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CAPÍTULO 4

Autor: Euridce
last update Data de publicação: 2026-05-14 12:02:26

O apartamento cheirava a ausência.

Helena percebeu isso na manhã seguinte, enquanto caminhava descalça pelo corredor silencioso.

Era estranho como a casa ainda parecia dele.

A caneca favorita continuava sobre a pia.

O perfume permanecia impregnado no travesseiro, nos lençóis e na cama.

Um relógio esquecido descansava na cômoda do quarto.

Restos.

Pequenos pedaços de um casamento morto.

Luna ainda dormia quando Helena entrou no quarto pela primeira vez desde que Ricardo foi embora.

Ela parou na porta.

O peito apertou imediatamente.

A cama está desarrumada, e o outro lado está vazio.

O armário semi aberto mostrando os espaços onde as roupas dele costumavam ficar.

Parecia uma cena de crime.

E talvez fosse.

Porque algo ali tinha sido assassinado.

Ela mesma.

Helena caminhou devagar até o closet, tentando ignorar o tremor nas mãos.

Precisava organizar as coisas.

Precisava agir como adulta.

Mas quando encontrou uma camisa social preta de Ricardo pendurada no fundo do armário, tudo desmoronou outra vez.

Ela segurou o tecido entre os dedos.

O perfume dele ainda estava ali.

Forte.

Familiar.

Dolorosamente familiar.

Fechando os olhos, Helena se lembrou das noites em que Ricardo chegava tarde do trabalho, cansado, e a abraçava por trás enquanto ela fazia jantar.

“Você é minha casa.”

Ele costumava dizer isso.

Mentira.

Mentira.

Mentira.

Helena apertou a camisa contra o peito antes que percebesse o que estava fazendo.

Patético.

Ridículo.

Mesmo destruída, ainda sentia falta dele.

Ainda queria acreditar que aquilo era um erro horrível do qual ele se arrependeria.

Mas homens arrependidos não postavam fotos felizes com amantes grávidas.

Homens arrependidos não abandonavam filhas de dois anos.

Ela abriu os olhos rapidamente e jogou a camisa no chão como se queimasse.

— Idiota — sussurrou para si mesma.

Não sabia se estava falando dele ou dela.

Talvez dos dois.

Passou a manhã inteira separando objetos de Ricardo em caixas.

Relógios.

Sapatos.

Documentos.

Gravatas caras que Helena ajudou a escolher quando ele começou a crescer na empresa.

Cada item carregava uma memória.

E cada memória doía.

No fundo de uma gaveta, ela encontrou um álbum antigo.

Fotos.

Helena sentou lentamente no chão ao abri-lo.

Ali estavam eles no início.

Jovens.

Apaixonados.

Pobres.

Felizes.

Ricardo sorria em todas as fotos como se Helena fosse a melhor coisa que já tinha acontecido em sua vida.

Ela passou os dedos sobre uma imagem do casamento civil deles.

Lembrou-se daquele dia perfeitamente.

Não tinham dinheiro para festa.

Nem alianças caras.

Nem lua de mel.

Mas tinham amor.

Ou pelo menos ela acreditava que tinham.

Uma lágrima caiu sobre a fotografia.

Depois outra.

E outra.

Até que Helena fechou o álbum rapidamente, incapaz de continuar olhando.

Foi então que percebeu algo estranho.

Uma foto estava faltando.

A mais importante.

A foto do nascimento de Luna.

Ela procurou entre as páginas confusas, mas não encontrou.

O coração apertou de forma diferente dessa vez.

Porque Ricardo tinha levado aquela foto.

Entre todas as coisas que deixou para trás.

Foi aquela que escolheu levar.

Helena não sabia o que sentir.

Raiva?

Esperança?

Dor?

Talvez tudo junto.

Luna apareceu no corredor naquele momento, segurando o ursinho velho contra o peito.

— Mamãe.

Helena rapidamente limpou o rosto.

— Oi, meu amor.

A menina entrou no quarto devagar, olhando as caixas espalhadas.

Então apontou para elas.

— Papá?

Helena sentiu a garganta fechar.

Ela puxou Luna para o colo imediatamente.

— Não, princesa.

Luna encostou a cabeça em seu peito inocentemente.

E Helena percebeu que não tinha tempo para quebrar.

Porque enquanto ela desmoronava por dentro, aquela criança ainda dependia dela para tudo.

Comida.

Proteção.

Amor.

Força.

Mesmo quando Helena não tinha mais nenhuma.

Naquela noite, depois que Luna dormiu, Helena voltou ao quarto mais uma vez.

Olhou ao redor em silêncio.

Depois abriu a última gaveta da cômoda.

Lá dentro encontrou a aliança de Ricardo.

Ele tinha esquecido.

Ou talvez tivesse deixado de propósito.

Helena segurou o anel dourado na palma da mão por longos segundos.

O símbolo de uma promessa que não significava mais nada.

Então fechou os dedos lentamente.

E pela primeira vez desde que ele foi embora.

Ela sentiu raiva de verdade.

Não tristeza.

Não saudade.

Raiva.

Porque Ricardo não destruiu apenas um casamento.

Ele destruiu a mulher que Helena costumava ser.

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Último capítulo

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 161

    Helena Mais tarde, coloquei Luna na cama. — Boa noite, meu amor. Ela segurou minha mão. — Mamãe? — Sim? — Você está feliz? Sorri. — Estou. — Mesmo depois das coisas ruins? Pensei. — Sim. — Como? Beijei sua testa. — Porque as coisas ruins fazem parte da história. — Mas não são a história inteira. Ela sorriu. — Entendi. Fechei a porta. Noah estava no corredor. — O que você disse para ela? — A verdade. Naquela noite, nós dois ficamos na varanda. Sem medo. Sem promessas impossíveis. Apenas juntos. — Eles tentaram — falei. — Tentaram. — E talvez tentem novamente. — Talvez. — E se acontecer? Noah entrelaçou os dedos nos meus. — Nós tentaremos também. Olhei para ele. — Tentar o quê? Ele sorriu. — Ser felizes. Meus olhos se encheram de lágrimas. Porque era exatamente isso. Eles tentariam nos assustar. Nós tentaríamos continuar. Eles tentariam separar. Nós tentaríamos conversar. Eles tentariam destruir. Nós

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 160

    Helena Nos dias seguintes, a investigação avançou. Descobrimos que Ricardo havia transferido dinheiro para uma empresa de fachada. Essa empresa tinha ligação com um antigo segurança. E esse segurança tinha contato com pessoas que trabalhavam para Eduardo. Tudo começava a se conectar. Ricardo. Eduardo. Vanessa. Daniel. As empresas fantasmas. Os ataques. As fotografias. As mentiras. Não eram acontecimentos isolados. Era uma rede. E nós estávamos finalmente desmontando-a. Uma noite, Noah recebeu uma mensagem. Vocês não venceram. Ele me mostrou. Meu coração disparou. — Isso é uma ameaça. — Sim. — De quem? — Não sabemos. Ele ficou olhando para a tela. Depois apagou. — Você não vai responder? — Não. — Por quê? — Porque algumas pessoas querem atenção. — E você não vai dar? — Não. Foi a primeira vez que percebi que Noah não estava tentando vencer aquela guerra com raiva. Ele estava tentando encerrá-la. Mas eles tentaram m

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 159

    Helena Depois de tudo que havíamos vivido, eu aprendi a não acreditar em promessas absolutas. Não existia garantia de que o amanhã seria fácil. Não existia certeza de que nenhum novo problema surgiria. Não existia uma vida completamente protegida contra perdas. Mas existia uma coisa que eu conhecia agora. Escolha. E naquela manhã, enquanto observava Noah preparar o café e Luna reclamar porque o pão estava cortado do jeito errado, percebi que nós três já havíamos feito a nossa escolha. Nós tentaríamos. Mesmo quando fosse difícil. Mesmo quando o medo voltasse. Mesmo quando o passado batesse à porta. — Pai! Noah olhou para Luna. — O quê? — Eu falei que queria o pão em triângulos. — Ele está em triângulos. — Esses são quase triângulos. Olhei para Noah. — Ela tem razão. Ele me encarou. — Você também? — Sempre. Luna comemorou. — Mamãe ganhou! Noah colocou a mão no peito. — Estou sendo derrotado dentro da minha própria cozinha. Comecei a rir. Era uma cena pequena.

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 158

    Helena Depois que Luna foi dormir, Noah ficou olhando para mim. — Você percebeu? — O quê? — Você não prometeu para sempre. Sorri. — Não. — E está tudo bem? — Está. Ele se aproximou. — Por quê? — Porque agora sei que não preciso de uma promessa impossível para me sentir amada. Naquela noite, dormi profundamente. Alguns dias depois, encontramos um álbum antigo. Começamos a olhar fotografias. Luna bebê. Eu grávida. Noah segurando-a pela primeira vez. Nossa primeira viagem. Nossa primeira casa. Algumas fotos estavam ruins. Algumas pessoas já haviam mudado. Alguns momentos pareciam pertencer a outra vida. Noah segurou uma fotografia. — Você lembra disso? — Lembro. — Eu estava nervoso. — Você parecia assustado. — Eu estava. Rimos. Depois encontrei uma fotografia minha. Uma versão antiga. Meu rosto ainda carregava medo. Mas havia esperança. — Eu mudei. Noah olhou. — Muito. — Você teria escolhido aquela mulher? Ele f

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 157

    Helena Naquela noite, Noah perguntou: — Você ficou quieta na festa. — Estava pensando. — Em quê? — No futuro. — E chegou a alguma conclusão? Sorri. — Que eu estava desperdiçando o presente com medo dele acabar. Ele me beijou na testa. — Essa é uma conclusão importante. Algumas semanas depois, uma nova notícia chegou. Eduardo continuava sendo investigado. Havia documentos que poderiam ligá-lo diretamente aos ataques. Noah passou algumas noites trabalhando até tarde. Meu antigo medo voltou. Não porque ele tivesse feito alguma coisa. Mas porque eu conhecia aquela sensação. Quando alguém que você ama se afasta por algumas horas, sua mente começa a criar histórias. Uma noite, Noah entrou no quarto. Eu estava acordada. — Você ainda está trabalhando? — Estava. — Tudo bem? — Sim. Ele percebeu meu rosto. — O que aconteceu? — Nada. Ele sentou ao meu lado. — Helena. Respirei fundo. — Eu fiquei com medo. — De quê? — De que tudo

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 156

    Helena Durante muito tempo, eu tive medo da palavra para sempre. Ela parecia bonita quando era dita em histórias, Promessas, Casamentos, Amores, Famílias. Mas, para mim, para sempre sempre carregava uma ameaça escondida. Porque eu havia aprendido cedo demais que pessoas podiam prometer ficar e partir. Podiam dizer que amavam e machucar. Podiam jurar proteção, e transformar a vida de alguém em medo. Por isso, quando Noah dizia: — Eu quero você para sempre. Uma parte de mim queria acreditar. Outra sussurrava Para sempre não existe. Naquela manhã, estávamos na cozinha. Luna tomava café enquanto Noah tentava convencê-la a comer frutas. — Só mais duas. — Não quero. — Uma. — Não. — Meia? Luna olhou para ele. — Você é péssimo negociando. Comecei a rir. — Ela aprendeu com você. Noah me olhou. — Isso foi uma ofensa. — Foi uma observação. Luna finalmente comeu a fruta. — Pronto. — Viu? Não foi difícil. Ela apontou para Noah. — Você fala

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