— A Melissa voltou, o que você vai fazer em relação à sua esposa? — Perguntou um dos melhores amigos do marido dela, do outro lado da porta entreaberta.
Ao chegar em casa depois de um longo dia de trabalho, Juliana Oliveira paralisou com a mão na maçaneta, sentindo o coração falhar uma batida. O nome soou muito familiar para ela. A especialista contratada que havia entrado de paraquedas no projeto do laboratório, há apenas quinze dias, também se chamava Melissa, uma coincidência que a deixou um pouco alerta.
Dentro de casa, Cláudio Santos manteve um silêncio pesado, sem dar qualquer resposta. O amigo, no entanto, continuou a falar sem nenhum pingo de vergonha:
— Cláudio, não me leve a mal, mas todos esses anos você nunca esqueceu a Melissa, o seu primeiro amor. Você passou todos esses anos economizando até no mínimo, cortando gastos dentro de casa, só para enviar três milhões em segredo todo mês para financiar a pesquisa dela. Agora que a mulher voltou formada do exterior e virou a especialista principal de um projeto ultrassecreto do governo, por que você não vai falar com ela? Pede para ela te dar uma dica sobre a licitação. Com isso, o seu cargo de presidente da Universo Tech fica garantido e ninguém mais vai conseguir te tirar do topo.
Juliana arregalou os olhos, em estado de choque, pensando ter escutado errado. Três milhões? Cláudio dava apenas três mil reais por mês para cobrir as despesas do casal, então como era possível que ele desse três milhões para outra mulher pelas suas costas?
No entanto, a conversa dentro da sala soava alta e clara, e cada palavra atingia seus ouvidos como um golpe direto, sem que o marido dissesse nada em sua defesa. Por um instante, o ar sumiu dos pulmões de Juliana, deixando-a com a visão turva e sem conseguir respirar.
O som de alguém se levantando veio logo em seguida, acompanhado da voz firme de Cláudio:
— Eu não quero colocar a Melissa em uma situação difícil. Enfim, preciso ir buscá-la no trabalho agora. Não precisam se preocupar com a bagunça de pratos e copos na mesa, a Juliana vai limpar tudo quando chegar em casa.
— Mas vem cá, Cláudio. — Retrucou o amigo, parecendo inconformado. — Olha como a Juliana é uma mulher boa e dedicada. Ela cuida da casa de vocês com toda a perfeição e ainda trata os seus pais e a sua irmã muito bem. Você não sente nada por ela? Nenhuma paixão depois desse tempo todo?
Do lado de fora, Juliana prendeu a respiração e apurou os ouvidos, esperando a resposta com angústia. O tom de Cláudio soou muito frio e distante:
— Eu nunca gostei desse tipo de mulher como a Juliana, que vive em volta do fogão e gira em torno do marido o dia inteiro. Meu tipo sempre foi a Melissa, uma mulher de sucesso que brilha de verdade e foca toda a sua energia na carreira.
Ouvir aquelas palavras trouxe uma dor insuportável ao peito de Juliana. Seus olhos se encheram de lágrimas no mesmo segundo, enquanto sua mão, solta ao lado do corpo, tremia sem parar.
— Então por que você foi atrás da Juliana no passado e até casou com ela? — Questionou o amigo, bastante confuso com a situação.
— Naquela época, a Melissa insistiu em me deixar para ir estudar fora do país. — Respondeu Cláudio, com a voz carregada de ressentimento antigo.
— E você fez isso só para provocar a garota? — Perguntou o amigo.
O silêncio do marido foi a resposta afirmativa de que precisavam, e logo o amigo insistiu no assunto principal:
— Então, já que a Melissa voltou, você vai pedir o divórcio para a Juliana?
Cláudio ficou calado por um longo tempo antes de soltar um suspiro e concordar em parte:
— Você tem razão, a Juliana cuidou muito bem de mim. O meu problema de estômago não voltou a atacar nos últimos dois anos, e ela sempre resolveu todos os problemas da minha mãe e da minha irmã, sem nunca me dar dores de cabeça com os afazeres da família.
Afinal de contas, Cláudio não era herdeiro da Universo Tech. Ele conquistou o cargo de presidente com muito esforço, participando de almoços e jantares de negócios onde precisava beber muito álcool para fechar contratos, o que acabou destruindo a saúde do seu estômago nos primeiros anos.
Com pena dele, Juliana acordava uma hora mais cedo todos os dias para preparar um café da manhã leve, e voltava do trabalho pontual às cinco da tarde para fazer uma sopa nutritiva. Quando o marido precisava fazer hora extra no escritório, ela levava a comida até a sede da empresa antes de voltar para o seu próprio turno no instituto de pesquisa.
Aquela rotina muito cansativa durou quatro anos inteiros, desde o dia do casamento. Até que, no dia de hoje, o projeto secreto de microchips independentes em que ela trabalhava há quatro anos foi finalizado com muito sucesso. O instituto de pesquisa abriria uma licitação em breve, e o lançamento do produto traria grandes benefícios para o país inteiro. Como a líder principal do projeto de criação, Juliana receberia um prêmio em dinheiro muito alto e também ganharia uma honra nacional pelo seu trabalho duro.
Ela havia corrido para casa, cheia de alegria, louca para contar a grande novidade ao marido. No caminho, ela até pensou em comprar um presente bem caro com o dinheiro do prêmio, algo que combinasse muito com a posição dele como presidente da Universo Tech.
Mas, em vez de um momento feliz de comemoração, ela teve que ouvir o marido dizer:
— No entanto, uma mulher brilhante e incrível como a Melissa não merece ficar presa nas tarefas chatas de um casamento. Eu não teria coragem de fazer isso com ela.
A diferença entre ser amada e não ser era muito clara. Aquela rejeição crua fez as lágrimas escorrerem sem parar pelo rosto de Juliana, trazendo um gosto salgado de muita tristeza aos seus lábios. Ao ouvir os passos pesados se aproximando da porta, ela se encolheu de pressa e se escondeu atrás da parede do corredor do prédio.
Assim que as vozes sumiram, ela caminhou a passos lentos para dentro de casa e encontrou a mesa da sala cheia de restos de comida e garrafas vazias. Cláudio nunca a viu como uma parceira de vida, mas sim como uma empregada particular.
Sem nenhuma energia para limpar aquela bagunça toda, Juliana sentiu o corpo inteiro pesar, desejando apenas fechar os olhos e dormir para esquecer o pior dia da sua vida. Porém, ao deitar na cama de casal, o sono não veio, e todas as lembranças do passado começaram a passar pela sua cabeça em um filme repetitivo.
Eles se conheceram em um dia de tempestade, quando ele estava tomando chuva e ela ofereceu o seu guarda-chuva velho. O segundo encontro aconteceu quando ela corria para não perder o ônibus lotado, e ele apareceu de carro do nada para dar uma carona, marcando o início de uma série de encontros casuais. Quando o querido professor de Juliana faleceu e quando ela ia visitar o orfanato pobre onde cresceu, Cláudio sempre estava ao seu lado para dar conforto. Até mesmo quando o projeto de pesquisa dela foi suspenso e ela perdeu o emprego, o homem a abraçou com carinho, disse que tudo ficaria bem e a pediu em casamento.
Ela teve que aceitar um emprego comum, ganhando apenas quatro mil reais por mês, mas Cláudio apenas sorria, fazia carinho no cabelo dela e elogiava o seu grande esforço.
Juliana só conseguiu pegar no sono por volta das três da madrugada, com a cabeça doendo muito, mas o seu relógio biológico a despertou pontual às seis da manhã para preparar a refeição do marido. Ela abriu os olhos exausta, notando que o outro lado da cama estava vazio e muito frio. A coberta do quarto de hóspedes também não foi tocada, confirmando que Cláudio havia passado a noite toda fora de casa.
Enquanto pensava no que fazer, ouviu o barulho da fechadura digital na porta da frente e virou o rosto para ver quem era. O marido entrou no apartamento, entregou o casaco para ela por puro costume e se abaixou para dar um abraço, mas parou no meio do caminho como se tivesse lembrado de algo importante.
— Ontem à noite eu saí para beber com meus velhos amigos e fiquei com cheiro forte de cigarro e bebida. — Justificou Cláudio, dando um passo para trás. — É melhor eu não te abraçar hoje para não te sujar.
No passado, sempre que Cláudio voltava de um jantar de negócios estressante, ele a abraçava bem forte, dizendo que aquilo o fazia sentir que estava no seu lar de verdade.
Juliana lembrou por um acaso que o último abraço que recebeu dele foi há quinze dias. Nas últimas duas semanas, eles dormiram na mesma cama, mas de costas um para o outro, sem nenhum contato físico amoroso. Ela acreditava que ele estava muito cansado do excesso de trabalho e por isso não tinha energia para dar amor.
Por pura coincidência, Melissa também havia retornado ao país há exatos quinze dias, provando que os sinais do distanciamento já estavam ali o tempo todo. Juliana abaixou o olhar sem dizer nada, escondendo a dor nos olhos através dos cílios compridos.
Cláudio sentou no sofá com folga e apontou para a mesa cheia de restos do dia anterior, reclamando em voz alta:
— Por que você ainda não limpou essa sujeira toda?
— Eu não me senti muito bem de saúde ontem e acabei dormindo assim que cheguei em casa. — Explicou Juliana, com um tom de voz baixo.
Como era muito detalhista com a limpeza, ela sentiu o cheiro ruim da comida azeda e se abaixou para recolher as sobras, avisando sem muita emoção no rosto:
— Não vou ter tempo de fazer o seu café da manhã depois de limpar isso tudo, então pede alguma coisa por aplicativo de celular para comer.
O marido logo percebeu que havia algo muito errado com o comportamento calado dela. Durante os quatro anos de casamento, Juliana sempre fez questão de cozinhar refeições completas e diferentes todos os dias, a menos que ele estivesse viajando a trabalho para outra cidade. O que tinha acontecido com a esposa prestativa hoje?
— Você está irritada porque não voltei para casa para dormir ontem à noite? — Perguntou o homem, usando um tom mais sério, numa voz mais grave. — Meu amor.
Ao ouvir o termo de carinho, Juliana sentiu um nó ainda maior apertar a sua garganta. Cláudio sempre teve um jeito gentil e bom com as palavras.
Logo que começaram a namorar, ele sussurrou um "meu amor" no ouvido dela pela primeira vez, deixando a garota toda vermelha, mas ela proibiu que ele usasse o apelido antes de casarem de verdade no papel. Ele respeitou a vontade dela e só voltou a chamá-la assim na noite de núpcias, tornando a palavra uma presença diária no vocabulário dos dois desde então.
— Está bem, meu amor, não fique brava comigo. Veja, eu me comportei muito bem e nem bebi álcool no encontro com os meus amigos, do jeito que você me pediu para cuidar do estômago. — Continuou Cláudio, estendendo a mão para fazer carinho na cabeça de Juliana. — Tudo bem não preparar o café hoje, não precisa se forçar. Vou tomar um banho primeiro.
Juliana murmurou um som de confirmação baixo, sem levantar os olhos para olhar para o rosto do marido falso.
Cláudio franziu a testa, não conseguindo conter a dúvida que o incomodava:
— Meu amor, você está agindo muito estranho esta manhã.
— Eu só dormi mal, não se preocupe. — Respondeu Juliana com um sorriso forçado nos lábios, apressando o marido para ir ao banheiro.
Antes de entrar na água, Cláudio tirou um lenço de seda bonito do bolso, e a marca famosa estampada no tecido deixava claro que o produto custava muito dinheiro em qualquer loja de luxo.
— Vi por acaso na vitrine do shopping ontem à noite e comprei de presente para você. — Avisou o homem, virando as costas e indo para o chuveiro sem dar tempo para respostas.
Juliana segurou o tecido macio entre os dedos, perdida em pensamentos de dor por alguns instantes, antes de guardá-lo em sua simples bolsa de pano azul e sair pela porta para trabalhar. O projeto de chips independentes havia ficado parado por um bom tempo depois da morte do seu antigo professor, mas quando foi retomado com força total, ela assumiu o cargo de líder principal.
Por causa das regras pesadas de segurança nacional, a esposa do falecido professor usou alguns contatos ricos para conseguir uma vaga falsa de secretária para Juliana no Grupo Amorim. Graças a isso, o marido sempre acreditou que a esposa não passava de uma funcionária comum com salário muito baixo.
Na vida real, a rotina diária dela envolvia entrar pelo portão leste do Grupo Amorim, cruzar todo o grande parque tecnológico a pé e sair pelo portão oeste, onde o motorista particular do governo já a aguardava em um carro escuro. Ao longo do dia de trabalho, Juliana ficou com a cabeça nas nuvens enquanto analisava os dados no laboratório. Quando o final da tarde se aproximou e o cansaço bateu, o professor Daniel não aguentou mais o silêncio estranho e perguntou:
— Você está assim desanimada porque não quer ir ao jantar de comemoração com a Srta. Melissa hoje à noite?
— Melissa? — Repetiu Juliana, levantando o olhar confuso para o colega de trabalho.
— Olha só, você gravou o nome da moça! — Exclamou Daniel, com uma expressão de choque no rosto enrugado. — Eu jurava que você não dava atenção para mais ninguém no mundo além do seu marido amado. Todo mundo da equipe já conhece a novata, menos você. Se continuar evitando esse encontro de equipe, o pessoal vai achar que você se acha superior aos outros.
A menção daquele nome maldito fez Juliana fechar a cara, incomodada com a situação.
Desde o primeiro encontro na chuva, ela sabia que Cláudio carregava a dor de um coração partido por outra pessoa, mas nunca soube a identidade da mulher que causou tanto sofrimento a ele. Com medo de tocar em uma ferida aberta, Juliana escolheu ficar em silêncio e nunca perguntar sobre o passado, e o marido também nunca tocou no assunto nos últimos quatro anos, como se aquela mulher ruim nunca tivesse existido no mundo.
Ela pensava que a dor dele já estava curada, afinal, todas as pessoas do mundo têm histórias antigas e amores perdidos. Foi só no dia anterior que a dura realidade veio à tona com força total. Cláudio não apenas não esqueceu a ex-namorada, como também passou anos da sua vida gastando um dinheiro absurdo em segredo para ajudá-la a crescer. Perdida nesses pensamentos de traição, Juliana se manteve em um silêncio total.
Daniel deu um suspiro, tentando ser muito paciente. Ele sabia que Juliana tinha fortes motivos contra a presença de Melissa no grupo. O projeto de tecnologia representava o trabalho da vida inteira do antigo mestre dela e agora era a sua própria dedicação diária de suor e sangue. Permitir que alguém entrasse sem esforço para ganhar parte da fama já era um grande sacrifício de engolir, e obrigar Juliana a jantar com essa mesma pessoa era pedir demais do bom senso. Ainda assim, Daniel achou melhor dar um conselho de amigo mais velho:
— Não recuse o convite dessa vez, Juliana, caso contrário, o Sr. Henrique pode ficar muito contrariado com você e criar problemas.
Henrique Silva ocupava a posição de maior autoridade de chefia no instituto de pesquisa e também era o avô de sangue de Melissa Lima, um segredo que Juliana ouviu a sua assistente comentar nos corredores de fofoca.
Ninguém da equipe de cientistas gostou da chegada surpresa da neta do chefe. O currículo dela tinha qualidades boas, mas todos os trabalhadores dali eram mentes brilhantes e esforçadas. O grupo inteiro dedicou quatro anos de trabalho duro sem dormir ao projeto, que já seria apresentado ao público na televisão em um ou dois meses.
Melissa apareceu de repente com o título chique de especialista externa, sem mover um dedo durante toda a fase difícil de pesquisa pesada, mas pronta para receber os aplausos e dividir os lucros milionários. Essa atitude de querer se aproveitar do esforço alheio para roubar a cena causava um desgosto profundo em todos os membros.
Por esse motivo bem claro, Juliana barrou o acesso da falsa especialista à área de segurança máxima e ia direto para casa assim que terminava a sua parte, evitando qualquer encontro de corredor com a intrusa rica.
Através do vidro espelhado da sala de testes, Juliana observou o corredor do lado de fora. Melissa tirou o jaleco branco de médica, vestiu um casaco de couro marrom muito estiloso, jogou os cabelos castanhos para trás com charme e colocou uma bolsa branca muito cara e exclusiva no ombro. A bolsa de luxo era da mesma grife famosa do lenço de seda que Cláudio deu de presente pela manhã com uma desculpa esfarrapada. Movida por um instinto de sexto sentido, Juliana puxou o tecido macio de dentro da própria bolsa de trabalho, sentindo um aviso de perigo na boca do estômago revirar.
Naquele exato momento, a assistente Daise bateu na porta de madeira e entrou na sala. Ao ver o tecido de marca na mão dela, ela arregalou os olhos e comentou cheia de surpresa:
— Nossa, Juliana! Você já gastou o dinheiro do seu prêmio para comprar uma bolsa daquela marca super cara?
— Não. — Respondeu Juliana, olhando para a garota mais nova com muita confusão. — Eu não comprei nenhuma bolsa cara.
— Que estranho. — Murmurou Daise, coçando a cabeça sem entender. — Vi o lenço importado e tive certeza de que você comprou a bolsa de couro junto. Essa grife famosa tem uma regra de venda casada onde os clientes precisam comprar itens menores e caros, como esses lenços de seda, para conseguir o direito VIP de comprar as bolsas exclusivas.
— Compra obrigatória para ganhar o direito? — Perguntou Juliana, sentindo o peito apertar com a dor aguda de uma traição confirmada, ligando todos os pontos na sua cabeça sobre para onde o dinheiro do seu marido estava indo.