FAZER LOGINO jantar seguiu sem nehuma intercorrencia. Tanto eu quanto ele parecíamos presos ao mesmo ponto… Amy. Observando-a, admirando-a.
Ela falava, ria, gesticulava, leve, como se o mundo fosse simples. E, por alguns minutos, parecia mesmo.
Quando terminamos, ele se levantou sem pressa e foi até a cozinha. Voltou com um pote nas mãos. Os olhos de Amy brilharam imediatamente.
— Sorvete! Ela disse animada.
— Você fugiu novamente. Disse ele, calmo. — Talvez devesse ficar sem sobremesa…
Amy fez um bico na hora. Ele a observou por um momento.
— Mas… como temos visita… e você se comportou quando voltou, podemos abrir uma exceção.
O sorriso dela voltou instantaneamente, e eu acompanhei tudo em silêncio.
Ele abriu o pote, e o aroma doce se espalhou no ar, cremoso, delicado, irresistível. Sem perceber, meus olhos acompanharam o movimento.
Amy me olhou de lado, cúmplice, sorri de volta.
Ele serviu nas taças. Amy quase se inclinava sobre a mesa, impaciente. Peguei a colher, experimentei… inconsciente fechei os olhos por um instante, saboreando. Perfeito, simplesmente perfeito.
Comemos devagar, colher por colher. Amy comentava entre uma e outra fazendo pequenas caretas, eu ria baixo…e, ao meu lado, ele permanecia. Taça de vinho na mão, observando.
Quando terminamos, ele quebrou o momento:
— Já está tarde, Amy. Hora de dormir.
— Mas eu nem estou com sono… Ela reclamou.
— Está, sim. Disse calmo, sem elevar o tom, porém definitivo.
E, de alguma forma… aquilo também era para mim. Senti o peso do cansaço voltar, mas ainda precisava sair dali. Ainda precisava encarar o que estava do lado de fora.
— Vamos, Amy. Falei, me levantando. — Escovamos os dentes… e eu te conto uma história.
Ela me olhou desconfiada. — Que história?
Inclinei a cabeça, me aproximando. — De uma garotinha… com cachinhos dourados.
Os olhos dela brilharam.
— Eu quero!
Ela já deslizava da cadeira quando terminou de falar. Correu alguns passos, voltou, segurou minha mão e me puxou. Antes de segui-la, lancei um olhar rápido para ele, que ainda estava sentado, observando, sempre observando.
Não disse nada. Não precisava.
Desviei o olhar e segui Amy.
No quarto, depois de escovarmos os dentes, me deitei ao lado dela, a cama era quente r confortável. Perigosa. O sono veio rápido, até lutei contra ele enquanto alisava seus cabelos e contava a história.
Ela dormiu primeiro, respiração leve, tranquila, mesmo assim, continuei… baixo, quase sussurrando, até que, em algum momento, eu também apaguei.
Abri os olhos de repente, assustada. Por um segundo, não sabia onde estava, então tudo voltou.
O quarto. A cama. Amy, aconchegada contra mim, a porta… estava fechada. Eu tinha deixado aberta, meu coração acelerou.
Olhei em volta, silêncio. Me levantei com cuidado para não acordar a Amy, fui até a cortina e a afastei um pouco. A luz invadiu o quarto.
— Meu Deus…Já havia amanhecido.
Ela se mexeu, mas continuou dormindo, vesti minha roupa rápido, peguei a fantasia, grande, desajeitada e caminhei na ponta dos pés até a porta e saí. Fechei sem fazer barulho.
O corredor estava silencioso, caminhei com cuidado, tentando desaparecer ali dentro e quando alcancei a sala, querendo sair sem ser vista.
— Dormiu bem?
Parei.
O cheiro veio antes: Café recém-passado, forte e outro… doce. Waffles.
Por um instante, fui transportada para outro tempo, minha infância...Mas a realidade voltou rápido, porque ele estava ali.
— Fugindo, Nina? Não vai tomar café?
A voz veio atrás de mim. Nem fria, nem quente. Controlada.
Me virei devagar, ele estava impecável. Como se não tivesse dormido… ou como se não precisasse.
Me observava como sempre, em silêncio e havia algo nisso que era pior do que qualquer palavra.
— Obrigada… eu já estava de saída.
Minha voz saiu firme. Meu corpo, não.
Os olhos dele desceram epararam nos meus pés, nos chinelos. Eram grandes demais.
— Ah… eu posso ir com eles. Falei rápido. — Deixo na recepção depois.
— Não preciso do chinelo. Disse ele, direto, me fazendo esquecer de respirar.
Então ele se levantou e veio até mim, sem pressa.
Eu não era baixa, mas, perto dele… me senti pequena.
A presença e o perfume amadeirado fez meu coração bater ainda mais rápido.— Quanto você quer? Ouvi ele dizer.
Demorei um segundo para entender.
— Quero? Perguntei a voz falhando, sem entender, me recusando na verdade.
— Pelos seus serviços.Meu estômago revirou.
— Eu não quero dinheiro. Fiz isso pela Amy. Respondi.
— Não estou falando de ontem.
Franzi o cenho, meu Deus do que ele está falando?
— Do que você está falando? Não consegui me conter. Agora havia irritação na minha voz.
E ele percebeu, claro que percebeu. Mesmo assim sustentou meu olhar. Como se estivesse esperando exatamente aquilo.
E então… eu entendi, o sangue subiu.
— Eu não sou o que você está pensando. Disse, entre os dentes, controlando o tom para que ninguém, além dele ouvisse.
Virei para sair, sem esperar pela resposta.
Meu braço foi segurado, não forte, mas firme. Suficiente para me impedir de seguir.
Ele soltou uma risada baixa. Curta. Sem humor.
— O que você acha que eu estou pensando? A voz mais próxima agora, controlada, perigosa.
— Que eu pagaria você para… Ele se interreompeu sabia o que eu estava pensando, no olhar dele havia uma sútil zombaria.
Meu corpo gelou. O ar ficou pesado, eu queria responder. Queria reagir, mas não ali, na casa dele.
Ele soltou meu braço.
— Vá. Simples assim. Como se nada tivesse acontecido.
Olhei para ele, a raiva borbulhava, quente, quase contida, minhas mãos tremiam, enquanto apertava a fantasia. Eu estava em desvantagem, como sempre.
Dei dois passos, depois parei e sem dizer nada, tirei os chinelos e deixei de lado.
Segui, descalça, abri a porta. e saí.
Caminhei firme até o elevador. Não sei como, as pernas estavam tremulas, parei. Olhei para meus pés e depois para a fantasia nas mãos. Suspirei.
Vesti ali mesmo, melhor assim, entrou um urso, saiu um urso.
Quando alcancei a rua, olhei para os lados, nenhum sinal daqueles homens.
Caminhei rápido, sem parar.
Voltei até a loja, lá inventei uma desculpa qualquer, peguei meu pagamento e devolvi a fantasia.
Fui direto para casa, um banho rápido e depois para o trabalho, já estava atrasada.
A personalidade, o nome e o carisma de Samir eram suficientes para que fosse respeitado. No fim, Ada havia sido uma boa escolha. Era uma mulher do povo, bonita, tranquila e sem ambições de poder. Talvez justamente por isso pudesse oferecer ao filho algo que posição alguma seria capaz de lhe dar: um lugar para onde voltar depois de suas batalhas. Um lar.Era assim que deveria ser.O emir soltou uma breve risada depreciativa de si mesmo. Cada vez que pensava na própria casa, sentia menos vontade de voltar para ela.Quando chegaram ao Carmen de los Mártires, ele diminuiu os passos.Não conhecia o lugar e, por alguns instantes, apenas observou.As flores brancas acompanhavam o caminho até o pátio, misturadas às flores de laranjeira. A arquitetura, os jardins, a luz e os desenhos projetados pelas celosías criavam uma atmosfera que lhe era estranhamente familiar. Estavam longe de Dubai, mas havia ali elementos capazes de aproximar os dois mundos.O emir olhou para o filho.Aquilo tinha a ma
Pouco a pouco, porém, as conversas diminuíram.Os convidados tomaram seus lugares. Os fotógrafos se posicionaram. Os jornalistas autorizados permaneceram nas áreas que lhes haviam sido destinadas.A luz começava a mudar.O sol já não incidia diretamente sobre o pátio como algumas horas antes. Descia lentamente, tornando-se mais dourado, atravessando os recortes das celosías e projetando desenhos delicados sobre o chão e as paredes.Um dos responsáveis pelo cerimonial se aproximou de Samir.— Senhor, está na hora.Samir respirou fundo.Youssef tocou seu ombro antes de se afastar.Samir caminhou até o lugar que lhe fora reservado diante do altar.Quando se virou para os convidados, encontrou tantos rostos conhecidos que por um instante apenas os contemplou. Richard e Maycon estavam ali. Youssef ocupava seu lugar. Ali finalmente havia parado de correr de um lado para outro. Seu pai o observava da primeira fileira.Pessoas que haviam atravessado partes diferentes de sua vida estavam reunid
Seu traje estava preparado.A kandura branca caiu impecavelmente sobre seu corpo. Depois vieram a ghutra, o agal e, por último, o bisht escuro com os acabamentos dourados que marcavam não apenas a solenidade daquele dia, mas também sua posição.Do lado de fora, os primeiros convidados começavam a chegar. Os jornalistas autorizados conferiam seus equipamentos e credenciais, enquanto os fotógrafos ajustavam as lentes e voltavam a testar a luz. Funcionários verificavam as flores, alinhavam as cadeiras e conferiam cada detalhe das mesas.O perfume das rosas e das flores de laranjeira continuava espalhado pelo pátio com a ajuda da brisa suave.Samir estava terminando de ajustar uma das mangas quando ouviu a porta abrir.Ao olhar pelo espelho, viu o pai.O emir entrou e fechou a porta atrás de si.Nenhum dos dois falou imediatamente.Samir se virou.Por alguns segundos, apenas se olharam.Havia coisas demais entre os dois para caberem naquele momento: sua mãe, Latifa, as discussões, os anos
Ada deixou escapar uma lágrima. Samir sorriu ao vê-la e, depois de mais um olhar demorado, deixou o quarto.Ela permaneceu parada por alguns instantes antes de caminhar novamente até o vestido. Era tão bonito que não parecia real. Tocou com cuidado os relevos dos bordados, acompanhando com a ponta dos dedos os arabescos formados por fios de seda e pequenos cristais. Depois passou a mão por baixo do véu translúcido, salpicado por minúsculos pontos de brilho que captavam a luz.Sentiu o peito apertar e o coração parecer pequeno demais para tudo o que estava sentindo.Nunca, nem em seus sonhos mais distantes, imaginara algo parecido. Durante grande parte da vida, seus desejos haviam sido simples, limitados ao que conhecia e ao que acreditava ser possível. E agora havia um vestido feito especialmente para ela, um homem que a esperaria diante de um altar e uma vida que ainda parecia grande demais para caber em sua imaginação.Ouviu passos e se virou. Duas das mulheres entraram no quarto.—
As mulheres conduziram Ada para uma sala tranquila, onde uma pequena mesa já estava preparada com chá, frutas e alguns doces delicados. Ela se sentou ainda olhando ao redor, curiosa com tudo aquilo, enquanto uma das mulheres lhe servia o chá.Depois de alguns minutos, mostraram-lhe outro cômodo. Havia uma grande banheira onde a água borbulhava suavemente, perfumada com óleos e flores.— Tire a roupa — disse uma delas com naturalidade.Ada arregalou os olhos.— O quê? — gaguejou, segurando imediatamente a própria roupa.As mulheres sorriram.— Não quer ficar ainda mais linda para seu noivo? Ele pediu que cuidássemos de você como uma joia preciosa. Viemos de Dubai especialmente para isso.— De Dubai? — Ada olhou de uma para a outra. — Por que Samir faria isso?— Porque o sheik está apaixonado. Você é uma mulher de muita sorte. Ele a ama como nunca vi um noivo amar alguém.Ada abaixou os olhos, sem saber o que responder.— Eu não sei...— Nós também cuidamos da sua amiga Amine.Ada levan
Depois do café, os dois saíram. Samir dirigiu sem pressa pelas ruas de Granada e, em determinado ponto do caminho, parou em um mirante.— Venha.Ada desceu do carro e caminhou com ele até a mureta. Dali, o vale se abria diante dos dois, banhado pela luz suave da manhã. O vento tocou o rosto de Ada, movimentando seu véu e as pontas de sua roupa. Ela ficou alguns instantes em silêncio, apenas olhando.Samir se aproximou por trás e passou os braços ao redor dela. Ada recostou-se contra seu peito. O sol da manhã os aquecia suavemente, enquanto o vento continuava soprando sobre o vale.— É lindo — ela murmurou.— É.Mas Samir não estava olhando para a paisagem. Ada percebeu e virou um pouco o rosto.— Você nem está olhando.— Estou olhando para o que me interessa.Ela sorriu e abaixou os olhos, ainda tímida diante de algumas coisas que ele dizia.Pouco depois, voltaram para o carro. Ada seguiu animada durante todo o caminho, observando as ruas, as construções e apontando uma coisa ou outra







