INICIAR SESIÓNALGUNS DIAS ANTES
Alejandro Albeniz Assumir a empresa aérea foi algo que sempre almejei. As exigências do meu pai é que tardaram minha volta à Espanha, mais precisamente à Granada. O senhor Albeniz, como quase todas as pessoas desse país, tinha valores arcaicos, acreditavam fielmente que um homem de sucesso e sério tinha que ter consigo, bem ao seu lado, uma “primeira dama”. Apesar de amar o lugar onde nasci, eu estudei na América e passei boa parte da minha vida por lá, me preparando para assumir o Império Albeniz. Não que aqui eu não conseguiria o preparo necessário para administrar Granafly, o problema é que não queria apenas entender da burocracia, fui atrás das especializações e evolução necessária do nosso produto e serviço, por isso fiz todos os cursos que achei necessário, na Boeing. Na reta final da minha preparação, vim para a Europa, mas não para a Espanha, meu destino foi a França e lá também me dediquei às especializações oferecidas pela poderosa Airbus. E foi na França que meu pai e sua esposa tramaram contra mim. Mandaram para mim, a gostosa da sobrinha da minha madrasta. No começo, eu achei muito bom, até entender a verdadeira intenção do senhor Antônio Albeniz e da puta da mulher dele. Estudando feito um louco, sobrava pouco tempo para ir à caça. Catalina chegou para tirar meu "amigo íntimo" e eu da friendzone. Na frente da tia, se fazia de santa, mas toda férias ou data comemorativa que eu ia para Granada, ela sempre aparecia lá em casa, para me receber sempre disponível, deixando um espaço vago para mim, na sua cama. Mas agora, para assumir de vez a presidência da Granafly, eu teria que me casar com ela. Se Mercês achava que eu seria trouxa como meu pai era com ela, para a sua sobrinha, estava muito enganada. Catalina chupava um pau como ninguém e eu ia pagar por isso e só, que elas não pensassem que estavam me fazendo de idiota. No momento, precisava de um esposa e Catalina já estava ao meu alcance, de coração e pernas abertas. (...) No treino, era o meu momento de me desconectar um pouco da rotina acadêmica e organizacional. Vinha bem cedo para encontrar a academia só para mim. A mansão do meu pai mais parecia um albergue no Rio de Janeiro,e lembro bem de quando em umas férias na cidade maravilhosa, passei a noite em um desses, eram muitos em um pequeno quarto. Não que aqui fosse um lugar pequeno, pelo contrário, era imenso. Só tinha gente demais para o meu gosto. 100 quilos de peso estava tranquilo para o exercício de pernas. Iria pôr mais 20, no entanto, antes que eu me levantasse do aparelho, meu pai apareceu. — Que bom que está de pé, preciso que vá para empresa. — ele chegou com suas ordens. — Bom dia, pai. — falei com uma boa dose de sarcasmo. — Bom dia. Agora saia dessa geringonça e vá se arrumar. Te quero na Granafly em meia hora, o Cônsul de Mônaco finalmente nos fará a tão esperada visita. Acabei de saber. Meu pai e sua eterna bajulação a pessoas influentes. Lembro que o tal Cônsul marcou essa visita por diversas vezes e a desmarcou em cima da hora; não mudaria meu percurso por causa dele. — Senhor Albeniz, conforme combinado, estarei na empresa às dez, tenho compromissos. — ignorando seu discurso, voltei ao meu exercício. — Compromissos? Que compromissos? — ele entrou no modo grosseiro, provavelmente, essa simples conversa iria terminar em discussão. — Um deles é pegar meu terno na tinturaria. — Ah, pelo amor de Deus! Mande algum motorista ou qualquer outro empregado fazer isso. — meu pai quase revirou os olhos, como quem dizia: “é para isso que temos empregados”. — Pai, eu morei dez anos sozinho em um país onde as pessoas abrem mão desse tipo de subserviência aristocrata. — Ah, então você vai se atolar e se atrasar em compromissos importantes, para não colocar pessoas que eu pago muito bem, para nos servir? — parei o que fazia por um instante e arqueei as sobrancelhas. — Sim, nos servir. — percebendo minha reação, ele concluiu. Bufei, tentando me controlar, ele já estava distorcendo o que eu disse. — Não tenho compromisso na empresa, quando eu achar necessário, peço a alguém para fazer esse tipo de serviço. Hoje posso chegar às dez na Granafly, já que não marquei nada lá antes desse horário. — Que belo presidente você será! — ele falou com desdém. — Estou falando de um possível comprador de frota. Te quero lá em meia hora. Está dito! — ele exigiu. Naquele momento, me levantei do aparelho para falar com o senhor Albeniz cara a cara. — Sobre como será a minha gestão, conversamos mais tarde. Sim, é um possível um comprador que está atrás de uma excelente frota e temos a melhor a oferecer, por isso não devemos nos desesperar. — Ao invés de questionar como trato as negociações do meu império, VÁ LOGO SE ARRUMAR COMO EU MANDEI. — sua voz se tornou altiva no último momento. — Eu não sou o Beto. O senhor não manda em mim. — meu pai tinha que entender, não seria pau mandado como meu meio-irmão. Beto acatava tudo o que o senhor Albeniz falava, como uma ordem soberana, comigo as coisas seriam diferentes. — Talvez seja melhor realmente eu passar a gestão da Granafly ao Roberto. — Faça como quiser. Estarei na empresa às dez. — corroborei. Saí da academia, deixando o senhor autoritário por lá, ouvi ele socar algo, mas não me importava com sua ira, no fundo, meu pai me conhecia, sabia bem minha reação quando alguém tentava me impor algo e por isso me escolheu para gerenciar a empresa aérea. Seguiria meu plano, uma boa chuveirada, fazer o desjejum e, em seguida, seguir meu cronograma do dia. (...) Por causa do meu pai, saí do treino antes do horário e acabei chegando muito cedo na porta da tinturaria, faltavam vinte minutos para o expediente começar, resolvi ficar dentro do carro, com os vidros fechados, liguei o som em um volume ambiente e recostei a cabeça no banco, relaxando, a posição me dava a visão do retrovisor central, eu via tudo o que se passava na rua por trás de mim e uma cena me chamou a atenção. Sob uma coroa de flores brancas, um cabelo comprido, liso e negro sacolejava, ela corria segurando as pontas do vestido de noiva. Estava acelerada, parecia ter bastante pressa. Curioso, eu saí do carro para admirar tamanha beleza e entender melhor aquela situação. Meus olhos não conseguiram parar de perseguir a linda mulher vestida de noiva no meio da rua, foi como se o tempo parasse, emoldurando aquele momento, principalmente quando ela veio na minha direção, o que me pegou bastante desprevenido.Ximena Valverde Era para tudo estar calmo em nossas vidas — era para ser o fim da tormenta. Mas, como sempre, a justiça da Espanha conseguiu arranjar um jeito de bagunçar tudo de novo. Iker Pavel, o último envolvido direto no meu sequestro, havia sido finalmente capturado na América do Sul. Com ele, boa parte do dinheiro pago pelo resgate foi recuperado. Deveria ser um alívio. Mas, como nada é simples, veio a bomba: a juíza decidiu conceder liberdade provisória para Mercês responder ao processo fora da prisão. O mais revoltante? Ela teve dinheiro para pagar os 500 mil euros de fiança. Para completar o absurdo, veio à tona o verdadeiro testamento de Seu Antônio. O documento dividia os bens da seguinte forma: 80% para Alejandro e os 20% restantes para Roberto. Mas havia uma cláusula maldita — Alejandro teria a obrigação de pagar uma mesada de 350 mil euros para Mercês. Ele tentou de tudo para cancelar essa exigência, não por avareza, mas porque ela, simplesmente, não merecia. S
Alejandro AlbenizFazia dois dias que eu estava naquele quarto de porão. Dois dias sem ver a luz do sol, sem saber as horas, sem qualquer noção do tempo — apenas eu, acorrentado, tentando entender como e por que Mercês havia se tornado tão obcecada por mim.O quarto era um verdadeiro altar doentio à minha história. Havia fotos de todas as fases da minha vida: infância, adolescência, juventude adulta. Roupas minhas penduradas — com destaque perturbador para peças íntimas — e, ao centro, um grande tabuleiro de dardos com imagens de todas as mulheres que fizeram parte da minha vida. Cada foto tinha um dardo cravado no olho. Mas a de Ximena... a de Ximena era a mais mutilada. Dardos cobriam todo o seu corpo, como se ela fosse o principal alvo da loucura de Mercês.Meus braços estavam algemados acima da cabeça. As pernas, presas com correntes a argolas no chão. A posição era torturante, mas nada doía mais do que a presença constante dela. Mercês surgia a todo instante, me tocava, murmurava
Ximena Valverde Eu praticamente tive que fugir de Madri.Foram dias tensos, angustiantes. Jacques e eu estávamos desesperados com o sumiço de Alejandro. Há dois dias, não conseguíamos nenhum contato com ele. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Silêncio absoluto.A preocupação só aumentava, mas o pior foi que meus pais tentaram me impedir de todas as formas de voltar para Granada. Alejandro havia falado diretamente com eles, pedindo — ou melhor, suplicando — que não me deixassem sair de Madri sob nenhuma hipótese. Ele queria me proteger, disso eu não duvidava. Sabia que ele estava envolvido com algo perigoso, e fazia o possível para me manter afastada disso. Mas não podia deixá-lo sozinho. Essa luta não era só dele. Era nossa.— Jacques, precisamos ir agora. — Eu disse, determinada, segurando o celular com as mãos trêmulas. — Não vou abandoná-lo.— Concordo. Também estou preocupado com ele — respondeu Jacques, o semblante sério. — Prepare-se. Partimos ainda hoje.Eu liguei para Jacques
Alejandro AlbenizSaímos do prédio do mesmo jeito que entrei: na base da encenação. Catalina estava tão fraca, que mal conseguia firmar os pés no chão. As pernas dela tremiam como se o corpo estivesse há dias sem entender o que era firmeza ou estabilidade. Me partia o coração vê-la assim, com o rosto pálido, o olhar ainda perdido, os lábios rachado pela desidratação, e mesmo assim, havia nela uma força silenciosa. Valério e o outro enfermeiro, a apoiaram como se fôssemos três amigos saindo de uma visita informal. Um de cada lado, eu no meio, ela encostada no meu ombro como se apenas estivesse tonta, como se estivesse zonza pelos efeitos dos medicamentos, ou algo assim.A adrenalina me fazia suar frio. Era só dar um passo em falso, só um olhar atravessado de alguém mais atento, que tudo poderia ir por água abaixo. Mas ninguém desconfiou. Talvez fosse isso mesmo o mais absurdo: ninguém nunca desconfiava de nada por lá.Assim que atravessamos os portões e entramos no carro que aluguei co
Alejandro Albeniz— Catalina... — sussurrei, com a voz embargada pelo choque, pelo absurdo da realidade à minha frente.Os olhos dela se abriram de imediato, arregalados, opacos pela dor e por algo que eu só poderia descrever como uma ausência de fé. Ela me olhou como se eu fosse uma miragem. Como se minha presença ali fosse mais uma brincadeira sádica da sua mente torturada.— Você... — a voz dela era um fio quebradiço, frágil. — Você é só mais um dos meus sonhos... um sonho até que... delirante. Porque de todas as pessoas que imaginei que viriam me salvar... nenhuma era você. Seria bom demais para ser verdade...Engoli em seco, ajoelhado ainda diante dela, com o estômago embrulhado. Era Catalina. Meu Deus, era ela! Estava ali, destruída, trancafiada como um animal doente. E mesmo assim, ainda era ela.— Eu não sou um sonho, nem delírio. Eu estou aqui, Catalina. E eu vou te tirar daqui. — prometi, com mais força do que eu imaginava ser capaz de reunir naquele momento.Ela balançou a
Alejandro AlbenizEu sabia que teria que voltar àquele hospital maldito. Depois da ligação que Mercês recebeu, algo me corroía por dentro. Um pressentimento insistente, um alerta agudo como sirene de incêndio martelando no fundo da minha consciência. Ela descobriu. De algum modo, Mercês sabia das minhas visitas ao hospital psiquiátrico. Não fazia ideia de como, mas sabia.Agradeci em silêncio à força que me fez pedir o telefone do enfermeiro Valério antes de sair dali da última vez. Talvez tenha sido o instinto, ou talvez a intuição que crescia quando a verdade começava a se remexer sob a superfície da loucura.Liguei para Valério. Ele não estava de plantão, mas topou ir comigo até o hospital. Sua disposição me pareceu honesta, e mais do que nunca, eu precisava de aliados.Tentei sair da mansão sem chamar atenção. Era quase meia-noite quando desci as escadas devagar, sem sapatos, respirando com cuidado para não fazer barulho. Cruzei a sala como um ladrão prestes a fugir da própria cas







