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5- Não tem escolha.

Autor: luproencio
last update Fecha de publicación: 2026-04-04 03:24:02

Pouco depois que Irina deixou a cobertura…

Amy acordou.

Ainda sonolenta, esticou a mão ao lado do travesseiro, procurando por ela. Quando não a encontrou, franziu o rosto.

— Nina? Chamou, a voz rouca de sono, mas o quarto continuou em silêncio. O coraçãozinho da pequena acelerou. Ela se sentou na cama, olhou ao redor… nada, estava sozinha.

Então ela levantou de repente, arrastando os lençóis, e saiu do quarto descalça, quase correndo pelo corredor.

— Nina? Chamou novamente, a voz ecoou pelo apartamento.

Na sala, Richard tomava café sozinho. Indiferente, levou a xícara aos lábios, como se nada tivesse mudado.

Amy parou na entrada. Os olhos percorreram o ambiente, procurando por Irina.

— Onde ela está? Perguntou aflita.

Ele ergueu o olhar, sem pressa. 

— Foi embora. A resposta saiu quase indiferente.

Amy ficou imóvel, processando por alguns instantes.

— Foi… embora? A voz saiu pequena.

Ele apenas assentiu.

Foi o suficiente. O rosto dela mudou, primeiro a decepção, depois a dor.

Da cozinha, Karem surgiu com um prato de waffles. Amy a viu… e desviou o olhar na mesma hora, virou-se e correu de volta pelo corredor.

— Amy…  Richard chamou.

 Era tarde demais, a porta do quarto bateu.

Karem pousou o prato na mesa, mantendo o sorriso contido.

— Ela é um pouco mimada. Precisamos ter paciência.

Richard levantou os olhos lentamente, avaliando-a. Jovem, bonita, educada, perfeita no papel, na prática… dispensável.

Levantou-se sem pressa, mas já decidido e seguiu pelo corredor. Sozinho só então percebeu, Karem não se moveu, não tentou ir atrás de Amy. 

Ele parou por um segundo, pensando sobre aquilo, então voltou a caminhar, seguiu até a porta e bateu.

— Amy.

Não houve resposta.

— Abra. Ele insistiu.

— Ela vai voltar?

A pergunta veio baixa, do outro lado.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Não. Inspirou mais profundo, buscando controle.  — Karem fez waffles. Vamos tomar café.

— Não! A resposta veio rápida, carregada.

— Eu quero a Nina. Eu não gosto da Karem.

Richard respirou fundo, controlando o tom.

— Você dispensou doze em seis meses. Disse contido, mas firme.

— Vamos. Karem está tentando.

Silêncio.

Então Amy disse, com uma frieza que não combinava com a idade:

— Elas estão aqui por você… não por mim.

Dessa vez, ele não respondeu, não porque não quis, mas porque não havia resposta.

Naquela mesma noite…

Irina...

Eu saí da lanchonete completamente exausta.

Quatro quarteirões até a estação.

A rua estava quase vazia, e como sempre, meu coração acelerava nesse trajeto. Só acalmava quando eu já estava dentro do trem.

O vapor subia dos bueiros, a calçada molhada refletia as luzes e a neblina deixava tudo meio… irreal, sombrio.

Caminhei mais rápido, queria chegar logo. Porém o alívio não veio.

Meu braço foi puxado com força fazendo o celular cair da minha mão.

Uma mão tampou minha boca.

— Escorregadia, hein, loirinha?

Era o coiote. Ele tinha uma cicatriz recente no rosto.

Eu tremi de medo, de raiva...

Me debati, escorreguei para fora da blusa e tentei correr, mas ele me puxou de volta.

As unhas dele arranharam minha pele.

Então... Um vulto, rápido.

O som de um soco e depois outro, um gemido e mais um.

O corpo do homem caiu.

Eu recuei, atônita, sem entender, sem conseguir reagir. Mas antes que eu pudesse fugir...

Outra mão me segurou, firme e forte. Um perfume conhecido me envolveu.

— Shhh… senhora urso… A voz veio baixa, grave. — Fique quieta.

Meu corpo travou, eu já conhecia aquela voz.

Fui levada até um carro preto, a porta abriu. Fui jogada no banco de trás, quando consegui me ajeitar…O carro já estava em movimento.

Levantei os olhos, no retrovisor… Os olhos verdes dele estavam em mim.

Meu estômago se contraiu.

— Por que você está me seguindo? Perguntei, ainda tremia, assustada.

Ele soltou uma risada baixa.

— Por que eu perderia tempo te seguindo?  Você teve sorte.

Engoli seco.

— Obrigada… agora me deixa em algum lugar.

— Ainda não. A voz soou fria. — Precisamos conversar.

Revirei os olhos, irritada.

— Eu não tenho nada para falar com você.

— Não? Irina… russa...A voz calma e confiante.

Meu corpo ficou rígido na mesma hora, os olhos dele em mim.

— Passaporte falso? Então ele disse sem rodeios.

Meu estômago afundou, meu coração bateu ainda mais acelerado.

— Você está me espionando?

— Nem precisei. Respondeu, tranquilo. 

Silêncio.

— Eu fiz aquilo pela Amy. Tentei justificar, minha voz saiu mais desesperada do que eu esperava.

Ele me observou pelo retrovisor, dessa vez… por mais tempo.

— Não fez só por ela, não é?

Aquilo não foi uma pergunta, foi uma constatação.

E o pior?

Eu não podia responder, porque era a verdade.

O carro entrou em um estacionamento subterrâneo, estava vazio e silencioso.

Olhei pela janela, não parecia ter movimento, mas o lugar parecia caro, não era um estacionamento comum, mas também não era do prédio onde ele e Amy moravam.

Ele parou, desceu de forma elegante, terno preto, camisa branca impecável.

O caminhar dele era aristocrático.

Abriu a porta para mim.

— Vamos. A voz era baixa e educada, mas não dava espaço para recusa.

Não era bem uma ordem, mas estava longe, muito longe de ser um pedido e eu sabia disso.

Hesitei.

— Eu não vou subir. Me esforcei para não gaguejar.

Ele me olhou, como se aquilo fosse… irrelevante.

— Não tem escolha.

Cruzei os braços, tentando sustentar minha posição, embora minhas pernas tremessem. — Por quê?

Ele deu um passo em minha direção, não havia pressa e sem elevar o tom.

— Porque, se eu quiser… você desaparece hoje.

Meu coração disparou.

Ele se aproximou mais um pouco.

— Uma ligação… Continuou — E você está em um centro de detenção para imigrantes ilegais.

Os olhos dele desceram pelo meu corpo, depois voltaram devagar para o meu rosto.

— E ninguém vai sentir sua falta.

O ar sumiu dos meus pulmões. Aquilo não soou como ameaça, bem era uma ameaça, mas também um lembrete, era verdade. A raiva subiu, quente, mas o medo…era mais rápido e mais forte.

Ele inclinou levemente a cabeça, me observando, esperando paciente, como se já soubesse o que eu faria.

Naquele instante…entendi...

Não era só sobre Amy e meu peito apertou.

— Vamos, senhora urso. 

A forma como ele disse aquilo…Baixo, quase íntimo...

Meu instinto gritava para correr, mas eu não tinha para onde ir.

Então, dei um passo na direção dele, meu coração quase saltando pela boca.

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