Compartir

Capítulo 6

Autor: Luana
last update Fecha de publicación: 2026-04-25 13:01:55

O sol ainda nem tinha nascido quando o sino tocou.

O som cortou o silêncio da madrugada… e, como sempre, arrancou a gente de um descanso que nunca era suficiente.

Eu abri os olhos devagar, sentindo o corpo pesado. A senzala ainda estava escura, abafada… cheia de gente, de respirações cansadas, de sonhos interrompidos.

Ali dentro… não existia silêncio de verdade.

Só cansaço.

Chinara já estava de pé.

Ela sempre acordava antes.

— Levanta, menina… — ela sussurrou, tocando meu ombro com cuidado. — Quanto mais rápido a gente se organiza, menos bronca a gente leva.

Eu assenti, ainda meio perdida entre o sono e a realidade.

Levantei do colchão de palha, sentindo o frio do chão nos pés. Ao meu redor, outras mulheres também se levantavam… em silêncio, quase automático.

Lá fora… os homens já estavam sendo levados.

Eu conseguia ouvir os passos, os comandos… o começo de mais um dia pesado na lavoura.

Eu já tinha visto.

Sol forte, pouca água… trabalho sem parar.

Os feitores sempre por perto.

Sempre olhando.

Sempre prontos.

O chicote não precisava nem ser usado muitas vezes… só de estar ali, já dizia tudo.

Eu e Chinara ficávamos na casa-grande.

Mas isso não significava descanso.

Nunca significava.

Cozinhar, lavar, limpar… cuidar de Sol…

O trabalho não acabava.

E cuidar de Sol… apesar do carinho… era um risco.

Qualquer coisa.

Um tropeço.

Um choro.

Um arranhão.

E a culpa… sempre vinha pra mim.

A comida era pouca.

De manhã… farinha, às vezes um café fraco.

No almoço… feijão ralo.

A gente comia rápido.

Sempre rápido.

Porque o tempo nunca era nosso.

Mas… mesmo ali…

Existiam momentos.

Pequenos… mas existiam.

À noite… quando o trabalho acabava… e o céu ficava cheio de estrelas…

A gente se juntava.

Baixinho.

Sem chamar atenção.

Alguém contava uma história.

Outro cantava.

E, por alguns minutos… parecia que a gente ainda era gente.

Eu olhava pro céu… e pensava neles.

Aziza…

Amir…

— Você ainda sonha em ser livre? — eu perguntei uma noite.

Chinara ficou em silêncio por um tempo.

Olhando pro céu… pela fresta da parede.

— Sonhar… ninguém pode tirar isso da gente — ela respondeu.

Eu guardei aquilo.

Mas nem todos os dias terminavam assim.

Quando algo dava errado…

O castigo vinha.

Rápido.

Cruel.

Às vezes… os gritos ecoavam pela fazenda.

E lembravam a gente de tudo.

Dona Ofélia não aceitava erro.

Principalmente das escravas da casa.

O senhor Santiago…

Ele era diferente.

Mas não o suficiente.

Ele não fazia.

Mas também não impedia.

E aquilo… às vezes doía igual.

No meio de tudo isso…

Eu cresci.

Entre o medo…

E a coragem.

Entre a dor…

E pequenos momentos de carinho.

E… sem perceber direito…

Algo novo começou a nascer dentro de mim.

Principalmente… quando eu cruzava o olhar com ele.

Afonso.

Eu não entendia.

Mas sentia.

Naquele dia… depois de horas de trabalho…

Algo mudou.

Sol apareceu correndo.

— Jamila! Vamos passear hoje! Mamãe deixou!

Eu me surpreendi.

Aquilo não era comum.

Passear… sem tarefa?

Mesmo assim, eu sorri de leve.

— Vamos sim, sinhazinha.

Antes de sair… eu olhei pra Chinara.

Ela não disse nada.

Mas o olhar dela disse tudo.

Cuidado.

Eu entendi.

Saímos.

O caminho era de terra… cercado por árvores. O verde ao redor parecia outro mundo… tão diferente da vida que a gente levava.

Sol corria… ria… colhia flores.

Leve.

Livre.

— Olha, Jamila! Essa é bonita, né?

Eu olhei pra flor… simples… mas cheia de cor.

E sorri.

De verdade.

— É linda, sim.

Por um momento…

Eu esqueci.

Senti o vento no rosto.

O sol na pele.

E… quase… parecia liberdade.

Mas durou pouco.

Eu senti antes de ver.

Aquele olhar.

Quando levantei os olhos… ele estava lá.

Um feitor.

Encostado perto da cerca.

Olhando.

Mas não era um olhar comum.

Não era só vigilância.

Era diferente.

Pesado.

Eu senti meu corpo travar.

Sol não percebeu.

— Vamos até ali! — ela disse, puxando minha mão.

O homem começou a andar na nossa direção.

Cada passo… pesado.

— Passeando, é? — ele disse.

Eu abaixei o olhar na hora.

— Sim, senhor… a sinhazinha quis sair um pouco.

Silêncio.

Eu senti o olhar dele em mim.

Lento.

Como se estivesse me analisando.

Como se eu fosse… uma coisa.

— Bonita você… — ele murmurou.

Meu coração disparou.

Um arrepio subiu pelo meu corpo.

Mas eu fiquei em silêncio.

Como sempre aprendi.

Sol franziu a testa, sem entender nada.

— Vamos, Jamila!

Ela me puxou.

E eu fui.

O homem não impediu.

Mas continuou olhando.

Eu só consegui respirar melhor quando já estávamos longe.

— Você tá estranha… — Sol disse.

Eu forcei um sorriso.

— Não é nada, sinhazinha.

Mas era.

E eu sabia.

Quando voltamos… Chinara percebeu na hora.

Ela sempre percebia.

— O que aconteceu?

Eu hesitei.

Mas falei.

— O feitor… ele olhou pra mim… estranho.

Ela fechou os olhos por um instante.

Como se já conhecesse aquela história.

— Fique atenta, menina… — ela disse. — Tem olhar que traz problema.

Eu senti um peso crescer dentro de mim.

Naquela fazenda…

Não bastava trabalhar.

Não bastava obedecer.

Existiam perigos que não vinham do chicote.

Vinham dos olhos.

E, naquele momento…

Eu entendi uma coisa que me deu medo de verdade.

Minha beleza…

Não era proteção.

Era risco.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Apaixonado pela escrava    Final

    Às vezes eu ainda acordava cedo.Muito cedo.Antes mesmo do sol nascer.Era um costume que a vida havia deixado em mim.Durante anos, acordar cedo significava trabalho.Significava medo.Significava obedecer ordens.Significava sobreviver.Mas agora era diferente.Agora eu gostava de sentar na varanda da minha casa e assistir o amanhecer.Gostava de ver os primeiros raios de sol iluminando os campos.Gostava de ouvir os pássaros.Gostava de sentir o vento no rosto.Porque cada amanhecer me lembrava uma coisa muito importante.Eu estava livre.Livre.Ainda parecia estranho pensar nisso.Mesmo depois de tantos anos.Porque quem nasce sem liberdade demora para acreditar quando finalmente a conquista.Eu segurava uma xícara de café quando ouvi passos vindo pela estrada.Sorri imediatamente.Eu sabia quem era.Gabriel.Meu filho já não era mais uma criança.O tempo tinha passado depressa.Depressa demais.Agora era um rapaz alto.Os cabelos claros continuavam iguais.Os olhos também.Cada

  • Apaixonado pela escrava    A grande vitoria

    A praça estava lotada.Homens, mulheres, crianças, idosos.Negros livres.Negros escravizados.Brancos favoráveis à causa.Advogados.Padres.Jornalistas.Todos reunidos naquele mesmo lugar.O ar parecia diferente.Carregado de expectativa.De esperança.De medo também.Eu nunca tinha visto tanta gente reunida por um mesmo motivo.Durante anos eu participei de reuniões.Escrevi cartas.Conversei com mães.Lutei para que nossos filhos tivessem o direito de aprender.Lutei para que fossem vistos como seres humanos.Mas agora a luta tinha crescido.Já não era apenas sobre escolas.Era sobre liberdade.Liberdade para todos nós.Naquele dia, eu estava na frente de uma multidão.Algo que jamais imaginei quando ainda era uma menina assustada dentro da senzala.Quando eu abaixava a cabeça diante dos feitores.Quando acreditava que minha vida inteira seria apenas sobreviver.Agora não.Agora eu estava ali.Falando.Representando centenas de mulheres.Representando mães.Representando famílias

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 106

    Os dias que se seguiram foram os mais felizes que eu conseguia lembrar ter vivido.Durante muitos anos, eu havia acreditado que felicidade era conquistar um diploma, construir uma carreira, ser respeitado como médico ou formar uma família ao lado de uma boa mulher.Mas agora eu entendia que felicidade podia ser algo muito mais simples.Às vezes era apenas acordar pela manhã e ouvir uma criança correndo pelo quintal.Era escutar uma gargalhada.Era sentir uma mão pequena segurando a sua.Era olhar para um menino e reconhecer nele um pedaço de si mesmo.Todas as manhãs eu acordava cedo.Mesmo sem precisar.Mesmo sem compromisso algum.O hábito dos estudos e do trabalho ainda existia.Mas agora havia outro motivo.Gabriel.Eu gostava de vê-lo acordar.Gostava de observá-lo saindo da cama com os cabelos bagunçados.Gostava de ouvir as perguntas que ele fazia sobre tudo.Porque Gabriel tinha curiosidade para o mundo inteiro.Queria saber como funcionavam os remédios.Como os cavalos entend

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 105

    Eu não consegui dormir naquela noite.Mesmo depois de sair da casa de Jamila.Mesmo depois de abraçar Gabriel.Mesmo depois de ouvir da boca dela toda a verdade que me foi roubada durante tantos anos.Nada dentro de mim conseguia encontrar paz.Eu caminhava de um lado para o outro no quarto da casa-grande enquanto a madrugada avançava lá fora.Toda vez que fechava os olhos via Gabriel.Via seu rosto.Seu sorriso.Seus cabelos claros.Via seus olhos tão parecidos com os meus.E então vinha a pergunta que não me deixava respirar.Como?Como alguém pôde fazer isso?Como uma mãe pôde olhar para o próprio filho sofrendo e ainda assim esconder uma verdade daquela dimensão?Durante anos eu acreditei que Jamila tinha me abandonado.Durante anos tentei convencê-la de que aquilo havia sido uma escolha dela.Durante anos carreguei uma dor que não precisava existir.E Gabriel...Meu Deus.Gabriel cresceu sem pai.Sem saber quem eu era.Sem saber que eu pensava nele sem sequer conhecer seu rosto.

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 104

    O sol já começava a descer no horizonte quando Afonso permanecia sentado à beira da lagoa.O cavalo pastava alguns metros atrás dele, livre.Mas Afonso não conseguia sentir liberdade alguma.Pela primeira vez em muitos anos, sentia-se completamente perdido.As águas tranquilas refletiam o céu dourado, mas dentro dele existia apenas tempestade.Gabriel.Meu filho.Aquelas palavras não saíam de sua cabeça.Meu filho.Sete anos.Sete anos de vida.Sete anos de sorrisos.De tombos.De aprendizados.De aniversários.E eu não estava lá.Afonso levou as mãos ao rosto.Sentia lágrimas escorrerem novamente.Pensou em Cristiano.No homem que havia criado Gabriel.No homem que estivera presente em todos aqueles momentos que deveriam ter sido dele.Sentiu culpa.Muita culpa.Mas ao mesmo tempo sabia que não fora escolha sua.Jamila também não tinha escolhido aquilo.Os dois haviam sido vítimas da mesma armadilha.Da mesma crueldade.Da mesma mentira.Então pensou em Helena.Sua noiva.A mulher qu

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 103

    A tarde já começava a cair sobre a fazenda quando Helena percebeu que alguma coisa estava muito errada.Desde que Afonso saíra do escritório do pai, montado em seu cavalo e desaparecendo estrada afora sem dizer uma única palavra, o ambiente da casa-grande havia mudado completamente.O silêncio parecia pesado.Difícil.Quase sufocante.Helena estava sentada na varanda observando os empregados passarem de um lado para outro quando viu Sol atravessar o corredor.A jovem também parecia abalada.Os olhos vermelhos denunciavam que ela havia chorado.Helena respirou fundo.Não podia mais fingir que não percebia.Levantou-se devagar e caminhou até ela.— Sol...Sol parou.— Sim?— O que está acontecendo?A pergunta saiu direta.Sem rodeios.Sol abaixou os olhos.— Nada.Helena balançou a cabeça.— Não faça isso comigo.Sol ficou em silêncio.— Eu vi o jeito que Afonso olhou aquela mulher.— Jamila.— Sim.Helena assentiu.— Eu vi o jeito que ela olhou para ele também.Sol continuava quieta.—

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status