INICIAR SESIÓNO sol queimava meus ombros, mas as linhas do livro diante dos meus olhos eram só borrões. Eu só queria sumir. Esquecer a voz envenenada de Cameron, o silêncio covarde do meu pai e a tempestade contida naqueles olhos pretos do homem que queria se impor como meu dono.
Uma sombra cobriu a página.
— Leitura pesada pra quem devia estar aproveitando as férias, cunhadinha.
Puxei os óculos de sol para a ponta do nariz. Raiden estava parado ali, sorrindo com uma facilidade irritante, as mãos nos bolsos do calção. Ele puxou a espreguiçadeira ao lado sem pedir licença.
Ajeitei o corpo, fechando o livro com um baque seco.
— Não me lembro de ter te convidado para sentar.
Ele riu, jogando a cabeça para trás.
— Meu pai passou os últimos três dias martelando seu nome na cabeça do William. Tiveram que arrastar meu irmão pra cá. Ele não queria essa porra mais do que você.
A informação atingiu meu peito com o peso de uma âncora. Então ele também tinha sido pego de surpresa. A imagem daquele homem frio e imponente ser dobrado pela vontade do pai acendeu uma centelha idiota de esperança no meu estômago.
— Se ele não quer, por que não recusa? — Encarei Raiden, a voz afiada. — Vocês não são os donos do mundo? É só ele dizer não. Cancela essa idiotice.
Ele deu de ombros, pegando um punhado de areia e deixando escorrer entre os dedos.
— É assim que as coisas funcionam por aqui, Viola. Casamentos unem impérios. O William esperneou, mas, no fim das contas... o velho manda, a gente obedece.
A naturalidade com que ele falava de rifar a própria vida me deu náuseas.
— Ele é um monstro — soltei, o desprezo escapando antes que eu pudesse frear.
— O William parece pior do que é. — Raiden se inclinou na minha direção, o tom baixando um grau. — Mas relaxa. Ele é do tipo que ignora o que não interessa. Você vai ter sua vida, ele vai ter a dele.
— Que consolo incrível.
— Aliás... — Ele olhou por cima do meu ombro, em direção à varanda principal do resort, e um sorriso de canto cruzou seu rosto. — Falando no diabo. Ele tá quase furando a sua cabeça com os olhos.
Meu pescoço travou. Não tive coragem de virar. Uma pressão esmagadora se acumulou na minha nuca, como se a presença de William estivesse tocando minha pele, mesmo a cinquenta metros de distância.
— Ele é territorial — Raiden murmurou, me encarando com uma mistura de divertimento e aviso. — Pra todos os efeitos, Viola... agora você pertence a ele. E meu irmão não divide brinquedos.
Pertencer. A palavra estalou na minha cabeça como um chicote.
Não existia divórcio nesse meio. Não existia fuga. Não existia "não". O peso da gaiola acabou de trancar a última trava no meu pescoço. Eu estava presa a um homem que me queria tanto quanto eu o odiava, disfarçada de noiva perfeita para salvar a pele do meu pai.
A raiva borbulhou, quente e corrosiva, engolindo o pavor.
Levantei num impulso, recolhendo a canga e o livro da cadeira. O movimento repentino fez Raiden erguer as sobrancelhas.
— Chega. Não tenho paciência pra esse circo.
Girei o corpo para dar o primeiro passo em direção à casa, a areia quente queimando a sola dos meus pés.
— Ei, Viola.
Parei, sem me virar.
— Bem-vinda à família.
A risada debochada dele me seguiu enquanto eu caminhava passos largos até a varanda, o coração espancando minhas costelas e a certeza absoluta de que eu estava pisando diretamente no inferno.
O barulho dos talheres batendo no mármore da cozinha martelava nas minhas têmporas. O cheiro de ervas e alho dominava o ar, mas meu estômago estava completamente embrulhado.
Passei a travessa de assado para o nonno, que me ofereceu um sorriso triste, tentando em vão disfarçar as mãos trêmulas. Do outro lado da ilha de granito, pela porta de vidro entreaberta da sala de jantar, eu conseguia ver o meu pai e Cameron. Os dois riam. Um brinde de uísque selava alguma piada estúpida, como se a destruição da minha vida fosse só um detalhe num contrato comercial bem-sucedido.
A bile subiu pela garganta.
Quando nos acomodamos à mesa principal, a atmosfera pesada parecia sufocar o cômodo. As luzes amareladas do candelabro de cristal lançavam sombras longas sobre as faces sérias dos homens da família.
Passos firmes ecoaram no piso de madeira. Os irmãos Cunningham entraram por último.
Raiden veio direto na minha direção, um sorriso petulante cravado no rosto. Antes que eu pudesse reagir ou me afastar, ele se inclinou sobre o meu ombro. Os lábios dele roçaram minha bochecha num beijo estalado, o hálito quente queimando minha pele.
— Você está deslumbrante esta noite, cunhadinha. O sol das Bahamas fez milagres.
A cadeira ao lado ruiu contra o chão.
— Tira a porra da mão dela, Raiden.
A voz de William veio baixa, rouca, carregada de uma violência contida que congelou o ar da sala. Ele estava de pé do outro lado da mesa, os olhos pretos cravados no irmão como duas lâminas. O maxilar dele trabalhava duro, a camisa preta marcada pela tensão dos ombros.
— Ela é sua noiva, não um anjo intocável — Raiden desdenhou, mas deu um passo para trás, erguendo as mãos em rendição antes de se sentar. — Calma, cara.
— Respeite a esposa do seu irmão — Cameron rosnou, puxando a própria cadeira sem tirar os olhos de mim por um segundo sequer.
O silêncio que se seguiu pesou como uma tumba. Meu peito subia e descia descontrolado. Aquele falso instinto de proteção não me enganava; era só a marcação de território de um predador.
Levantei num impulso.
— Licença.
Caminhei até a cozinha a passos largos, me apoiando na pia de inox. Abri a torneira e joguei água gelada no rosto. A pele queimava. A humilhação de ser tratada como uma propriedade disputada por dois cachorros grandes me fazia querer quebrar tudo ao meu redor. Secando as mãos no pano de prato, me forcei a encarar o espelho do armário. Olhos castanhos brilhando de raiva. Eu não ia ser uma marionete calada.
Voltei para o salão com a cabeça erguida e me sentei de volta.
— Quando vai ser o casamento? — A pergunta saiu seca, cortando a conversa paralela do meu pai com Cameron.
Meu pai travou com o garfo no ar.
— Viola, não é o momento—
— Eu preciso saber — interrompi, encarando meu pai sem piscar. — Já que fui vendida, preciso de uma data para me preparar. Ou vocês acham que é fácil fingir felicidade e sorrir para as fotos enquanto entrego minha vida?
— Corajosa — Raiden murmurou, soltando um riso abafado. — Cuidado, cunhada. O William nem coração tem pra você tentar amolecer.
— Cala a boca, Raiden — Bryce cortou, ajeitando o guardanapo no colo antes de encarar o irmão mais novo. — Mas ela tem razão. Vocês dois vão ter que aprender a fingir muito bem. Se a imprensa ou as outras famílias desconfiarem de que isso é um acordo forçado, o contrato não vale o papel em que foi impresso.
— Eles vão cumprir os papéis perfeitamente — a voz de Cameron ressoou, fria e dominante. O patriarca pousou a taça de vinho na mesa. — William sabe exatamente o que está em jogo. E a Viola também.
Os olhos de Cameron se cravaram nos meus, o recado velado da praia ainda fresco na minha memória.
— A cerimônia não vai ser em Nova York nem em Veneza — Cameron continuou, abrindo um sorriso calmo que me deu calafrios. — Vai ser aqui mesmo. Na capela da ilha. Em oito dias.
O garfo escapou dos meus dedos, colidindo contra o prato de porcelana com um estalo estridente.
O mundo girou devagar.
— Oito dias? — Minha voz não passou de um sussurro esganado.
— Tempo mais do que suficiente para os preparativos — meu pai completou, sem coragem de me encarar de frente.
Pouco mais de uma semana. Oito dias para ver minha liberdade evaporar antes de ser acorrentada a um homem que mal olhava na minha cara sem querer me esmagar.
Empurrei o prato praticamente intocado. A comida tinha gosto de cinzas. Passei o resto do jantar de cabeça baixa, o silêncio me engolindo enquanto a presença de William do outro lado da mesa queimava minha pele. Eu sentia o olhar dele. Frio, denso, calculista. Ele me observava como se estivesse contando os minutos para a gaiola fechar de vez.
Assim que o meu pai pousou o guardanapo sobre a mesa, indicando o fim da refeição, levantei-me e, sem dizer uma única palavra, rumei para o corredor deserto antes que as lágrimas de ódio e pânico que queimavam meus olhos finalmente transbordassem.
— O Cameron Cunningham teve alguma coisa a ver com o assassinato da minha mãe?Virgílio recuou meio centímetro, tropeçando no próprio pé. Os lábios tremeram, desprovidos de cor, o terror evidente estampado na testa suada.O chão sob os meus pés simplesmente desapareceu. Minha visão embaçou por um segundo.— Ela... então ela foi assassinada? — a pergunta escapou num fio de voz rouco e estraçalhado.— Cala essa boca! — ele deu um passo para a frente, gesticulando no ar, a voz saindo aos solavancos. — Esse assunto está enterrado! Tudo o que foi feito ou escondido foi para te proteger!— Me proteger? — o grito rasgou a minha garganta, a revolta queimando como ácido. — Você passou vinte e um anos fingindo que me protegia do passado dos Cunningham para no final me vender em um contrato de casamento para a mesma família que destruiu a minha mãe?— Para de agir como uma pirralha mimada! — ele avançou mais, o rosto a poucos centímetros do meu, cuspindo as palavras. — Não tenho tempo para os se
William afastava a cadeira de veludo da mesinha encostada na janela. Uma bandeja de prata ocupava quase todo o espaço, transbordando com frutas cortadas, pães artesanais, ovos, sucos e uma jarra de café fumegante.O grande Don de Las Vegas, de calça social preta e camisa desabotoada no peito, servindo o café da manhã.— Eu não sabia o que você gostava de comer de manhã. — Os olhos me varreram dos pés à cabeça, parando um segundo a mais no meu pescoço antes de voltar para as xícaras. — Então mandei fazer um pouco de tudo.Cruzei os braços, tentando manter a postura defensiva enquanto meu estômago dava um salto traiçoeiro.— É fisicamente impossível eu comer tudo isso sozinha.— Posso te ajudar com essa parte.Um calor esquisito subiu pelo meu peito. Mordi a parte interna da bochecha, travando os lábios com força para impedir que o sorriso aliviado escapasse. Ele não tinha levantado daquela cama e voltado a ser a muralha de gelo intocável. Não tratou a noite passada como uma transação c
WILLIAMGirei o registro da água quente. O vapor espesso começou a embaçar o espelho e os azulejos escuros no mesmo segundo em que minhas mãos desceram pelo zíper do vestido terracota. O tecido deslizou pelo corpo dela, caindo aos seus pés num sussurro de seda. Arranquei paletó, camisa e calça sem desviar os olhos das curvas da minha mulher.A pele negra brilhava sob a penumbra úmida. O calor represado desde as praias das Bahamas colidiu como dinamite no centro do meu peito.Puxei Viola para debaixo da ducha. A água quente escorreu pelos nossos ombros, colando os cabelos castanhos às costas dela enquanto minhas palmas mapeavam a linha da sua cintura, subindo pelas costelas até a base dos seios firmes.Não era apenas tesão cru. Era uma possessividade doentia, uma necessidade visceral de gravar a minha presença em cada centímetro daquela carne indomável.Viola arqueou as costas contra o meu peito molhado, a respiração arfante, mas a língua continuava afiada:— Vai ficar só me encarando
A porta blindada do sedã bateu, isolando as luzes frenéticas da Strip.O carro arrancou suave pelo asfalto. Viola não se afastou para o canto do vidro; permaneceu encostada em mim, o calor da pele dela queimando através do tecido do meu terno. Estendi a mão e envolvi os dedos dela, passando o polegar com calma pela pele negra macia do dorso.Ela não recuou. Deixou a mão repousar na minha, os dedos relaxando aos poucos.A pergunta dela ainda ardia no fundo do meu crânio: você me soltaria?Se ela pensava em fuga, se via a nossa união como uma sentença de morte inevitável, era porque aquela mansão ainda não passava de uma cela dourada. E eu era o carcereiro.Exigi que ela vestisse a armadura dos Cunningham, exigi postura de senhora da máfia, quando a porra do nosso casamento sequer havia sido consumada. Eu não perdi nada ao assinar aquele papel; ela perdeu a própria casa em Veneza, a rotina, a família, o trabalho e a liberdade num estalar de dedos.O peso suave da cabeça de Viola cedeu c
O rosto de Viola se desfez.A dor crua que cruzou os olhos castanhos dela cortou o meu peito ao meio: o homem que ela foi forçada a odiar guardava as memórias vivas do toque de uma mãe que ela nunca teve o privilégio de conhecer.Viola puxou o celular da bolsa com mãos trêmulas, desbloqueou a tela e deslizou o aparelho pelo tampo até parar diante de mim.A fotografia digitalizada saltou sob a luz da vela. Duas mulheres jovens sorrindo com os braços entrelaçados.Ergui os olhos, surpreso.— Onde você achou isso?— Caiu de dentro de um dos seus livros no quarto — ela não vacilou, sustentando o olhar. — É a sua mãe, não é? Ao lado da minha?— Sim — a voz saiu quase inaudível, o peso do luto antigo arranhando a garganta. — É a única foto que sobrou da minha mãe biológica.Passei o polegar pela borda do visor, encarando aquele rosto que quase esqueci.— Eu também não tenho as respostas todas, Viola. A história de Freya é cheia de buracos que o Cameron fez questão de queimar.Viola recolheu
— E o que mais você comanda, além deste restaurante e das mesas de jogo lá embaixo? Fale dos negócios que não envolvem armas e sangue.— Hotéis na costa oeste, três redes de cassinos, investimentos imobiliários e metade da logística portuária do estado — inclinei o corpo para a frente, o tom descendo num sussurro rouco e poderoso. — Sou um homem muito poderoso, Viola. Se você quiser qualquer coisa nesta cidade, basta pedir que eu coloco nas suas mãos.Ela apoiou o queixo na palma da mão, um brilho travesso cruzando os olhos.— Qualquer coisa? Então vire o presidente do país.Parei. Encarei o teto por dois segundos, fingindo calcular rotas de campanha e desvios de verba com uma seriedade calculada.O sorriso dela sumiu, o pânico tomando conta dos olhos castanhos:— William... era brincadeira! Não faça nenhuma loucura criminosa para derrubar o governo!Não aguentei. O riso baixo vibrou no meu peito enquanto eu a encarava:— Não precisa de tanto pânico. O atual presidente já faz burradas







