LOGINHanna Ross
O salão da casa dos pais da Sarah sempre teve um ar sofisticado, com móveis clássicos demais para o meu gosto, mas confortáveis o suficiente para sentir que estou em casa. A mesa de jantar está impecável — louças elegantes, taças alinhadas, flores frescas no centro. E, mesmo assim, tudo em mim está… inquieto. Eu não queria vir. Inventei mil desculpas. Mas Sarah insistiu, Dani reforçou, e eu acabei cedendo. Afinal, é só um jantar de boas-vindas. Nada de mais. Só mais um momento social para fingir que está tudo bem. Estou de costas para a porta, rindo fraco de uma história que Dani conta, quando o ar muda. Não é exagero — ele entra e o mundo parece parar por um segundo. O cheiro. Amadeirado, masculino, inconfundível. Meu coração dá um salto tão forte que tenho certeza de que todo mundo percebe. O vinho na minha taça treme levemente. Meu corpo reconhece antes da minha mente entender. Viro devagar, com a respiração presa nos pulmões. E então vejo. Ele. Parado na entrada, ao lado dos pais da Sarah, usando uma camisa social com as mangas dobradas e um sorriso polido que não chega aos olhos. Os mesmos olhos que me despiram com um olhar. Os mesmos olhos que me tocaram mais profundamente do que qualquer palavra. Meu belo desconhecido. E, antes que eu possa reagir, antes que eu possa processar o caos que me invade, Sarah salta da cadeira: — Nicolas! — Ela corre até ele, abraçando-o com força. — Meu Deus, como você está diferente! Mas continua lindo, droga! Ele ri. A mesma risada rouca da noite em que me salvei em seus braços. — Vem, deixa eu te apresentar para as meninas. — Ela segura sua mão e o puxa até a mesa. — Você já conhece Dani… e essa aqui — ela aponta para mim, sem ter ideia da bomba que está prestes a estourar — é a minha melhor amiga, Hanna Ross. Nossos olhares se encontram. O dele endurece por uma fração de segundo. O meu? Eu não consigo nem piscar. — Ahn… prazer em conhecer, Hanna — ele diz, com um leve sorriso no canto da boca. Sarah arregala os olhos, surpresa com a forma intensa com que ele me olha. — Nicolas… Silêncio. Um silêncio pesado, cheio de tudo o que não pode ser dito ali. Ele mantém os olhos nos meus, intensos, penetrantes. Se aproxima de mim e diz: — Essa é uma noite… inesquecível. Meu rosto cora imediatamente. Meu corpo queima. E agora eu sei que o universo tem senso de humor. Cruel, sarcástico e completamente sem misericórdia. O desconhecido. O homem que conheceu a parte mais quebrada de mim. É Nicolas Lancaster. O primo da minha melhor amiga. Eu não consigo respirar. O nome dele ecoa na minha cabeça como uma sirene: Nicolas Lancaster. O primo da Sarah. O homem que segurou meu rosto com tanta delicadeza enquanto eu desmoronava. Que me sussurrou que tudo ficaria bem, mesmo sem saber meu nome. Que me viu… de verdade. E agora está aqui. Em carne, osso e ironia do destino. — Vocês dois já se conhecem? — Sarah pergunta, desconfiada, olhando entre nós como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça de mil peças. Dani franze o cenho, e eu vejo claramente o momento em que ela capta algo no ar. A tensão, talvez. Ou o modo como meu corpo está paralisado, como se eu tivesse sido pega em flagrante. Nicolas desvia o olhar por um segundo. Bebe um gole do vinho que alguém lhe oferece, claro, até o destino se certificou de colocar um copo na mão dele. E então, com a maior calma do mundo, ele responde: — Acho que… nos esbarramos uma vez. Mentiroso. “Esbarrar” não define o que aconteceu entre nós. Ele me segurou como se eu fosse feita de vidro. Me olhou como se pudesse ver dentro da minha alma. Me salvou quando eu estava prestes a afundar. E agora estamos aqui. Sentados frente a frente, cercados de taças de cristal, gente rindo alto e nenhuma chance de escapar. Sarah sorri, aliviada com a resposta.— Que bom! Então já são quase amigos — ela brinca, voltando a se sentar.
Eu forço um sorriso. Quase amigos. Se ao menos ela soubesse. Nicolas senta-se à minha frente, e por um momento, nossos joelhos quase se tocam debaixo da mesa. O calor da proximidade me faz prender a respiração de novo. Ele não diz nada. Apenas observa. Como da primeira vez. Mas agora não sou mais só uma estranha chorando e bebendo em um bar de esquina. Agora eu sou a melhor amiga da prima dele. Uma complicação real, com nome, rosto e lugar à mesa. Dani tenta retomar o assunto de antes, mas minha mente está a mil. Eu olho para o meu prato, para as velas, para qualquer coisa que não seja os olhos de Nicolas. Mas é inútil. As lembranças de suas mãos sob meu corpo voltam à minha mente. — Preciso de um pouco de ar — digo, levantando-me tão rápido que quase derrubo a cadeira. — Quer que eu vá com você? — Sarah pergunta, preocupada. — Não, estou bem. É só o vinho… — aponto para a taça, dando a desculpa mais velha do mundo. Saio do salão, tentando manter a compostura. O ar da varanda me atinge como um tapa. Respiro fundo. Uma, duas, três vezes. E então ouço a porta atrás de mim. — Você sabia? — A voz dele. Baixa. Rouca. Familiar. Viro devagar. Ele está lá. De novo. Como um fantasma que insiste em não ir embora. — Sabia o quê? — Que eu era o primo da Sarah? — Se eu soubesse, teria fugido antes do jantar começar — respondo, cruzando os braços como escudo. — Ou nem teria vindo aqui. Ele sorri de lado. Aquele maldito sorriso torto que mexe com tudo em mim. — E se eu dissesse que estou feliz por não fugir? — Eu diria que você tem um gosto terrível para problemas. — Sempre tive — ele dá um passo à frente, e meu coração responde na mesma hora, traidor. — Mas você… você não é um problema, Hanna. Eu rio, sem humor.— Você não me conhece.
— Não. Mas já vi você em um momento que ninguém mais viu. Ou você esqueceu do presente precioso que você me deu? Ficamos em silêncio. Só o som distante das risadas no salão preenche o espaço entre nós. E é nesse silêncio que eu percebo: isso não vai ser simples. Não vai ser fácil. E, com certeza, não vai ser esquecível. Porque o desconhecido tem nome. Tem laços. Tem história. E agora… tem a minha atenção. Eu deveria entrar. Voltar para a mesa, fingir normalidade, sorrir para a sobremesa e seguir com minha vida como se Nicolas Lancaster não estivesse prestes a virar tudo de cabeça para baixo. Mas eu fico ali. Parada, entre a noite morna e o caos interno, encarando aquele homem que, sem saber, invadiu os lugares mais vulneráveis de mim. Ele não desvia o olhar. Me observa com a mesma intensidade da primeira vez, como se quisesse entender cada linha do meu rosto, cada nuance da minha reação. É sufocante. E viciante. — O que você está fazendo aqui, Nicolas? Minha voz sai baixa, mas firme. Eu preciso de alguma resposta. Alguma explicação do universo que justifique essa coincidência absurda. Ele apoia uma das mãos no parapeito da varanda, como se também precisasse se segurar em algo.— Sarah é como uma irmã para mim. Fazia anos que eu não vinha para cá… Mas achei que era hora de voltar.
— Justo agora? — Justo agora — ele confirma, com um meio sorriso. — Acho que o destino tem um senso de humor… peculiar. Eu rio, amarga.— Peculiar é pouco.
Nicolas dá mais um passo. Agora estamos tão perto que consigo sentir o perfume dele misturado ao frescor da noite. Meu corpo reage como se reconhecesse o toque antes mesmo de acontecer. — Aquela noite… — ele começa, hesitante. — Você sumiu. — Porque era o certo a se fazer. — Era? — Ele me desafia com os olhos. — Porque, para mim, parecia tudo menos certo deixar você ir. Engulo em seco. As lembranças daquela noite voltam como uma enxurrada: eu, sentada sozinha, engolindo o choro, tentando não desabar. Ele, surgindo do nada, silencioso e presente. Sem perguntas, sem julgamento. Só… lá. Como ninguém jamais tinha estado. — Eu estava quebrada — digo, num sussurro. — E você apareceu. Do nada. Me ofereceu silêncio quando o que eu mais precisava era ser ouvida sem precisar falar. Ele fecha os olhos por um segundo. Como se cada palavra minha batesse direto em algum lugar dentro dele. — E você foi embora no dia seguinte antes que eu pudesse perguntar seu nome, por que, Hanna? — ele diz, a voz mais baixa, mais rouca. Eu encaro os olhos dele. Escuros. Profundos. Carregados de perguntas que eu ainda não sei se quero responder. — Você falou sem nomes, lembra? — eu sussurro. — E agora sabe que sou a melhor amiga da sua prima. Nicolas dá um meio passo para trás, como se fosse só então que a gravidade da situação o alcançasse. Mas o olhar dele não muda. Continua firme. Intenso. — E você acha que isso vai me fazer ir embora? — Eu acho… — pauso, procurando ar — que seria mais fácil se você fosse. Ele assente, devagar. Mas, no fundo dos olhos dele, eu vejo. Ele não vai a lugar nenhum. E parte de mim… parte de mim não quer que ele vá. A porta da varanda se abre de novo, e a voz da Sarah ecoa: — Hanna? A sobremesa chegou! Cadê vocês? Me viro num susto. Nicolas se afasta como se nada tivesse acontecido, voltando a colocar a máscara do convidado educado. — Já estamos indo — respondo, tentando controlar a voz. Ele me olha uma última vez antes de entrar. E eu fico ali. Com o coração disparado. O corpo em chamas. Sabendo que, a partir dessa noite, nada mais vai ser simples. Nem seguro. E muito menos… fácil de esquecer.Capítulo — Entre Olhares e PromessasNicolas LancasterA forma como Hanna me olhava depois de tudo dizia mais do que qualquer palavra.Não existia mais distância.Nem medo.Só nós dois.Depois de meses carregando culpa, luto e confusão dentro do peito, finalmente senti que podia respirar outra vez. E a razão estava ali, sentada no meu colo horas antes, me beijando como se também tivesse encontrado o caminho de volta para casa.Hanna.Meu Deus…Eu nunca deveria ter tentado fugir dela.Naquela tarde, tudo entre nós aconteceu de maneira intensa e inevitável. Cada beijo carregava saudade. Cada toque parecia apagar um pouco da dor que passamos separados.Não havia pressa.Mas também não existia mais espaço para negar o que sentíamos.A maneira como ela se entregava aos meus braços, como seus dedos percorriam meu rosto enquanto me olhava nos olhos… aquilo mexia comigo em um nível perigoso.Porque não era apenas desejo.Era amor.Um amor forte o suficiente para sobreviver aos meus erros.Qua
Hanna Ross As palavras do Nicolas foram, antes de tudo, sinceras, mas não podia me deixar levar novamente; preciso saber das reais intenções dele. Já sofri muito e não quero passar por isso novamente. No entanto, algo dentro de mim começou a mudar. A lembrança do sorriso dele, a forma como seus olhos brilhavam quando falava sobre seus sonhos, tudo isso me fazia questionar se realmente estava disposta a fechar a porta para ele. Certa tarde, enquanto caminhava pelo parque, vi Nicolas sentado em um banco, perdido em pensamentos. O coração acelerou. Eu sabia que precisava enfrentá-lo, mas o medo de me machucar novamente quase me paralisou. Respirei fundo e me aproximei. — Nicolas? — chamei, hesitante. Ele levantou a cabeça, e nossos olhares se cruzaram. Havia uma mistura de alívio e ansiedade em seu rosto. — Hanna... — ele disse, a voz trêmula. — Eu estava esperando por você. Sentei-me ao seu lado, o silêncio entre nós era pesado, mas, ao mesmo tempo, carregado de emoções não ditas. — Eu
Nicolas Lancaster Não estava preparado para ver o amor da minha vida sofrer, mas foi isso que vi quando a Sarah levou a Hanna embora, me deixando para trás com o intuito de que eu pudesse resolver a confusão que a Giovanna veio instalar aqui. — Amor, quem é essa Hanna? — Giovanna, não sou seu amor, e você sabe disso. O que aconteceu entre nós foi um erro que aconteceu em meio à minha dor por ter perdido sua irmã semanas antes do nosso casamento. Estava embriagado e confuso naquele dia. Aquilo jamais poderia ter acontecido. — Está insinuando que me aproveitei de você? Que usei a dor que você estava sentindo para te levar para a cama Nicolas, sempre te amei em silêncio, estava disposta a levar meus sentimentos sempre comigo, mas daí a Giulia morreu. O que posso fazer? Não vou fingir que nada aconteceu entre nós. Sei o quanto foi verdadeiro. — Giovanna, como pode ser verdadeiro se chamei pela Giulia enquanto estava com você na cama? Era na Giulia que eu pensava; estava muito recente
Hanna Ross O caminho até a casa dos tios do Nicolas era, antes de mais nada, tenso. Queria falar várias coisas, mas, em vez disso, preferi me calar. Minha mente era uma montanha-russa cheia de altos e baixos. Não sabia o que falar; gosto muito de estar com ele e não suportaria saber que realmente ele está namorando outra. Sim, ela deve ser mesmo sua namorada, mas por que todo esse romantismo da noite passada? Por que ele fez questão de que viesse com ele para essa conversa?Não consigo entender; quero confiar no Nicolas, mas, depois de tudo que passei com o Matheus, fico sempre com um pé atrás.O carro mal terminou de parar e meu coração já estava acelerado como se quisesse fugir de mim.Eu nem tive tempo de processar direito onde estávamos.A porta da casa se abriu com pressa.E então… ela apareceu.Giovanna, linda, impecável. Como alguém que sabia exatamente o lugar que ocupava.Antes que eu pudesse sequer respirar direito, ela correu na direção do carro. Meu corpo travou automa
Nicolas Lancaster O silêncio entre nós muda. Já não é leve. Já não é confortável. É pesado… carregado de tudo que ainda não foi dito. Eu passo a mão pelo cabelo, tentando organizar os pensamentos, mas a única coisa que consigo sentir é aquele aperto estranho no peito. Como se eu já soubesse. Como se, se eu sair por aquela porta agora… eu pudesse perder ela. Perder isso. Olho para a Hanna. De verdade. E encontro aquele olhar confuso, defensivo… mas também ferido. Isso é o suficiente. — Hanna… — chamo, dando um passo na direção dela. Ela ergue o olhar devagar. — O que foi? — pergunta, tentando manter o tom neutro… mas não consegue esconder completamente. Eu solto o ar devagar. — Vem comigo. Vamos para a casa dos meus tios e resolver de uma vez por todas esse mal-entendido. Ela franze levemente o cenho, surpresa. — O quê? Aproximo mais um pouco. — Vem comigo resolver isso. É isso que te peço; não quero esconder nada de você. Ela me encara por alguns segundos, como se
Hanna RossA primeira coisa que percebo ao acordar é o silêncio.Não aquele silêncio vazio… mas um silêncio tranquilo, quase acolhedor. Como se o mundo lá fora tivesse decidido nos dar algumas horas a mais antes de cobrar qualquer coisa.A segunda coisa… é ele.Nicolas ainda está ali, ao meu lado, respirando de forma lenta e profunda, completamente entregue ao sono. O rosto relaxado, distante daquela intensidade que ele carrega quando está acordado. Por um instante, fico apenas observando.E então… um sorriso bobo simplesmente nasce nos meus lábios.É inevitável.Porque dessa vez eu lembro.De tudo.Do jeito que ele me olhou, do cuidado em cada gesto, da forma como nada pareceu apressado ou errado. Não foi um erro, não foi uma fuga… foi escolha.Minha escolha.A nossa escolha.Deslizo um pouco mais perto, apoiando o peso no braço enquanto observo melhor os traços dele, como se ainda estivesse tentando memorizar. Como se existisse um medo pequeno, quase imperceptível, de que aquilo pud







