INICIAR SESIÓNO calor do peito dele contra a minha bochecha foi a primeira coisa que senti ao abrir os olhos.
O peso da minha perna jogada sobre as coxas dele. Os dedos longos dele enterrados devagar nos meus cabelos castanhos, enquanto a outra mão segurava o celular.
Girei o corpo num baque seco, desmando o abraço e caindo no mármore frio. O rosto queimou de puro embaraço.
— Calma, noivinha. — William se ajeitou no sofá, guardando o aparelho no bolso com uma calma irritante. Um sorriso de canto cortou os lábios dele. — Dá azar ver o noivo antes do altar, mas você parecia confortável demais para se importar.
Levantei-me, a boca abrindo para descarregar o insulto, mas a porta do salão se escancarou. Tia Dianora entrou afobada, o rosto pálido e os olhos varrendo o espaço como se procurasse um cadáver.
— Viola! Meu Deus, menina, achei que você tinha fug—
Ela travou o passo ao ver William sentado no estofado, enquanto eu tentava alinhar o pijama amassado. O silêncio pisou fundo na sala.
— Desculpe a interrupção — tia Dianora gaguejou, o desconcerto explícito.
William se levantou devagar, abrindo um sorriso polido e impecável que não me enganava por um segundo.
— Fique à vontade, senhora Vaccaro. A noiva é toda sua.
Ele passou por mim, a palma da mão roçando de leve na minha cintura ao cruzar a porta.
Tia Dianora agarrou meu pulso na hora e me puxou pelo corredor em direção ao meu quarto. Assim que a madeira da porta bateu atrás de nós, as lágrimas que segurei por dias finalmente transbordaram.
— Eu tô apavorada, tia — desabafei, a voz entrecortada por um soluço seco enquanto me sentava na borda da cama. — Eu sei o que acontece com as mulheres nesse meio. Eu vi o que o seu marido fez com você até o dia em que morreu! O William vai tentar me submeter, vai me trancar em uma gaiola e me quebrar até não sobrar nada de mim.
Tia Dianora segurou meus ombros com força. A pegada dela foi firme, quase dolorosa, obrigando-me a olhar nos seus olhos.
— Escuta aqui, Viola. — O tom dela veio afiado, sem ponta de pena. — Eu deixei aquele desgraçado fazer o que fez comigo porque eu fui criada para ser fraca. Mas eu criei você diferente! Você não vai se curvar. Se você está sendo obrigada a casar com o rei desse império, você não entra como serva. Você entra, senta no trono e toma posse do lugar de rainha. Engole esse choro.
As palavras dela bateram no meu peito como um choque elétrico. O nó na minha garganta cedeu, dando lugar à raiva fria.
Uma batida na porta interrompeu o silêncio. Um funcionário do resort deixou uma caixa de veludo preto sobre a penteadeira e saiu.
Aproximei-me e abri a tranca de prata. Um colar de diamantes negros e rubis reluziu contra o estofado vermelho. Um trabalho impecável, pesado, luxuoso. Dentro, apenas um cartão de papel encorpado com duas letras gravadas em relevo: W.C.
Nenhum recado. Apenas a marca do meu dono.
Duas horas depois, encarei o espelho. O vestido de noiva em tom marfim moldava meu corpo com perfeição, a saia de fenda profunda e o decote estruturado destacando minha pele negra. Mas não havia vitória ali. Até a porra do vestido tinha sido escolhido por consultores de Cameron sem a minha presença. Eu era uma boneca decorada.
A porta se abriu. Meu avô apareceu no teto do batente. Os olhos dele brilharam, marejados de emoção ao me ver pronta.
— Você está uma visão, minha menina.
Ver a felicidade genuína no rosto do nonno fez meu estômago dar voltas. O contraste era cruel. A família inteira comemorando um grande negócio, enquanto a noiva contava os minutos para o próprio enterro.
Passei o braço pelo dele. Eu tinha recusado terminantemente que meu pai me conduzisse. Virgílio me vendeu; não teria a honra de me entregar.
Caminhamos pela passarela de madeira montada sobre a areia branca da praia. O vento marinho agitava o véu, o murmúrio dos convidados virando um zumbido distante nos meus ouvidos. Ignorei os rostos, as câmeras, os cochichos.
Fixei o olhar no fim do altar.
William me esperava. O terno preto sob medida, ajustado ao corpo imponente, os cabelos alinhados e os olhos pretos cravados em mim com uma intensidade sufocante.
Cheguei ao topo. Meu avô depositou minha mão na dele. O toque da pele fria de William fez meu peito contrair.
A cerimônia virou um borrão anestesiado. O padre falava palavras que eu não processava. Quando chegou a minha vez, repeti os votos no piloto automático, a voz firme por fora, mas o coração espancando minhas costelas por dentro.
— Eu os declaro marido e mulher.
***
O peso do braço dele ao redor da minha cintura foi a primeira coisa que me atingiu quando abri os olhos. O peito largo de William subia e descia ritmado contra as minhas costas. A lembrança da noite anterior era um borrão parcial; cheguei exausta à residência de lua de mel, me isolei na varanda encarando a escuridão do mar e devo ter adormecido na espreguiçadeira.
Ele me carregou até a cama. Mas o vestido continuava no meu corpo, intacto. Nada aconteceu.
O alívio se misturou com uma queimação esquisita na base do estômago. Desviei do braço dele milimetricamente, saí de mansinho e me tranquei no banheiro.
Cinquenta minutos depois, saí enrolada num rodo de banho. William já estava de pé, vestindo calça jeans e camisa preta, de óculos, metralhando o teclado do notebook na mesa do quarto. As sobrancelhas pretas trincadas num vinco profundo.
— Bom dia — arrisquei, limpando as gotículas de água do pescoço com a toalha.
Nenhum som. Os dedos voavam sobre as teclas numa agressividade cega. Ele nem ergueu o rosto.
A indiferença me deu um tapa na cara. Soltei o ar devagar, troquei de roupa no closet e desci para a praia privativa para não estourar o resto de juízo que me restava.
Passei a manhã inteira caminhando pela areia quente. Quando voltei para a casa, perto do meio-dia, o desgraçado continuava exatamente na mesma posição, a tela do computador refletindo nos óculos, completamente cego para a minha existência.
Quer saber? Foda-se. Se ele queria me transformar num enfeite invisível, jogaria o mesmo jogo. Não ia me humilhar buscando atenção de um homem que me tratava como um contrato esquecido na gaveta.
Subi até a varanda, peguei o celular e disquei o número da tia Dianora. Caixa postal. Liguei para Cesario. Chama, chama e nada. Tentei Bertoldo. Direto para o recado de voz.
Um frio gelado escorreu pela minha espinha. A sensação de abandono veio com força bruta, estrangulando minha garganta. Agora que eu estava casada, entregue ao novo Don, a minha própria família já estava me riscando do mapa?
Apertei o aparelho contra o peito, engolindo a bile amarga do desespero.
Descemos para o escritório do subsolo num silêncio pesado de chumbo.William manteve a mão pesada na base das minhas costas o tempo todo, sentindo cada centímetro da minha tensão residual. Bertoldo desceu colado ao meu outro lado; William lançou um olhar gélido para o meu primo por causa da proximidade, mas Bertoldo sustentou o peso sem vacilar um milímetro.Virgílio caminhava mais à frente, escoltado de perto pelos canos de dois fuzis dos seguranças da casa. Benjamin fechava o grupo, observando a dança das peças com um sorriso irônico nos lábios, deliciando-se com o espetáculo da família Vaccaro rachada ao meio.Entramos na sala forrada de carvalho escuro.— Deixe uma coisa bem clara, Virgílio — a voz de Bertoldo cortou o ar antes mesmo de nos sentarmos, o sotaque italiano carregado de desdém. — Eu não atravessei o oceano para salvar a sua pele arruinada. Estou aqui pelos interesses da família e para limpar o estrago que a sua incompetência causou em Veneza.Bertoldo jogou uma pasta
Virgílio assistia a cada segundo da nossa proximidade.O espanto nas feições dele se transformou em puro desconforto ao constatar o óbvio: eu não era mais uma moeda de troca isolada e indefesa nas mãos dos Cunningham. Havia uma aliança ali, um escudo que ele não conseguia romper.Dois seguranças seguraram o homem pelos braços.— Esquece essa história, Viola — ele tentou uma última cartada antes de ser arrastado, a voz vacilando em desespero. — Deixa a memória da sua mãe em paz antes que você destrua o pouco que sobrou!— Tirem esse homem da minha frente — William cortou sem elevar o tom, mas a autoridade na voz fez os guardas puxarem Virgílio em direção ao corredor do subsolo. — Agora.Três pancadas secas e pesadas estremeceram a porta principal. Virgílio estancou o passo, virando o pescoço com uma expressão contrariada.— O Bertoldo veio comigo para Las Vegas. Ele tinha que me encontrar aqui.Franzi a testa, o choque me puxando do transe. Bertoldo? Meu primo era o braço direito de Ce
— O Cameron Cunningham teve alguma coisa a ver com o assassinato da minha mãe?Virgílio recuou meio centímetro, tropeçando no próprio pé. Os lábios tremeram, desprovidos de cor, o terror evidente estampado na testa suada.O chão sob os meus pés simplesmente desapareceu. Minha visão embaçou por um segundo.— Ela... então ela foi assassinada? — a pergunta escapou num fio de voz rouco e estraçalhado.— Cala essa boca! — ele deu um passo para a frente, gesticulando no ar, a voz saindo aos solavancos. — Esse assunto está enterrado! Tudo o que foi feito ou escondido foi para te proteger!— Me proteger? — o grito rasgou a minha garganta, a revolta queimando como ácido. — Você passou vinte e um anos fingindo que me protegia do passado dos Cunningham para no final me vender em um contrato de casamento para a mesma família que destruiu a minha mãe?— Para de agir como uma pirralha mimada! — ele avançou mais, o rosto a poucos centímetros do meu, cuspindo as palavras. — Não tenho tempo para os se
William afastava a cadeira de veludo da mesinha encostada na janela. Uma bandeja de prata ocupava quase todo o espaço, transbordando com frutas cortadas, pães artesanais, ovos, sucos e uma jarra de café fumegante.O grande Don de Las Vegas, de calça social preta e camisa desabotoada no peito, servindo o café da manhã.— Eu não sabia o que você gostava de comer de manhã. — Os olhos me varreram dos pés à cabeça, parando um segundo a mais no meu pescoço antes de voltar para as xícaras. — Então mandei fazer um pouco de tudo.Cruzei os braços, tentando manter a postura defensiva enquanto meu estômago dava um salto traiçoeiro.— É fisicamente impossível eu comer tudo isso sozinha.— Posso te ajudar com essa parte.Um calor esquisito subiu pelo meu peito. Mordi a parte interna da bochecha, travando os lábios com força para impedir que o sorriso aliviado escapasse. Ele não tinha levantado daquela cama e voltado a ser a muralha de gelo intocável. Não tratou a noite passada como uma transação c
WILLIAMGirei o registro da água quente. O vapor espesso começou a embaçar o espelho e os azulejos escuros no mesmo segundo em que minhas mãos desceram pelo zíper do vestido terracota. O tecido deslizou pelo corpo dela, caindo aos seus pés num sussurro de seda. Arranquei paletó, camisa e calça sem desviar os olhos das curvas da minha mulher.A pele negra brilhava sob a penumbra úmida. O calor represado desde as praias das Bahamas colidiu como dinamite no centro do meu peito.Puxei Viola para debaixo da ducha. A água quente escorreu pelos nossos ombros, colando os cabelos castanhos às costas dela enquanto minhas palmas mapeavam a linha da sua cintura, subindo pelas costelas até a base dos seios firmes.Não era apenas tesão cru. Era uma possessividade doentia, uma necessidade visceral de gravar a minha presença em cada centímetro daquela carne indomável.Viola arqueou as costas contra o meu peito molhado, a respiração arfante, mas a língua continuava afiada:— Vai ficar só me encarando
A porta blindada do sedã bateu, isolando as luzes frenéticas da Strip.O carro arrancou suave pelo asfalto. Viola não se afastou para o canto do vidro; permaneceu encostada em mim, o calor da pele dela queimando através do tecido do meu terno. Estendi a mão e envolvi os dedos dela, passando o polegar com calma pela pele negra macia do dorso.Ela não recuou. Deixou a mão repousar na minha, os dedos relaxando aos poucos.A pergunta dela ainda ardia no fundo do meu crânio: você me soltaria?Se ela pensava em fuga, se via a nossa união como uma sentença de morte inevitável, era porque aquela mansão ainda não passava de uma cela dourada. E eu era o carcereiro.Exigi que ela vestisse a armadura dos Cunningham, exigi postura de senhora da máfia, quando a porra do nosso casamento sequer havia sido consumada. Eu não perdi nada ao assinar aquele papel; ela perdeu a própria casa em Veneza, a rotina, a família, o trabalho e a liberdade num estalar de dedos.O peso suave da cabeça de Viola cedeu c







