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Capítulo 4 — Ainda Há Lugar Para Você

ผู้เขียน: Lethicya Mattos
last update วันที่เผยแพร่: 2026-07-17 09:05:40

Valentina chegou à sede da equipe dez minutos antes do horário marcado.

Ainda sentia dor ao caminhar, embora tivesse se recusado a usar muletas. A bolsa de gelo havia sido substituída por uma faixa firme ao redor do quadril, escondida sob a calça larga. Ela não queria parecer frágil. Muito menos diante das pessoas que poderiam decidir se sua temporada continuaria ou não.

A mensagem recebida na noite anterior havia tirado seu sono.

Precisamos conversar sobre seu contrato e sobre a próxima competição.

Não existia maneira tranquila de interpretar aquilo.

Valentina passou a madrugada fazendo contas. Premiações, patrocínio, despesas médicas, aluguel, fisioterapia. Em todas as possibilidades, perder o contrato seria um desastre.

Quando entrou na sala do treinador, encontrou Marcelo sentado atrás da mesa, analisando alguns documentos. Ele ergueu os olhos e imediatamente apontou para a cadeira diante dele.

— Sente-se.

— Eu consigo ficar em pé.

— Sei que consegue. Também sei que não precisa provar isso para mim.

Valentina sentou-se, tentando disfarçar o desconforto.

Marcelo treinava patinadores havia mais de vinte anos. Era exigente, direto e pouco paciente com desculpas. Valentina confiava nele porque nunca havia tratado seu talento como caridade. Quando ela errava, ele dizia. Quando acertava, também.

Naquele momento, porém, a expressão dele parecia séria demais.

— Se for sobre ontem, eu sei que errei ao insistir — começou ela. — Mas posso me recuperar mais rápido do que o médico imagina. Posso fazer fisioterapia, treinar fora do gelo e adaptar a coreografia quando voltar.

Marcelo apoiou os braços sobre a mesa.

— Valentina.

— Eu não preciso ficar completamente parada.

— Valentina.

Ela se calou.

— Ninguém está encerrando seu contrato.

Por alguns segundos, ela apenas o encarou.

— O quê?

— Você ouviu.

— A mensagem dizia que precisávamos conversar sobre o contrato.

— Porque você faltará à próxima competição e isso exige alterações no calendário, nos compromissos com patrocinadores e nos relatórios médicos. Não porque pretendemos mandá-la embora.

A tensão em seus ombros diminuiu, mas não desapareceu por completo.

— Então meu contrato continua?

Marcelo franziu o cenho.

— É claro que continua.

Valentina desviou os olhos, incomodada com o alívio evidente.

— Eu pensei que…

— Que eu perderia uma das melhores patinadoras da equipe por causa de uma contusão?

Ela voltou a encará-lo.

— A temporada é importante.

— Sua carreira é mais e principalmente a sua saúde.

Marcelo retirou os óculos e os deixou sobre a mesa.

— Quero que fique tranquila e se recupere. Você não vai competir daqui a dez dias. Também não voltará ao gelo antes da liberação médica, e não adianta fazer essa cara.

— Que cara?

— A de quem já está planejando entrar escondida na pista de madrugada.

Valentina apertou os lábios.

Marcelo soltou um suspiro.

— Você é talentosa demais para destruir a própria carreira tentando salvar uma única competição.

— Não é apenas uma competição.

— Eu sei.

A resposta veio mais suave do que ela esperava.

Marcelo conhecia parte de sua situação. Sabia que ela vivia com a avó e que dependia das premiações. Talvez não soubesse cada valor, cada consulta ou cada remédio, mas sabia o suficiente.

— Durante sua recuperação, o valor fixo do contrato será mantido — explicou ele. — O setor financeiro já foi avisado.

Valentina sentiu o peito apertar.

— E a premiação?

— Essa você perderá, porque não vai competir.

Era exatamente o que ela temia.

— Não posso perder esse dinheiro.

— Pode e vai, porque não colocarei você em uma pista machucada.

— Marcelo…

— Não.

O tom dele encerrou qualquer tentativa de negociação.

Valentina olhou para as próprias mãos.

— Minha avó tem uma consulta nova este mês.

Marcelo permaneceu em silêncio por alguns instantes.

— Você sabe que o plano de saúde ligado à equipe continua ativo.

— Mas não cobre tudo.

— Vamos conversar com a administração sobre um adiantamento.

Ela ergueu o rosto imediatamente.

— Não quero favores.

— Não é favor. É parte do contrato.

— Não estava previsto.

— Contratos podem ser ajustados.

Valentina respirou fundo.

Detestava precisar de ajuda. Detestava ainda mais que alguém enxergasse o quanto aquela ajuda era necessária.

Marcelo recostou-se na cadeira.

— Você precisa aprender uma coisa, Valentina. Aceitar apoio não diminui seu esforço.

— É fácil dizer isso quando não se depende de resultados para pagar contas.

— Não estou dizendo que é fácil. Estou dizendo que você não pode carregar tudo sozinha e depois fingir que o peso não existe.

As palavras a atingiram de forma desconfortável.

Antes que pudesse responder, alguém bateu à porta.

Marcelo autorizou a entrada.

Daniel surgiu com o braço imobilizado por uma tipoia.

Valentina se levantou rápido demais e sentiu uma pontada no quadril.

— O que o médico disse?

Daniel evitou seu olhar.

— Lesão no manguito rotador. Vou precisar ficar afastado.

— Por quanto tempo?

Ele hesitou.

— Ainda não sabem.

Marcelo indicou a outra cadeira.

Daniel sentou-se, visivelmente abatido.

— Eu devia ter contado antes — disse ele. — Sobre a dor.

Valentina permaneceu em pé.

— É devia.

— Achei que conseguiria continuar.

— E quase acabou com a carreira dela — Marcelo respondeu.

Daniel baixou a cabeça.

Valentina queria estar com raiva. Parte dela estava. Mas outra parte reconhecia o medo no rosto dele. O mesmo medo que sentira ao ler aquela mensagem.

— Você vai se recuperar — disse ela.

Daniel levantou os olhos.

— E você?

Valentina não respondeu.

Marcelo juntou os documentos sobre a mesa.

— Vocês dois ficarão afastados. Por enquanto, é só isso.

— Por enquanto? — Valentina perguntou.

Marcelo trocou um olhar rápido com Daniel.

Aquilo foi suficiente para deixá-la alerta.

— O que vocês não estão me contando?

— Nada foi decidido — respondeu Marcelo.

— Sobre o quê?

Ele passou a mão pelo rosto antes de falar.

— Daniel talvez não consiga retornar a tempo para o restante da temporada.

O silêncio tomou a sala.

Valentina sentiu a cadeira atrás dos joelhos e se sentou devagar.

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