FAZER LOGINMilena
O calor do aquecedor do carro começou a bater na minha pele ensopada, mas eu continuava tremendo de frio por dentro. Eu estava sentada no banco de couro impecável daquela BMW de luxo, deixando um rastro de água da chuva e cinzas da igreja no tapete caro, mas Ulisses Albuquerque não parecia se importar com a sujeira.
Ele dirigia com uma calma assustadora, com as duas mãos firmes no volante, enquanto os limpadores de parabrisa jogavam a água do toró para os lados em um ritmo rápido. O cheiro de perfume importado dele misturado com o cheiro de couro novo me dava uma sensação estranha de segurança, algo que eu nunca tinha sentido antes na minha vida inteira.
Eu olhava para o perfil dele de lado. A iluminação fraca dos postes da avenida entrava pelo vidro, destacando aquela mandíbula marcada e os cabelos escuros ligeiramente bagunçados pela tempestade.
Ele exalava poder. Era o tipo de homem que andava pelo mundo sabendo que ninguém ousaria cruzar o seu caminho. E ali estava eu, uma noiva traída, destruída e fugitiva, dividindo o mesmo espaço que ele. Eu ainda estava processando o que ele tinha dito na calçada quando a voz dele ecoou novamente pelo espaço fechado, grave e firme.
— Você achou que aquela traição no camarim era a pior parte, não é, Milena? — ele perguntou, sem desviar os olhos da estrada. Um tom de seriedade fria tomou conta do seu rosto. — O Pedro Henrique é mais sujo do que você imagina. Eu sei tudo sobre o golpe que ele e a sua querida família iam dar em você hoje. Mas o que você ainda não sabe é a forma cruel como ele planejava fazer isso.
Eu engoli em seco, sentindo meu coração falhar uma batida. Mais crueldade? Como aquilo era possível? Eu já tinha visto o meu noivo transando com a minha prima minutos antes do casamento. Eu já tinha lido que eles queriam roubar a minha herança após o divórcio. O que mais eles poderiam ter planejado contra mim?
Ulisses esticou o braço direito para trás, alcançando o banco traseiro do veículo sem esforço. Quando a mão dele voltou, ele segurava um envelope pardo, grosso e pesado. Ele jogou o papel em cima do meu colo, bem em cima do tecido molhado do meu vestido de noiva. Olhei para o envelope como se fosse uma bomba relógio prestes a explodir.
— Eu não mandei isso na mensagem mais cedo porque sei o quanto iria te machucar ver os detalhes — Ulisses continuou, e notei que os punhos dele se apertaram um pouco mais contra o volante. — Mas agora que você saiu daquela igreja por conta própria, você precisa saber de toda a verdade. Você precisa ver até onde a ganância dele foi.
Minhas mãos tremeram tanto que quase rasgaram o papel pardo ao puxar o cordão que fechava o envelope. Eu olhei para o objeto e depois para Ulisses, a ficha finalmente caindo na minha cabeça de forma dolorosa.
— Então... foi você? — perguntei, com a voz falhando, as lágrimas ameaçando voltar. — Foi você que me enviou aquela mensagem com o print da conversa no camarim? O número desconhecido era seu?mas porque você fez isso?
— Sim, fui eu — ele respondeu, curto e direto, dando uma rápida olhada para mim antes de voltar a focar no trânsito. — Eu precisava que você abrisse os olhos antes de assinar aquele papel no altar. Se você tivesse dito "sim", seria tarde demais para se defender. E aquele desgraçado estaria com dinheiro o suficiente para encobrir os rastros sujos dele.
A raiva na voz dele me fez imaginar o que Pedro poderia ter feito com ele pra deixar ele com tanto ódio.
Puxei as folhas de papel de dentro do envelope. Eram dezenas de folhas de papel sulfite, todas contendo capturas de tela impressas em alta qualidade e fotos de Pedro e Valéria juntos.
Comecei a ler as mensagens e, a cada linha que meus olhos percorriam, meu estômago dava uma volta completa. O plano deles não era apenas esperar um ano para pedir o divórcio amigável e dividir a minha herança. Era muito, muito pior.
A minha tia Marcela, o meu tio Antônio, a Valéria e o Pedro Henrique tinham tudo esquematizado em um grupo de conversa privado. Eles tinham conversado com um médico corrupto da cidade.
O plano consistia em se casar comigo hoje e, logo após a lua de mel, Pedro começaria a colocar remédios na minha comida para me deixar confusa e dopada.
Depois disso, a minha própria família assinaria um laudo dizendo que eu tinha ficado louca por causa do trauma da morte dos meus pais, me interditando judicialmente.
Eles iam me prender em um hospício particular de quinta categoria no interior do estado, dopada de remédios para o resto da vida, enquanto o Pedro assumiria o controle total da herança multimilionária que meus pais deixaram para mim.
— Monstros! Demônios! — eu gritei dentro do carro, desabando em um choro alto, pesado e doloroso. — Como eles tiveram coragem de planejar isso comigo? Eu cuidei daquela casa! de todos eles! Eu trabalhei igual a uma condenada para dar dinheiro para o Pedro! Eu amava a minha prima! Aquela velha nojenta da minha tia... como ela pôde querer me trancar em um hospício? Meus pais confiavam neles!
A tristeza e o ódio se misturaram, e eu comecei a amassar os papéis na minha mão, xingando os quatro com todos os nomes mais feios que eu conhecia. Eu batia com o punho no painel do carro, sentindo uma dor que parecia arrancar a minha alma.
Eles queriam acabar com a minha vida. Eles queriam me apagar do mundo e me tratar como um bicho enjaulado só para ficarem ricos às minhas custas.
Eu chorava alto, soluçando, sentindo a humilhação se transformar em uma sede de sangue tão grande que meus dentes chegavam a ranger.
Ulisses permaneceu em silêncio, me deixando colocar toda aquela raiva para fora. Ele não me mandou calar a boca e nem tentou me consolar com palavras vazias de pena. Ele apenas continuou dirigindo, esperando que o meu ataque de fúria diminuísse para que eu pudesse escutar o que ele tinha a dizer.
Quando meu choro finalmente começou a cessar, transformando-se apenas em respirações pesadas e soluços baixos, Ulisses diminuiu a velocidade do carro e estacionou na beira de uma rua escura, sob a sombra de algumas árvores grandes.
Ele desligou o motor, deixando apenas as luzes do painel acesas, e virou o corpo musculoso na minha direção. O olhar dele estava sério, mas havia uma faísca de desafio ali que me fez prender a respiração.
— Você tem duas opções agora, Milena — ele começou, a voz preenchendo o silêncio do carro de forma imponente. — Você pode continuar chorando e se escondendo em algum hotel barato enquanto eles tentam te caçar para terminar o serviço, ou você pode me usar para destruir cada um deles até que não sobre nada.
— O que você quer dizer com isso? — perguntei, limpando o rosto molhado com as costas da mão, encarando-o com os meus olhos bem abertos.
Ulisses aproximou-se um pouco mais, o rosto dele ficando a poucos centímetros do meu, fazendo o meu coração disparar de uma forma totalmente diferente. O hálito dele era quente e o perfume forte me causava um arrepio na espinha.
— Eu te proponho um acordo — ele disse, com um sorriso de canto que parecia o de um demônio sedutor. — Um casamento por contrato. Nós vamos ao cartório para oficializar a nossa união. Só um ano fingindo ser a minha mulher diante do mundo. Em troca, eu coloco protejo você daquele verme, você fica com a sua herança e destruímos o Pedro Henrique e a sua família até não sobrar nada. Como o Pedro é o meu maior inimigo, ver a mulher que ele enganava casada com o homem que ele mais teme no mundo já será um golpe bem duro para começar a nossa vingança.
O meu coração estava prestes a explodir de ansiedade.
Casar com o demônio dos negócios? Casar por vingança com um homem que sempre foi o pesadelo do meu noivo? É meu por consequência. Antes eu morria de medo do que Ulisses Albuquerque seria capaz.
E agora…ele me quer como noiva!?
A proposta era absurda, era loucura pura, mas olhando para o envelope amassado na minha mão e lembrando da podridão do Pedro, eu soube exatamente qual seria a minha resposta,
Aquela proposta era o início do pior pesadelo do meu ex-namorado.
— Eu...eu aceito.
Milena Eu continuei fingindo que estava desmaiada, mantendo o corpo mole e a cabeça caída sobre o peito. Mas a minha encenação não durou muito tempo. Senti uma mão bruta segurar a ponta do saco de pano e puxá-lo com violência para cima, arrancando o tecido da minha cabeça de uma vez só.A luz forte do galpão abandonado bateu direto nos meus olhos, me fazendo piscar várias vezes para tentar enxergar o que estava ao meu redor. A tontura ainda flutuava na minha mente, mas a visão daquele lugar imundo me deixou em alerta máximo.Três homens estavam parados bem na minha frente. Todos eles usavam máscaras pretas de tecido cobrindo do nariz até o queixo, deixando apenas os olhos escuros e maldosos de fora.— Olha só, rapazes! A bela adormecida resolveu acordar! — um deles debochou, soltando uma risada nojenta e seca.Ele deu um passo para perto de mim e esticou a mão suja, passando os dedos nojentos no meu cabelo. Eu puxei a cabeça para trás no mesmo instante, encarando-o com o olhar mais f
Ulisses O sangue queimava nas minhas veias como se fosse puro ácido. Os meus pulmões pareciam em chamas, rasgados pelo esforço e desesperado de ter corrido atrás daquele carro preto por no meio do trânsito. A minha camisa social estava transparente de tão encharcada de suor, desbotada, com os botões do peito abertos e as mangas rasgadas. O meu terno caro tinha ficado para trás em algum lugar daquela rua amaldiçoada. Mas eu não me importava com nada disso. A única coisa que se repetia na minha cabeça como um eco infernal era a imagem da Milena sendo jogada para dentro daquele veículo, indefesa, pálida, inconsciente pelo veneno que deram a ela.Eu esmurrei a mesa de madeira do delegado com tanta força que o computador e os papéis saltaram no ar, fazendo um barulho ensurdecedor que parou toda a delegacia.— Eu já disse mil vezes e vou repetir para vocês, cambada de inútil! — gritei com a voz rasgada, os meus olhos injetados de puro ódio e desespero. — O sujeito tinha mais de um metro e
Milena A escuridão que me cobria era diferente de um desmaio comum. Não era só o efeito daquela droga nojenta que tinham colocado no meu suco, era uma escuridão pesada, sufocante e quente. Tentei piscar os olhos, mas as minhas pálpebras bateram contra um tecido grosso e áspero. Havia um saco de pano cobrindo toda a minha cabeça, deixando o ar que eu respirava abafado e com um cheiro forte de poeira e mofo.A minha cabeça latejava como se um martelo estivesse batendo direto no meu cérebro. A tontura ainda flutuava no meu corpo, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto do que o efeito do remédio.Tentei mover as mãos para tirar aquele pano do meu rosto, mas os meus braços simplesmente não saíram do lugar. Puxei com mais força e senti o atrito violento de uma corda grossa cortando a pele dos meus pulsos. Olhei para baixo por dentro do pano, tentando me mexer, e percebi que as minhas pernas também estavam completamente presas, amarradas juntas pelos tornozelos contra os pés de uma
Milena A taça de vidro tremia tanto na minha mão que algumas gotas do suco de uva respingaram na minha calça. O pavor tomou conta de mim com uma força avassaladora. O homem de branco abriu a porta da sala VIP e saiu em silêncio, empurrando o carrinho de inox sem olhar para trás nem por um segundo.— Ulisses! — chamei, a minha voz saindo rasgada, sufocada de tanto pavor.Ulisses desligou o celular no mesmo instante, assustado com o tom da minha voz. Ele cruzou a sala num pulo, vindo até mim e se ajoelhando na minha frente, segurando os meus ombros com firmeza.— Mili! O que foi?! O que aconteceu?! Você está pálida! — ele perguntou desesperado, os olhos azuis faiscando de preocupação ao ver o meu corpo inteiro tremer.— Aquele homem... o homem que acabou de sair daqui com o carrinho de comida... — murmurei, apontando para a porta com o dedo trêmulo, sentindo as lágrimas de pavor queimarem os meus olhos. — Eu conheço ele, Ulisses! É o mesmo homem que estava me perseguindo na rua! O mesm
Milena O carro do Ulisses parou suavemente na entrada de um prédio moderno e espelhado, localizado no bairro mais nobre da cidade. A fachada de vidro reluzia sob a luz da manhã, e na porta principal já havia um segurança de terno preto pronto para abrir a porta do veículo para nós.Eu olhei pela janela com os olhos bem abertos, impressionada. Nunca na minha vida tinha colocado os pés em um lugar como aquele. Para mim, ir ao médico sempre significava filas gigantescas em postos de saúde ou salas de espera barulhentas.— Chegamos, Mili — Ulisses disse num tom suave, saindo do carro e vindo até o meu lado para segurar a minha mão e me ajudar a descer.Caminhamos juntos para dentro da clínica, e o ar-condicionado gelado e cheiroso me recebeu na hora. O chão de mármore branco brilhava tanto que dava para ver o reflexo dos nossos sapatos. Assim que pisamos na recepção, duas recepcionistas vestidas com roupas impecáveis se levantaram imediatamente, dando um sorriso largo.— Seja muito bem-v
Milena A noite passou num piscar de olhos, sem pesadelos ou sombras daquela cela fria para me atormentar. Pela primeira vez em semanas, a escuridão do meu sono foi preenchida por uma luz suave e quente. No meu sonho, eu estava em um quarto todo pintado de branco e azul-claro, segurando um pacotinho minúsculo e macio nos braços. Era o nosso bebê. O rostinho dele era perfeito, com os olhos azuis idênticos aos do Ulisses e os cabelinhos escuros colados na testa.Eu balançava o corpinho pequeno com todo o amor do mundo, sentindo um calor inexplicável no peito, uma paz que eu achava que nunca mais ia sentir na vida.De repente, os passos firmes que eu já conhecia tão bem ecoaram pelo quarto. Olhei para a porta e vi o Ulisses parado ali, usando uma camisa social branca com as mangas dobradas. O rosto dele não tinha aquela expressão fria de bilionário arrogante ou o pavor do dia anterior. Ele sorria de um jeito aberto, sincero e cheio de uma ternura que cortava o meu coração.O Ulisses se a







