Share

CAPÍTULO 3: O PESO DO SEGREDO

Author: Isa S
last update publish date: 2026-03-08 20:00:21

MAYA

O silêncio do meu pequeno apartamento, um conjunto de dois cômodos com infiltrações nas paredes e móveis que contavam histórias de tempos melhores, nunca pareceu tão carregado, tão denso que eu sentia dificuldade em respirar. Deitada na minha cama de solteiro, sob um cobertor que já perdera a maciez há anos, eu ouvia a chuva insistente do lado de fora chicoteando a janela de vidro fino. Mas havia algo mais perturbador que o temporal: a respiração lenta, profunda e rítmica de Arthur no sofá da sala, a poucos metros de distância.

Minha mente era um campo de batalha lamacento. As imagens da noite anterior passavam como um filme de terror em câmera lenta. O rosto de Jurandir, distorcido pela arrogância; o riso de Letícia, que soava como vidro quebrado; a sensação de ser descartada como um objeto sem valor após três anos de sacrifício. Jurandir ainda doía como uma ferida aberta, latejando a cada batida do meu coração.

Mas o homem que eu tinha trazido para dentro da minha casa… ele me confundia de um jeito diferente. Não era uma dor familiar; era uma inquietação elétrica. Eu tentava fechar os olhos e racionalizar. Quem, em sã consciência, aceita casar com uma desconhecida no meio de um estacionamento lamacento? E por que o prazo de seis meses? Aquilo cheirava a estratégia, a algo muito maior do que a caridade de um homem sem teto.

Perto das seis e meia da manhã, a sede e a ansiedade venceram meus pensamentos exaustos. Levantei devagar, sentindo o chão gelado sob meus pés descalços. Caminhei na ponta dos pés, desviando habilmente da parte do assoalho que sempre rangia perto da porta do quarto. Quando atravessei a pequena sala, mergulhada na penumbra cinzenta do amanhecer, algo chamou minha atenção.

Um clarão.

Sobre a mesinha de centro, um móvel de compensado que eu mesma havia resgatado de uma caçamba, havia um objeto que parecia um intruso naquele ambiente de pobreza. Um celular. Mas não era um aparelho velho, com a tela trincada ou a carcaça descascada. Era fino, de um material escuro que parecia absorver a pouca luz, sofisticado demais, tecnológico demais para combinar com o moletom gasto de Arthur.

A tela acendeu por um breve segundo, iluminando o rosto adormecido dele por um instante. Um símbolo brilhou na tela. Um brasão. Algo que parecia oficial, heráldico, carregado de uma autoridade silenciosa.

Meu coração acelerou, batendo contra as costelas como um pássaro engaiolado. Inclinei-me, prendendo a respiração, os dedos trêmulos quase tocando o aparelho frio. Eu precisava ver. Precisava de uma prova de que não estava colocando um monstro na minha casa.

Antes que eu pudesse ler qualquer palavra, o ar ao meu redor mudou. A pressão atmosférica na sala pareceu cair.

Um braço firme, quente e inesperadamente rápido envolveu minha cintura e me puxou para trás com uma força que não admitia contestação. Minhas costas colaram com violência contra um peito sólido, largo e emanando um calor febril. Senti o contorno exato de cada músculo dele sob a pele úmida — ele devia ter tomado um banho frio enquanto eu cochilava, pois cheirava a sabão neutro e algo metálico, como eletricidade.

Aquele não era, definitivamente, o corpo de um homem que passava fome ou que dormia em bancos de praça. Havia uma potência ali, uma vitalidade atlética que só o privilégio ou um treinamento rigoroso poderiam esculpir.

— Curiosidade pode ser um vício perigoso, Maya — ele murmurou perto do meu ouvido.

A voz dele estava transformada. Não era mais o tom rouco e cansado da lanchonete. Estava mais baixa, mais firme, carregada de uma vibração barítona que fez meus joelhos fraquejarem. Era uma voz habituada a dar ordens, não a pedir esmolas.

Ele estendeu o braço livre por cima do meu ombro — um braço onde veias saltavam sob a pele — e virou o celular com a tela para baixo no tampo da mesa. O gesto foi rápido demais. Preciso demais. Treinado demais para um "ninguém".

Meu coração batia tão forte que eu podia jurar que ele sentia através das minhas costas. A sensação do peito dele subindo e descendo contra mim era hipnotizante e apavorante.

— O que era aquilo? — perguntei, minha voz saindo como um sussurro esganiçado enquanto eu tentava, sem sucesso, me soltar de seu aperto. — Que celular é esse? Quem é você de verdade, Arthur?

Por um segundo, o silêncio foi absoluto. Senti a mandíbula dele roçar no meu cabelo. Algo frio e calculista atravessou o ar. Não era irritação; era controle puro, o tipo de controle que se tem sobre uma situação volátil.

Mas então, como se uma máscara caísse de volta no lugar, ele respirou fundo e soltou meus braços. O calor de seu corpo se afastou, deixando-me subitamente vulnerável ao frio da sala.

— Um achado no centro financeiro — ele respondeu, dando de ombros com uma casualidade que beirava a perfeição cênica. — Fiquei aguardando alguém ligar para devolver, esperando uma recompensa que nunca veio. Acabo usando como despertador porque o meu antigo quebrou. Às vezes aparecem notificações de sistema... tecnologia velha é assim, cheia de bugs.

Ele sorriu. E o sorriso, acompanhado por aquele olhar levemente melancólico, era convincente demais. Era a dose certa de vulnerabilidade para me fazer duvidar do meu próprio instinto.

— Você acha mesmo, Maya, que alguém como eu, dormindo em um sofá emprestado, teria algo importante esperando em um smartphone de luxo às seis da manhã? — Ele me olhou nos olhos, e por um momento, a dúvida plantada por suas palavras floresceu.

Eu queria dizer que não. Queria acreditar que estava paranoica, que o trauma da traição de Jurandir tinha estilhaçado minha percepção da realidade. Que tudo aquilo era apenas coincidência.

Mas meu instinto, aquela voz ancestral que nos avisa quando estamos perto de um predador, não estava convencido. Havia algo na postura dele, mesmo agora, relaxado no sofá, que gritava perigo.

— Volta a dormir — ele disse, já se acomodando novamente e puxando o lençol. — Temos um casamento para sobreviver daqui a pouco.

Sobreviver. Ele não disse celebrar. Não disse realizar. Ele usou o vocabulário de quem vai para uma trincheira.

TRÊS HORAS DEPOIS…

Depois de passarmos no brechó perto de casa seguimos para o cartório, eu não poderia deixar ele casar de moletom, por mais que fosse um casamento de fachada, deveríamos ter o mínimo de dignidade.

O cartório do bairro era um lugar desprovido de qualquer romance. O ar era pesado, saturado com o cheiro de papel antigo, tinta de impressora barata e café requentado que parecia estar na garrafa desde a semana passada. Lâmpadas fluorescentes piscavam no teto, dando a todos os presentes uma aparência doentia.

Minhas mãos estavam tão geladas que eu as escondia nos bolsos do meu único vestido decente. Arthur caminhava ao meu lado com uma postura relaxada demais, as mãos nos bolsos do moletom cinza que, embora limpo, ainda parecia um insulto ao ambiente formal. Mas o que mais me incomodava não eram as roupas dele; era o fato de que ele não parecia deslocado. Ele se movia por aquele espaço burocrático com uma indiferença aristocrática, como se fosse o dono do prédio, e não um homem prestes a assinar um contrato de casamento de fachada.

Quando finalmente chegou nossa vez, entregamos os documentos amassados ao escrivão. O homem, que tinha olheiras profundas e uma expressão de tédio absoluto, começou a preencher os dados no sistema sem sequer olhar para nossas faces. O teclado estalava de forma rítmica até que, de repente, ele parou.

O silêncio que se seguiu foi cortante. O escrivão ergueu os olhos lentamente, ajustando os óculos fundo de garrafa.

— Arthur… Valente? — Ele leu o nome em voz alta, a pronúncia soando pesada na sala pequena.

Senti um frio na espinha. O sobrenome. O mesmo sobrenome da família que controlava metade da economia da cidade.

— Algum parentesco com os Valente da holding… da Valente Corp? — O homem perguntou, sua voz oscilando entre a curiosidade e o deboche ao olhar para o moletom gasto de Arthur.

Arthur soltou uma risada curta, quase entediada. Foi um som seco, sem alegria, que cortou qualquer pretensão de importância.

— Se eu tivesse algum parentesco com eles, meu caro, você acha que eu estaria aqui vestido assim? — Ele apontou para o tecido desbotado no próprio peito com um sarcasmo afiado. — É só um sobrenome comum em Portugal. Rico no papel de alguns, pobre na prática de muitos. Apenas uma coincidência irônica.

O escrivão hesitou por dois segundos que pareceram horas. Ele olhou para a o documento de Arthur, depois para o rosto dele. Eu vi. Eu vi o modo como Arthur sustentou o olhar do homem. Não foi o olhar de alguém diminuído ou envergonhado por sua pobreza. Foi um olhar de dominância silenciosa, o olhar de quem estava permitindo que a dúvida existisse apenas porque era conveniente.

— Claro… claro. Compreendo — o escrivão murmurou, envergonhado, voltando a digitar rapidamente.

Assinamos. Minha mão tremeu tanto que minha assinatura mal parecia minha. Arthur, por outro lado, assinou com um traço firme, rápido e sofisticado.

No momento em que a certidão foi carimbada e colocada em minhas mãos — o selo oficial da minha nova realidade — meu celular vibrou na bolsa. Era uma notificação de mensagem. Jurandir.

Engoli em seco e li o texto, sentindo as lágrimas de raiva arderem em meus olhos:

“Maya, espero que esteja feliz com seu mendigo de estimação. Fui promovido oficialmente a gerente na Valente Corp hoje cedo. Minha vida de verdade começou agora, longe do cheiro de fritura. Não ouse atravessar meu caminho ou aparecer na empresa, não quero que associem meu nome a alguém como você.”

O estômago virou. A humilhação era física, como se ele tivesse me batido novamente. Eu não percebi que Arthur estava olhando por cima do meu ombro até sentir o calor de sua presença atrás de mim. Ele pegou o telefone da minha mão antes que eu pudesse reagir.

Ele leu a mensagem em silêncio.

O que se seguiu não foi uma reação comum. O silêncio que emanava de Arthur tornou-se denso, pesado, quase sufocante. A mandíbula dele se contraiu com tanta força que vi os músculos do pescoço ficarem rígidos como cordas. Algo passou pelos seus olhos — algo que me fez dar um passo atrás. Não era ciúme, não era a tristeza de um homem pobre ouvindo um insulto.

Era… cálculo. Era a frieza de um estrategista vendo uma peça se mover exatamente para onde ele queria.

Ele me devolveu o celular com uma calma que era mais assustadora que qualquer grito.

— Você confia em mim, Maya? — ele perguntou. A voz dele era agora uma lâmina afiada, desprovida de qualquer traço da humildade que ele fingira para o escrivão.

A pergunta me pegou totalmente desprevenida. Eu estava casada há cinco minutos com um homem que eu não conhecia.

— Eu… eu acho que sim. Eu não tenho nada a perder, Arthur.

Então assentiu.

— Ótimo.

Ele pegou o celular das minhas mãos mais uma vez, não para responder, mas pareceu memorizar o número de Jurandir. O gesto foi rápido. Discreto. Calculado.

— Algumas pessoas confundem promoção com poder — ele disse calmamente. — São coisas muito diferentes.

Meu estômago apertou.

— O que você vai fazer?

Ele colocou o telefone no bolso do moletom e caminhou até a janela do cartório, observando a rua movimentada lá fora como se estivesse analisando um tabuleiro de xadrez.

— Nada que viole nosso acordo — respondeu. — Você pediu um marido, e eu te pedi que seja por seis meses.

Ele se virou lentamente. Os olhos dele não eram de um mendigo. Eram de um homem acostumado a vencer.

— E eu levo meus contratos muito a sério.

Um arrepio percorreu minha pele.

Pela primeira vez desde o estacionamento, eu tive a estranha sensação de que Jurandir não fazia ideia do tipo de homem que tinha acabado de provocar.

E, talvez…

Nem eu.

NOTA DA AUTORA

Gente, para tudo!

Quem mais aí sentiu aquele frio na espinha com o Arthur "tomando as rédeas" na saída do cartório? A Maya acha que está no controle, mas sinto que ela acabou de entrar em um furacão chamado Família Valente... e o Jurandir não perde por esperar!

Me contem aqui o que estão achando da história até agora, eu adoro ler as teorias de vocês nos comentários!

Continue to read this book for free
Scan code to download App
Comments (1)
goodnovel comment avatar
Ivanilde Aparecida De paula
quero um mendigo desses, kkk
VIEW ALL COMMENTS

Latest chapter

  • CASADA COM O "NINGUÉM": O DESPERTAR DO HERDEIRO    CAPÍTULO 133 – A PROMESSA DO MAR E O SENTIDO DE TUDO

    MAYAO som das ondas quebrando suavemente na areia funcionava como uma melodia de fundo perfeita para aquela manhã. O tempo tem uma maneira engraçada de agir; quando estamos sofrendo, ele se arrasta, mas quando finalmente encontramos a paz, ele corre como o vento. Meses haviam se passado desde a inauguração do Instituto. Agora, olhando para o lado, ver os meus gêmeos maiores, extremamente risonhos, cheios de dobrinhas e com as bochechas mais gorduchas do mundo, era a prova viva de que a vida tinha florescido.O cenário para o dia de hoje não poderia ser mais especial. Estávamos na capela histórica, uma construção de pedras antigas e vitrais coloridos localizada dentro da propriedade de praia que Arthur havia comprado para ser o nosso refúgio particular, o nosso porto seguro para descansar depois dos dias corridos e exaustivos na cidade. Para o batizado, o espaço foi todo decorado com arranjos minimalistas de flores brancas, e o aroma adocicado e fresco de lavanda flutuava no ar, marca

  • CASADA COM O "NINGUÉM": O DESPERTAR DO HERDEIRO    CAPÍTULO 132 – O COMEÇO DO SEMPRE

    ARTHURO visor do meu celular acendeu no criado-mudo exatamente às seis da manhã. Não era o alarme. O aparelho apenas vibrou uma única vez, mas o som foi o suficiente para me fazer abrir os olhos de imediato. Afastei o braço com cuidado para não despertar Maya, que continuava dormindo profundamente ao meu lado, afundada entre os travesseiros com uma expressão tão serena que fiz questão de observá-la por alguns segundos.Peguei o aparelho e deslizei o dedo pela tela, deparando-me com uma mensagem que fez meu coração dar um salto no peito:"Sr. Valente, bom dia. Acabamos de finalizar os últimos retoques da fachada e a limpeza pós-obra. Está tudo pronto, limpo e impecável. A chave está na portaria principal. O projeto da sua vida está oficialmente concluído." — Engenheiro Marcos.Uma onda de adrenalina pura substituiu qualquer resquício de sono que eu ainda pudesse ter. Eu não consegui me conter. Uma sensação de realização, misturada a uma urgência quase infantil, tomou conta de mim. Eu

  • CASADA COM O "NINGUÉM": O DESPERTAR DO HERDEIRO    CAPÍTULO 131 – O DESPERTAR DO AMANHÃ

    MAYAO feixe de sol que escapava pela fresta da cortina de linho desenhava uma linha dourada sobre o lençol. Preguiçosamente, estiquei os braços, sentindo o perfume suave de lavanda misturado ao cheiro da madeira da nossa cama. Por um momento, meu corpo tencionou por puro instinto, aquele alarme automático de mãe que me dizia que eu deveria acordar ao menor sinal de choro. Mas o silêncio que reinava no quarto dos bebês vindo da babá eletrônica era absoluto, uma paz quase inacreditável para uma manhã de sábado.Virei-me para o lado, esperando encontrar o espaço vazio, mas Arthur já estava cruzando a porta do quarto. Ele segurava uma bandeja com um cuidado quase cômico para um homem do seu tamanho. O aroma de café fresco e croissants quentes invadiu o ambiente antes mesmo que ele se aproximasse. Ele vestia apenas uma calça de moletom cinza, os cabelos escuros ligeiramente desalinhados e aquele sorriso de canto que sempre fazia meu coração errar uma batida.— Bom dia, Sra. Valente — ele

  • CASADA COM O "NINGUÉM": O DESPERTAR DO HERDEIRO    CAPÍTULO 130 – LINHAS DE DESTINO E O PESO DO FUTURO

    GISELE Três meses podem parecer uma eternidade quando estamos no meio do caos, mas, quando a calmaria finalmente decide reinar, o tempo voa em uma velocidade assustadora. Era um sábado ensolarado, típico daquelas manhãs em que o céu parece limpo de qualquer resquício de tempestade. Eu segurava o volante do carro com uma leveza que há muito tempo não sentia. Olhei pelo retrovisor, ajeitando meus óculos de sol, e sorri ao ver o painel do carro indicar que eu estava prestes a estacionar no aeroporto. Minha missão naquela manhã era das mais prazerosas: buscar Ariel e Alessandro. Eles estavam desembarcando de mais uma de suas vindas da Europa, e o nosso destino final era a casa de Maya e Arthur para um almoço que, sabíamos bem, seria inteiramente focado nos preparativos do batizado dos gêmeos. Assim que parei nas portas do desembarque internacional, não precisei procurar muito. Ariel era o tipo de mulher que preenchia qualquer ambiente antes mesmo de dar o primeiro passo nele. Ela vinha

  • CASADA COM O "NINGUÉM": O DESPERTAR DO HERDEIRO    CAPÍTULO 129 – O CHEIRO DE LAVANDA E RECOMEÇOS

    ARTHUR VALENTE O motor do carro finalmente silenciou, mas o zumbido na minha mente parecia longe de acabar. Apoiei as mãos no volante, deixando a testa descansar contra o couro frio por alguns longos segundos. Meus olhos ardiam, reflexo de noites em claro e do ar carregado de tensão da delegacia. O confronto final com os advogados, os depoimentos em série e a burocracia exaustiva para garantir que nenhuma brecha judicial restasse haviam consumido até a última gota das minhas energias. Eu sentia como se estivesse carregando o peso de um edifício inteiro nos ombros. Heitor e Sônia estavam, finalmente, atrás das grades, mas o preço mental de desenterrar tanta podridão cobrava seu imposto agora.Quando abri a porta do carro e pisei no cascalho da propriedade, o ar fresco do final da tarde me acolheu. O sol estava se pondo. Ao cruzar os portões e caminhar em direção à entrada principal, um sentimento que eu não ex

  • CASADA COM O "NINGUÉM": O DESPERTAR DO HERDEIRO    CAPÍTULO 128 – A RAZÃO DA GANÂNCIA

    ARTHUR VALENTEA frieza da folha de metal da porta principal ainda ecoava na minha mente quando o guarda me conduziu de volta para a mesma sala de visitas de segurança dois. O ar parecia ligeiramente mais leve agora que Heitor tinha sido arrastado de volta para o isolamento, mas eu sabia que a faxina na minha vida ainda não estava completa. Faltava uma peça. A peça que representava a traição mais dolorosa que Maya já havia sofrido, vinda justamente de onde ela deveria ter recebido o mais puro amor.Sentei-me novamente na cadeira aparafusada ao chão, apoiei os punhos na superfície metálica da mesa e esperei.Não demorou muito para que o ferrolho externo corresse com um estalo seco. A porta se abriu e dois policiais empurraram Sônia para dentro do recinto. Seus pulsos estavam presos por algemas de aço que contrastavam violentamente com as unhas compridas e pintadas de vermelho, agora lascadas. Ela não vestia o moletom do Estado como o meu pai; ainda usava o casaco de grife com o qual te

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status