?

— Já está, dona Elena. Dobrado do lado direito do prato, do jeito que ele gosta.

Elena foi até a sala de jantar, que era separada da cozinha por uma porta de correr de vidro fosco. A mesa comprida de carvalho tinha oito lugares, mas a família usava sempre só uma extremidade — os cinco lugares do lado da cabeceira, onde o Sr. Álvaro se sentava com o jornal e os filhos chegavam em ordem de acordo com o humor de cada manhã. O jornal estava dobrado como Rosa havia dito. Elena o abriu, verificou a data, fechou de volta.

Depois foi até a fruteira no aparador lateral. Uma tigela de cristal com manga fatiada, uva sem semente, alguns morangos e fatias de kiwi dispostas com cuidado. Alexander comia fruta de manhã havia anos, desde que o médico havia dito alguma coisa sobre antioxidantes numa consulta da qual ninguém mais se lembrava dos detalhes, só do resultado: tigela de fruta todo dia, sem falta.

— Está impecável, dona Elena — disse Rosa, que havia aparecido na porta sem fazer barulho.

— Está — concordou Elena. Não era elogio de volta, era constatação. Ela deu uma última volta pela sala com os olhos antes de se sentar na sua cadeira, a segunda à esquerda da cabeceira, e dobrar o guardanapo de linho no colo.

Os passos na escada começaram pouco depois.

O primeiro a descer foi Luiz, o filho do meio, trinta e um anos, cabelo sempre um pouco úmido porque ele tomava banho antes de dormir e de manhã e ninguém nunca havia entendido bem o porquê. Ele entrou na sala de jantar com o celular na mão e o paletó do terno pendurado no antebraço, ainda sem gravata.

— Bom dia, mãe. — Ele se inclinou, beijou a têmpora de Elena e se sentou.

— A gravata, Luiz.

— Estou colocando no carro.

— Você diz isso toda dia.

— E todo dia eu coloco no carro.

Elena o olhou por cima da xícara de café. Luiz sorriu com o canto da boca e virou o celular para baixo sobre a mesa, o que ela havia pedido que ele fizesse há anos e ele só fazia quando havia acabado de fazer alguma outra coisa que a irritava, como compensação.

O segundo a descer foi Alexander, o filho mais velho, trinta e quatro anos, terno cinza, cabelo escuro perfeitamente penteado. Ele desceu com Luz ao lado, a filha dele de dez anos, que usava o uniforme escolar e segurava uma mochila cor de laranja com uma expressão de quem ainda estava acordando.

— Bom dia — disse Alexander para a mesa em geral, e depois para a mãe especificamente: — Ela não quis comer lá em cima.

— Eu não tava com fome lá em cima — disse Luz. — Aqui embaixo eu fico com fome.

Elena abriu um sorriso que ela reservava quase exclusivamente para a neta. — Então senta aqui do lado da vovó.

Luz jogou a mochila numa cadeira e se sentou na seguinte, já de olho na tigela de frutas.

— Essas são minhas — disse Alexander, apontando para a tigela.

— Ela pode comer — disse Elena.

— Ela tem a dela lá em cima.

— Eu não quis comer lá em cima — repetiu Luz, com a paciência de quem já explicou uma vez e considera desnecessário mudar o argumento.

Luiz deu uma risada que disfarçou mal.

— Algum problema? — Alexander diz, virando para o irmão.

— Nenhum. — Luiz tomou um gole de café. — Ela tem razão, é só fruta.

— Não é o ponto.

— Qual é o ponto, então?

— O ponto — disse Elena, com o tom que encerrava conversas — é que todos vocês vão comer o café da manhã em paz porque Rosa acordou cedo para preparar e o dia de vocês vai ser longo o suficiente sem começar com discussão por causa de uva.

Silêncio. Luz pegou um morango. Alexander abriu o suco. Luiz voltou a olhar para o celular e desta vez Elena deixou passar.

Os passos pesados e regulares do Sr. Álvaro desceram a escada pouco depois das sete e vinte. Ele entrou na sala com o terno já completo, incluindo o abotoadouro de ouro que usava todas as segundas e quintas sem que ninguém soubesse o motivo da escolha dos dias. Sessenta e um anos, ombros ainda largos, cabelo completamente branco desde os cinquenta e quatro. Ele varreu a mesa com os olhos uma vez, encontrou o jornal no lugar certo e se sentou na cabeceira.

— Bom dia — disse ele, para ninguém e para todos.

— Bom dia, papai — disseram Luiz e Alexander, praticamente ao mesmo tempo, o que era raro o suficiente para Luz levantar os olhos da tigela de frutas.

— Vovô, você sabia que a Júlia da minha sala tem um cachorro que só come ração importada? — disse Luz.

Álvaro abriu o jornal. — Não sabia.

— Eu acho um desperdício — continuou Luz. — O cachorro nem sabe que é importada.

— Há pessoas assim também — disse Álvaro, sem tirar os olhos do jornal.

Luiz e Alexander trocaram um olhar rápido por cima da mesa. Elena tomou o café em silêncio com a satisfação contida de quem fez a pergunta certa sem precisar fazê-la.

A refeição seguiu. Talheres, xícaras, o barulho do jornal sendo virado, a voz de Luz perguntando se podia pegar mais manga, a voz de Alexander dizendo que sim antes que a questão chegasse até ele de verdade.

Às oito e dez Álvaro dobrou o jornal, limpou a boca com o guardanapo e se levantou. Alexander fez o mesmo, ajeitou o paletó. Luiz terminou o café de um gole só, num movimento que fazia toda manhã e que toda manhã fazia Elena fechar os olhos por meio segundo.

— Vou buscar o carro — disse Luiz.

— Eu desço em cinco minutos — disse Álvaro.

— Eu sigo no meu — disse Alexander, e se inclinou para beijar a testa de Luz. — A vovó te leva às três.

— Eu sei — disse Luz. — Pode ir.

Alexander olhou para ela com aquela expressão que os pais fazem quando os filhos são engraçados sem tentar ser. Depois foi embora.

Elena ficou sentada enquanto os passos dos três se afastavam, enquanto a porta da garagem batia uma vez, depois duas, enquanto o ruído dos motores atravessava os vidros e sumia avenida afora.

A mansão ficou quieta.

Luz estava mastigando o último pedaço de manga com a seriedade de quem tem pensamentos importantes.

— Vovó — disse ela depois de um tempo.

— Sim.

— Você acha que o cachorro da Júlia é feliz?

Elena olhou para a neta por um momento. Depois chamou Rosa para recolher a mesa.

— Isso — disse ela — depende muito de quem cuida dele.

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