LOGINMilena Saí do banheiro encharcada de perfume de baunilha, com a pele quente e o coração martelando no peito como se fosse explodir a qualquer momento. Vesti aquela camisola preta indecente devagarzinho, sentindo o tecido fino e a renda transparente roçarem nas minhas curvas. Fiquei parada na frente do espelho por alguns segundos e engoli em seco. A peça era tão curta e aberta que não escondia praticamente nada; era o tipo de roupa que deixaria qualquer homem louco em questão de segundos.Ajeitei o cabelo longo jogado sobre o ombro esquerdo e comecei a andar de um lado para o outro no quarto de hóspedes, esperando o momento exato para agir. Eu precisava que a casa inteira estivesse num silêncio absoluto.Esperei, esperei e esperei. Olhei pelo olho da fechadura até ver que todas as luzes do corredor principal tinham sido apagadas. Os funcionários já tinham ido para os seus aposentos e a mansão dos Albuquerque parecia um cemitério de tão quieta.— É agora ou nunca, Milena! — murmurei pa
MilenaFiquei parada no meio do corredor do segundo andar encarando a porta do quarto principal do Ulisses trancada por dentro. A luz que saía por debaixo da fresta da madeira confirmava que ele estava lá, escondido feito um coelho assustado depois do beijo gostoso que me deu no escritório.O mordomo desceu as escadas com uma bandeja vazia nas mãos e parou do meu lado com uma cara meio sem jeito, com vergonha de me dar a notícia.— Dona Milena... o patrão pediu para avisar a senhora que não vai descer para jantar na mesa hoje à noite — o mordomo falou com a voz bem baixinha e educada. — Ele disse que tá com uma dor de cabeça muito forte por causa do trabalho e preferiu que a refeição dele fosse servida direto lá no quarto dele. Ele pediu para a senhora jantar tranquila lá embaixo.Senti o meu sangue ferver na mesma hora.— Dor de cabeça uma ova! — pensei comigo mesma, apertando o corrimão de madeira da escada até os meus nós dos dedos ficarem brancos. — A única dor que esse teimoso tá
Milena O líquido vermelho do vinho refletia a luz amarelada da luminária sobre a mesa de madeira, criando um clima tão quente e envolvente que parecia até um sonho. Ulisses virou a primeira taça quase de uma vez só, deixando a bebida forte e encorpada relaxar a tensão que deixava os ombros dele duros como pedra. Dava para ver claramente no rosto dele: a postura de homem frio e bravo estava começando a rachar. O peito dele subia e descia numa respiração mais calma, e o olhar azul, que antes me encarava com tanta desconfiança, agora brilhava com uma curiosidade quase infantil.Ajeitei o meu corpo na ponta da mesa, ficando bem na direção dele, e soltei uma risada baixa para quebrar o resto do gelo que nos separava.— Sabe, Ulisses... ver você aqui trabalhando feito um louco com esse braço engessado me faz lembrar daquela vez na nossa lua de mel…— falei, soltando uma gargalhada verdadeira. — Você e eu tivemos que engatinhar até a cozinha pra eu poder comer, só pra enganar um paparazzo ma
Milena A tarde chegou trazendo um céu cinzento e pesado, mas a minha mente estava mais clara do que nunca. Depois de ter devorado aquele almoço delicioso preparado sob as ordens diretas do Ulisses, caminhei a passos firmes e decididos pelo corredor do segundo andar em direção ao escritório da mansão. Eu sabia perfeitamente que aquele cômodo era o refúgio dele, o santuário onde ele tentava manter o controle da vida e dos negócios enquanto a cabeça dele continuava sendo uma completa bagunça sem memórias.Cheguei perto da porta de madeira pesada e escutei o barulho seco de papéis sendo manuseados com irritação lá dentro.Apertei a minha blusa um pouco mais justa no corpo, soltei o primeiro botão para valorizar o meu colo de forma sutil, dei três batidas leves na madeira e girei a maçaneta sem esperar a autorização dele.Ulisses estava sentado atrás da mesa gigante de jacarandá, cercado por dezenas de pastas com relatórios financeiros, contratos e relatórios de ações da empresa. O braço
ValériaEu andava de um lado para o outro naquele quarto nojento de hotel, sentindo o meu salto alto estalar no piso de taco encardido. O cheiro de mofo e cigarro barato impregnava o ar, me dando uma ânsia de estômago desgraçada. Eu odiava estar naquele lugar. Odiava com todas as minhas forças. Eu era uma mulher elegante, nascida para o luxo, e me ver trancada numa espelunca suja de segunda classe me fazia querer esfolar a minha própria pele de tanta raiva.Passava as mãos pelo meu vestido ajustado, tentando tirar alguma poeira invisível, e encarava a minha imagem num espelho manchado e trincado na parede.— Que inferno de vida! — murmurei com a voz rasgada de ódio, batendo a minha bolsa de grife genérica em cima da mesa de madeira ridícula.Eu sabia que não tinha para onde fugir. A minha realidade era uma verdadeira tragédia. A minha mãe tinha afundado a nossa família num buraco sem fundo de dívidas com bancos, cartões estourados e, para piorar de vez o nosso caos, tinha pedido dinh
Milena Ulisses caminhou à minha frente pelo corredor do segundo andar, com os passos firmes e o braço engessado colado ao corpo. Ele me guiou até a porta do quarto de hóspedes, que ficava a poucos metros do suíte principal que um dia compartilhamos. O silêncio entre nós dois era eletrizante, carregado de uma tensão sufocante que fazia cada pelo do meu braço se arrepiarem de ansiedade.Ele girou a maçaneta de metal resplandecente, abriu a porta devagar e deu um passo para o lado, indicando o ambiente com um gesto contido.— Você pode se acomodar aqui por enquanto, Milena — ele falou num tom neutro, tentando manter aquela postura fria de homem inabalável. — O motorista já foi buscar as suas malas no hotel. Em breve tudo estará guardado no seu armário.Caminhei para dentro do quarto amplo, cheirando a perfume de lavanda limpo e fresco, e olhei ao redor por alguns segundos antes de me virar de frente para ele. Olhei bem no fundo daqueles olhos azuis que pareciam tão perdidos no meio de t







