FAZER LOGINFiquei alguns segundos olhando para ele, tentando entender se aquela conversa era real.
Então soltei uma pequena risada sem humor e balancei a cabeça. — Não… — murmurei, passando a mão pelo cabelo. — Isso é loucura. Victor não disse nada. Continuou apenas me observando, como se estivesse esperando exatamente aquela reação. — Você percebe que isso não faz o menor sentido, não percebe? — continuei, gesticulando levemente com a mão. — Nós mal nos conhecemos. Dei um passo para trás, tentando organizar os pensamentos que pareciam se atropelar na minha cabeça. — Na verdade, deixa eu reformular… nós nos conhecemos há uma semana. Uma semana. Victor permaneceu em silêncio. Aquilo só me deixou ainda mais irritada. — E além disso — continuei — existe um pequeno detalhe que você parece estar ignorando completamente. Ele arqueou levemente uma sobrancelha. — Qual? Soltei uma pequena risada incredula. — Essa tensão absurda entre nós. As sobrancelhas dele se contraíram quase imperceptivelmente. — Tensão? — Sim, tensão — repeti. — Aquela que nós dois fingimos que não existe. O silêncio que caiu no escritório foi pesado. Cruzei os braços. — Você é irritante, arrogante, controlador… e mesmo assim existe essa… — fiz um gesto vago no ar — …essa atração estranha que aparece do nada quando a gente está perto demais. Victor não desviou o olhar. Pelo contrário. Os olhos dele ficaram ainda mais atentos. — E você realmente acha que casar com alguém nessas condições seria uma boa ideia? Ele continuava quieto. Aquilo me fez soltar outro suspiro. — Porque, honestamente, isso parece a receita perfeita para um desastre. Dei mais um passo para trás, aumentando a distância entre nós. — Eu não sou a pessoa certa para isso, Victor. Minha voz saiu mais firme agora. — Eu não sou o tipo de mulher que aceita esse tipo de acordo absurdo. Fiz uma pausa antes de continuar. — E definitivamente não sou a pessoa certa para fingir um casamento com alguém com quem eu claramente não consigo ficar no mesmo ambiente sem discutir. O olhar dele escureceu levemente. — Então é por isso que você acha que não funcionaria? Franzi a testa. — Isso já não é motivo suficiente? Victor se recostou lentamente na cadeira, cruzando os braços. — Na verdade… não. A resposta veio calma demais. Isso me fez encará-lo com ainda mais incredulidade. — Você acabou de listar exatamente o motivo pelo qual isso funcionaria, Júlia. — Você está louco. Victor não pareceu minimamente ofendido. Pelo contrário. Apenas inclinou levemente a cabeça, como se estivesse analisando minha reação com calma. — Sobre essa atração… — ele continuou, a voz baixa e controlada. — é meio óbvio que existe. Senti meu estômago apertar. Ele apoiou os antebraços na mesa, os olhos escuros presos nos meus. — Você é linda, Júlia. Muito. O jeito direto com que ele disse aquilo me pegou completamente desprevenida. — Claro que é difícil ignorar. Engoli em seco. Por um instante esqueci completamente o que estava prestes a dizer. Victor continuou me observando com aquela mesma calma irritante. — Mas isso não muda nada. Piscar foi o suficiente para eu recuperar um pouco da compostura. — Não muda? — repeti, incrédula. — Não. Ele se recostou na cadeira novamente. — Atração física não é exatamente um problema difícil de administrar. Soltei uma pequena risada, dessa vez mais nervosa. — Você fala disso como se fosse algo que simplesmente dá para desligar. Victor ergueu uma sobrancelha. — Dá. Posso te mostrar algumas formas. Cruzei os braços com mais força. — Você é impossível. — Realista. Balancei a cabeça. — Não, você é arrogante. Victor não pareceu se importar. — O ponto é — continuou — que essa atração não muda o fato de que nós dois somos perfeitamente capazes de manter um acordo profissional. Dei alguns passos pelo escritório, tentando dissipar a irritação crescente. — Isso não é um acordo profissional — rebati. — É um casamento. — No papel. Parei de andar. — Você realmente acha que as pessoas vão tratar isso como se fosse só… papel? — Não. Ele respondeu sem hesitar. — As pessoas vão acreditar que é real. Aquilo me fez encará-lo novamente. — E você acha que eu conseguiria fingir isso? Victor sustentou meu olhar. — Sim. — Baseado em quê? Ele demorou um segundo antes de responder. Então disse, com a mesma calma calculada: — Na forma como você olha para mim quando acha que eu não estou vendo. O silêncio que se seguiu foi quase sufocante. Senti o calor subir pelo meu rosto. — Isso é absurdo. Victor apenas deu de ombros. — Talvez. Então fez uma pequena pausa antes de acrescentar, com a voz ainda mais baixa: — Mas não é mentira. — Sabe de uma coisa? — falei, já me virando em direção à porta. — Essa conversa acabou. Dei alguns passos rápidos pelo escritório. — Júlia— — Não — interrompi, sem olhar para trás. — Você realmente achou que eu ia ficar aqui ouvindo esse tipo de absurdo? Alcancei a porta e segurei a maçaneta. Mas, no mesmo instante, uma mão apareceu sobre a minha. Victor. Ele tinha se movido rápido. A mão dele se apoiou na porta, logo acima da minha, impedindo que eu a abrisse. Parei. Por um segundo ficamos assim. Meu corpo quase encostado na madeira da porta. Victor logo atrás de mim. Perto demais. Devagar, virei o rosto. Ele estava muito próximo agora. Mais do que deveria. Quando me virei completamente, meu corpo acabou esbarrando no dele. Foi um contato breve. Mas suficiente. O calor do corpo dele atravessou a fina distância entre nós como uma descarga elétrica. Meu coração disparou imediatamente. Victor não se afastou. Pelo contrário. Continuava com o braço estendido sobre a porta, bloqueando a saída, o corpo a poucos centímetros do meu. Levantei os olhos. Erro. Os olhos escuros dele estavam presos nos meus. Mais intensos do que antes. Mais próximos. Senti aquele mesmo formigamento que tinha sentido no estábulo percorrer minha pele outra vez. Mais forte agora. O ar entre nós parecia pesado. Quente. — Me deixa passar — falei, tentando manter a voz firme. Mas ela saiu mais baixa do que eu queria. Victor não se moveu. A mandíbula dele estava tensa. O olhar desceu rapidamente pelo meu rosto antes de voltar para meus olhos. — Você está fugindo da conversa — ele disse, a voz grave e baixa. — Não — respondi. — Eu estou fugindo de você. As sobrancelhas dele se contraíram levemente. Meu coração parecia bater mais rápido a cada segundo que passávamos ali, tão próximos. Perto o suficiente para que eu sentisse o calor da respiração dele. Victor inclinou levemente a cabeça. — Engraçado. A voz dele saiu mais baixa agora. — Porque não parece. Meu estômago apertou. Victor— Ele se inclinou apenas alguns centímetros. Agora a distância entre nós era quase inexistente. — Já que você não vai se casar comigo… então isso não é um problema. A voz dele saiu baixa. Quase rouca. Antes que eu pudesse reagir, senti as mãos dele pousarem na minha cintura. Firmes. O contato fez meu corpo inteiro reagir. Um calor repentino subiu pela minha pele, rápido demais, intenso demais. Meu coração disparou. — Victor… — repeti, mas dessa vez minha voz saiu muito mais fraca. Os dedos dele apertaram levemente minha cintura, como se estivesse testando se eu iria me afastar. — Isso é uma péssima ideia — murmurei, mais para mim mesma do que para ele. Um canto da boca dele quase se moveu. — Provavelmente. Ele não soltou minha cintura. Pelo contrário. Se inclinou um pouco mais, aproximando o rosto do meu. Agora eu conseguia sentir a respiração dele contra minha pele. Quente. Meu peito subia e descia rápido demais. — Então talvez você devesse me deixar sair — falei. Victor não respondeu imediatamente. De repente, ele me puxou um pouco mais para perto e seus lábios encontraram os meus. Foi um beijo inesperado. Quente. Intenso. Por um segundo, meu cérebro simplesmente parou de funcionar. Meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento racional. Minhas mãos subiram instintivamente até o peito dele, sentindo o tecido da camisa sob meus dedos enquanto ele me mantinha presa contra si. O beijo não foi hesitante. Victor beijava como alguém que já sabia exatamente o que queria. Meu coração batia tão rápido que parecia impossível respirar direito. Então— A porta do escritório se abriu. — Victor, eu vim pegar aqueles docu— A frase parou no meio. Victor se afastou de mim imediatamente. Eu dei um passo para trás, ainda tentando recuperar o ar. Na porta, Lilian estava parada. Os olhos passaram de mim para Victor… e depois voltaram para mim outra vez. Por um segundo ela ficou apenas olhando. Então um pequeno sorriso surpreso apareceu em seus lábios. — Ah. Victor passou a mão pela nuca, visivelmente irritado por ter sido interrompido. — Lilian— Ela levantou as duas mãos rapidamente, quase rindo. — Ei, ei… relaxa. Desculpa interromper. Entrou apenas meio passo no escritório, ainda com aquele ar divertido. — Eu só vim pegar uns documentos que deixei aqui ontem. Olhou para mim outra vez, com um brilho curioso nos olhos. — Não sabia que vocês estavam… ocupados. Senti meu rosto esquentar imediatamente. Victor suspirou baixo. — Lilian— — Já estou indo, já estou indo — disse ela rapidamente, ainda sorrindo. Pegou algumas folhas sobre a mesa com naturalidade, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Antes de sair, porém, ela olhou de novo entre nós dois. — Continuem… o que quer que estivessem fazendo. Victor fechou os olhos por um segundo, claramente sem paciência. — Lilian. Ela riu baixinho. — Tá bom, tá bom. Já entendi. Então abriu a porta novamente. — Depois a gente conversa, Júlia — disse com um sorriso simpático. E saiu do escritório como se não tivesse acabado de interromper nada particularmente dramático. A porta se fechou. O silêncio voltou a cair no escritório. Lentamente, levantei os olhos para Victor. — Ótimo — murmurei. — Agora sua cunhada acha que eu estou tendo um caso com você. Victor me encarou por um segundo. Então disse calmamente: — Tecnicamente… você acabou de me beijar. — Você que me beijou! — Detalhes.Depois de Sofia, vieram as minhas cunhadas. Lilian me abraçou primeiro, apertando meu corpo contra o dela com uma força que me fez rir. — Eu senti tanta falta de você. — Eu também senti. Júlia veio logo depois, e aquele abraço demorou ainda mais. Eu fechei os olhos por alguns segundos, sentindo aquela familiaridade que eu nem sabia o quanto precisava. — Você não sabe o quanto essa casa ficou sem graça sem você — ela brincou. — Mentira. — Um pouco. Rimos, e por alguns minutos foi como se eu nunca tivesse ido embora. Subimos para o meu antigo quarto depois que meus irmãos começaram a discutir alguma coisa lá embaixo. Lilian e Júlia entraram comigo, e foi estranho encontrar algumas das minhas coisas ainda guardadas ali. A cama, a janela, alguns livros que eu havia deixado para trás. Tudo parecia menor. Sentamos juntas, conversando sobre tudo e sobre nada. Elas queriam saber das missões, eu contei algumas histórias mais leves e escondi outras. Falamos de Sofia, das mud
Um ano e dez meses. Foi esse o tempo que passou desde o dia em que deixei o Brasil sem saber exatamente o que estava procurando. No começo, eu achava que queria apenas trabalhar. Queria voltar a ser médica. Queria recuperar uma parte de mim que tinha desaparecido depois de tudo o que acontecera em Londres. E, se fosse completamente honesta, também queria descobrir quem eu era quando não estava sendo esposa de alguém, namorada de alguém ou a mulher que precisava se encaixar na vida de outra pessoa. O Sudão do Sul me ensinou que eu não fazia ideia do que significava dizer que queria descobrir o mundo. Passei dez meses ali. Dez meses que pareciam, às vezes, dez anos. Aprendi rapidamente que a medicina em uma região marcada pela pobreza e pela falta de recursos não tinha absolutamente nada a ver com aquilo que eu conhecia. Faltavam medicamentos, equipamentos, profissionais, leitos. Faltava quase tudo. E, ainda assim, as pessoas chegavam até nós carregando crianças nos braços, trazen
O almoço continuou agradável, sem que ninguém parecesse perceber a pequena tensão que havia se instalado dentro de mim. Clara conversava comigo sobre a UBS, o pai de Henrique comentava algumas coisas sobre a fazenda e, vez ou outra, Henrique entrava na conversa, fazendo algum comentário ou brincando comigo. Em determinado momento, Clara comentou que precisava ir a Cuiabá durante a semana para resolver algumas coisas. — Eu também estava pensando em ir — Beatriz disse. — Preciso passar em alguns lugares antes de voltar para casa. Clara olhou para ela. — Então vamos juntas. — Podemos. Beatriz virou-se para mim com um sorriso. — Helena, se você quiser, podemos ir juntas também. Você já está indo para a UBS mesmo. Pisquei, um pouco surpresa. — É verdade. Ela continuou sorrindo. — A gente pode almoçar por lá ou tomar um café depois. — Quem sabe? — respondi. — Tenho andado bastante ocupada com o trabalho na UBS, mas talvez dê certo. — Então combinamos mais perto do
O sábado chegou depois de quase três semanas sem vê-lo. Eu poderia dizer que fui até a Fazenda Albuquerque por qualquer outro motivo. Poderia inventar que queria conversar com Clara, mas a verdade era muito mais simples. Eu queria ver Henrique. E, depois de passar quase vinte dias tentando convencer a mim mesma de que aquela distância era exatamente o que eu precisava, finalmente parei de lutar contra a vontade. Cheguei à fazenda no fim da manhã. Clara foi quem abriu a porta e me recebeu com um sorriso enorme. — Helena! Que surpresa maravilhosa. — Oi, Clara. Ela me abraçou com carinho. — Entre. Você sumiu. — Andei trabalhando bastante. — Eu sei. Henrique comentou. Meu coração deu um pequeno salto ao ouvir o nome dele. — Ele está aqui? — Está no escritório. Desde cedo. Disse que precisava terminar algumas coisas. Assenti. Foi então que percebi Beatriz na sala. Ela se levantou assim que me viu. — Helena. — Beatriz. Cumprimentamo-nos com educação. Na
Quando cheguei ao casarão naquela noite, já estava cansada. Depois de sair da UBS, ainda precisei resolver algumas coisas em Cuiabá, entre documentos, pequenas compras e algumas pendências que eu vinha adiando desde que tinha chegado ao Brasil. Só quando entrei na propriedade percebi o quanto estava ansiosa para chegar em casa. Estacionei e respirei fundo antes de descer. Meu celular estava silencioso. Olhei para a tela por impulso. Nenhuma mensagem de Henrique. Senti uma pontada pequena no peito, mas logo tratei de afastá-la. Eu não tinha direito de esperar que ele fizesse aquilo. Naquela manhã, tinha sido bastante clara. Eu mesma havia dito que não queria um relacionamento, que precisava de espaço, que precisava descobrir quem eu era sem estar presa a alguém. Então era natural que ele estivesse me dando exatamente aquilo. Espaço. Mesmo assim, era estranho. Eu estava acostumada com as mensagens dele. Com as provocações, com alguma pergunta boba durante o dia, com aq
Victor ainda estava perto da porta quando voltei a falar. — Eu acho que vou me afastar dela. Ele parou com a mão na maçaneta e olhou para trás. — Como assim? — Não vou desaparecer. Não é isso. Só… vou parar de estar em cima o tempo inteiro. Victor voltou para a cadeira. — Você acha mesmo que isso é uma boa ideia? — Acho que é a mais certa. Ele cruzou os braços. — Henrique, eu conheço minha irmã. Ela vai sofrer se você fizer isso. — Talvez. — Não é “talvez”. Ela gosta de você. Aquilo me fez sorrir de leve, apesar da situação. — Eu sei. — Então por que você quer se afastar? Respirei fundo. — Porque ela precisa descobrir quem é sem estar o tempo inteiro presa a alguém. Victor ficou em silêncio. — Pensa comigo — continuei. — Ela começou a namorar muito nova. Ficou sete anos com o mesmo homem. Terminou e, duas semanas depois, começou a ficar comigo. — Eu sei. — Ela praticamente saiu de uma relação e entrou em outra sem respirar. Passei a mão pelos







