Beranda / Lobisomem / CAPTURADA PELO ALFA DA FLORESTA NEGRA / CAPÍTULO 4 — A PEDRA QUE PULSA

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CAPÍTULO 4 — A PEDRA QUE PULSA

Penulis: A.C. Borges
last update Tanggal publikasi: 2026-06-04 13:02:48

O maço de dinheiro amassado na gaveta da cozinha foi o suficiente pra convencer Dona Margarete a ficar.

Menti olhando direto no olho dela. Falei que ia pro ramal do Tarumã catar um cipó forte pra quebrar a febre da Nair.

Ela fez o sinal da cruz, pegou as notas sujas de terra, enfiou no sutiã e puxou a cadeira de plástico pra perto da cama.

Eu fui pro meu quarto, peguei a mochila velha de lona, enfiei uma garrafa de água e a faca de caça dentro. A bainha de couro já tava gasta, mas a lâmina eu mesma amolava na pedra do quintal.

Saí batendo o portão devagar, sem olhar pra trás outra vez. Se eu olhasse pra velha afundada naquele colchão, não ia conseguir sair.

A pedra preta tava no bolso da minha calça jeans.

O caminho inteiro, sacolejando num ônibus de linha de bairro, ela queimou sem parar. Não chegava a ferver a pele, mas incomodava. Igual celular quente dentro do bolso. Cada buraco no asfalto fazia a pedra bater na minha coxa.

Tum-tum. Tum-tum.

Eu passava a mão por cima do jeans e sentia a pulsação ali. Não era o chacoalho do ônibus. Era dela. Um batimento vivo num pedaço de rocha cega.

A mulher do meu lado me olhava de rabo de olho, com uma sacola de mercado no colo. Eu devia parecer uma fugitiva. E talvez estivesse mesmo.

A frase de Pai Benedito ficou martelando o trajeto inteiro.

Não é humana de todo.

Desci no fim da linha. O ponto onde Manaus começa a desaparecer e o mato engole o resto de asfalto. O sol de meio-dia fritava o barro vermelho da estrada, levantando um bafo quente que fazia a vista embaçar.

Passei a alça da mochila no ombro e entrei na trilha.

A trilha começou estreita, cheia de resto de cidade. Garrafa plástica, saco rasgado, pedaço de isopor. Mas, conforme eu afundava no mato, a mata ia limpando tudo, fechando em cima, bruta, sem respeito por nada que viesse de fora.

A floresta tem camada.

A beira, onde a gente tira açaí, corta lenha miúda e ainda escuta moto longe.

O meio, onde o mato fecha mais, a luz vira um verde escuro e o bicho grande caça.

E o Fundo.

Pra mim, desde moleca, era só o silêncio.

Desde os doze anos, quando eu precisava de uma raiz específica ou de uma folha braba que não dava na beira, eu ia entrando. Quando o zumbido infernal de cigarra, besouro e pium sumia do nada, eu sabia que tinha chegado.

Sempre achei que era sorte. Que bicho não mexia comigo porque eu andava quieta demais. Porque eu respeitava a mata mais que a cidade. Sorte de quem não tem pai nem mãe.

Meia hora de caminhada, batendo facão e desviando de cipó cruzando a cara, o sol sumiu de vez. A copa das árvores barrou a claridade e transformou o meio-dia num fim de tarde abafado.

O suor descia no vão dos seios, ardendo no olho. Limpei o rosto na manga suja da blusa e parei de bater a lâmina no mato.

O silêncio tinha começado.

Nem mosquito chegava perto de mim agora.

O ar ficou espesso. Pesado. Cheirando a folha apodrecida e terra molhada. A umidade travava a garganta, parecia que eu puxava água morna pro pulmão toda vez que respirava.

Olhei pra trás pelo ombro. O caminho que eu tinha aberto já parecia diferente, a folhagem se mexendo e voltando pro lugar como se a mata fosse fechando a porta nas minhas costas.

Puxei o papel pardo amarfanhado do bolso da frente da calça.

Fundo do Rio Negro. Clareira da Samaúma.

Eu sabia muito bem onde era.

A Samaúma era tão grande que a raiz subia do chão formando um paredão de madeira. Apertei o passo. Guardei o facão na bainha e deixei a mão livre. A pedra na calça parecia bater no mesmo ritmo da bota amassando as folhas podres.

Tum-tum. Tum-tum.

O mato não foi ficando mais ralo. Ele abriu de vez.

Um rasgo limpo no meio do verde fechado.

Parei na beirada, respirando pela boca. Não tinha cabana, não tinha fogueira, não tinha resto de gente. Só um círculo enorme de terra preta no meio do nada, protegido pela copa gigante da Samaúma. As raízes formavam um desenho torto, como se alguém tivesse deixado aquilo ali de propósito.

Dei o primeiro passo pra dentro da clareira. O chão cedeu um pouco sob a bota, macio demais.

Sem vento nenhum, as folhas lá no alto se mexeram. Um chiado grosso cortou o ar.

Meu coração acelerou.

Eu não rezava. Dona Nair me ensinou a benzer, mas nunca me ensinou a ter religião. Ali eu quase rezei mesmo assim.

A mata inteira ficou quieta. Segurando a respiração. Me assistindo ir pro meio daquele terreiro de terra.

Andei devagar. A mão direita foi pro cabo da faca menor na lateral da mochila. Pra espaço curto, facão atrapalha. Faca resolve.

No centro exato da clareira, escorada na raiz mais alta da Samaúma, tinha uma pedra.

Minha boca secou na mesma hora. Parei a um metro de distância.

Tirei a minha pedra preta do bolso e estendi a mão na frente do rosto, medindo de olho.

Mesmo tamanho.

Mesma cor escura.

Mesmo formato torto, feio, de ameixa grande.

Ajoelhei na terra preta, ignorando a umidade subindo no jeans.

Ninguém perde uma coisa dessas no mato por acidente. Ninguém larga algo assim no centro da maior árvore da porção fechada.

Era pra mim.

A Nair guardou o mapa uma vida inteira. Passou pro Benedito soltar no meu colo. E eu vim bater ponto no endereço.

Estiquei a mão pra pegar a segunda pedra, mas meus dedos travaram no ar.

A terra batida em volta da raiz não tava limpa.

Tinha marca.

Pegadas fundas, cravadas no barro úmido.

Me inclinei pra frente, apoiando a mão esquerda no chão, apertando o olho na luz ruim do mato. Eram pegadas.

O sangue desceu todo pra perna de uma vez só.

A nuca formigou, levantando os cabelinhos do braço. Igualzinho ao que eu senti na feira de manhã.

Eu nasci nesse lugar. Conheço rastro desde que aprendi a andar no mato. Sei diferenciar a marca de um cachorro do mato grande da pata de uma onça-pintada. Onça pisa leve. Furta o peso. A unha quase nunca marca o chão mole se não estiver correndo.

Aquilo ali afundava mais de dois dedos de profundidade no barro.

Coloquei a minha mão espalmada do lado do buraco escuro.

Era maior que a minha mão inteira aberta.

E os buracos da frente... a garra rasgava a ponta, cravada fundo na terra preta, marcando até a casca da raiz da Samaúma como se madeira fosse papelão.

Não era onça.

Não era cachorro do mato.

Bicho nenhum do Rio Negro deixava um rombo daquele tamanho.

E o rastro não vinha de dentro do mato.

Ele aparecia do nada, dava um círculo perfeito em volta da raiz onde a pedra tava escorada e terminava ali.

A coisa que botou a pedra ali rodou o lugar vigiando e depois sumiu.

Minha boca ficou amarga, com gosto de sangue.

O ar empedrou no meu peito. Eu não conseguia puxar e nem soltar direito.

Então um galho grosso estalou.

Estourou.

Sequei na hora. O barulho veio de trás de mim. Lado esquerdo. Do meu ponto cego.

Travei de joelhos na lama. A mão ainda esticada em cima da pegada gigante. A perna querendo correr antes mesmo de pensar.

A respiração chegou antes do vulto aparecer.

Um som úmido, pesado, rasgando o ar. Puxando litros de ar de uma vez só.

Logo depois veio o cheiro.

Mato molhado, chuva e sangue.

Predador.

A folhagem mexeu com força atrás de mim. As folhas grandes da palmeira foram esmagadas por um corpo enorme demais pra aquele espaço.

Girei o rosto devagar, centímetro por centímetro, a faca de caça já solta na mão direita, o suor frio molhando o cabo de osso.

Nas sombras grossas da raiz, a uns dez passos de mim, dois pontos acenderam de uma vez.

Dourados.

Brilhando no escuro da mata fechada como se tivessem luz própria.

Altos demais pra ser de um homem comum de pé.

Largos demais pra ser de um lobo da natureza.

Eles estavam cravados direto em mim.

Não piscavam.

E, a cada segundo, o corpo imenso saía da sombra, vindo na minha direção.

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