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Casada com o Demônio da Mafia
Casada com o Demônio da Mafia
Author: Pann Ludovica

Capítulo 1 — Viola

Author: Pann Ludovica
last update publish date: 2026-08-13 02:23:50

O mormaço das Bahamas grudava a seda da minha blusa nas costas, mas o frio que me atingiu ao cruzar o saguão principal do resort não tinha nada a ver com o ar-condicionado. Anos trancafiada em Veneza me ensinaram a ler o silêncio. E o silêncio daquela casa cheirava a pólvora.

Passei pelas malas intocadas no hall, nenhuma recepção do meu avô, nenhum abraço do meu pai.

A porta de carvalho maciço do escritório, no fim do corredor, estava trancada. Duas batidas. O som da fechadura destravando cortou o ar pesado.

Ele abriu. O cheiro de uísque barato e charuto apagado me acertou em cheio. As sombras sob os olhos do meu pai contavam as horas que ele não dormia. A pele cinzenta, a gravata frouxa, os ombros antes imponentes agora curvados sob um peso invisível.

O sorriso de reencontro que eu ensaiei por toda a viagem morreu nos meus lábios.

O rosto dele endureceu no segundo em que me viu. Nenhuma emoção. Nenhum traço do homem que me mandava presentes luxuosos e cartas semanais. O ar ao meu redor congelou.

— Entre.

O tom seco fez meu estômago despencar.

Pisei no tapete persa. A porta bateu atrás de mim, o clique metálico soando como a tranca de uma cela.

— Sente-se, Viola. Precisamos conversar.

Meus dedos apertaram a alça da bolsa de couro até as articulações latejarem. A poltrona escura parecia engolir meu corpo. Ele permaneceu de pé, de costas para a janela imensa que exibia o mar do Caribe azul-turquesa. Um contraste doentio com a escuridão daquele escritório.

— Aconteceu alguma coisa com o vovô?

Ele virou de frente. Serviu dois dedos de puro malte no copo de cristal; o gelo estalou.

— Seu avô está bem. Nosso futuro, não.

A respiração prendeu nos meus pulmões.

— Fechei um acordo ontem à noite. Com o chefe de outra organização.

As palavras flutuaram no ar, venenosas. Meu peito contraiu. Quando homens da posição do meu pai usam as palavras "acordo" e "organização" na mesma frase, o preço nunca é pago em dinheiro. É pago com sangue. Ou algo pior.

Ele engoliu o uísque de uma vez. O copo bateu com força na mesa de mogno.

— Eu também tive um casamento arranjado, Viola. Sua mãe não olhou no meu rosto no dia do nosso noivado. Nosso início foi um inferno na terra.

A bile subiu pela minha garganta, o gosto amargo e ácido do pânico puro. Empurrei a poltrona para trás; a madeira rangeu agressivamente contra o chão de mármore.

— Não. Nem se atreva a terminar essa frase.

Os olhos dele cravaram nos meus. Frios. Inflexíveis.

— Não estou pedindo a porra de uma resposta agora. Sente-se nessa cadeira e ouça a proposta inteira.

A grosseria rasgou o que restava da minha ilusão de férias perfeitas. Minhas pernas cederam. Caí de volta no estofado, o coração socando as costelas, querendo fugir do meu próprio corpo.

Ele apoiou as duas mãos na mesa, inclinando-se na minha direção. A sombra do império dele esmagando meus pulmões.

— Esse acordo fortalece as duas famílias. Blinda nossas operações e garante que você continue respirando amanhã. — Ele ajeitou a postura, o carrasco ajustando a corda no pescoço da vítima. — O acordo exige o seu casamento. E o noivo escolhido é William Cunningham.

O nome reverberou nas minhas têmporas como o impacto de um tiro. A dor aguda das minhas unhas cravadas na palma da mão foi a única coisa que me impediu de desmaiar.

Não era uma proposta. A postura rígida do meu pai, a falta de hesitação no seu olhar... a sentença já tinha sido dada antes mesmo do meu avião pousar em Nassau.

Os Cunningham não eram executivos comuns. Eram predadores. Histórias sussurradas nos corredores de Veneza voltaram como um pesadelo: execuções mascaradas como acidentes, impérios rivalizados destruídos da noite para o dia, um rastro de sangue e medo traçado por onde passavam. E no topo dessa cadeia alimentar estava William. O herdeiro. Um homem sem rosto para mim, mas cuja reputação de crueldade e frieza cirúrgica antecedia qualquer aparição pública. Ele não negociava; ele esmagava. Ele não amava; ele possuía.

Um homem como William Cunningham jamais desejaria um casamento arranjado. Não por escolha. Se ele aceitava me tomar como esposa, era por puro cálculo, poder e controle.

— Ficou louco? — A voz saiu trêmula. — Os Cunningham? Eles são monstros, pai! Você está me entregando em uma bandeja para o pior deles!

— Meça suas palavras, Viola.

— Meça você o perigo! — Levantei num pulo, as pernas balançando, mas a raiva sustentando meus passos até a borda da mesa. — Por que eles? O que você fez para precisar vender a própria filha para a família mais perigosa do país? Me dá uma razão real!

Ele desviou o olhar. Não encarou meus olhos por um segundo sequer. Serviu mais uísque, a mão tremendo sutilmente contra o cristal — um detalhe imperceptível para qualquer um, menos para mim.

— Não importa o motivo. Importa que o contrato está assinado. Você vai vestir a porra do vestido, vai andar até o altar e vai fazer exatamente o que eu mandar.

Avancei mais um passo. A mesa de mogno era a única barreira entre nós. O cheiro de álcool impregnava o ar.

— Olha pra mim.

Ele não se mexeu.

— Olha na minha cara e responde. — A voz falhou, mas a pergunta saiu afiada como uma lâmina: — Se eu disser não... se eu pegar minhas malas agora e voltar para a Itália... a sua cabeça rola ou a minha?

O silêncio que se seguiu foi um golpe no estômago.

O copo na mão dele congelou no meio do caminho até a boca. O maxilar travou. O homem imponente que comandava centenas de homens encolheu dois centímetros diante dos meus olhos. O desespero cru brilhou nas pupilas dele por uma fração de segundo antes que ele recuperasse a máscara.

Ele não precisou falar nada. O ardor das minhas lágrimas presas queimou meus olhos.

Eu não tinha escolha. Se eu fugisse, matavam ele. Se eu ficasse, minha vida como eu conhecia morreria hoje. Eu era a moeda de troca para manter o sangue da minha família dentro das veias.

O ar sumiu dos meus pulmões. O peso da gaiola de ouro se fechou ao meu redor, esmagando minhas costelas.

— Eu caso.

A palavra saiu amarga. Um veneno engolido a seco.

A postura dele desmontou. O alívio explodiu no rosto do meu pai, grotesco e doloroso de assistir. Ele deu um passo ao redor da mesa, os braços abertos, buscando meu ombro em um gesto de gratidão paternal.

— Minha menina... obrigado. Você está salvando todos nós—

Dando um passo para trás, desviei do toque dele como se a mão dele estivesse em chamas.

Não disse mais nada. Girei sobre os calcanhares e saí para o corredor. 

As lágrimas finalmente transbordaram, quentes, cegando minha visão enquanto eu corria sem rumo. O som das ondas do mar parecia um deboche. Minha liberdade, meus planos, meu futuro... tudo tinha acabado de ser assinado com a tinta do medo. Eu não pertencia mais a mim mesma.

Eu pertencia a William Cunningham.

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