FAZER LOGINDoze anos depois, Alexander Beaumont ainda vencia como se o gelo tivesse sido criado para obedecê-lo.
Valentina o observava do outro lado da pista, com os braços cruzados e o corpo aquecido pelo treino, enquanto ele encerrava a apresentação com uma aterrissagem perfeita. As lâminas cortaram o gelo com precisão, levantando uma fina poeira branca ao redor de seus patins. A música terminou, e Alexander permaneceu imóvel no centro da arena, o peito subindo e descendo, o rosto inclinado sob a luz.
A arquibancada explodiu em aplausos.
Ele sorriu.
É claro que sorriu.
Alexander sabia exatamente o efeito que causava. Sabia quando erguer o rosto, quando passar a mão pelos cabelos escuros e quando oferecer às câmeras aquele olhar confiante que fazia milhares de pessoas acompanharem sua carreira. Aos vinte e cinco anos, era considerado um dos melhores patinadores do circuito. Tinha medalhas, contratos milionários e uma reputação impecável sobre o gelo.
Nunca sofrera uma lesão grave.
Nunca abandonou uma competição.
Nunca deixou uma parceira cair.
Fora da pista, porém, era outra história.
— Tente não olhar tanto — disse Daniel, aproximando-se de Valentina. — Alguém pode pensar que você está impressionada.
Ela desviou os olhos de Alexander.
— Estou analisando os erros.
Daniel soltou uma risada curta.
— Que erros?
Valentina lançou um olhar irritado ao próprio parceiro.
— A entrada do último salto foi exibida demais.
— E perfeita.
— Ainda assim, exibida.
Daniel ajeitou a luva e olhou para a pista. Alexander deslizava em direção à lateral, onde sua parceira, Camila, o esperava com uma garrafa de água. Ela o abraçou pela cintura, e ele beijou sua testa diante das câmeras.
O gesto seria quase convincente se Valentina não soubesse que Alexander havia saído de uma festa, dois dias antes, acompanhado de outra mulher.
As imagens estavam em todos os sites.
— Não entendo como Camila suporta — murmurou Valentina.
— Talvez ela não se importe.
— Eles são uma dupla. Deveria se importar com a imagem dos dois.
— Você se importa demais com a vida dele.
Valentina virou-se para Daniel.
— Eu me importo com a falta de profissionalismo.
— Claro.
Antes que pudesse responder, uma movimentação chamou sua atenção. Alexander havia retirado os patins e caminhava pelo corredor lateral da arena, cercado por dois membros da equipe e uma repórter. Ao passar por Valentina, diminuiu o passo.
Os olhos dele percorreram o vestido de treino simples que ela usava antes de subirem até seu rosto.
— Valentina.
— Alexander.
Ele sorriu de lado.
— Continua assistindo às minhas apresentações?
— Alguém precisa identificar o motivo de suas notas serem tão exageradas.
O sorriso dele não desapareceu, mas algo mudou em seu olhar.
— Ainda acredita que minha família compra os jurados?
— Atualmente, acredito que você aprendeu a comprar a imprensa sozinho, mesmo.
Daniel pigarreou para disfarçar uma risada. Alexander olhou para ele, depois voltou a encarar Valentina.
— Seu parceiro continua achando graça nas suas provocações?
— Ele tem senso de humor.
—Ele precisar ter mesmo, patinar com você deve exigir muita paciência.
Valentina abriu um sorriso frio.
— Pelo menos ele não precisa verificar os sites de fofoca antes de cada competição para descobrir com quem você passou a noite.
A repórter ao lado de Alexander ergueu discretamente o celular, claramente interessada. Ele percebeu e fez um gesto para que sua equipe seguisse em frente.
Quando ficaram apenas os três no corredor, Alexander se aproximou de Valentina.
— Está com ciúmes?
Ela quase riu.
— De qual delas?
— De qualquer mulher que consiga minha atenção sem precisar me insultar.
— Sua atenção parece bem fácil de conseguir.
O maxilar dele se contraiu.
Valentina conhecia cada reação de Alexander. Cresceram competindo nas mesmas arenas, frequentando os mesmos eventos e sendo comparados pela imprensa. Sempre que ela ganhava, algum jornalista perguntava o que ele achava. Sempre que ele quebrava um recorde, queriam saber se ela se sentia ameaçada.
A rivalidade dos dois rendia manchetes.
Alexander inclinou-se um pouco, diminuindo a distância entre eles.
— Um dia, Valentina, você vai parar de fingir que não sente nada quando olha para mim.
Ela sustentou o olhar.
— Sinto irritação, apenas.
— Isso ainda é alguma coisa.
— Vá incomodar sua parceira.
— Camila gosta quando eu a incomodo.
— Aposto que metade do circuito também.
Alexander abriu um sorriso satisfeito, como se a resposta fosse um elogio.
— Mais da metade.
Valentina revirou os olhos e se afastou. Daniel a acompanhou em direção à entrada da pista, mas ela ainda sentia o olhar de Alexander sobre suas costas.
— Vocês dois são exaustivos — comentou Daniel.
— Ele que começou.
— Vocês começaram há mais de dez anos.
Valentina ajustou as proteções dos pulsos.
— E ele continua insuportável.
— Também continua observando você.
Ela parou.
— Não começa.
Daniel ergueu as mãos.
— Só estou dizendo o que vejo.
A música de treino começou antes que Valentina precisasse responder. Ela entrou na pista e tentou expulsar Alexander dos pensamentos. Daniel segurou sua mão, guiando-a pelos primeiros movimentos da coreografia. Com ele, tudo era conhecido, seguro e previsível.
Eles executaram uma sequência de passos e avançaram para o primeiro levantamento.
Valentina ganhou impulso, confiando que Daniel sustentaria seu peso.
Por um instante, tudo funcionou.
Então o braço dele vacilou.
O mundo inclinou-se.
Daniel tentou corrigir a posição, mas perdeu o equilíbrio. Valentina sentiu o corpo escapar antes de atingir o gelo com força. A dor atravessou seu quadril, arrancando o ar de seus pulmões.
A musica parou imediatamente, os paramedicos foram acionados e Daniel se ajoelhou ao lado dela, deseperado e preocupado.
— Valentina, desculpa. Meu ombro…
— Eu estou bem — ela respondeu, mesmo sem ter certeza.
Quando ergueu os olhos, Alexander estava parado na lateral da pista.
O sorriso havia desaparecido.
Ele observava Daniel, depois Valentina, com uma expressão dura demais para ser apenas preocupação.
Valentina tentou se levantar, mas a dor a fez recuar.
Alexander entrou no gelo sem os patins, ignorando os protestos da equipe.
— Não se mexa — ordenou.
— Eu não preciso de você.
Ele se agachou diante dela.
— Pela primeira vez na vida, tente não discutir.
Valentina abriu a boca para responder, mas Alexander já havia passado um braço por suas costas e outro sob seus joelhos.
Ele a ergueu com facilidade.
Ao redor deles, celulares e câmeras registravam tudo.
Valentina segurou-se em seu ombro para não cair e odiou perceber como os braços dele eram firmes.
Alexander baixou os olhos para ela.
— Seu parceiro acabou de deixá-la cair.
— Foi um acidente.
— Acidentes destroem carreiras.
A frase foi dita em voz baixa, somente para ela.
Na manhã seguinte, Alexander parecia diferente. Não menos competitivo, porque isso seria pedir um milagre, mas havia uma calma nova nele. Valentina percebeu assim que o encontrou no café do hotel, sentado diante de uma xícara quase intocada enquanto revisava no celular apenas o cronograma do dia, não os vídeos da apresentação anterior.— Você não está assistindo à nossa nota pela centésima vez? — ela perguntou, sentando-se à frente dele.Alexander ergueu os olhos.— Já sei onde erramos.— Isso é quase saudável.— Não se empolga.Valentina sorriu e pegou uma fruta da bandeja. Marcelo chegou alguns minutos depois com Helena, trazendo a programação atualizada. A próxima apresentação seria mais importante para a classificação geral, e a diferença entre as primeiras colocações ainda era pequena o suficiente para qualquer erro mudar tudo.— Hoje quero cabeça fria — Marcelo avisou. — Nada de tentar compensar ontem fazendo mais do que o programa exige.Alexander abriu a boca.— Nem começa — M
A irritação de Alexander não desapareceu completamente. Valentina percebeu isso ainda naquela tarde, quando os dois voltaram para a área de treino reservada às duplas classificadas. Ele estava mais calado, mais concentrado e, pior, mais exigente consigo mesmo. Cada pequena imperfeição parecia irritá-lo de uma forma desproporcional.— De novo — pediu antes mesmo que Marcelo dissesse qualquer coisa.Valentina apoiou as mãos na cintura.— Você sabe que o treino já acabou, não sabe?— Mais uma passagem.— Você disse isso três vezes.— Então essa é a quarta.Marcelo observava da lateral da pista, aparentemente decidindo se interferia ou deixava Alexander gastar a energia sozinho. Valentina respirou fundo e voltou para a posição inicial. A música começou, e os dois entraram na sequência. Nos primeiros movimentos, tudo funcionou bem. No salto lado a lado, Alexander aterrissou alguns centímetros mais aberto do que o costume.Ele parou imediatamente.— Merda.— Alexander, foi praticamente nada
Alexander continuou olhando para o placar mesmo depois de Valentina desviar os olhos.Segundo lugar.As palavras pareciam simples demais para justificar a sensação que crescia dentro dele, mas não eram. Não para Alexander.Ele nunca havia terminado em segundo.Não importava se aquela ainda era apenas uma colocação provisória. Não importava se era a primeira competição oficial ao lado de Valentina. Não importava se haviam feito uma apresentação excelente e ficado poucos pontos atrás de Samuel e Helena Prado.Segundo continuava sendo segundo.E Alexander odiava aquilo.Valentina percebeu antes mesmo de Marcelo dizer qualquer coisa. O sorriso dele havia desaparecido completamente. A mão que antes repousava sobre seu joelho agora estava fechada em punho, e os olhos permaneciam fixos na pontuação.— Alexander.Ele não respondeu.Marcelo se aproximou.— Vocês fizeram uma excelente estreia.— Excelente não coloca a gente em primeiro.Valentina virou o rosto para ele.— Estamos falando de pou
O anúncio dos nomes ecoou pela arena e, por um segundo, Valentina sentiu tudo ao redor desaparecer. O barulho das arquibancadas, as câmeras, os outros atletas esperando nos bastidores, as provocações dos últimos dias. Tudo ficou distante. Restaram apenas o gelo à frente e a mão de Alexander segurando a sua.Eles entraram juntos.As luzes incidiam sobre a pista com mais força do que nos treinos. Valentina deslizou até a posição inicial, sentindo o som das lâminas cortar a superfície. Alexander parou diante dela, exatamente como haviam ensaiado dezenas de vezes. O programa curto começava com os dois afastados, olhando em direções opostas, como se ainda fossem rivais incapazes de admitir que precisavam um do outro.A música começou.Valentina respirou.Primeiros passos.Alexander avançou. Ela respondeu. Os movimentos eram firmes, quase agressivos no início da coreografia, construídos para representar duas forças tentando dominar o mesmo espaço. Ele estendeu a mão. Valentina passou por el
Valentina acordou antes do despertador e, dessa vez, não conseguiu voltar a dormir. Ficou alguns minutos deitada, observando a claridade fraca entrando pelas cortinas do hotel enquanto tentava controlar a respiração. Era diferente de qualquer apresentação que haviam feito até então. Não existiria fotógrafo pedindo poses, patrocinador exigindo um beijo ou jornalista interessado em saber quando a rivalidade havia se transformado em romance. Naquele dia, quando entrassem no gelo, ninguém estaria interessado na história bonita que havia sido construída ao redor deles. Haveria juízes. Notas. Erros registrados. Classificação.Ela pegou o celular e encontrou uma mensagem de Alexander enviada havia apenas três minutos.Alexander: Acordada?Valentina respondeu imediatamente.Valentina: Infelizmente.A ligação veio quase no mesmo segundo.— Você não sabe escrever?— Eu queria ouvir sua voz.Valentina ficou em silêncio por um instante.— Por quê?— Para saber se estava surtando.— Não estou surt
O hotel da regional estava cheio de atletas por todos os lados. O saguão, os elevadores, o restaurante e até os corredores pareciam extensões da arena. Valentina mal conseguia andar alguns metros sem reconhecer alguém do circuito. Depois do treino oficial, ela e Alexander voltaram exaustos, ainda discutindo pequenos ajustes que Marcelo havia pedido para o programa curto.— Seu eixo estava torto naquele último giro — Alexander comentou enquanto apertava o botão do elevador.— Meu eixo estava ótimo.— Estava quase ótimo.— Você caiu meio centímetro para a direita na aterrissagem.— Meio centímetro não existe.— Para quem se acha perfeito, existe.Alexander abriu a boca para responder, mas uma voz surgiu atrás deles.— Olha só. O casal do momento.Valentina fechou os olhos por um instante antes de se virar.Samuel Nogueira vinha pelo corredor ao lado de Helena Prado e mais dois patinadores que ela reconhecia do evento. Todos ainda usavam roupas de treino. Samuel tinha aquele mesmo sorris







