FAZER LOGINO consultório médico parecia frio demais até para Valentina.
Ela permanecia sentada na maca, com uma bolsa de gelo pressionada contra o quadril, enquanto o médico analisava as imagens no monitor. Daniel estava perto da porta, os braços cruzados e o rosto pálido. Desde o acidente, ele não havia parado de pedir desculpas.
Alexander, por algum motivo que ninguém havia explicado, continuava ali.
Encostado na parede, com as mãos nos bolsos e a expressão fechada, ele observava o médico como se pudesse obrigá-lo a dar uma resposta melhor apenas com o olhar.
— Não houve fratura — informou o médico.
Valentina soltou o ar que estava prendendo.
— Eu disse que não era nada.
— Eu ainda não terminei.
Ela fechou a boca.
O médico aproximou-se e apontou para a imagem.
— Você sofreu uma contusão forte no quadril e uma pequena distensão muscular. Nada grave, desde que respeite o tempo de recuperação.
— Quanto tempo?
— Sem treinos intensos por pelo menos duas semanas.
O silêncio caiu sobre a sala.
Valentina sentiu o estômago afundar.
— A próxima competição é em dez dias.
— Então você não participará.
Ela deixou a bolsa de gelo de lado.
— Eu preciso participar.
— Não é uma recomendação, Valentina. Se voltar à pista antes do tempo, uma lesão simples pode se transformar em algo sério.
— Posso fazer fisioterapia todos os dias.
— Pode. Ainda assim, não estará pronta.
Daniel desviou os olhos.
Valentina olhou para ele, depois para o médico.
— E se eu competir com uma coreografia adaptada? Sem os levantamentos mais arriscados?
— Você pode cair tentando compensar a dor.
— Eu sei lidar com dor.
Alexander soltou uma risada sem humor.
Valentina virou o rosto para ele.
— Algum problema?
— Você está ouvindo a si mesma?
— Isso não é da sua conta.
— Você acabou de cair de um levantamento e está tentando negociar com um médico para voltar ao gelo machucada.
— Eu não estou machucada.
— Está com gelo no quadril dentro de um consultório.
— Alexander — Daniel interveio.
Ele nem sequer olhou para Daniel.
— Ela não vai competir.
Valentina sentiu o sangue ferver.
— Você não decide isso.
— Alguém precisa decidir, já que você perdeu completamente o bom senso.
— Saia daqui.
Alexander se afastou da parede.
— Com prazer.
Mas não saiu.
O médico entregou a Valentina uma receita e algumas orientações. Ela mal ouviu. A única frase que permanecia em sua cabeça era simples e devastadora.
Você não participará.
Ficar fora de uma competição não significava apenas perder pontos. Significava perder parte da premiação, reduzir a visibilidade diante dos patrocinadores e comprometer a temporada. Todo cálculo que fazia terminava no mesmo lugar: as consultas da avó, os remédios e o aluguel.
— Vou conversar com a equipe — disse Daniel.
Valentina o encarou.
— Conversar sobre o quê?
Ele hesitou.
— Sobre a competição.
— Nós podemos adaptar a apresentação.
— O médico acabou de dizer que você não pode competir.
— Então esperamos alguns dias e avaliamos de novo.
Daniel esfregou o rosto.
— Valentina, eu também machuquei o ombro.
Ela parou.
— O quê?
— Já sentia dor há algumas semanas.
Alexander endureceu a expressão.
— E você continuou fazendo levantamentos?
Daniel olhou para ele.
— Eu achei que passaria.
— Você achou errado e colocou a vida da sua parceira em risco seu idiota.
— Pare — Valentina pediu.
Mas algo frio já se espalhava dentro dela.
— Por que não me contou? — perguntou a Daniel.
— Porque a competição estava próxima. Eu sabia que você não aceitaria reduzir os treinos.
— Você me deixou subir sabendo que seu ombro estava ruim.
— Eu achei que conseguiria sustentar.
— Mas não conseguiu.
Daniel baixou os olhos.
A verdade doía mais do que a queda.
Valentina confiava nele. Confiava no impulso, na força dos braços, no segundo exato em que precisava se lançar sem olhar para trás. Na patinação em dupla, hesitar era tão perigoso quanto errar.
— Quanto tempo você ficará fora? — perguntou.
— Ainda vou fazer exames.
A resposta foi suficiente.
Não era apenas uma competição.
Talvez fosse mais.
Valentina desceu da maca com cuidado. A dor atravessou o quadril, e ela apertou os dentes para não demonstrar.
Alexander deu um passo em sua direção, mas ela ergueu a mão.
— Nem pense nisso.
— Você mal consegue andar.
— Consigo perfeitamente.
Ela tentou dar outro passo e quase perdeu o equilíbrio.
Alexander segurou seu braço antes que caísse.
— Solte.
— Quando você parar de tentar provar alguma coisa para o chão, talvez eu solte.
Valentina puxou o braço, mas ele não cedeu.
Daniel observava os dois em silêncio.
— Eu posso levá-la para casa — disse.
— Você deveria cuidar do seu ombro primeiro cara. — Alexander respondeu.
— E você deveria cuidar da própria vida — Valentina rebateu.
Alexander se inclinou na direção dela.
— Estou tentando, mas você continua caindo na minha frente.
Ela abriu a boca, pronta para insultá-lo, quando o celular vibrou dentro de sua bolsa.
Era uma mensagem da administração da equipe.
Precisamos conversar sobre seu contrato e sobre a próxima competição. Amanhã, às nove.
Valentina leu duas vezes.
O peso daquela mensagem parecia maior do que qualquer dor no quadril.
Alexander percebeu a mudança em seu rosto.
— O que aconteceu?
Ela bloqueou a tela.
— Nada.
— Você está péssima em mentir.
— E você é excelente em se meter onde não foi chamado.
Valentina caminhou até a porta, ignorando a dor. Desta vez, Alexander não tentou impedi-la.
No corredor, porém, ouviu a voz dele atrás de si.
— Valentina.
Ela parou, mas não se virou.
— Uma competição não vale sua carreira inteira.
Os dedos dela apertaram a alça da bolsa.
Para Alexander, talvez não valesse.
Ele tinha dinheiro suficiente para perder uma temporada inteira e continuar vivendo como se nada tivesse acontecido.
Valentina não.
Na manhã seguinte, ela descobriria se havia perdido apenas uma competição.
Ou tudo o que dependia dela para continuar existindo.
Alguns meses depois, a rotina de Valentina e Alexander já não parecia construída em torno de câmeras, patrocinadores ou cláusulas escondidas em contratos.Ainda havia treinos.Ainda havia competições.Ainda havia Marcelo reclamando que os dois conversavam demais entre uma sequência e outra.Mas agora existia algo diferente.Eles estavam juntos de verdade.Não porque Roberto havia pedido.Não porque Helena precisava de uma boa imagem para a imprensa.Não porque o público gostava da história dos rivais que se apaixonaram.Estavam juntos porque escolheram.Valentina percebeu isso numa manhã comum, quando abriu os olhos e encontrou Alexander dormindo de lado, ocupando espaço demais na cama dela.De novo.Ela ficou alguns segundos observando o cabelo bagunçado e a expressão tranquila antes de empurrar seu ombro.— Alexander.Ele resmungou.— Alexander.— Ainda está escuro.— São sete e meia.— Exatamente.Valentina puxou o cobertor.— Temos treino.Ele segurou o tecido.— Marcelo pode espe
A comemoração daquela noite foi mais tranquila do que a anterior. Havia jornalistas, patrocinadores, atletas e técnicos espalhados pelo salão do hotel, mas Valentina já não sentia a necessidade de acompanhar cada conversa. A medalha estava pendurada em seu pescoço, Alexander permanecia por perto sem invadir seu espaço e, pela primeira vez em semanas, a presença dele não parecia um peso. Helena foi a primeira a perceber. — Vocês estão estranhos de novo. Valentina quase riu. — Você nunca está satisfeita. — Antes estavam estranhos porque pareciam divorciados. Agora estão estranhos porque parecem ter feito as pazes e estão tentando fingir que não. Alexander pegou uma taça da bandeja que passava. — Sua profissão exige observar demais. — Minha profissão exige impedir que vocês destruam campanhas milionárias. Marcelo apareceu logo atrás. — E a minha exige lembrar que a temporada acabou hoje. Alexander olhou para ele. — Finalmente. — Não se empolgue. Em algumas semanas começamos
A cerimônia de premiação aconteceu poucos minutos depois, mas Valentina mal conseguiu prestar atenção em tudo. Subiu ao pódio ao lado de Alexander, recebeu a medalha, sorriu para as câmeras e ouviu os aplausos como se estivesse um pouco distante de si mesma. Samuel e Helena Prado estavam logo abaixo, em segundo lugar, e dessa vez não houve provocações. Apenas cumprimentos, respeito e a certeza de que aquela vitória havia sido conquistada no gelo, não nas manchetes. Quando saíram da área principal, a equipe foi cercada por jornalistas. Helena tentou organizar as perguntas, mas Valentina já estava cansada demais para responder qualquer coisa que envolvesse relacionamento. — Como está sendo encerrar a temporada no primeiro lugar? — perguntou uma repórter. — Melhor do que poderíamos imaginar — respondeu Valentina. — E vocês pretendem continuar juntos na próxima temporada? A pergunta caiu entre os dois. Valentina ficou em silêncio. Alexander também. Helena tentou interferir
A música começou baixa, quase contida, e Valentina sentiu o corpo entrar no movimento antes mesmo de pensar. A coreografia começava com distância. Ela de um lado, Alexander do outro, os dois avançando em trajetórias diferentes como se pertencessem a histórias separadas. Durante semanas, Marcelo havia insistido que aquela primeira parte precisava parecer resistência, não indiferença. Agora Valentina entendia exatamente a diferença. Alexander se aproximou primeiro. Ela recuou. Ele estendeu a mão e Valentina passou por ele sem aceitar. O movimento era conhecido, ensaiado dezenas de vezes, mas naquela noite carregava outra coisa. Cada separação parecia dizer o que os dois haviam tentado fazer fora do gelo. Cada reencontro parecia lembrar que, apesar de tudo, continuavam voltando ao mesmo lugar. A música ganhou força. Valentina acelerou. Alexander acompanhou. Entraram na primeira sequência de passos em perfeita sincronia. Mudança de direção, cruzamento, giro, separação rápida e reenco
Samuel e Helena Prado entraram no gelo poucos minutos depois.Valentina assistiu à apresentação ao lado de Alexander e Marcelo, tentando manter a cabeça na competição, mas havia outra coisa ocupando espaço demais dentro dela. Aquele quase abraço depois da nota. A mão de Alexander parando no meio do caminho. O cuidado exagerado em respeitar cada limite que ela havia imposto.Era isso que ela queria.Então por que parecia tão errado?Samuel e Helena fizeram uma apresentação forte. Limpa, precisa, segura. Quando a nota apareceu, ficaram poucos décimos atrás de Valentina e Alexander.Alexander soltou o ar devagar.— Continuamos em primeiro.Marcelo cruzou os braços.— Provisoriamente.— Você consegue estragar qualquer momento.— É meu trabalho.Valentina sorriu de leve, mas a tensão voltou quase imediatamente. O programa longo seria decisivo. Ali não haveria espaço para distração.No restante do dia, Marcelo manteve os dois longe do gelo. Queria recuperação física, descanso e concentração.
Valentina acordou antes do despertador e demorou alguns segundos para lembrar onde estava. O quarto do hotel, a competição, Rafael oferecendo uma parceria para a próxima temporada, Alexander dizendo que respeitaria qualquer decisão. Tudo voltou de uma vez.Ela ficou olhando para o teto.Era estranho como, durante semanas, desejara exatamente isso: que Alexander parasse de insistir, parasse de invadir seu espaço, parasse de agir como se pudesse consertar tudo. Agora que ele finalmente havia entendido, alguma coisa nela parecia revoltada com a própria conquista.Levantou, tomou banho e se vestiu sem pressa. Quando chegou ao café, encontrou Marcelo e Helena, mas nenhuma sinal de Alexander.— Ele já desceu? — perguntou.Helena olhou para ela por cima da xícara.— Foi caminhar.Valentina tentou parecer indiferente.— Antes da competição?— Disse que precisava clarear a cabeça.Marcelo continuou comendo como se não tive







