INICIAR SESIÓN
✦POV: Lorraine✦
A música ecoava pelo salão como uma promessa de felicidade que eu sabia, no fundo, não ser para mim.
Vestidos de seda e ternos sob medida preenchiam cada canto do Palácio Ricci. Cristais pendiam do teto como lágrimas congeladas, refletindo a luz dos candelabros em mil fragmentos dourados. O cheiro de champanhe e flores frescas flutuava no ar, misturado ao perfume caro das famílias mais poderosas da máfia siciliana.
E eu estava ali. No centro de tudo. Como um peixe fora d'água que aprendeu a nadar em águas traiçoeiras.
— Está nervosa? — perguntou minha madrasta, sem esconder o sorriso de canto.
Não respondi. Apertei a embreagem prata entre os dedos e mantive o queixo erguido. Aos vinte e cinco anos, eu já havia aprendido que demonstrar fraqueza era o mesmo que assinar a própria sentença de morte naquele mundo.
O noivado de Bruno Ricci com uma mulher da família Valenti era o evento do ano. Não porque alguém se importasse com amor — aquela palavra não existia no vocabulário da Cosa Nostra —, mas porque alianças significavam poder. E poder significava sobrevivência.
Bruno era herdeiro de uma das cinco famílias mais antigas da Sicília. Trinta e cinco anos, cabelos escuros brilhando com óleo, sorriso ensaiado que nunca alcançava os olhos. Ele havia me cortejado por três meses. Flores. Jantares. Promessas que eu sabia serem vazias, mas que aceitei porque, na minha posição, recusar não era uma opção.
Eu era Lorraine.
Filha ilegítima de Giulio De Angelo, um Don decadente que nunca me reconheceu publicamente. Minha mãe foi sua amante por sete anos, até o dia em que cansou de esperar um anel e simplesmente desapareceu. Eu fiquei. Não por escolha, mas porque o sangue de Giulio corria em minhas veias, e na máfia, sangue é dívida.
Bruno me via como um prêmio secundário. Algo útil para agradar ao meu pai biológico, para ganhar acesso a territórios e negócios. Eu via Bruno como um meio de deixar de ser invisível.
Naquela noite, porém, algo estava errado.
Senti antes de ver. A forma como as pessoas desviavam o olhar. Os sussurros que morriam quando eu me aproximava. O sorriso de minha madrasta, largo demais, afiado demais.
— O que está acontecendo? — perguntei baixo, sem me dirigir a ninguém em específico.
Minha meio-irmã, Caterina, apenas deu de ombros com indiferença calculada. Ela sempre me odiou. Não porque eu tivesse feito algo, mas porque minha existência manchava a legitimidade dela aos olhos do pai.
O mestre de cerimônias bateu a bengala no chão três vezes. O silêncio se espalhou como óleo sobre água.
— Senhoras e senhores, é com grande honra que anunciamos o momento mais aguardado da noite. A escolha de Bruno Ricci.
Meu coração bateu uma vez. Depois outra. Depois parou.
Escolha?
Ninguém havia falado em escolha.
Bruno subiu ao pequeno palco montado no centro do salão. Lindo como um anjo caído. Perigoso como uma serpente bem alimentada. Ele carregava duas rosas em suas mãos — uma branca, uma vermelha.
O protocolo era antigo. Quase medieval. O homem entrega a rosa vermelha à mulher que deseja tomar como esposa. A rosa branca significa rejeição pública. Uma humilhação que atravessa gerações, que ecoa por décadas nos corredores do poder.
E eu vi, no momento em que seus olhos encontraram os meus, que a rosa vermelha não era para mim.
✦POV: Angelo Valenti✦O tempo passou.Não sei quantos minutos. Quantas horas. Quantos dias.Só sei que não a deixei ir.Ficamos no escritório. Depois no meu quarto. Depois na cama.Não fizemos amor — ainda não. Ainda havia uma barreira que eu não conseguia atravessar. Ainda havia medo.Mas ficamos juntos.Ela dormiu no meu peito. Eu acariciei seu cabelo.— Três anos — murmurou ela, semi-adormecida. — Três anos esperando por isso.— Esperando pelo quê?— Por você. — Ela ergueu os olhos. Eles estavam cansados, mas havia algo novo neles. Algo que eu nunca tinha visto antes. — Por você me deixar entrar.— Eu sempre quis deixar você entrar.— Então por que não deixou?— Porque eu não sabia que você queria entrar. — Pousei a mão sobre seu coração. Ele batia forte contra meus dedos. — Você parecia tão completa. Tão forte. Tão independente. Eu achei que não precisava de mim.Ela riu. Um som baixo, sem humor.— Completa? — repetiu. — Angelo, eu estava em pedaços. Desde o dia em que minha mãe f
✦POV: Angelo Valenti✦Ela veio ao meu escritório naquela noite.Sem bater. Sem avisar. Sem pedir permissão.— Estou cansada disso, Angelo. — A voz dela era firme, mas havia uma trêmula por baixo. Uma trêmula que eu conhecia bem.— Cansada do quê?— Deste silêncio. Desta distância. Deste contrato que nos mantém separados.— O contrato é o que nos mantém seguros.— Seguros? — Ela deu um passo à frente. — Você chama isso de seguro? Três anos, Angelo. Três anos dormindo no mesmo teto, mas em quartos separados. Três anos jantando na mesma mesa, mas sem nunca se tocar. Três anos sendo sua esposa no papel, mas nunca na realidade.— Lorraine...— Não. — Ela ergueu a mão. — Você vai me ouvir.Calei.— Eu destruí meu pai. Eu arruinei Bruno. Eu humilhei Perla. Eu fiz tudo o que você pediu. Tudo o que o contrato exigia. — Ela deu outro passo. Agora estávamos a um braço de distância. — E ainda assim, você não me toca. Ainda assim, você se mantém distante.— Eu me mantenho distante para te proteger
✦POV: Angelo Valenti✦Três anos.Parece uma eternidade quando você está vivendo dentro dela. Um piscar de olhos quando você olha para trás.Quando conheci Lorraine, ela era uma mulher quebrada. Não no sentido óbvio — não havia ossos partidos ou feridas visíveis. Mas havia algo nela que estava despedaçado por dentro. Algo que nenhum médico poderia curar.Eu vi na primeira noite.Na forma como ela segurava a rosa vermelha. Na maneira como seus dedos apertavam os espinhos até sangrar. Na forma como seus olhos brilhavam com uma dor tão profunda que parecia vir de outro século.Eu não queria salvá-la.Queria possuí-la.Mas o lobo dentro de mim queria mais do que posse. Queria proteção. Queria cuidado. Queria algo que eu nunca havia dado a ninguém.Amor.O que é um conceito ridículo para um homem como eu. Alfa. Don. Assassino. Monstro.Três anos.Ela destruiu Giulio De Angelo naquela noite. Eu vi. Estive lá. Senti o choque no salão quando ela jogou os documentos na mesa e anunciou que tinha
✦POV: Lorraine✦O jantar foi no vigésimo primeiro dia.A mansão Valenti brilhava como nunca. Lustres de cristal. Arranjos de rosas vermelhas em cada mesa. Música ao vivo — um quarteto de cordas tocando Vivaldi baixinho, quase como um sussurro.Os convidados chegaram às oito em ponto.Primeiro os menores. Capos de famílias secundárias, aliados de baixo escalão, homens que queriam ser vistos mas não queriam ser notados.Depois os médios. Chefes de território, donos de negócios paralelos, mulheres que usavam joias tão pesadas que pareciam armaduras.Finalmente, os grandes.Giulio De Angelo chegou acompanhado da esposa e de Caterina. Seu terno era caro, mas desgastado. Sua expressão era altiva, mas seus olhos... seus olhos estavam cansados.Ele já sabia.Ele já sentia o cheiro da ruína.Bruno Ricci e Perla Savino chegaram em seguida. Ele de preto, ela de vermelho. Lindos. Perfeitos. Repugnantes.Perla usava um colar de diamantes que brilhava sob os lustres.Eu usava um vestido preto.Simp
✦POV: Lorraine✦Os dias que antecederam o jantar foram um turbilhão. Floristas vieram e foram, carregando arranjos de rosas vermelhas — sempre vermelhas — para cada canto da mansão. Chefes de cozinha discutiram cardápios em voz alta, testaram pratos, descartaram sobremesas. Empregados circulavam como formigas, polindo talheres, lavando taças, passando roupa em toalhas de linho. Eu supervisionava tudo. Cada detalhe. Cada escolha. A mansão Valenti não seria apenas uma casa naquela noite. Seria uma fortaleza. Um palco. Uma armadilha dourada onde meus inimigos entrariam voluntariamente. No décimo segundo dia, recebi uma visita inesperada. — Senhora Valenti? — A voz da empregada era hesitante. — Há uma pessoa na portaria. Diz que é sua irmã. — Meia-irmã — corrigi. — E não quero vê-la. — Ela insiste. Diz que é urgente. Suspirei. — Deixe-a entrar. Mas revista completa. E quero dois seguranças na sala enquanto ela estiver aqui. — Sim, Senhora. Caterina entrou na biblioteca como se
✦POV: Lorraine✦ Os convites foram enviados numa terça-feira. Papéis de algodão branco, bordô e preto, com o brasão da família Valenti estampado em ouro no canto superior direito. Cada palavra foi escolhida a dedo, cada vírgula posicionada para transmitir poder sem arrogância, convite sem súplica. "A Família Valenti tem a honra de convidar Vossa Excelência para um jantar em comemoração à união do Don Angelo Valenti e da Senhora Lorraine Valenti." No rodapé, em letras miúdas: *"Traje formal. Segurança pessoal limitada a dois acompanhantes."* A última linha era uma mensagem disfarçada. Uma declaração de que os convidados estariam em território Valenti. Nas minhas regras. Sob meu teto. Vittorio entregou os envelopes pessoalmente. Não confiaria a tarefa a ninguém menos. — Giulio recebeu o seu — informou, ao retornar. — Ele perguntou se poderia trazer a esposa e a filha. — Pode. — Bruno Ricci também respondeu. Quer saber se Perla Savino está incluída no convite. — Está. — A senhor







