LOGIN✦POV: Lorraine✦
O tempo desacelerou.
Bruno desceu do palco com passos firmes. A multidão se abriu diante dele como o Mar Vermelho diante de Moisés. Todos queriam ver. Todos queriam testemunhar a queda ou a coroação.
Eu não me movi.
Minha espinha permaneceu ereta. Meus olhos não piscaram. Por fora, gelo. Por dentro, um furacão de vergonha e fúria que ameaçava me consumir viva.
Ele passou por mim.
Bruno Ricci passou por mim como se eu fosse uma cadeira, um lustre, um objeto sem importância. Seu perfume amadeirado invadiu minhas narinas por um segundo, e então ele continuou andando.
Em direção a ela.
Perla Savino.
Loira, olhos verdes, quadrilhar de modelo. Filha legítima de um consigliere aposentado. Rica. Conectada. Aceitável.
Bruno parou diante de Perla. Sorriu — aquele sorriso que eu pensava ser meu. E estendeu a mão.
A rosa vermelha deslizou de seus dedos para os dela como se sempre tivesse pertencido ali.
— Perla Savino — anunciou Bruno, com voz que ecoou por todo o salão —, você aceita ser minha esposa?
Ela aceitou. Claro que aceitou.
O salão explodiu em aplausos. Palmas. Gritos de felicitações. Alguém abriu uma segunda garrafa de champanhe.
E eu fiquei ali. No meio de todo aquele júbilo alheio. Segurando a embreagem prata com tanta força que meus nós dos dedos embranqueceram.
Foi quando senti um toque em meu ombro.
Um dos criados — rapaz novo, olhos castanhos cheios de pena mal disfarçada — segurava uma bandeja de prata. Sobre ela, uma única flor.
Rosa vermelha.
A minha rosa.
Ele não disse nada. Não precisava. As regras eram claras. A rosa havia sido preparada para mim, mas não foi entregue. Agora eu a recebia como resto, como sobra, como lembrete de que nunca fui a primeira escolha de ninguém.
Tremendo — não de frio, mas de uma raiva tão pura que doía fisicamente —, estendi a mão e peguei a flor.
Os espinhos perfuraram minha pele. Gotas de sangue escorreram entre meus dedos, vermelhas como a própria rosa.
Ninguém notou.
Todos estavam ocupados demais celebrando Perla.
Eu olhei para o lado e vi minha madrasta sussurrando algo ao ouvido de Caterina. As duas riram. Olharam para mim. Riram mais alto.
Meu pai, Giulio De Angelo, estava encostado em um pilar próximo, um copo de uísque na mão. Ele me viu. Ele viu a rosa. Ele viu o sangue.
E desviou o olhar.
Naquele momento, algo dentro de mim se partiu. Não foi meu coração — isso já estava em pedaços há anos. Foi minha ilusão. A última, pequena, miserável esperança de que um dia alguém naquela família me enxergaria como mais do que um erro.
A música voltou a tocar. Mais alta. Mais alegre.
E eu fiquei parada, no meio da festa, com uma rosa ensanguentada na mão, sentindo o peso de todos os olhares que agora me encaravam.
Não com ódio.
Não com raiva.
Pior.
Com pena.
Como se eu fosse uma peça descartável. Algo quebrado que ninguém tinha coragem de jogar fora, mas que ninguém queria consertar.
Foi aí que eu decidi.
Naquela noite. Naquele momento. Com sangue escorrendo entre meus dedos e o som de aplausos para outro amor ecoando em meus ouvidos.
Eu nunca mais seria a coitada.
Eu nunca mais seria a filha ilegítima.
Eu nunca mais dependeria da boa vontade de homens que me viam como objeto.
— Senhorita De Angelo?
A voz era grave. Estranhamente calma em meio ao caos da celebração.
Virei-me.
Um homem estava diante de mim. Não alto como uma montanha, mas com uma presença que fazia as montanhas parecerem colinas. Terno preto impecável. Cabelos grisalhos nas têmporas. Olhos escuros que pareciam enxergar dentro da minha alma.
Ao lado dele, outro homem. Mais jovem. Postura de guarda-costas. Mãos cruzadas à frente do corpo.
— Angelo Valenti — o homem mais velho se apresentou, como se o nome explicasse tudo.
E explicava.
Angelo Valenti. Don da família Valenti. O homem mais temido de toda a Sicília. Diziam que ele nunca perdia. Diziam que ele nunca negociava. Diziam que ele já havia matado com as próprias mãos mais homens do que a peste negra.
— O que o Don Valenti quer comigo? — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Ele me observou por um longo segundo. Seus olhos percorreram meu rosto, a rosa ensanguentada, minhas mãos trêmulas. Não havia desejo em seu olhar. Nem pena.
Havia avaliação.
Como se ele estivesse diante de um diamante bruto, decidindo se valia a pena lapidar.
— Uma proposta — respondeu ele, simples assim.
E então, na frente de todos que haviam acabado de me descartar, Angelo Valenti estendeu a mão.
Não para me salvar.
Para me oferecer algo muito mais perigoso.
Vingança.
Rafael falou por uma hora.Sobre o passado. Sobre o presente. Sobre o futuro. Sobre como a máfia precisava mudar. Sobre como as famílias precisavam se unir. Sobre como os Valenti estavam fracos.— O Don está doente — disse ele, com um sorriso. — Todos sabem. Ele não aparece. Não fala. Não lidera.— O Don está vivo — respondi, com a voz calma. — E está liderando. Através de mim.— Através de você? — Rafael riu. — Uma mulher? Uma humana?— Uma mulher que construiu um império. — Ergui o queixo. — Uma mulher que destruiu o próprio pai. Uma mulher que transformou a família Valenti em um conglomerado legítimo.— Legítimo? — Rafael olhou para os outros capos. — Vocês ouvem isso? Ela está transformando a máfia em... empresa.— Estou transformando a máfia em algo melhor. — Levantei-me. — Algo que pode sobreviver. Algo que pode dar futuro aos nossos filhos.— Nossos filhos? — Rafael riu. — Você não tem filhos.— Ainda não.— E nunca terá. — Ele caminhou até mim. — Porque o Alfa não pode te marc
POV LORRAINEAs três semanas passaram devagar.Angelo começou a se preparar de uma forma que eu nunca tinha visto.Ele se trancava no escritório por horas. Não para trabalhar. Para meditar. Para controlar o lobo. Para garantir que, quando chegasse a hora, ele não perderia o controle.— Ele está mais calmo — observou Vittorio, uma tarde, enquanto caminhávamos pelos jardins. — Mais centrado.— Ele está com medo.— Medo é bom. Medo mantém o lobo na coleira.— E se a coleira quebrar?— Aí a senhora vai precisar ser mais forte do que ele. — Vittorio me olhou. — A senhora é forte o suficiente?— Vou ser.Ele assentiu.— A senhora sabe que pode morrer.— Sei.— E mesmo assim quer?— Quero.— Por quê?— Porque eu amo ele. — Olhei para as rosas vermelhas. — E porque eu prefiro morrer ao lado dele do que viver sem ele.Vittorio ficou em silêncio por um longo momento.— A senhora é mais corajosa do que qualquer um de nós.— Não é coragem. É amor.Ele saiu.Fiquei sozinha com as rosas e o vento e
✦✦ POV: Lorraine✦✦Na manhã seguinte, Angelo não estava na cama.Acordei com o sol entrando pelas cortinas e o espaço ao meu lado vazio. O travesseiro ainda tinha o formato da cabeça dele. As cobertas ainda estavam mornas.Mas ele não estava ali.Por um momento, o pânico me tomou. Será que ele havia fugido? Será que, depois da noite que passamos juntos, ele havia decidido que era demais? Será que eu havia me entregado demais e perdido tudo?Levantei-me. Vista o roupão.Desci as escadas.Encontrei-o no escritório.Estava sentado atrás da escrivaninha. Não estava lendo. Não estava trabalhando. Estava olhando para o vazio. As mãos cruzadas sobre a mesa. Os olhos vermelhos como se não tivesse dormido.— Angelo?Ele ergueu os olhos.— Bom dia.— O que aconteceu? — Caminhei até ele. — Por que não está na cama?— Eu não consegui dormir.— Por quê?— Por você. — Ele estendeu a mão. Pegou a minha. — Por nós. Pelo que aconteceu ontem à noite.— Foi ruim?— Foi a melhor noite da minha vida. — El
POV: Lorraine✦✦O beijo foi diferente.Não era o beijo contido dos últimos anos. Não era o beijo educado de quem tem medo de se perder.Era um beijo de fome. De desejo. De alguém que finalmente decidiu parar de lutar.— Lorraine... — sussurrou ele contra meus lábios.— Shhh.— Eu quero...— Eu sei.— Não posso.— Pode.— Vou me perder.— Então se perca.Ele parou.Recuou.Os olhos estavam dourados. Brilhando.— Não — disse ele, a voz rouca. — Ainda não.— Angelo...— Você não sabe o que está pedindo. — Ele tocou meu rosto. — A marca. A ligação. A possessão. É permanente.— Eu sei.— Você pode morrer.— Eu sei.— Lorraine...— Escute. — Segurei o rosto dele. — Eu não quero viver para sempre, Angelo. Eu quero viver agora. Com você. Seja por um ano. Seja por um dia. Seja por uma hora. Eu quero viver.Ele me olhou por um longo momento.— Você está falando sério.— Estou.— Você quer a marca?— Quero você.O silêncio foi ensurdecedor.— Amanhã — disse ele, finalmente. — Amanhã à noite. Se
POV: Lorraine✦✦Três anos.Foi quanto tempo levei para construir um império.Não exagero. Não estou sendo poética. É um fato.Em três anos, a família Valenti deixou de ser uma organização criminosa para se tornar um conglomerado empresarial legítimo. Hotéis de luxo em Palermo, Catânia e Siracusa. Cassinos legalizados na costa amalfitana. Uma rede de transporte que operava em toda a Sicília. Participações em vinícolas, olivais, imobiliárias.Tudo limpo.Tudo legal.Tudo meu.Não porque Angelo tivesse me dado. Porque eu conquistei.Trabalhei dezoito horas por dia. Negociei com banqueiros que me subestimavam. Enfrentei capos que se recusavam a obedecer a uma mulher. Destruí concorrentes que tentaram me sabotar.E, a cada vitória, a cada contrato assinado, a cada inimigo derrotado, eu me tornava mais forte.Mais fria.Mais sozinha.— A senhora está diferente — observou Vittorio, uma manhã, enquanto eu revisava relatórios no escritório.— Estou a mesma.— Não está. — Ele sentou-se na poltr
POV LORRAINEOs dias seguintes foram diferentes.Angelo passou a me tratar não como aliada, mas como parceira. Não como esposa, mas como igual. Levava-me às reuniões, ouvia minhas opiniões até o fim e, quando eu apontava um risco que os outros haviam deixado passar, assentia devagar e mudava o plano sem discutir. Numa delas, um capo tentou me interromper; Angelo apenas o encarou até o homem calar e me devolveu a palavra com um aceno.E, a cada dia, eu me sentia mais forte.Numa tarde de chuva fina, Vittorio me encontrou na biblioteca. Eu fingia ler, mas fazia vinte minutos que não virava a página.— A senhora está mudando o Don — observou ele, sentando-se na poltrona diante da minha.— Estou?— Está. Ele anda mais leve. Menos carrancudo. Menos sozinho.— Ele sempre foi sozinho.— Foi. Mas agora tem a senhora.— Isso muda alguma coisa?— Muda tudo. — Ele se inclinou, apoiando os antebraços nos joelhos. — A senhora é a primeira pessoa que ele deixou entrar. A primeira que ele deixou ver.







