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CASADA POR TRÊS ANOS… ELE NUNCA ME REIVINDICOU
CASADA POR TRÊS ANOS… ELE NUNCA ME REIVINDICOU
Autor: CERCIE

CAPÍTULO 1

Autor: CERCIE
last update Data de publicação: 2026-04-19 01:24:30

✦POV: Lorraine✦

A música ecoava pelo salão como uma promessa de felicidade que eu sabia, no fundo, não ser para mim.

Vestidos de seda e ternos sob medida preenchiam cada canto do Palácio Ricci. Cristais pendiam do teto como lágrimas congeladas, refletindo a luz dos candelabros em mil fragmentos dourados. O cheiro de champanhe e flores frescas flutuava no ar, misturado ao perfume caro das famílias mais poderosas da máfia siciliana.

E eu estava ali. No centro de tudo. Como um peixe fora d'água que aprendeu a nadar em águas traiçoeiras.

— Está nervosa? — perguntou minha madrasta, sem esconder o sorriso de canto.

Não respondi. Apertei a embreagem prata entre os dedos e mantive o queixo erguido. Aos vinte e cinco anos, eu já havia aprendido que demonstrar fraqueza era o mesmo que assinar a própria sentença de morte naquele mundo.

O noivado de Bruno Ricci com uma mulher da família Valenti era o evento do ano. Não porque alguém se importasse com amor — aquela palavra não existia no vocabulário da Cosa Nostra —, mas porque alianças significavam poder. E poder significava sobrevivência.

Bruno era herdeiro de uma das cinco famílias mais antigas da Sicília. Trinta e cinco anos, cabelos escuros brilhando com óleo, sorriso ensaiado que nunca alcançava os olhos. Ele havia me cortejado por três meses. Flores. Jantares. Promessas que eu sabia serem vazias, mas que aceitei porque, na minha posição, recusar não era uma opção.

Eu era Lorraine.

Filha ilegítima de Giulio De Angelo, um Don decadente que nunca me reconheceu publicamente. Minha mãe foi sua amante por sete anos, até o dia em que cansou de esperar um anel e simplesmente desapareceu. Eu fiquei. Não por escolha, mas porque o sangue de Giulio corria em minhas veias, e na máfia, sangue é dívida.

Bruno me via como um prêmio secundário. Algo útil para agradar ao meu pai biológico, para ganhar acesso a territórios e negócios. Eu via Bruno como um meio de deixar de ser invisível.

Naquela noite, porém, algo estava errado.

Senti antes de ver. A forma como as pessoas desviavam o olhar. Os sussurros que morriam quando eu me aproximava. O sorriso de minha madrasta, largo demais, afiado demais.

— O que está acontecendo? — perguntei baixo, sem me dirigir a ninguém em específico.

Minha meio-irmã, Caterina, apenas deu de ombros com indiferença calculada. Ela sempre me odiou. Não porque eu tivesse feito algo, mas porque minha existência manchava a legitimidade dela aos olhos do pai.

O mestre de cerimônias bateu a bengala no chão três vezes. O silêncio se espalhou como óleo sobre água.

— Senhoras e senhores, é com grande honra que anunciamos o momento mais aguardado da noite. A escolha de Bruno Ricci.

Meu coração bateu uma vez. Depois outra. Depois parou.

Escolha?

Ninguém havia falado em escolha.

Bruno subiu ao pequeno palco montado no centro do salão. Lindo como um anjo caído. Perigoso como uma serpente bem alimentada. Ele carregava duas rosas em suas mãos — uma branca, uma vermelha.

O protocolo era antigo. Quase medieval. O homem entrega a rosa vermelha à mulher que deseja tomar como esposa. A rosa branca significa rejeição pública. Uma humilhação que atravessa gerações, que ecoa por décadas nos corredores do poder.

E eu vi, no momento em que seus olhos encontraram os meus, que a rosa vermelha não era para mim.

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