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Capítulo 6

Author: Marcela Lima
last update publish date: 2026-03-07 21:55:00

Na fazenda, parecia que os problemas tinham decidido aparecer todos ao mesmo tempo.

No segundo dia, um dos cavalos do haras apareceu mancando depois de se enroscar na cerca do pasto. Passei boa parte da manhã limpando o ferimento e aplicando a medicação enquanto dois peões seguravam o animal.

No terceiro, uma novilha teve febre alta e precisou ser isolada no curral para observação.

No quarto dia, fui acordada antes mesmo do sol nascer porque um dos bezerros recém-nascidos não queria mamar.

E assim a semana foi passando.

Entre curativos, exames rápidos no meio do pasto, vacinas e orientações para os funcionários, eu mal tive tempo de pensar em qualquer outra coisa.

Victor estava sempre por perto.

Às vezes observando em silêncio.

Outras vezes apenas passando rapidamente para saber como estavam os animais.

Nosso contato era quase sempre breve.

Direto.

Profissional.

Mas, de vez em quando, nossos olhares se cruzavam por um segundo a mais do que deveriam.

E eu lembrava imediatamente do momento na torneira do estábulo.

Do toque.

Do formigamento estranho na minha pele.

Então afastava o pensamento.

Uma semana.

Era só uma semana de teste.

Na manhã do sétimo dia, eu estava terminando de anotar algumas observações sobre uma das vacas no curral quando um dos peões se aproximou.

— Doutora Júlia?

Levantei os olhos.

— O patrão pediu pra senhora ir até o escritório.

Franzi levemente a testa.

— Agora?

— Agora.

Assenti e fechei o caderno.

Caminhei pela propriedade em direção ao casarão principal, sentindo o sol do início da tarde aquecer a pele. A fazenda estava mais tranquila naquele horário, com a maior parte dos peões espalhados pelos pastos.

Subi os poucos degraus da varanda e atravessei o corredor até a porta do escritório.

Bati duas vezes.

— Entra.

A voz grave de Victor veio do outro lado.

Abri a porta.

O escritório era amplo, com uma grande mesa de madeira escura no centro e prateleiras cheias de pastas e documentos nas paredes. A janela aberta deixava entrar a luz do fim da tarde.

Victor estava atrás da mesa.

De pé.

A camisa clara com as mangas dobradas até os antebraços.

Os olhos escuros vieram imediatamente para mim.

— Você pediu pra falar comigo — eu disse.

Ele assentiu devagar.

Por alguns segundos, apenas me observou.

Como se estivesse avaliando alguma coisa.

— Já faz uma semana que você chegou — falou por fim.

— Sim.

— E eu recebi bons relatórios sobre o seu trabalho.

Cruzei os braços levemente.

— Isso é bom.

Um canto da boca dele quase se moveu, como se aquilo tivesse sido quase uma provocação.

Victor caminhou lentamente até a frente da mesa, apoiando as mãos na madeira.

— É.

Silêncio.

Algo no ar parecia diferente agora.

Mais sério.

— Mas eu não te chamei aqui só pra falar do seu trabalho.

Inclinei levemente a cabeça.

— Então por quê?

Victor me observou por mais alguns segundos.

Os olhos escuros pareciam analisar cada reação minha.

Então ele disse, com a mesma voz calma de sempre:

— Porque eu preciso te fazer uma proposta.

Meu estômago se apertou levemente.

— Que tipo de proposta?

Victor respirou fundo.

Como se estivesse escolhendo cuidadosamente as próximas palavras.

Então falou:

— Eu preciso que você se case comigo.

segundo.

Então comecei a rir.

Não foi uma risada discreta. Foi uma gargalhada curta, surpresa, quase incrédula.

Levei a mão à boca, tentando me recompor.

— Desculpa… — falei, ainda rindo um pouco. — Foi boa.

Victor não riu.

Ele não se moveu.

Continuou exatamente na mesma posição, apoiado na mesa, os olhos escuros fixos em mim.

Aos poucos, minha risada foi morrendo.

— Espera… — falei, franzindo a testa. — Você está falando sério?

— Estou.

O tom dele era completamente plano.

Meu sorriso desapareceu.

Piscar duas vezes não fez aquilo parecer menos absurdo.

— Você acabou de me pedir em casamento — falei devagar, como se repetir as palavras pudesse fazer algum sentido surgir. — Uma mulher que você conheceu… o quê… há uma semana?

Victor não respondeu imediatamente.

Ele apenas se endireitou e caminhou até a cadeira atrás da mesa, sentando-se com a calma de alguém que claramente já tinha pensado muito naquela conversa.

— Não é exatamente um casamento — disse por fim. — Seria apenas… fachada. Um casamento por acordo.

Soltei uma pequena risada incrédula.

— Ah, ótimo. Então agora melhorou muito.

Victor ignorou completamente o meu sarcasmo.

Ele abriu uma das gavetas da mesa e puxou uma pasta de documentos. Colocou-a sobre a madeira escura e a empurrou levemente na minha direção, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

— Júlia, olha só.

Abriu a pasta e passou algumas páginas com calma antes de continuar.

— Essas terras pertencem à minha família há décadas. Muito antes de eu nascer.

A voz dele era firme, controlada.

— Só que, no momento, estamos atravessando uma situação financeira… delicada.

Cruzei os braços.

Ele levantou os olhos rapidamente para mim antes de continuar.

— Existe uma herança da família. Um valor considerável. Alguns milhões.

Meu estômago deu um pequeno salto.

Victor apoiou os antebraços na mesa.

— O problema é que eu só posso acessar esse dinheiro quando me casar.

Por um segundo, apenas encarei o rosto dele, tentando entender se aquilo era sério.

— Você está me dizendo que alguém decidiu que o destino financeiro da sua família depende do seu estado civil?

Victor soltou um suspiro curto, claramente já tendo repetido aquela explicação muitas vezes.

— Foi uma cláusula do testamento do meu avô.

Ele passou o dedo por uma das folhas do contrato.

— Para garantir estabilidade, continuidade da família… essas coisas.

— Claro — murmurei. — Porque nada diz estabilidade como um casamento por contrato.

Ele ignorou de novo.

— Eu estou te fazendo essa proposta por um motivo muito simples.

Victor ergueu os olhos e me encarou diretamente.

— Você não é daqui.

Fiquei em silêncio.

— Você não tem raízes na cidade. Não tem ligação com a minha família, nem com ninguém daqui.

Ele fez uma pequena pausa.

— E nós não temos nenhum tipo de envolvimento.

A forma prática com que disse aquilo fez algo estranho apertar no meu peito.

Victor continuou, completamente focado no raciocínio.

— Isso torna as coisas… mais simples.

Soltei uma pequena risada sem humor.

— Sim. Extremamente simples. Casar com um homem que eu conheço há uma semana.

Ele apoiou as costas na cadeira.

— É um acordo temporário.

Deslizou um dos papéis na minha direção.

— Você receberia uma quantia significativa em dinheiro.

Outro documento veio logo atrás.

— Continuaria morando aqui no casarão.

Mais uma pausa.

— E continuaria trabalhando na fazenda, se quiser.

Me inclinei levemente para frente, olhando para os papéis sem tocá-los.

— E depois?

Victor não hesitou.

— Depois cada um segue a própria vida.

Silêncio.

Levantei os olhos para ele.

— Você fala disso como se estivesse contratando alguém para um serviço qualquer.

Victor sustentou meu olhar, impassível.

— De certa forma… estou.

Fiquei alguns segundos em silêncio, tentando processar tudo aquilo.

Então balancei a cabeça devagar.

— Você realmente acha que eu vou aceitar uma coisa dessas?

Victor inclinou levemente a cabeça.

— Ainda não sei.

Os olhos escuros dele permaneceram presos nos meus.

— Mas achei que valia a pena perguntar.

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