Se connecterO bicho não era um lobo.
Mas a minha cabeça, no susto, não achou outro nome praquilo. Ele era grande demais. Negro demais. Pesado demais. Um monte de pelo espesso que parecia engolir a pouca luz que vazava pra clareira da Samaúma. Se eu estivesse de pé, a altura do ombro dele ia bater no meio do meu peito. Mas eu não tava. Eu continuava travada de joelhos na terra úmida, a faca de caça tremendo na minha mão direita, a lâmina parecendo uma piada perto das garras que rasgavam o barro a poucos passos de mim. Minha boca ficou amarga, com gosto de sangue. O cheiro dele bateu no meu rosto com força. Mato molhado. Chuva pesada. Terra virada. E uma coisa quente por baixo de tudo isso, um cheiro bruto, vivo, que me deixou tonta por um segundo. A garganta fechou. Os pulmões também. Eu tentei puxar o ar e não consegui direito. A fera deu mais um passo pra frente. Sem barulho. Nem o mato reclamou quando aquele troço enorme pisou no chão fofo da floresta. Era pesado demais pra ser real e, ainda assim, não fez um som sequer. Os olhos dourados estavam cravados em mim. Não era olhar de bicho com fome. Era outra coisa. Era um olhar que pensava. Que avaliava. Que me media de cima a baixo como se eu fosse parte do problema e não só a caça. O instinto gritou dentro de mim. Levanta. Corre. Sai daqui. Mas meu corpo não obedeceu. Eu sempre fui uma mulher que não abaixava a cabeça fácil. No meio de Manaus, no mercado, em fila, em discussão, eu nunca engoli desaforo calada. Mas ali, diante daquele negócio impossível, alguma coisa muito mais velha que o meu medo me segurou no lugar. Não foi coragem. Foi peso. Foi como se o chão tivesse me segurado pelo quadril, pela cintura, pelas pernas, me obrigando a ficar ali e encarar. A floresta em volta calou de vez. O chiado das folhas da Samaúma sumiu. O vento parou. Até os bichos pequenos pareciam ter sumido do mapa. O silêncio ficou tão grande que eu senti pressão no ouvido. A fera parou. A respiração dele veio pesada, úmida, enchendo o ar na minha frente. Então o primeiro osso quebrou. Eu soltei um engasgo e recuei o tronco num tranco bruto. O cotovelo bateu na raiz da árvore atrás de mim, mas eu nem senti direito. Não tirei os olhos dele. A espinha do lobo estalou num som alto, molhado, nojento. O animal não uivou. Não rosnou. Só abaixou a cabeça grande enquanto o corpo começava a mudar na minha frente. Meu estômago virou. A mão esquerda foi direto pra barriga, como se eu pudesse segurar o enjoo no braço. A pedra preta no bolso da minha calça começou a pulsar com violência, queimando contra a pele da coxa no mesmo ritmo daquilo. O pelo negro começou a sumir, engolido por uma pele lisa que nascia por baixo. Os ossos estalaram de novo. E de novo. As patas da frente torceram de um jeito impossível, alongando, engrossando, virando braços. Mãos grandes surgiram da lama, dedos humanos cravando na terra. As patas de trás repuxaram com força, esticando, mudando de forma até virarem pernas. Eu queria fechar o olho. Queria muito. Mas não consegui. Era feio demais pra desviar. Horrível demais pra largar. Parecia um parto ao contrário, uma coisa viva sendo arrancada da própria carne. Em menos de um minuto, tudo acabou. O vapor subiu da pele dele como se o corpo tivesse acabado de sair do fogo. A sombra enorme começou a se erguer. Devagar. Controlada. Ele ficou de costas pra mim primeiro, e os ombros absurdamente largos subiram bloqueando a luz verde que ainda entrava pela copa da Samaúma. Gigante. Quando ele virou, eu senti meu rosto esquentar na hora. Estava nu. E não parecia ligar nem um pouco pra isso. A nudez dele não parecia vergonha. Nem fraqueza. Parecia só mais uma parte da ameaça. O peito largo subia e descia devagar. A pele era cobreada, brilhando de suor na luz ruim da clareira. O cabelo preto grudava na testa molhada. Era o homem do ponto de ônibus. O mesmo. O mesmo rosto fechado. Os mesmos ombros largos demais. A mesma presença que tinha me deixado com a pulga atrás da orelha na cidade. E os olhos. Os mesmos olhos. Dourados. As bordas da íris brilhavam com uma luz amarelada, selvagem, viva, e o centro era escuro, fundo, quase preto. Meio homem. Meio outra coisa. Os dois dentro do mesmo olhar. Eu puxei o ar num tranco, como se tivesse voltado a respirar só naquele instante. A faca de caça estava tão apertada na minha mão que meus dedos já estavam dormentes. Ele deu um passo na minha direção. O pé largo esmagou uma folha seca com força de pedra. Eu me arrastei pra trás na hora, raspando o quadril pela lama, até minhas costas baterem com força contra a madeira dura da Samaúma. Não tinha mais pra onde ir. Ele parou. A distância entre nós não dava nem três metros. Eu conseguia ver a umidade no pescoço grosso dele, a pulsação lenta na veia da jugular, o brilho da pele acobreada no fundo escuro do mato. O olhar dele desceu pelo meu corpo sem pressa. Não tinha malícia barata ali. Tinha análise. Ele passou por minha cara, pela faca tremendo, pela minha mão suja, pela minha blusa molhada de suor, pelo jeito como eu me encolhia sem querer mesmo tentando parecer dura. Aquilo me deixou com mais raiva do que medo. O silêncio entre nós ficou esticado demais. Eu sentia o coração batendo na garganta. Quando ele abriu a boca, a voz saiu grave, funda, quase um rosnado preso no peito antes de virar palavra. — Como você entrou aqui sem deixar rastro?POV RIANE O vento do Xingu subia pelo barranco carregando lodo e chuva grossa. O sol da tarde despencava atrás das copas das maçarandubas, pintando a água barrenta de um tom acobreado. Eu caminhava em silêncio ao lado de Caruã pela trilha de terra batida que voltava do posto norte. A figura de Zuri, com as cicatrizes no rosto e a dureza seca na voz, tinha ficado para trás, mas as palavras dela pareciam ecoar a cada passo que eu dava no barro. O selo segura o tranco no começo... o metal no seu peito não vai te salvar; vai te derreter de dentro para fora. Caruã percebeu o meu ritmo lento. Ele diminuiu o passo, a mão grande descendo pelo meu ombro até firmar na minha cintura. O olhar castanho dele — limpo, sem o dourado da fera em alerta — desceu para o meu rosto com uma cautela silenciosa. — Você está calada desde que saímos daquele rancho — ele comentou, a voz baixa, o som abafado pelo piado das cigarras na mata. — A velha falou muito sobre a ancoragem. Mas a Zuri vive isolada
POV ZURI Eu reconheci o mormaço da pedra antes mesmo da voadeira encostar na rampa de taquara da enseada norte. O calor que subia do metal da garota era denso, desalinhado, o tipo de energia de ancoragem que arde na pele de quem carrega sangue de linhagem sem saber o peso do que guarda. Já vi essa mesma chama consumir três das minhas antes que a primeira lua cheia de tempestade se erguesse no céu. Duas viraram poeira no leito do rio; a terceira enlouqueceu antes do Fundo ser fechado. Eu estava sentada sobre o tronco caído de uma maçaranduba, afiando a ponta do meu anzol de osso de pirarucu com uma pedra de rio. Usava a túnica curta de couro cru, surrada pelo uso e manchada de resina de breu-preto nas mangas. Meus cabelos grisalhos estavam presos por uma tira de tucum na nuca, e o meu rosto trazia as cicatrizes finas que a mata-cobra de quem sobreviveu à própria queima. A garota saltou do barco com a agilidade de quem aprendeu a se mover na pressa. O moletom escuro estava abert
POV RIANEO cheiro de vitória-régia e de água-doce continuava a cobrir a fumaça de breu da casa de conselho do Xingu.Caruã permanecia postado como uma muralha entre o sujeito e mim, o peito nu subindo e descendo num ritmo pesado. As pupilas do meu Alfa queimavam num dourado puro, a mão travada na empunhadura da faca de caça, o rosnado baixo da fera vibrando no ar da sala com uma promessa clara de sangue.O homem de camisa de linho branco deu mais uma risada curta, o som suave como água correndo em leito de pedra. Ele deu um passo para o lado com uma elegância fluida, contornando a projeção dos ombros de Caruã sem demonstrar pressa nem medo.— Você devia afrouxar esse cinto, Alfa do Rio Negro — o sujeito provocou, inclinando a cabeça com um charme preguiçoso. — O ferro do seu peito vai acabar rasgando essa pele bonita antes do anoitecer.Caruã girou o corpo no mesmo milissegundo, a lâmina de aço saindo três dedos da bainha de couro com um estalo seco.— Mais um passo e eu te corto ao
POV RIANE O ar dentro da grande casa de conselho do Xingu cheirava a gordura de capivara queimada na banha. A estrutura inteira era erguida sobre pilares grossos de itaúba, e a fresta entre as tábuas do chão deixava ver a água barrenta do igarapé correndo lá embaixo. Tonho continuava parado diante da mesa de pedra polida, os braços cruzados sobre as cicatrizes do peito. O tom castanho queimado dos olhos dele ainda mantinha o mesmo espanto de quando leu o nome da minha mãe no meu rosto, no trapiche. Ao lado dele, dois Alfas do Conselho do Xingu permaneciam em silêncio, as lanças de osso de arapaima apoiadas nos ombros. — Você disse o nome dela no porto — dei dois passos à frente, batendo a mão no tecido do meu moletom, onde o pingente de pedra preta queimava em silêncio. — Você conhecia a Iracema. O que a minha mãe tinha a ver com o Xingu? Tonho desviou o olhar para a chama da tocha presa no pilar. A mandíbula dele travou, a carne do maxilar enrijecendo. — Conhecer é uma pal
POV CARUÃ O ronco da voadeira diminuía à medida que o canal do rio se estreitava. A água escura do Rio Negro tinha ficado quilômetros atrás, dando lugar a uma correnteza barrenta e mais rápida, cercada por um teto denso de maçarandubas e igapós carregados de musgo. Riane estava sentada na proa, o moletom escuro aberto no peito por causa do mormaço abafado do meio-dia. O vento que vinha da curva do rio balançava os cabelos dela, e os olhos âmbar varriam a margem com atenção afiada. O pingente de pedra preta repousava contra a sua clavícula, emaranhado na corrente. Atrás de nós, na segunda embarcação de apoio, Kauã e dois Deltas de confiança mantinham a distância de escolta. A viagem a dois pelo canal parecia um respiro necessário depois de semanas sufocadas pelo pátio do Rio Negro. Sem o Conselho cobrando respostas e sem os olhares desconfiados dos guerreiros, a tensão entre nós tinha assentado numa proximidade quase silenciosa. O braço dela roçava o meu ombro toda vez que a lanc
POV JUMA A prancheta de madeira na minha mão parecia mais pesada que uma lança de combate. Eu estava parada na curva do galpão de armas, observando a movimentação no pátio central. O sol da manhã cortava a névoa do rio, fazendo a terra batida brilhar com um tom avermelhado. Três voadeiras de madeira pesada estavam atracadas no porto de baixo, carregadas com suprimentos, sacos de farinha e mantas de pirarucu seco. Caruã ajustava a alça do seu colete de couro ao lado do deque. Ao seu lado, Riane conversava com Bira, o moletom escuro dobrado nos cotovelos e o sorriso leve ainda presente no rosto. Eles pareciam mais leves. Depois da conversa no templo no fim da tarde de ontem, quando Tembé decifrou o selo da pedra preta, uma onda de calma tinha se espalhado pela casa de comando. O Alfa e a sua companheira partiam para a missão diplomática no Xingu acreditando que a retaguarda no Rio Negro estava pacificada. Eu sabia que não estava. A folha de pele de veado com as rasuras do ano do ma







