LOGINVIOLA
O vento morno das Bahamas chicoteava meu rosto, mas não tirava a sensação de sufocamento. Eu precisava do meu avô. Nonno sempre foi a razão daquela família, o pilar que mantinha as coisas no lugar. Ele tinha que ter um plano, uma brecha, qualquer saída que não me entregasse às feras.
Enxuguei as lágrimas com as costas da mão e mudei de direção, caminhando a passos largos em direção ao salão principal.
Eu ia engolir o pavor. Se esse era o preço para manter meu pai vivo, eu pagaria. Mas não seria como uma vítima passiva.
Cruzando o arco de pedra que dava acesso à sala de estar central, meus passos travaram. O ar congelou no meu peito.
Eles já estavam lá.
Não era só o meu avô. A sala inteira estava tomada por homens em ternos sob medida, exalando uma aura pesada de poder e ameaça. A conversa baixa cessou no segundo em que pisquei na entrada. Vários pares de olhos se voltaram para mim.
No centro do ambiente, um homem de cabelos grisalhos e postura impecável deu um passo à frente. Cameron Cunningham.
— Viola. — O patriarca abriu um sorriso polido, medindo cada centímetro do meu corpo, do meu rosto corado ao tremor imperceptível das minhas mãos. — Finalmente. Estávamos ansiosos para conhecer a noiva.
Engoli o seco. A firmeza na minha espinha quase ruiu sob aquele olhar clínico.
— Senhor Cunningham.
— Por favor, sem formalidades. Logo seremos uma só família. — Cameron fez um gesto leve com a mão, indicando os homens ao seu redor. — Estes são meus filhos. Bryce, Raiden... e William.
A gravidade da sala inteira pareceu se deslocar para o homem encostado perto do bar de mármore.
William.
Ele segurava um copo de uísque, a camisa preta sob o paletó perfeitamente ajustada aos ombros largos. Traços afiados, maxilar trincado, olhos de um preto tão escuro e gélido que pareciam perfurar minha pele. Nossos olhares se cruzaram no ar.
Nenhum resquício de fascínio. Nenhum sorriso falso. Apenas uma aversão crua e velada. Ele me encarava como quem olha para um problema que precisava ser resolvido com urgência.
— William insistiu em vir hoje — Cameron continuou, a voz aveludada mascarando o ambiente tenso. — Ele não via a hora de colocar os olhos na futura esposa.
O patriarca se aproximou com passos calmos e abriu os braços, puxando-me para um abraço paternal. O cheiro de colônia cara e fumo me envolveu. Mas, quando seus braços me apertaram, os lábios dele encostaram bem próximos ao meu ouvido.
— Não decepcione a nossa família — o sussurro veio baixo, afiado como uma navalha. — O sobrenome Cunningham não tolera erros.
Um arrepio macabro desceu pela minha coluna.
Ele se afastou, mantendo o mesmo sorriso caloroso de fachada, dando dois tapinhas no meu ombro antes de se voltar para os outros. A simpatia daquele homem era uma armadilha mortal. Uma máscara perfeita para cobrir um monstro.
— Querida? — O nonno se aproximou, a testa franzida de preocupação ao me notar rígida como uma estátua. — Como foi a conversa com o seu pai?
Tirei os olhos de William, que ainda me observava por cima da borda do copo, e encarei meu avô.
— Uma delícia, nonno. Descobri que fui vendida antes mesmo de desembarcar.
O silêncio caiu como uma bomba na sala. Cameron ergueu uma sobrancelha, entretido. O maxilar de William travou ainda mais.
— Se me dão licença — apertei as mãos em punho para esconder o tremor —, a viagem foi longa e preciso me trocar.
Não esperei resposta. Girei e caminhei a passos firmes pelo corredor, sentindo a queimação do olhar de William cravado nas minhas costas até eu dobrar a esquina rumo aos quartos.
***
WILLIAN
O calor das Bahamas queimava no peito, mas a imagem da garota na espreguiçadeira perto da água bloqueava qualquer outra coisa.
Mesmo de longe, os cabelos castanhos ondulados caindo pelos ombros e a pele negra reluzindo sob o sol estragavam todos os meus planos de manter isso num nível puramente burocrático. A foto que o velho me entregou não chegava perto. Pessoalmente, Viola era um soco no estômago.
Pelo menos o sacrifício não seria um martírio completo. Se eu tinha que me acorrentar a uma mulher por conta daquela palhaçada, não precisaria fingir o tesão.
O problema era o resto. O acordo cheirava a mofo. Virgilio Vaccaro estava encurralado, sangrando por todos os lados. A gente podia atropelar o império dele e tomar tudo até o fim de semana. Por que diabos o velho queria uma aliança de sangue em vez de uma execução limpa?
— Vai babar no terno, irmão.
Bryce apareceu do nada, estendendo um copo com gelo e rum. Nem mudei o foco do olhar.
— Me erra, Bryce.
— O quê? Só estou admirando o homem de negócios. — Ele deu um gole, rindo fraco. — O velho deu um mês pra vocês subirem ao altar e você já tá marcando território com os olhos.
— Atração física não significa que eu engoli essa palhaçada. — Peguei o copo da mão dele, o vidro suando frio contra meus dedos. — É só carne. Nada mais.
— Sei. O pai quer esse casamento rápido por um motivo. E não duvido que o próximo passo seja cobrar um herdeiro na mesa do jantar antes do fim do ano.
O gelo estalou no meu copo sob a pressão dos meus dedos.
— Nem fodendo. Nem sei se aquela garota vai durar uma semana sem tentar me esfaquear, quanto mais bancar a mãe dos meus filhos. Não tem família de verdade aqui, Bryce. É um contrato.
— Cuidado. O último que falou isso acabou apaixonado e colecionando chifre ou trauma.
— Paixão? — Soltei um riso seco, sem nenhum pingo de humor. — Eu não tenho tempo pra brincar de casinha. Muito menos pra essa besteira de amor. Amor é fraqueza, e fraqueza mata.
A conversa morreu quando um vulto cortou a areia branca.
Raiden caminhava de peito aberto, os óculos escuros na cabeça, indo direto para a espreguiçadeira onde Viola tentava ler um livro. A postura dele exalava a arrogância de quem achava que o mundo era um parquinho particular.
O uísque na minha mão quase transbordou.
Ela ainda não era minha esposa. O papel nem tinha sido assinado. Era só a porra de uma obrigação comercial. Mas ver a mão do meu irmão apoiar no encosto da cadeira dela fez o meu sangue ferver instantaneamente.
Se aquele desgraçado desse mais um passo ou encostasse um único dedo na pele dela, eu não me importaria com o contrato do velho. Eu arrancaria a mão dele fora ali mesmo, na frente de todo mundo.
Cesario não deu tempo para o choque assentar. Girou sobre os calcanhares no centro da brita, os olhos cravados nos seguranças da entrada.— Desarmem todo mundo. Ninguém fica com ferro na cintura além dos meus homens. Peguem os registros das guaritas, as gravações das câmeras e o histórico de ligações da antena local das últimas quatro horas. Quem pisou nesta terra hoje vai ter o nome checado na lista.Um dos veteranos deu um passo à frente, as mãos abertas num protesto trêmulo, buscando o olhar de Ruggero.— Ruggero, você vai deixar esse garoto confiscar as nossas armas? Viemos como convidados de honra!Ruggero nem piscou. O maxilar gélido mal se moveu sob a barba gasta.— O Don deu uma ordem. Precisa que eu repita?O homem engoliu em seco. Baixou a cabeça e puxou a pistola do coldre sob o paletó, entregando a arma ao primeiro guarda sem dizer mais uma palavra.Observei o jogo de sombras. Cesario tinha o sangue, o título e a audácia de cuspir na cara do patriarca, mas a cúpula ainda e
Cesario e Ruggero alcançaram os dois em passadas rápidas.— Tomou algum tiro? — Cesario agarrou o queixo da irmã com a mão esquerda, virando o rosto dela em busca de ferimentos. — Responde, Angela. Onde você foi atingida?— Eu estou bem! — Sacudiu o braço dele, desvencilhando-se no ódio. Cravou as pupilas verdes em Cesario, as lágrimas abrindo trilhas claras na fuligem da pele. — Salva ele, Cesario! Pelo amor de Deus, manda os médicos arrancarem o Matteo de lá! Ele se jogou na minha frente... O ferro atravessou a barriga dele pra aquele velho nojento não me arrastar!Cesario enrijeceu. A postura dele perdeu qualquer resquício de hesitação, os ombros subindo numa linha dura.— Foi o Moretti?— Ele tentou me enfiar numa caminhonete na marra! — Angela puxou o ar aos soluços, o peito convulsionando. — Disse que eu ia embora com ele por bem ou em coma, que o contrato já estava fechado! O Matteo viu e quebrou o segurança no meio, mas o outro empalou ele na cerca! Eu atirei... Atirei até o t
— Estamos em varredura, garota — Liam tentou acalmá-la ao fundo. — O Bertoldo deve estar na cobertura dele.Apertei a lateral da têmpora, o cérebro girando em marcha acelerada. A conta não fechava.Moretti traiu a cúpula dos Vaccaro para forçar um casamento e tentou eliminar Cesario para não ter oposição na sucessão. Isso explicava o sangue entre eles. Mas não explicava o chumbo na minha direção.Sandro pulou na minha frente, dizendo com todas as letras que a mira estava na minha testa. Os atiradores que cruzaram o caminho de Viola olharam na cara dela e ignoraram a neta de Ruggero para caçar o Don de Las Vegas.Aqueles mercenários não estavam a serviço da obsessão de um velho italiano por uma garota.Eles vieram terminar o trabalho de Nevada.— Dá para confiar no Conti, William? — o rádio sibilou no meu ouvido. — O cara brotou do nada.Ajustei o aparelho contra a gola, o olho cravado na janela.— Não confio em uma vírgula que sai da boca dele. Mas dois atacantes com a mesma tatuagem
Virei o pescoço devagar.— Por que diz isso?— Só um palpite — ele deu de ombros, as pupilas claras vazias de deboche. — Muito barulho, muito erro de perímetro e tiro disperso demais para gente daquele calibre.Tiziano soltou um bufo ríspido pelo nariz.— Não é fácil furar a cerca do Ruggero Vaccaro. Os piores inimigos da nossa família precisariam de um batalhão inteiro pra cruzar aquela linha sem disparar o primeiro alarme.Dei meio passo à frente, estreitando as pálpebras na direção dele.— Está dizendo que o ataque veio de dentro?— Um dos maiores patrocinadores acabou de aparecer estirado no mato — Tiziano sustentou meu olhar sem pestanejar. — Não precisa ser gênio para farejar traição no próprio quintal.— Cala essa boca, Tiziano! — Luca avançou um passo, apontando o dedo na cara do primo. — Se quiser continuar com a língua dentro da boca na frente do Ruggero, segura essa merda!Sandro ergueu uma sobrancelha, o deboche voltando aos poucos.— O que foi que o defunto fez para merec
Franzi o cenho, o ar congelando na minha garganta.— Eles viram você e não atiraram?— Nada. Simplesmente correram na direção do vinhedo onde você estava.Um arrepio frio subiu pela minha espinha. Aquele ataque não tinha nada a ver com guerra de clãs locais ou sequestro de herdeiros Vaccaro.— Onde está o seu avô?— Trancado na sala do fundo com a segurança — ela limpou o rosto com as costas da mão, a voz ainda embargada. — Ele mandou fechar tudo.Puxei o queixo dela para cima, colando meus lábios na testa dela por dois segundos:— Me leva até ele.Viola assentiu, segurando a minha mão com força enquanto me guiava pela galeria estreita até a última porta de madeira. Eu ia esticar o braço para girar a maçaneta de bronze, mas a tranca estalou por dentro antes que os meus dedos tocassem o metal.A porta abriu num puxão rápido.Ruggero deu um passo para o corredor, apoiando a bengala com força contra o chão. O terno escuro estava impecável, sem uma gota de poeira do tiroteio.O velho patr
Outro zunido rasgou o ar a vinte centímetros do meu ombro, estourando a terra úmida contra o meu pescoço.Sandro ergueu a pistola com as duas mãos, apoiou os cotovelos no chão e puxou o gatilho duas vezes. O estalo seco da nove milímetros perfurou os meus tímpanos. Um corpo despencou das copas baixas com um baque surdo, quebrando gravetos secos na queda.Fiquei de pé num tranco. A carne da coxa gritou sob o tecido, o músculo repuxando como se os pontos fossem arrebentar de vez. Engoli a bile.— De onde saiu essa arma?— Dei de cara com um deles contornando a vala — Sandro rolou de joelhos, cuspindo terra. — Dei uma coronhada com o marcador falso, quebrei o pescoço do infeliz e peguei o ferro dele. Pura sorte.Dei dois passos mancados na direção do atirador abatido para arrancar o fuzil das mãos dele, mas os dedos de Sandro cravaram no meu colarinho, me puxando para trás com violência.— Não perde tempo, caralho! Quer virar peneira de graça? A vala de drenagem está coberta. Move essa b







