INICIAR SESIÓNMiguel
Ela se vira na minha direção, hesitante.
— Olá, é que durante a confusão eu acabei me perdendo e vir parar aqui — responde ela, com um tom de justificativa.
Minha paciência, já desgastada, ameaça se romper.
— Você não deveria ter entrado aqui. Esse é um local proibido para o público. — A frieza em meu tom não é proposital, mas inevitável. Ela não deveria estar aqui.
— Ah, entendo. É que durante a confusão eu me perdi da minha prima e então... — Ela tenta continuar, mas corto suas palavras.
— Isso não me importa. Apenas dê o fora daqui. — Meu tom é afiado, como uma lâmina, e vejo o impacto em sua postura. Ela encolhe os ombros, como se minhas palavras fossem um golpe físico.
Por um momento, ela parece hesitar, mas logo fala novamente, a voz mais baixa, quase nervosa.
— Certo. — Ela respira fundo e continua, cautelosa. — Você poderia me ajudar a encontrar a saída?
Esse pedido me faz parar por um instante. Meu instinto me diz para ignorá-la.
Minha testa franze. A porta está bem na frente dela. Não há como não ver. Minhas sobrancelhas se arquem de irritação e estranheza. Ela só precisa andar alguns passos e estará do lado de fora.
— Está brincando comigo? A porta está logo ali — resmungo, apontando para a saída.
Ela não reage ao meu gesto. Não há sequer um movimento em sua direção, como se não tivesse percebido. Resolvo testar algo. Agito a mão no ar, a centímetros de seu rosto. Nada.
É então que percebo o detalhe que me escapou: seus olhos. Algo na maneira como eles não me focam, como se olhassem através de mim.
A ficha cai.
Ela é cega.
Meu peito aperta por um momento, mas não deixo que isso transpareça. Cerro os punhos, lutando contra o misto de frustração e constrangimento.
O que uma cega estaria fazendo aqui, no meio desse caos? Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto.
— Olá, você ainda está aí? — Ela pergunta, diante do meu silêncio.
— Você realmente não deveria estar aqui. — Minha voz é ainda mais dura, quase mordaz.
Ela se encolhe com o tom, mas permanece parada, como se esperasse algo.
Respiro fundo, lutando contra o desejo de simplesmente sair e deixá-la ali. Mas, mesmo irritado, sei que não posso fazer isso.
Seguro o braço dela com firmeza, talvez mais do que o necessário, mas não estou no clima para delicadezas. Cada segundo naquele lugar aumenta o risco de sermos pegos, e a última coisa de que preciso é de problemas com a polícia por causa dessa garota.
Ela não resiste, apenas segue o movimento, mas sinto sua hesitação, a incerteza. Não digo nada, mas minha mente está fervendo. Que tipo de loucura é essa? Uma garota cega, perdida em um vestiário no meio de uma confusão dessas?
Eu deveria ignorar. Deixar que ela se virasse sozinha. Mas algo me impede.
— Vamos. — Minha voz sai baixa, mas o tom é ríspido, impessoal.
Enquanto a guio para fora, murmuro entre dentes:
— Isso só pode ser karma da minha vida passada — não importa. Preciso tirá-la daqui, mas a raiva está à flor da pele.
Finalmente, ao chegar na rua, solto o braço dela e a encaro com intensidade.
— Nunca mais apareça aqui — digo, o tom frio e cortante. — Este não é um lugar adequado para alguém como você. O que você tinha na cabeça para vir a um lugar como esse?
Ela me encara, uma mistura de irritação e surpresa. Antes de falar, ela respira fundo, como se tentando controlar o que sente.
— Obrigada pela ajuda... — Ela faz uma pausa, então aponta para a rua, achando que é o prédio da luta clandestina. — Mas, olha, eu nunca quis estar aqui. Minha prima que me arrastou até esse lugar sem me avisar. Eu devia ter ficado em casa, no meu canto.
Ela parece irritada, mas ainda assim, um pouco grata pela ajuda. É claro que a ideia de ir a uma luta clandestina nunca foi dela, e isso transparece nas palavras e no tom com que fala.
— Certo, agora que o problema já foi resolvido, eu tenho que ir — Aviso para a garota de cabelos castanhos e olhos claros, com uma expressão de quem está mais irritada com a situação do que eu.
— Espera — ouço ela me chamar assim que viro as costas. Bufo revirando os olhos.
— O que foi agora, garota perdida? — Falo sem pensar, e ela resmunga algo — O que? Fala mais alto, não entendi.
— Você pode me dizer em que rua estamos para eu poder avisar meu motorista para ele vir me buscar? — Ela fala segurando seu celular na mão. — Acho que o GPS do meu celular não está funcionando direito aqui.
— Francamente — caminho até sua direção e pego seu celular da sua mão. É um celular e tanto.
Será que essa garota não percebe que, se eu não fosse um cara decente, ela poderia estar em uma grande enrascada? Poderia ser assaltada ou até sequestrada. Olhando bem para ela e suas roupas, não tenho dúvidas de que tem grana.
Marco o lugar certo onde estamos e envio uma mensagem para o motorista que ela falou. Tenho certeza que com a minha dica ele vai saber onde encontrá-la.
— Aqui, garota perdida. Salvei sua pele pela segunda vez. Acho bom que essa seja a última.
— Obrigada — Ela segura firme o telefone assim que devolvo — Posso saber seu nome?
— Para quê? Não vamos nos encontrar novamente.
— Só queria te entregar meu cartão, como agradecimento pela sua ajuda. Se algum dia você precisar de algo, é só me ligar. — Ela diz, entregando um cartãozinho que nem vi ela tirar da bolsa.
Pego o cartão, achando engraçada a fala dela. Até parece que vou precisar da ajuda dela para algo.
— Certo. Mesmo sabendo que nunca vou precisar da sua ajuda, vou guardar o seu cartão. Agora, vê se não se mete em encrenca novamente, garota perdida.
— Meu nome é Clara, Clara Novaes. — Ela se apresenta, mesmo sem eu pedir.
— Miguel. Mais conhecido como “Rage”. Agora, com sua licença, eu preciso ir para casa.
Se você chegou até aqui, obrigada por acompanhar essa história 💛Clara e Miguel significam muito pra mim, e eu adoraria saber o que você sentiu ao longo da leitura.Me conta aqui nos comentários 💛
MiguelAlguns anos depoisA casa nunca fica em silêncio.E, pra ser sincero, eu nem lembro mais como era quando ficava.— Anthony, volta aqui! — a voz da Clara ecoa pela sala, firme, mas carregada de riso.Eu observo da porta, encostado, sem me intrometer.Anthony passa correndo, os pés batendo rápido no chão, rindo como se tivesse descoberto o maior segredo do mundo.— Você não vai escapar de mim! — ela continua, indo atrás dele com cuidado, mas já conhecendo cada espaço da casa.Ele desvia, ri mais alto.— Mamãe, não!Eu balanço a cabeça, soltando um riso baixo.Minutos depois, ela finalmente alcança ele.— Te peguei.O riso dele diminui aos poucos, até virar aquele silêncio confortável de quem se rende.E então eu vejo.Ela passa a mão no rosto dele, reconhecendo cada detalhe do jeito dela.Com calma.Com carinho.Como sempre fez.— Meu menino…Anthony abraça ela sem pensar.Natural.Como se aquilo fosse o lugar mais seguro do mundo.E talvez seja.— Papai! — ele me chama logo depo
MiguelEu já enfrentei muita coisa na vida.Já entrei em luta sabendo que podia sair quebrado.Já perdi.Já ganhei.Mas nada…nada me preparou pra isso.Clara aperta minha mão com força.— Miguel…A voz dela sai tensa.Controlada.Mas eu sei.Ela tá com dor.Muita.— Tô aqui — eu respondo na hora, me inclinando mais perto. — Tô com você.E não saio.Nem por um segundo.O hospital inteiro parece pequeno demais pra quantidade de coisa que eu tô sentindo agora.Ansiedade.Medo.E uma vontade absurda de trocar de lugar com ela.Se desse… eu trocava.Sem pensar.— Respira — eu falo, mesmo sabendo que ela já tá tentando.Minha mão segura a dela com firmeza.Como se isso fosse suficiente.Como se eu pudesse segurar tudo por ela.Mas não posso.E isso me mata.O tempo passa estranho.Rápido e lento ao mesmo tempo.Até que—Um choro.Alto.Forte.Novo.Meu corpo inteiro trava.Eu nem percebo quando paro de respirar.A voz do médico chega distante.— Parabéns, papai. É um menino grande e saudáv
HugoO salão inteiro parece mais leve hoje.Talvez seja a música, as luzes… ou talvez seja só eles.Meus olhos encontram Clara no meio da pista.Ela sorri.E não é qualquer sorriso.É leve. Solto. Verdadeiro.Miguel segura a mão dela com firmeza, conduzindo cada passo com cuidado… mas sem tratar ela como alguém frágil.E isso… isso me acerta de um jeito que eu não esperava.Por um momento, tudo que eu fiz… todas as escolhas, os medos, os erros…parecem valer a pena.Ela tá feliz.De verdade.— Você fez um bom trabalho.A voz ao meu lado me tira dos pensamentos.Eu nem preciso olhar pra saber quem é.Ainda assim, viro o rosto.Ela está ali, com uma taça de champanhe na mão, como se o tempo não tivesse passado… e ao mesmo tempo tivesse passado demais.Solto um pequeno suspiro.— Você também fez um bom trabalho.Ela arqueia levemente a sobrancelha, surpresa.Eu continuo:— No momento que ela mais precisou de você… você estava lá.Um silêncio breve se instala entre nós.Não é pesado.Só…
ClaraO silêncio que fica entre nós não pesa mais.Ele apenas… existe.Mais calmo.Mais sincero.Dou um passo pequeno na direção dele, guiada pela presença que sempre reconheci, mesmo sem ver.— Eu entendo, papai.Minha voz sai mais baixa, mas firme.— E… eu também errei.Há uma pausa.E então sinto quando ele se aproxima.Mais perto do que esteve desde que entrou.— Clara…A voz dele muda.Mais suave do que eu já ouvi em muito tempo.— Posso…Ele hesita por um segundo.Coisa rara.— Posso te levar até o altar?Meu coração dispara.Forte.Emocionado.Eu sorrio.— Eu adoraria.Sinto quando ele oferece o braço.Seguro com cuidado.Familiar.Seguro.Como sempre foi.E, dessa vez…Eu não sinto peso.Só… pertencimento.A porta se abre novamente.A voz da cerimonialista surge, mais baixa agora, respeitando o momento.— Está na hora.Respiro fundo.Uma última vez.Minha mão encontra minha barriga de forma automática.— Vamos — murmuro.Não sei se falo com meu pai…Com meu filho…Ou comigo me
ClaraO quarto está cheio.Não de silêncio, como o de Miguel provavelmente deve estar agora…mas de vozes, passos e pequenos movimentos que se cruzam o tempo todo.Eu consigo sentir.O som do tecido sendo ajustado.O leve arrastar de sapatos pelo chão.O perfume no ar — não um só, mas vários, se misturando.E, no meio de tudo isso…Eu.Parada.Respirando fundo, tentando acompanhar o ritmo do meu próprio coração.— Fica quieta, Clara, ou eu nunca vou terminar isso — minha mãe diz, com aquele tom firme que só ela sabe usar.Eu sorrio de leve.— Eu estou quieta.— Não está — minha prima responde quase no mesmo instante. — Ela mexeu o ombro agora, eu vi.— Eu só respirei — retruco.— Respirar também atrapalha — ela rebate, sem perder o tom animado.Eu solto uma pequena risada.Ela está elétrica.Mais do que o normal.E isso já diz muito.Sinto as mãos da minha mãe ajustando o tecido do vestido com cuidado, firme, mas delicado ao mesmo tempo.Há algo diferente no toque dela hoje.Mais… pre







