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CAPÍTULO 5

Author: Euridce
last update publish date: 2026-05-16 02:15:49

O silêncio tinha se tornado a pior parte.

Não a traição.

Não as fotos de Ricardo com Vanessa.

Nem mesmo o abandono.

Era o silêncio.

Aquele apartamento costumava ser cheio de sons pequenos e imperfeitos que Helena nunca tinha valorizado de verdade até desaparecerem.

O barulho da chave girando na porta no fim da noite.

A voz de Ricardo falando ao telefone pela manhã.

A televisão ligada enquanto ele fingia assistir futebol.

As discussões bobas sobre louça na pia.

Os passos dele pelo corredor.

Agora não havia nada.

Só silêncio.

Um silêncio sufocante que fazia Helena sentir como se estivesse presa dentro de um lugar abandonado.

Naquela noite, Luna finalmente dormira depois de horas chorando irritada.

A menina estava febril, sensível e inquieta desde a saída do pai.

Como se seu pequeno corpo percebesse a ausência mesmo sem compreendê-la.

Helena saiu devagar do quarto da filha e fechou a porta com cuidado.

Então encostou a testa na madeira por alguns segundos.

Exausta.

Ela estava tão cansada que os ossos doíam.

Caminhou lentamente até a cozinha escura, usando apenas a luz fraca acima do fogão.

O relógio marcava quase duas da manhã.

Mais uma noite sem dormir.

Ela abriu a geladeira.

Quase vazia.

Uma garrafa de água.

Restos de comida.

Leite de Luna.

Nada mais.

Helena engoliu seco.

As contas estavam empilhadas sobre a mesa da cozinha.

Ela vinha ignorando aquilo há dias, mas não podia continuar fingindo que o problema não existia.

Pegou uma das cartas.

Conta de energia atrasada.

Outra.

Cartão de crédito bloqueado.

Outra.

Aluguel.

O peito começou a apertar novamente.

Ricardo sempre cuidou das finanças maiores. Helena fazia trabalhos pequenos como freelancer antes de Luna nascer, mas abandonou quase tudo depois da maternidade.

“Você não precisa trabalhar tanto”, ele dizia.

“Eu cuido de vocês.”

Ela tinha acreditado.

Como uma idiota.

Agora estava ali.

Sem dinheiro.

Sem emprego fixo.

Sem marido.

Sem chão.

Helena apoiou os cotovelos na mesa e cobriu o rosto com as mãos.

Pela primeira vez, o medo falou mais alto que a dor.

E se ela não conseguisse sustentar Luna?

E se perdessem o apartamento?

E se acabasse voltando para Ricardo por desespero?

A ideia a fez sentir vergonha instantaneamente.

Mas também há pânico.

Porque uma parte dela sabia que ainda o amava o suficiente para aceitar migalhas.

Isso era o mais humilhante de tudo.

O celular vibrou sobre a mesa.

Helena congelou.

Ricardo.

Seu coração acelerou automaticamente antes mesmo de olhar a tela.

Mas era apenas uma notificação bancária.

Saldo insuficiente.

Ela soltou uma risada fraca.

Quase histérica.

Até o universo parecia debochar dela agora.

Levantou-se rapidamente e foi até a varanda pequena do apartamento.

A cidade estava molhada pela chuva recente.

As luzes dos prédios brilhavam no escuro enquanto carros passavam lá embaixo, indiferentes à destruição silenciosa da vida dela.

Helena cruzou os braços contra o frio.

Ela odiava aquilo.

Odiava se sentir fraca.

Dependente.

Descartável.

Ricardo tinha seguido em frente rápido demais.

Rápido como alguém que já estava emocionalmente fora daquele casamento há muito tempo.

Talvez ela tenha sido a última a perceber.

Talvez todos tivessem percebido antes dela.

As viagens repentinas.

As mensagens escondidas.

A distância.

A frieza.

Os sinais estavam lá.

Mas Helena tinha medo de enxergar.

Porque mulheres apaixonadas às vezes preferem mentiras confortáveis a verdades destrutivas.

Uma lágrima silenciosa escorreu pelo seu rosto.

Ela a limpou imediatamente.

Então ouviu um barulho pequeno atrás dela.

Luna.

A menina estava parada na entrada da varanda, segurando o ursinho velho enquanto esfregava os olhos sonolentos.

— Mamãe.

Helena forçou um sorriso imediatamente.

— O que aconteceu, meu amor?

Luna caminhou devagar até ela.

— Cadê papai?

A pergunta atravessou Helena inteira.

Ela ficou sem ar por um segundo.

A chuva continuava caindo fraca lá fora.

Os carros continuavam passando.

O mundo continuava girando normalmente.

Enquanto o dela desmoronava.

Helena se ajoelhou na frente da filha.

— Papai, está viajando.

Outra mentira.

Mas como explicar abandono para uma criança de dois anos?

Luna fez um biquinho triste.

— Papai brigou?

Helena sentiu os olhos queimarem.

Porque crianças percebiam tudo.

Mesmo o que ninguém dizia.

Ela puxou a menina para os braços rapidamente.

— Não pensa nisso agora, tá bem?

Luna encostou a cabeça em seu ombro.

Pequena.

Quente.

Frágil.

E naquele instante Helena percebeu uma verdade dolorosa.

Ela não tinha o direito de quebrar completamente.

Porque Luna precisava dela inteira.

Mesmo quando ela já se sentia em pedaços.

Mais tarde, depois de colocar a filha para dormir novamente, Helena voltou para a sala escura.

Ficou parada olhando ao redor.

O sofá onde assistiam filmes juntos.

A manta esquecida por Ricardo.

A fotografia da família sobre a estante.

Ela caminhou até a moldura lentamente.

A imagem mostrava os três sorrindo.

Helena segurando Luna recém-nascida enquanto Ricardo beijava sua testa.

Pareciam felizes.

Pareciam reais.

Mas agora aquela foto parecia pertencer a outra pessoa.

Outra mulher.

Uma Helena que ainda acreditava em promessas.

Ela ficou observando a imagem por longos segundos.

Então, lentamente, virou a moldura para baixo.

Incapaz de olhar mais.

O apartamento mergulhou novamente no silêncio.

E Helena finalmente entendeu que o silêncio também podia ser cruel.

Porque nele não existiam distrações.

Só pensamentos.

Só memórias.

Só dor.

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