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Capítulo 2 — Viola e William

last update Fecha de publicación: 2026-08-13 02:24:24

VIOLA

O vento morno das Bahamas chicoteava meu rosto, mas não tirava a sensação de sufocamento. Eu precisava do meu avô. Nonno sempre foi a razão daquela família, o pilar que mantinha as coisas no lugar. Ele tinha que ter um plano, uma brecha, qualquer saída que não me entregasse às feras.

Enxuguei as lágrimas com as costas da mão e mudei de direção, caminhando a passos largos em direção ao salão principal.

Eu ia engolir o pavor. Se esse era o preço para manter meu pai vivo, eu pagaria. Mas não seria como uma vítima passiva.

Cruzando o arco de pedra que dava acesso à sala de estar central, meus passos travaram. O ar congelou no meu peito.

Eles já estavam lá.

Não era só o meu avô. A sala inteira estava tomada por homens em ternos sob medida, exalando uma aura pesada de poder e ameaça. A conversa baixa cessou no segundo em que pisquei na entrada. Vários pares de olhos se voltaram para mim.

No centro do ambiente, um homem de cabelos grisalhos e postura impecável deu um passo à frente. Cameron Cunningham.

— Viola. — O patriarca abriu um sorriso polido, medindo cada centímetro do meu corpo, do meu rosto corado ao tremor imperceptível das minhas mãos. — Finalmente. Estávamos ansiosos para conhecer a noiva.

Engoli o seco. A firmeza na minha espinha quase ruiu sob aquele olhar clínico.

— Senhor Cunningham.

— Por favor, sem formalidades. Logo seremos uma só família. — Cameron fez um gesto leve com a mão, indicando os homens ao seu redor. — Estes são meus filhos. Bryce, Raiden... e William.

A gravidade da sala inteira pareceu se deslocar para o homem encostado perto do bar de mármore.

William.

Ele segurava um copo de uísque, a camisa preta sob o paletó perfeitamente ajustada aos ombros largos. Traços afiados, maxilar trincado, olhos de um preto tão escuro e gélido que pareciam perfurar minha pele. Nossos olhares se cruzaram no ar.

Nenhum resquício de fascínio. Nenhum sorriso falso. Apenas uma aversão crua e velada. Ele me encarava como quem olha para um problema que precisava ser resolvido com urgência. 

— William insistiu em vir hoje — Cameron continuou, a voz aveludada mascarando o ambiente tenso. — Ele não via a hora de colocar os olhos na futura esposa.

O patriarca se aproximou com passos calmos e abriu os braços, puxando-me para um abraço paternal. O cheiro de colônia cara e fumo me envolveu. Mas, quando seus braços me apertaram, os lábios dele encostaram bem próximos ao meu ouvido.

— Não decepcione a nossa família — o sussurro veio baixo, afiado como uma navalha. — O sobrenome Cunningham não tolera erros.

Um arrepio macabro desceu pela minha coluna.

Ele se afastou, mantendo o mesmo sorriso caloroso de fachada, dando dois tapinhas no meu ombro antes de se voltar para os outros. A simpatia daquele homem era uma armadilha mortal. Uma máscara perfeita para cobrir um monstro.

— Querida? — O nonno se aproximou, a testa franzida de preocupação ao me notar rígida como uma estátua. — Como foi a conversa com o seu pai?

Tirei os olhos de William, que ainda me observava por cima da borda do copo, e encarei meu avô.

— Uma delícia, nonno. Descobri que fui vendida antes mesmo de desembarcar.

O silêncio caiu como uma bomba na sala. Cameron ergueu uma sobrancelha, entretido. O maxilar de William travou ainda mais.

— Se me dão licença — apertei as mãos em punho para esconder o tremor —, a viagem foi longa e preciso me trocar.

Não esperei resposta. Girei e caminhei a passos firmes pelo corredor, sentindo a queimação do olhar de William cravado nas minhas costas até eu dobrar a esquina rumo aos quartos.

***

WILLIAN

O calor das Bahamas queimava no peito, mas a imagem da garota na espreguiçadeira perto da água bloqueava qualquer outra coisa.

Mesmo de longe, os cabelos castanhos ondulados caindo pelos ombros e a pele negra reluzindo sob o sol estragavam todos os meus planos de manter isso num nível puramente burocrático. A foto que o velho me entregou não chegava perto. Pessoalmente, Viola era um soco no estômago.

Pelo menos o sacrifício não seria um martírio completo. Se eu tinha que me acorrentar a uma mulher por conta daquela palhaçada, não precisaria fingir o tesão.

O problema era o resto. O acordo cheirava a mofo. Virgilio Vaccaro estava encurralado, sangrando por todos os lados. A gente podia atropelar o império dele e tomar tudo até o fim de semana. Por que diabos o velho queria uma aliança de sangue em vez de uma execução limpa?

— Vai babar no terno, irmão.

Bryce apareceu do nada, estendendo um copo com gelo e rum. Nem mudei o foco do olhar.

— Me erra, Bryce.

— O quê? Só estou admirando o homem de negócios. — Ele deu um gole, rindo fraco. — O velho deu um mês pra vocês subirem ao altar e você já tá marcando território com os olhos.

— Atração física não significa que eu engoli essa palhaçada. — Peguei o copo da mão dele, o vidro suando frio contra meus dedos. — É só carne. Nada mais.

— Sei. O pai quer esse casamento rápido por um motivo. E não duvido que o próximo passo seja cobrar um herdeiro na mesa do jantar antes do fim do ano.

O gelo estalou no meu copo sob a pressão dos meus dedos.

— Nem fodendo. Nem sei se aquela garota vai durar uma semana sem tentar me esfaquear, quanto mais bancar a mãe dos meus filhos. Não tem família de verdade aqui, Bryce. É um contrato.

— Cuidado. O último que falou isso acabou apaixonado e colecionando chifre ou trauma.

— Paixão? — Soltei um riso seco, sem nenhum pingo de humor. — Eu não tenho tempo pra brincar de casinha. Muito menos pra essa besteira de amor. Amor é fraqueza, e fraqueza mata.

A conversa morreu quando um vulto cortou a areia branca.

Raiden caminhava de peito aberto, os óculos escuros na cabeça, indo direto para a espreguiçadeira onde Viola tentava ler um livro. A postura dele exalava a arrogância de quem achava que o mundo era um parquinho particular.

O uísque na minha mão quase transbordou.

Ela ainda não era minha esposa. O papel nem tinha sido assinado. Era só a porra de uma obrigação comercial. Mas ver a mão do meu irmão apoiar no encosto da cadeira dela fez o meu sangue ferver instantaneamente. 

Se aquele desgraçado desse mais um passo ou encostasse um único dedo na pele dela, eu não me importaria com o contrato do velho. Eu arrancaria a mão dele fora ali mesmo, na frente de todo mundo.

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