LOGINCecília só queria surpreender o "namorado". Mas uma noite de desejo e um terrível engano a colocam na cama do homem mais perigoso do morro: Fera, o misterioso dono do morro e seu sogro. Temido por todos, conhecido por sua crueldade e por viver escondido nas sombras, Fera deveria vê-la apenas como a mulher do próprio filho. O problema é que, depois daquela noite, ele não consegue tirá-la da cabeça. Agora, presa entre a culpa, o medo e uma obsessão cada vez mais perigosa, Cecília descobrirá que escapar das garras do Fera pode ser impossível.
View More— Arthur, pelo amor de Deus, desce daí!
Meu filho de quatro anos tá em cima da mesa da cozinha, esticando os bracinhos pra alcançar a hélice do ventilador de teto. São sete horas da manhã. Sete. E eu já tô considerando pedir demissão da maternidade. — Arthur! — repito, correndo pra tirar ele de lá antes que vire notícia no morro. Ele me olha com aqueles olhos grandes e curiosos, como se eu fosse uma alucinada. Depois aponta pro ventilador: — Barulhento, mamãe. — Sim, amor, ele faz barulho e refresca a gente. Mas não é brinquedo. Desce daí. — digo dando a mão pra ele. Ele desce devagar, com aquela cara de quem tá fazendo um grande favor. Pego ele no colo, dou um beijo estalado na bochecha redondinha e sinto o cheirinho de dentes recém escovados misturado com sabonete de criança. Meu coração amolece na hora, como sempre. — Cadê meu cabo de carregar o celular, Arthur? Você viu? Ele aponta com o polegar pra trás dele, pra sala, com o rostinho sério. — Por que meu cabo tá na sala, menino? Arthur dá de ombros, como se fosse óbvio. — Segurança, mamãe. — Segurança de que Arthur? — Da mamãe, é muito perigoso carregar usando. Eu rio alto, daquele riso cansado. Ele sorri de lado, satisfeito. Converso com meu filho como se ele fosse um adulto pequeno. Às vezes ele me surpreende com respostas assim, curtas e diretas, que me deixam sem chão. Ele é autista, inteligente pra caramba, observa tudo, mas o mundo pra ele tem regras próprias. E eu tô aprendendo a dançar conforme a música dele. Enquanto preparo o café, ainda de short velho e camiseta larga, penso na minha vó. Ela morreu há dois anos, mas ainda é a única pessoa que eu sinto que me amou de verdade. Ela praticamente me criou. Me ensinou a ser forte sem perder o riso. Se ela estivesse aqui, ia me dar um peteleco e dizer: “Menina, levanta essa cabeça e faz o que tem que fazer.” Suspiro e coloco o pão na chapa. --- Meu nome é Cecília, tenho dezoito anos e moro aqui no morro. Batalho muito, faço bico no salão fazendo penteados, faço unha a domicílio e ainda faço bolo de pote pra vender. Não é vida de princesa, mas é a minha vida. E tenho o Arthur. Ele mudou tudo. Fui mãe aos catorze, assustada, chorando escondido, mas quando ele nasceu… virou meu mundo inteiro de cabeça pra baixo. As dificuldades veio junto — as crises sensoriais, a rotina rígida, as terapias que custam os olhos da cara — mas ele vale cada gota de suor. Pois se eu for esperar pelo SUS ele ainda nem falaria direito. O dia segue no ritmo de sempre. Levo Arthur pra brincar um pouco na pracinha do morro, volto e deixo ele assistindo canal de curiosidades enquanto separo os potinhos pros bolos. Ele organiza os carrinhos no sofá em fileiras perfeitas, sem deixar nenhum fora do lugar. Eu canto baixinho uma música boba, dançando com a vassoura. As vizinhas passam pela minha porta no beco e comentam: — Essa menina é guerreira, hein? Sorrio, respondo com piada: — Guerreira cansada, tia! Se eu ganhar na loteria, o primeiro luxo vai ser dormir até as nove. Todo mundo ri. Eu escondo atrás do humor o cansaço que às vezes aperta o peito. Mas é assim que eu aguento. No meio da tarde, Jéssica aparece suada, subindo o beco com as tranças balançando. — Ceeeecília! Traz um suco pra essa amiga sofrida! A gente senta nos degraus de casa. Arthur tá lá dentro, assistindo um vídeo de trenzinhos coloridos pela milésima vez. — E aí, conta logo — ela cutuca meu braço. — Já tá namorando o Urso? — Não — respondo rápido, rindo sem graça. — Mas vocês tão ficando. — Tamo nos conhecendo… — E? — E nada, Jé. Ele anda me procurando quase todo dia, fica um tempo, conversa… Mas nunca falou em namoro. Eu gosto dele mais do que deveria. Ele é tão… ele tá muito diferente comigo ultimamente. Mas eu sei como o morro é. As mina tudo atrás dele. Eu posso ser só mais uma... Jéssica me olha com pena misturada com bronca. — Cecília… tu tá apaixonada por um homem que nem te pediu em namoro, amiga. Cuidado, hein. Urso é o futuro dono do morro, todo mundo sabe. Mas ele também gosta muito de curtir. — Eu sei, amiga. Eu sei. — murmuro, olhando pro chão. — Jurei pra mim mesma não me envolver com bandido nunca mais... Mas… quando ele me olha, parece que é diferente. Tô iludida, né? — Um pouquinho — ela ri, me abraçando de lado. — Mas você merece coisa boa depois daquele lixo do Ismael. Ele tá preso, deixa ele lá. Capítulo encerrado amiga. A conversa segue leve, cheia de risada e fofoca. Quando ela vai embora, o céu já tá alaranjado. Termino de pendurar as últimas roupas no varal, o corpo doendo, mas a cabeça cheia de pensamentos no Urso. "Será que hoje ele aparece?” Desço o beco pra jogar o lixo, distraída com o celular. É quando eu o vejo. Ele tá encostado na parede, todo de preto, os músculos marcados, barba cerrada e aquele olhar que me desmonta. Quando me nota, abre um sorriso preguiçoso, daqueles que fazem meu estômago dar cambalhota. — E aí, princesa? Tá sumida. — Princesa? — provoco, parando na frente dele com a mão na cintura. — Tá querendo alguma coisa, Urso? — Tu fica ainda mais bonita quando tá brava. — Ele ri baixo, se aproxima devagar. O cheiro dele me envolve. A gente conversa besteira, mas o ar tá pesado, cheio de coisa não dita. Ele chega mais perto, coloca um cacho do meu cabelo atrás da orelha. O toque queima. — Tu sabe que eu não consigo ficar longe, né? — murmura, o rosto abaixando na direção do meu. Meu coração dispara. Fecho os olhos, esperando o beijo. Sinto a respiração dele quente na minha boca, a mão grande na minha cintura… O celular dele toca. Urso para, olha o nome na tela e a expressão muda completamente. Fica sério, quase frio. — Tenho que atender. Depois a gente se fala. Ele me dá um beijo rápido na testa e já tá indo embora, atendendo a ligação com voz baixa e urgente. — Fera? Pode falar. Ok!! Fico parada no beco, ainda sentindo o calor dele no meu corpo, o coração acelerado e uma frustração gostosa misturada com decepção. — Tá bom, Cecília. Você tá iludida nível hard. — murmurei pra mim mesma. Enquanto ele some no final do beco, dois homens passam. Fortes, armados, cara de poucos amigos. Um deles comenta baixo: — O Fera tá no morro. O outro responde: — Então o morro inteiro fica quietinho. Ninguém faz merda. Eles seguem o caminho. Eu nem dou muita bola. Deve ser alguma parada de tráfico, coisa do morro. Mas algo no tom deles fica ecoando na minha cabeça enquanto volto pra casa. Quem é esse “Fera” que faz até o Urso sair correndo no meio de um quase beijo?Quando passei em frente à casinha da Ceci e vi as luzes acesas, não pensei duas vezes. Parei a moto, desliguei o motor e tirei o capacete. Ela, pelo jeito, ouviu o barulho, porque abriu a porta imediatamente. Ela estava linda. Meu olhar desceu rápido pelo corpo perfeito dela — camiseta larga que escondia pouco, shortinho mega curto que mal dava pra diferenciar de uma calcinha, as pernas grossas e macias, os pés descalços no chão frio. O rostinho cansado, mas ainda assim ela era gostosa pra caralho. — Eu vi as luzes acesas… posso entrar? Ela deu passagem sem hesitar. Eu entrei, fechei a porta atrás de mim e me sentei no sofá como se já fosse de casa. A casa era de conceito aberto, então eu conseguia ver ela direitinho na cozinha. Tava trabalhando num bolo, as mãos sujas de creme, o cheiro doce dominando o ambiente. — Tá fazendo bolo essa hora? — perguntei baixo. Não queria que o moleque acordasse e estragasse tudo. — Encomenda de última hora. Uma vizinha. A netinha dela queria pr
Só tinha um jeito de esquecer aquela garota proibida. Sumir. Apesar da identidade de Fera ser um mistério até para os meus próprio vapo, eu fazia isso com frequência. Desaparecia por semanas, às vezes meses. Voltava só quando o morro precisava de uma mão mais pesada ou quando o Steve começava a cometer erros demais. Era uma forma de manter o controle e, ao mesmo tempo, de não deixar ninguém desconfiar que o homem que ocasionalmente aparecia na casa era muito mais do que o pai discreto do Urso. Naquela noite eu já tinha feito as malas. Pouca coisa. O essencial. Estava quase descendo as escadas com a mala na mão quando dei de cara com o Steve. Ele parou no meio do corredor, ainda de camiseta preta e short, o cabelo molhado do banho. — Ué, fez as malas? Pra onde vai? — Vou precisar dar um tempo fora novamente. Ele franziu a testa, claramente incomodado. — Mas você acabou de chegar. Não ficou nem uma semana. Não vai ficar pro baile? O baile. Sempre o baile. Steve amava aqueles ev
Já tinha colocado o Arthur na cama quando alguém bateu na porta. O menino dormia de lado, o carrinho vermelho ainda apertado contra o peito, a respiração tranquila depois de mais um dia cansativo. Eu estava no sofá, de cabelo preso de qualquer jeito e camiseta larga, prestes a ligar o filme que tinha colocado na lista há dias e nunca conseguia assistir. Aquele era o meu momentinho. O único pedaço da noite que eu reservava só pra mim. Suspirei, levantei e fui até a porta, já com a expressão de quem não queria ser incomodada. Quando abri, dei de cara com a Dona Maria, a vizinha que mora bem no início do beco. Mulher de uns sessenta anos, cabelo grisalho preso num coque baixo, sempre com um avental. — Boa noite, minha filha. Desculpa a hora — ela começou, já com aquele jeito educado de quem sabe que está atrapalhando. — Deixa eu te perguntar… você faria um bolo pra amanhã de manhã? Forcei um sorriso educado. — Boa noite, Dona Maria. Imagina. Eu só faço bolos de pote… Ela me interro
O celular vibrou em cima da mesa. Abri a mensagem de Donato. 📲 Donato: Aqui estão os vídeos de movimentação. Mais de cinquenta arquivos. Eu soltei o ar pelo nariz e sentei na poltrona do escritório, a tela do notebook aberta na minha frente. Comecei a assistir um por um, com a paciência de quem já aprendeu que pressa é inimiga do controle. Os primeiros vídeos não tinham nada demais. Vapo entrando, vapo saindo. A empregada carregando sacolas. A cozinheira fumando no fundo do quintal. Movimento normal de uma casa que precisa parecer comum. Eu avançava rápido, pulando os trechos sem interesse. Até que os vídeos do fim da tarde começaram. Foi quando ela surgiu. No portão. Sozinha. Eu travei o dedo no mouse. A imagem congelou por um segundo e depois eu apertei play de novo. Ela estava ali. Cabelos cacheados lindos, vestido vermelho simples, o corpo delicado contrastando com a segurança armada que abria o portão pra ela. Os vapo a liberaram sem questionar. Ela entrou como se soubess












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