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Capítulo 8

last update publish date: 2025-12-31 10:04:55

Clara

A manhã começa tranquila, o cheiro do café fresco invade o ar enquanto me sento à mesa. Meu pai, como sempre, já está lá, tomando sua xícara com a calma de quem não tem preocupações no mundo. Ele parece não ter notado o que aconteceu na noite anterior, o que me faz perguntar onde está Isabela.

— Pai, onde está a Isabela? Ela passou a noite aqui, não foi?

— Ela teve que sair cedo para trabalhar.

Penso imediatamente, com um sorriso sarcástico na mente: É claro, a covarde deve estar escapando do interrogatório do meu pai. Ela sabia muito bem que ele iria cobrar explicações sobre a noite de ontem. Eu poderia até apostar que ela preferiu evitar isso, como sempre.

Logo ele quebra o silêncio, com um tom mais sério.

— A propósito, onde vocês duas foram ontem à noite? Chegaram tão tarde.

Respiro fundo, tentando manter a calma e o controle da situação.

— Fomos ao cinema e depois para a balada.

Acho que ele deve estar com a cara espantada agora. Se estivesse vendo, a expressão dele seria de choque. Mas não vou me deixar intimidar.

— Pois é, papai, sua filha também tem o direito de ir a uma balada, sabia?

Ele não responde imediatamente. A tensão cresce, e sei que ele está tentando achar as palavras certas. Depois de alguns segundos, ele solta um suspiro.

— Eu não disse nada...

— Mas você ia dizer, eu tenho certeza disso — retruco, sentindo um sorriso irônico na voz.

E então, o discurso começa, como sempre.

— Clara, você não entende... Não é só sobre sair à noite. É o perigo. Você é uma pessoa com deficiência visual, e as pessoas são más. Eu já te falei sobre isso. Você não pode se expor assim, é muito arriscado.

Já conheço cada palavra desse discurso de cor. Ele se preocupa demais, como sempre. Quer que eu viva em uma bolha, sem perceber que o mundo não é tão perigoso assim. Tento me controlar, mas sei que ele nunca vai mudar de ideia.

— Eu tenho que ir trabalhar, pai — digo, interrompendo-o, já irritada, e me levanto da mesa.

Antes que eu possa sair, ele ainda fala:

— O Carlos vai te levar. Não vou deixar você sair sozinha, Clara. Você não pode andar sem um segurança.

Sinto a frustração tomando conta de mim, mas já estou acostumada. Ele nunca vai mudar. Ele acha que não sou capaz de me cuidar sozinha. Com um suspiro, dou as costas e me preparo para mais um dia de trabalho.

***********

Enquanto seguimos pela cidade, lembro da conversa com o meu pai e sinto um vazio na boca do estômago. Eu queria ser mais independente, viver mais, e não ficar confinada entre quatro paredes ou, pior ainda, depender de pessoas que não confiam em mim. Sinto que a vida de todos ao meu redor gira em torno de me proteger, e, no fundo, eu sei que eles nunca vão entender como isso me sufoca.

Carlos me diz algo sobre o trânsito, mas estou distante. Minha mente está em outros lugares. Como será meu dia hoje? O que mais eu vou ter que enfrentar para provar que posso lidar com o mundo, mesmo sendo cega?

Minha loja é um reflexo de quem eu sou. Cada frasco, cada essência que preenche o ambiente, carrega um pedaço de mim. O olfato é mais do que uma simples ferramenta sensorial; é a forma como eu "vejo" o mundo. A cegueira nunca foi um obstáculo para a minha capacidade de entender e me conectar com as pessoas. Eu aprendi, desde muito jovem, a transformar esse desafio em uma vantagem, criando soluções que não só me ajudam, mas também me permitem construir algo único para os outros.

A loja de perfumes e essências é o meu espaço seguro, o lugar onde posso ser quem eu sou sem precisar me explicar. Cada aroma que preenche o ar é como uma história que eu posso contar, uma história que vai além das palavras. Eu não vejo, mas sinto, e é assim que eu crio. Combinando notas florais, amadeiradas e frutadas, consigo montar o que considero a essência da alma de alguém. Perfumes personalizados, feitos sob medida, como uma peça única de arte.

Chego na loja, o cheiro familiar das essências e perfumes preenche o ambiente e me faz relaxar instantaneamente. Sinto a presença dos frascos, alinhados nas prateleiras, e as notas florais, amadeiradas e cítricas se misturam no ar, criando uma atmosfera única que só a minha loja tem.

— Bom dia, Zoe! — digo, com um sorriso.

Zoe, minha funcionária, é mais do que uma simples ajudante. Ela é, na verdade, meus olhos no trabalho. Sem ela, muitos detalhes passariam despercebidos, e eu, que sou cega, não conseguiria gerenciar tudo sozinha. Ela sabe exatamente o que preciso, seja na organização das prateleiras ou na criação das novas fragrâncias. A nossa parceria vai muito além do que palavras podem descrever. Somos uma equipe imbatível, e juntos conseguimos transformar cada cliente que entra na loja em alguém que leva para casa um pedacinho do nosso trabalho.

— Bom dia, Clara! Como você está? — Zoe responde, sua voz doce e acolhedora, como sempre. Ela já sabe que sou movida por mais do que apenas números e vendas. Sinto que ela percebe a minha paixão por cada perfume que criamos, e a ajuda dela vai muito além do operacional. Zoe entende que, para mim, cada fragrância tem uma história, e é isso que a torna especial.

Eu me aproximo do balcão, onde ela já deixou alguns frascos prontos para serem enviados aos clientes, e toco os vidros. Sinto a textura das tampas e do vidro liso. A familiaridade me dá segurança.

— O que temos de novo hoje? — pergunto, sem esconder a curiosidade.

Zoe começa a me descrever as novas essências que temos à disposição e, com a sua ajuda, posso tomar decisões sobre quais combinações vou criar. No nosso mundo, onde os olhos não podem ser a principal ferramenta, a nossa sintonia vai além da visão.

— Acho que esta mistura de lavanda com um toque de madeira de sândalo pode ser interessante — ela sugere, e eu aceno, sentindo o aroma das essências que ela trouxe.

Trabalhamos em conjunto, combinando diferentes notas, sempre com a certeza de que a experiência sensorial do cliente será única. A nossa loja não é apenas sobre perfumes; é sobre criar memórias olfativas que toquem as pessoas de maneira profunda. E, com Zoe ao meu lado, sei que o nosso trabalho está no caminho certo.

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