FAZER LOGINHenrique pegou o celular e conferiu a hora.— Nem está tão tarde assim. Ainda não são nem dez.Os dedos de Carolina se fecharam devagar.De repente, sentiu o peito pesar.Ele estava se fazendo de desentendido?Ela praticamente o estava expulsando, e ainda assim ele permanecia ali, como se nada estivesse acontecendo.Henrique se recostou no sofá, à vontade demais, e ergueu os olhos para ela.— Estou um pouco cansado. Vou descansar aqui um instante. Pode continuar o que estava fazendo, não precisa se preocupar comigo.— Isso não é apropriado, Henrique. — A inquietação já transparecia na voz dela. — É melhor você ir embora.Da última vez, Daniela tinha lhe dado um tapa.É verdade que depois veio a indenização, mas aquilo só deixava uma coisa clara: a noiva dele não era alguém com quem se pudesse brincar.Henrique levou a mão ao peito, franzindo levemente a testa, e deixou o rosto assumir um ar de desconforto.— Subi correndo agora há pouco... Meu coração ficou meio ruim. Me deixa descansa
Henrique hesitou por um instante. Sem saber muito bem o que dizer, acabou avançando e passando por ela para entrar no apartamento.— Eu mesmo procuro.Carolina não viu motivo para impedi-lo. Recuou de imediato e encostou-se à parede ao lado da porta, abrindo passagem.Assim que entrou, Henrique, por puro hábito, foi tirar os sapatos, mas interrompeu o gesto no meio.Carolina também parou por um segundo, entendendo na mesma hora o motivo. Não havia chinelos para ele ali. Na verdade, ela nunca tinha cogitado receber visitas naquele apartamento.Muito menos que a primeira delas seria Henrique.— Não precisa tirar. O que foi que você veio buscar? — Disse ela, fechando a porta atrás de si.O olhar de Henrique desceu devagar até os pés descalços dela, claros contra o piso de madeira. Seus olhos escureceram, e um leve vinco se formou entre as sobrancelhas.— O chão não está frio?Carolina baixou os olhos para os próprios pés. Os dedos se contraíram de leve, num gesto involuntário.— Não...Er
Com dois casos nas mãos, a rotina de Carolina ficou ainda mais puxada.E, quando mergulhava no trabalho, ela se esquecia de tudo: de comer, de descansar, do mundo lá fora.Naquela noite, só saiu do escritório às nove.Já perto do condomínio, passou em frente a uma farmácia e se lembrou de que os remédios em casa estavam no fim. Com a correria dos últimos dias, não tinha conseguido voltar ao hospital para renovar a receita.Entrou, comprou os medicamentos prescritos pelo médico, remédio para dormir, para o estômago e analgésico, e voltou para casa com uma sacolinha na mão.A avenida principal do velho conjunto residencial era iluminada por postes de luz amarelada, que deixavam o lugar mais acolhedor. A vegetação dos dois lados era densa e, àquela hora da noite, quase não havia ninguém na rua. O silêncio parecia ainda mais fundo.Quando chegou em frente ao prédio, Carolina viu de novo o mesmo carro preto parado junto à calçada, como sempre, resultado da falta de educação de algum infeliz
Emerson sorriu, tranquilo.— Chega de disputa. O Grupo Oliveira já escolheu a advogada responsável.— Quem? — Os outros reagiram, surpresos, trocando olhares.Emerson empurrou a pasta sobre a mesa até ela parar diante de Carolina.— Esse caso é da doutora Carolina.Mal ele terminou de falar, a sala inteira ficou em choque. Todos voltaram os olhos para a bela advogada que tinha acabado de chegar à Nova Capital.Recém-chegada ao escritório, Carolina ainda era vista como uma novata. E, para piorar, nem vinha de uma trajetória considerada tradicional. Nos últimos anos, tinha atuado apenas em causas de interesse público: defesa dos direitos de mulheres e crianças, cobrança de salários atrasados de trabalhadores migrantes, entre outras frentes do mesmo tipo.E agora queriam colocar uma advogada com esse perfil à frente de uma disputa empresarial de grande porte.Aquilo soava tão descabido quanto querer matar um boi com uma agulha de costura.Não era de estranhar que todos estivessem perplexo
Depois de pendurar as roupas, Carolina se aproximou da grade da varanda e ergueu os olhos para o céu.Escuro. Fechado. Sem uma única estrela. Até a lua parecia engolida por aquela massa densa.Ficou ali por um instante.Mas a brisa de verão estava quente demais, abafada. Como já tinha tomado banho e detestava ficar suada depois disso, virou-se para dentro, fechou a porta de vidro e puxou a cortina.No dia seguinte começaria no novo trabalho.Precisava dormir cedo.Como sempre tinha dificuldade para pegar no sono, tomou uma dose maior do remédio, apagou a luz e se deitou.Lá embaixo, Henrique continuava encostado na porta do carro, olhando para a varanda escura do terceiro andar.A luz se apagou.Ela já tinha ido dormir tão cedo assim?Ele pegou o celular para ver as horas e se surpreendeu.Já passava das onze e meia.Sem perceber, tinha ficado ali por mais de quatro horas. O tempo simplesmente tinha escorrido.Abriu a porta, entrou no carro e se sentou ao volante. Mesmo assim, não cons
Saulo, que até então permanecia em silêncio, ergueu a cabeça, chocado.— Como assim assassino?Augusto também se surpreendeu, o olhar tomado por incredulidade.— Aquela menina… A Carol… O que aconteceu?Vanessa fechou os olhos por um instante e soltou um suspiro discreto.Tainá ajeitou a roupa com calma, assumindo um ar quase resignado, ensaiado demais para ser sincero.— Pai, Saulo… Estou falando da ex do Rick, a Carolina. Seis anos atrás, o pai dela espancou um homem até deixá-lo em estado vegetativo. E, pelo que eu soube, a família desligou os aparelhos há pouco tempo… Ele acabou morrendo.O rosto de Saulo se contraiu.— Rick… Isso é verdade?Henrique soltou uma risada curta, fria.— Já que é ex-namorada… Sendo verdade ou não, o que isso tem a ver comigo?— Como assim não tem nada a ver? — retrucou Tainá, incisiva. — Você tinha aceitado se casar com a Dani. Se não fosse aquela Carolina se metendo no meio, você teria mudado de ideia assim, de uma hora pra outra? Por causa de alguém c
Por um instante, ele mesmo achou que tinha ouvido errado.Carolina estendeu o dedo e apontou para as três caixas nas mãos dele, lendo com cuidado, de baixo para cima:— Pão de queijo, cocada… Marido gelado.As orelhas de Henrique ficaram vermelhas na hora. Ele apertou os lábios, sorriu de leve, meio
Henrique ficou levemente surpreso.Seu olhar caiu sobre as costas de Carolina enquanto ele soltava um suspiro quente e levantava devagar a parte de trás da camisola dela.Na noite anterior, tinha sido a enfermeira quem limpara e tratara as feridas.Era a primeira vez que ele realmente via os machuca
O chicote cortava o ar de forma caótica, atingindo seus braços e pulsos.A camisa branca de Carolina logo foi marcada por faixas vermelho-vivo de sangue.Ela tremia de dor, o corpo inteiro sacudindo, mas continuava segurando a faca com todas as forças. Lágrimas enchiam seus olhos, e ela não ousava p
— Obrigada.Carolina finalmente parou de insistir em recusar. Estava profundamente grata.Henrique pegou o celular e olhou a hora. Já passava da meia-noite.— Já está muito tarde. Vá dormir.— Ok. — Ela respondeu baixinho.Henrique então acrescentou, em tom tranquilo, quase como uma orientação:— Le







