LOGINMiguel
O som ensurdecedor dos gritos e aplausos ecoa na arena improvisada, uma mistura de vozes eufóricas que reverberam no peito. Estou de pé no centro do octógono, com os punhos erguidos, respirando pesado enquanto o árbitro levanta meu braço, declarando minha vitória.
— Rage! Rage! Rage! — A multidão entoa meu apelido como um mantra, e por um momento, esqueço de tudo. Esqueço das contas atrasadas, dos golpes recebidos fora do octógono, da luta que é viver.
Caminho até a borda do octógono e desço, recebendo tapinhas nas costas de desconhecidos e sorrisos orgulhosos de alguns rostos familiares. Rafael aparece no meio do tumulto, me puxando para longe da multidão.
— Foi uma boa luta, mas você devia ter finalizado antes — ele fala, mas a expressão no rosto dele não esconde o orgulho.
— Relaxa, deu tudo certo no final — respondo, pegando a garrafa de água que ele me oferece.
O gosto do suor e do sangue ainda está em minha boca, mas não me importo. É o gosto da vitória, e é disso que eu preciso.
— Não vou mentir, Rage, a galera adorou. Você fez valer a aposta deles — Rafael continua apontando para alguns caras no fundo, claramente bêbados e celebrando o dinheiro fácil que ganharam por minha causa.
O clima é de festa. Música alta, cheiro de cigarro e bebida no ar. As pessoas dançam, gritam, algumas discutem animadamente sobre os detalhes da luta. Mas eu não participo dessa comemoração. Meu foco já está no próximo desafio.
O som abafado da música e das conversas começa a perder espaço para algo mais agudo. Um assobio. Não daqueles despreocupados, mas o tipo específico que todos conhecem aqui.
“Droga!”
Meu olhar vai direto para Rafael, que já está em movimento, tentando alcançar os organizadores. O alerta é claro: a polícia está chegando.
— Miguel, pega suas coisas e sai daqui. Agora! — Ele grita por cima da confusão que começa a se formar.
A comemoração vira caos em segundos. Pessoas correm em todas as direções, alguns buscando saídas secretas, outros tentando esconder evidências.
— Sempre a mesma coisa... — murmuro para mim mesmo, sentindo a raiva subir.
Eu odeio a polícia, mas não por medo. Odeio como eles invadem, atrapalham, sem saber ou se importar com o que essas lutas significam para muitos de nós. Eles enxergam isso como crime, mas para alguns é sobrevivência. Para outros, o único caminho para algo melhor.
O som das botas batendo contra o concreto lá fora já é audível. Eles estão mais próximos do que imaginei.
Corro para o vestiário, onde deixei minha mochila, e a confusão só aumenta. Gente empurrando, gritando, tentando abrir portas que levam a becos escuros ou túneis improvisados. Passo direto por alguns lutadores mais jovens que parecem congelados no lugar.
— Movam-se! Ou vão querer passar a noite na delegacia? — Rosno, empurrando um deles para sair do caminho.
Quando finalmente alcanço o vestiário, a porta está entreaberta. Pego minha mochila no chão e coloco o capuz, pronto para sair sem chamar atenção. Rafael aparece novamente, o olhar tão irritado quanto o meu.
— Vai sair por onde? — Ele pergunta, respirando pesado.
— Pela entrada lateral. Menos gente, menos risco. — Respondo, ajustando as alças da mochila e sigo pelo corredor. O som da confusão ecoa ao longe, mas meus passos são rápidos e firmes. Quando enfio a mão no bolso, percebo que algo está errado.
— Cadê...? — murmuro, revirando o outro bolso. Nada.
Paro de andar, o coração acelerando por um motivo totalmente diferente agora.
— Droga! Cadê essas chaves? — Resmungo, passando a mão pela lateral da mochila e vasculhando mais uma vez. Nada.
Rafael, que já estava um pouco à frente, vira-se irritado.
— O que foi agora, Miguel?
— Minhas chaves! Não estão comigo. — Respondo, os dentes cerrados.
— Esquece isso, cara. Amanhã você pega a moto. Vai pra casa e pronto. — Ele faz um gesto impaciente, claramente incomodado com o atraso.
— Esquece? Minha moto é o único meio de transporte que tenho, Rafael! E nem terminei de pagar ainda. Você acha que vou deixar ela aqui pra polícia levar? — Respondo, a voz baixa mas carregada de raiva.
— Tá bom, tá bom! — Ele ergue as mãos em rendição. — Mas vai com calma. Não dá mole pra polícia. Eu vou embora na frente.
Sem esperar resposta, Rafael segue seu caminho, resmungando algo sobre teimosia e problemas.
Eu reviro os olhos, mas não vou perder tempo discutindo. Vou voltar ao vestiário, mas do meu jeito. Preciso pegar aquelas chaves, e rápido.
Encolhendo-me pelas sombras, faço o caminho de volta. Cada passo parece mais longo do que deveria, o som dos passos ecoando ao longe me deixa alerta.
Empurro a porta do vestiário, esperando encontrar apenas o silêncio e minhas chaves perdidas, mas me deparo com uma figura parada no meio do espaço.
Uma garota.
Meu primeiro pensamento é de pura irritação. O que uma mulher estaria fazendo aqui? Só pode ser mais uma dessas garotas que aparece buscando algo com os lutadores. Sério, não basta a confusão lá fora?
— O que você está fazendo aqui? — Minha voz sai dura, enquanto dou passos firmes em direção a ela.
Se você chegou até aqui, obrigada por acompanhar essa história 💛Clara e Miguel significam muito pra mim, e eu adoraria saber o que você sentiu ao longo da leitura.Me conta aqui nos comentários 💛
MiguelAlguns anos depoisA casa nunca fica em silêncio.E, pra ser sincero, eu nem lembro mais como era quando ficava.— Anthony, volta aqui! — a voz da Clara ecoa pela sala, firme, mas carregada de riso.Eu observo da porta, encostado, sem me intrometer.Anthony passa correndo, os pés batendo rápido no chão, rindo como se tivesse descoberto o maior segredo do mundo.— Você não vai escapar de mim! — ela continua, indo atrás dele com cuidado, mas já conhecendo cada espaço da casa.Ele desvia, ri mais alto.— Mamãe, não!Eu balanço a cabeça, soltando um riso baixo.Minutos depois, ela finalmente alcança ele.— Te peguei.O riso dele diminui aos poucos, até virar aquele silêncio confortável de quem se rende.E então eu vejo.Ela passa a mão no rosto dele, reconhecendo cada detalhe do jeito dela.Com calma.Com carinho.Como sempre fez.— Meu menino…Anthony abraça ela sem pensar.Natural.Como se aquilo fosse o lugar mais seguro do mundo.E talvez seja.— Papai! — ele me chama logo depo
MiguelEu já enfrentei muita coisa na vida.Já entrei em luta sabendo que podia sair quebrado.Já perdi.Já ganhei.Mas nada…nada me preparou pra isso.Clara aperta minha mão com força.— Miguel…A voz dela sai tensa.Controlada.Mas eu sei.Ela tá com dor.Muita.— Tô aqui — eu respondo na hora, me inclinando mais perto. — Tô com você.E não saio.Nem por um segundo.O hospital inteiro parece pequeno demais pra quantidade de coisa que eu tô sentindo agora.Ansiedade.Medo.E uma vontade absurda de trocar de lugar com ela.Se desse… eu trocava.Sem pensar.— Respira — eu falo, mesmo sabendo que ela já tá tentando.Minha mão segura a dela com firmeza.Como se isso fosse suficiente.Como se eu pudesse segurar tudo por ela.Mas não posso.E isso me mata.O tempo passa estranho.Rápido e lento ao mesmo tempo.Até que—Um choro.Alto.Forte.Novo.Meu corpo inteiro trava.Eu nem percebo quando paro de respirar.A voz do médico chega distante.— Parabéns, papai. É um menino grande e saudáv
HugoO salão inteiro parece mais leve hoje.Talvez seja a música, as luzes… ou talvez seja só eles.Meus olhos encontram Clara no meio da pista.Ela sorri.E não é qualquer sorriso.É leve. Solto. Verdadeiro.Miguel segura a mão dela com firmeza, conduzindo cada passo com cuidado… mas sem tratar ela como alguém frágil.E isso… isso me acerta de um jeito que eu não esperava.Por um momento, tudo que eu fiz… todas as escolhas, os medos, os erros…parecem valer a pena.Ela tá feliz.De verdade.— Você fez um bom trabalho.A voz ao meu lado me tira dos pensamentos.Eu nem preciso olhar pra saber quem é.Ainda assim, viro o rosto.Ela está ali, com uma taça de champanhe na mão, como se o tempo não tivesse passado… e ao mesmo tempo tivesse passado demais.Solto um pequeno suspiro.— Você também fez um bom trabalho.Ela arqueia levemente a sobrancelha, surpresa.Eu continuo:— No momento que ela mais precisou de você… você estava lá.Um silêncio breve se instala entre nós.Não é pesado.Só…
ClaraO silêncio que fica entre nós não pesa mais.Ele apenas… existe.Mais calmo.Mais sincero.Dou um passo pequeno na direção dele, guiada pela presença que sempre reconheci, mesmo sem ver.— Eu entendo, papai.Minha voz sai mais baixa, mas firme.— E… eu também errei.Há uma pausa.E então sinto quando ele se aproxima.Mais perto do que esteve desde que entrou.— Clara…A voz dele muda.Mais suave do que eu já ouvi em muito tempo.— Posso…Ele hesita por um segundo.Coisa rara.— Posso te levar até o altar?Meu coração dispara.Forte.Emocionado.Eu sorrio.— Eu adoraria.Sinto quando ele oferece o braço.Seguro com cuidado.Familiar.Seguro.Como sempre foi.E, dessa vez…Eu não sinto peso.Só… pertencimento.A porta se abre novamente.A voz da cerimonialista surge, mais baixa agora, respeitando o momento.— Está na hora.Respiro fundo.Uma última vez.Minha mão encontra minha barriga de forma automática.— Vamos — murmuro.Não sei se falo com meu pai…Com meu filho…Ou comigo me
ClaraO quarto está cheio.Não de silêncio, como o de Miguel provavelmente deve estar agora…mas de vozes, passos e pequenos movimentos que se cruzam o tempo todo.Eu consigo sentir.O som do tecido sendo ajustado.O leve arrastar de sapatos pelo chão.O perfume no ar — não um só, mas vários, se misturando.E, no meio de tudo isso…Eu.Parada.Respirando fundo, tentando acompanhar o ritmo do meu próprio coração.— Fica quieta, Clara, ou eu nunca vou terminar isso — minha mãe diz, com aquele tom firme que só ela sabe usar.Eu sorrio de leve.— Eu estou quieta.— Não está — minha prima responde quase no mesmo instante. — Ela mexeu o ombro agora, eu vi.— Eu só respirei — retruco.— Respirar também atrapalha — ela rebate, sem perder o tom animado.Eu solto uma pequena risada.Ela está elétrica.Mais do que o normal.E isso já diz muito.Sinto as mãos da minha mãe ajustando o tecido do vestido com cuidado, firme, mas delicado ao mesmo tempo.Há algo diferente no toque dela hoje.Mais… pre







