LOGINQuerido leitor,Se você chegou até aqui, peço que receba estas palavras como quem recebe uma carta escrita com todo o coração. Porque é exatamente isso que elas são. Antes de qualquer coisa, quero te agradecer.Obrigada por ter escolhido embarcar comigo nessa jornada, por ter dado uma chance a esta história que nasceu do fundo da minha alma. Obrigada por ter ficado até o fim, por ter sentido cada dor, cada alegria, cada esperança e cada desilusão junto comigo e com meus personagens.Talvez você não imagine, mas escrever um livro não é apenas sentar e colocar palavras no papel. É um ato de coragem, de entrega e muitas vezes de renúncia. É expor medos, memórias, sonhos e feridas. É transformar silêncio em voz. E, mesmo assim, por maior que fosse a minha vontade de desistir em alguns momentos, eu segui. E segui porque sabia que, em algum lugar, alguém como você poderia ler essas páginas e sentir algo verdadeiro.Este livro existe porque nunca caminhei sozinha.Dedico esta obra com todo o
POV Kali(Anos depois...)É noite de Natal. Estou sentada na minha velha poltrona, aquela que carrega a forma exata do meu corpo, como se fosse uma extensão de mim. À minha frente, a lareira crepita com um fogo calmo, lançando sombras quentes pelas paredes. As luzes da árvore piscam, colorindo o rosto dos meus netos que brincam no chão, espalhando risadas que preenchem cada silêncio desta casa.Niyati está ali, sentada no tapete com eles; minha filha tão forte, tão inteira. Olho para ela e vejo todas as versões dela: a menina de trancinhas, a adolescente que me desafiou a ser melhor, a mulher que agora embala no colo os próprios filhos, tão cheia de paciência e coragem.Na cozinha, ouço o som das panelas, o cheiro do tempero quente. Kabir e Saniya conversam em voz baixa, mexendo nas travessas, rindo de algo que não entendo daqui. Eles sempre foram bons em fazer do simples um banquete. É bonito ver como essa casa ganhou novas mãos, novas vozes, novos temperos.Perto da árvore, vejo Raf
POV NiyatiO cemitério estava quieto, como sempre fica no fim da tarde. O vento soprava devagar, levantando folhas secas pelo caminho, como se tudo ali sussurrasse alguma coisa que não se diz em voz alta.Caminhei sozinha entre as fileiras de mármore e saudade. O jaleco branco dobrado no braço, os sapatos ainda novos do estágio, e o coração… estranhamente em paz.A cada passo, vinham lembranças. De mãos dadas com minha mãe, ainda criança, trazendo flores para ele. Do dia em que chorei encostada naquela mesma pedra fria, prometendo que faria algo grande com a dor. Lembrei de mim mesma, aos quinze anos, sentada exatamente nesse mesmo banco de pedra, estudando para uma prova de biologia, lendo em voz alta e fingindo que ele podia me ouvir. E talvez ele ouvisse.Parei diante da lápide com o nome dele.Bennet Huxley.Filho. Marido. Pai.Toquei a pedra fria com a ponta dos dedos. Por anos, esse gesto foi sinônimo de dor. Hoje, é só amor. Silencioso, sem pressa.ㅡ Papai… ㅡ sussurrei, mais pr
POV NiyatiHoje faz vinte anos que meu pai morreu.Não é um número qualquer. É um número que pesa. Que vibra dentro do peito como um relógio que não parou de contar, mesmo quando tudo parecia ter parado. É como se cada batida desse relógio fosse uma lembrança pulsando por dentro, lembrando que a ausência dele moldou cada pedaço do que eu sou hoje.E agora, nesse exato momento, estou de beca, toga, e um canudo simbólico entre as mãos. As pontas dos meus dedos tocam o tecido pesado, sentindo o calor do palco, o burburinho da plateia, o cheiro de flores misturado ao perfume discreto que passei pela manhã. Tudo parece real e irreal ao mesmo tempo, como se eu fosse atriz e espectadora da minha própria história.Doutora Niyati Huxley Akshay.A filha do homem que não pôde ser salvo.A filha do inabalável presidente da maior rede de pedras preciosas do mundo.A filha da mulher que escolheu amar de novo, apesar de tanta dor causada pelo amor.Minha mãe está na plateia. Minha Kali… Forte. Deusa
POV NiyatiAcordei no dia da prova final com o coração em conflito. O luto era uma presença física, quase palpável, sentada ao meu lado na beira da cama. Cada movimento parecia mais difícil, como se eu carregasse junto o peso da ausência do vovô Conrad.Levantei devagar, sentindo os pés frios tocarem o chão. Fui até o espelho e encarei meus olhos vermelhos, inchados por noites mal dormidas. Peguei a escova e penteei o cabelo de forma mecânica, me lembrando de quantas vezes ele dizia que eu ficava “ainda mais parecida com sua mãe” quando prendia o cabelo para estudar.Vesti a camisa branca com a mão trêmula. O tecido, tão simples, parecia pesado demais naquele dia. Na cozinha, preparei o café quase no automático, a colher batendo na xícara num ritmo cansado. O aroma se espalhou pelo ambiente vazio, mas não consegui dar um gole. A xícara ficou ali, intacta, como prova do que faltava: ele não estava sentado na poltrona, lendo o jornal, nem levantou o olhar para me desejar boa sorte.O si
POV NiyatiDepois do sepultamento, ficamos ali por um tempo. A terra ainda fresca, os pés afundando na lama. Eu estava quieta, quase muda, mas sentia dentro de mim um grito. A sensação de injustiça, de não tê-lo abraçado o suficiente, de não ter dito mais vezes o quanto eu o amava.— Eu não sei se consigo... — sussurrei para Vikram, ainda olhando para a terra molhada. — A segunda prova final é semana que vem. Como é que eu vou sentar numa cadeira e fingir que o mundo ainda faz sentido?Ele me olhou com os olhos calmos, apertou minha mão com força.— Você vai conseguir porque ele acreditava em você. Porque ele te preparou pra isso, Niyati. Ele está em cada parte sua. Nos seus gestos, no seu jeito de ouvir os pacientes, no modo como você fala da medicina com o coração.Minhas lágrimas vieram de novo, mas dessa vez, havia um fio de luz entre a dor.— Eu só queria que ele me visse formada...Foi então que minha avó se aproximou. Ela ouviu minhas palavras e segurou meu rosto com as duas mã







