MasukSeis meses haviam passado desde a noite na Casa das Figueiras. A chuva havia dado lugar a uma manhã clara. O céu estava azul. E, pela primeira vez em muitos anos, Verônica acordou sem sentir medo. Ela permaneceu deitada por alguns segundos. Observou a luz entrando pela janela. Depois olhou para o homem ao seu lado. Daniel ainda dormia. O rosto estava tranquilo. Sem a tensão que o acompanhara durante tantos meses. Sem a raiva. Sem o peso da vingança. Verônica sorriu. Durante muito tempo, acreditou que o casamento deles seria uma prisão. Um acordo criado por interesses. Uma união construída sobre mentiras. Mas agora... Era diferente. Daniel abriu os olhos. — Você está me observando? Verônica tentou esconder o sorriso. — Não. — Está, sim. — Talvez. Ele aproximou-se. — E o que descobriu? Ela fingiu pensar. — Que você ronca. Daniel arregalou os olhos. — Eu não ronco. — Ronca. — Isso é uma acusação grave. Verônica riu. Era um som simples. Mas demorara anos
A chuva começou antes que chegassem à Casa das Figueiras.Grossas.Pesadas.O céu parecia carregar o mesmo peso que acompanhava Daniel, Verônica, Henrique e Adrian.Nenhum deles falou durante o caminho.A antiga casa surgiu entre as árvores.As janelas estavam escuras.O portão permanecia aberto.Como se alguém os esperasse.Daniel estacionou.Desligou o motor.Olhou para Verônica.— Ainda podemos chamar a polícia.Ela balançou a cabeça.— Se fizermos isso, ele desaparece.Henrique observava a casa.— Ele quer que entremos.Adrian respirou fundo.— Então vamos entrar.Os quatro atravessaram o jardim.A porta principal estava destrancada.Quando Daniel a empurrou, as luzes se acenderam.A sala parecia exatamente como décadas antes.Móveis antigos.Retratos nas paredes.A lareira acesa.No centro havia uma longa mesa.Sobre ela...A chave de bronze.Verônica aproximou-se.— Ele quer que eu pegue.Henrique segurou seu braço.— Não toque.Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa..
A porta permaneceu aberta.O vento frio atravessava a sala.Ninguém se movia.Ninguém parecia capaz de respirar.O homem parado no centro do cômodo tinha os cabelos mais brancos do que Verônica lembrava.O rosto estava marcado por rugas profundas.Havia uma cicatriz que atravessava sua sobrancelha.Mas os olhos...Os olhos eram os mesmos.Verônica conhecia aqueles olhos.Vira-os durante toda a infância.Nos retratos.Nas lembranças.Nos sonhos.— Pai?A palavra saiu fraca.Quase como um sussurro.O homem permaneceu imóvel.Depois abriu os braços.— Minha filha.Verônica levou alguns segundos para reagir.Seu coração dizia para correr.Sua mente dizia para fugir.Durante mais de vinte anos, acreditara que aquele homem estava morto.Chorara diante de um túmulo.Passara aniversários sem ele.Cresceu carregando uma ausência que nunca conseguiu explicar.Então...Correu.Abraçou-o com força.Henrique fechou os olhos.As lágrimas escorreram pelo rosto.— Me perdoe.Verônica segurou o casaco
Daniel permaneceu imóvel diante da fotografia. Verônica dormia na imagem. O rosto tranquilo. Os cabelos espalhados sobre o travesseiro. A luz fraca do quarto atravessava a janela. Era uma fotografia recente. Muito recente. Tão recente que Daniel reconheceu a camiseta que ela usava. A imagem havia sido tirada naquela mesma noite. Dentro da casa protegida. Ele virou a fotografia. Leu novamente a frase escrita no verso. “Agora que escolheu o amor... veremos o que está disposto a perder por ele.” Seu coração acelerou. Não era apenas uma ameaça. Era uma demonstração de poder. Alguém queria que ele soubesse que nenhuma porta era segura. Nenhum agente era confiável. Nenhuma proteção era suficiente. Daniel guardou a fotografia no bolso e correu até o quarto. Abriu a porta. Verônica ainda dormia. Por alguns segundos, ele apenas a observou. Depois se aproximou. Tocou delicadamente seu ombro. — Verônica. Ela abriu os olhos. — O que aconteceu? Daniel olhou para a janel
A ambulância desaparecia na gravação.Daniel assistiu ao vídeo mais uma vez.Depois outra.E outra.Em todas, o mesmo detalhe aparecia.O relógio dourado.A pulseira de couro escuro.O pequeno símbolo gravado ao lado do mostrador.Eduardo Sampaio estava vivo.Ou alguém queria que eles acreditassem nisso.O delegado desligou o tablet.— Estamos analisando todas as ambulâncias que circularam na região.Daniel continuava olhando para a tela apagada.— Quantas?— Trinta e duas.Algumas pertencem ao serviço público.Outras são particulares.Mas uma delas não aparece em nenhum registro oficial.Verônica cruzou os braços.— Uma ambulância falsa.O delegado assentiu.— Provavelmente.Adrian aproximou-se, mancando por causa da perna ferida.— Eduardo planejou a fuga antes de entrar na Fundação.Daniel olhou para ele.— Ele sabia que o Plano Fênix poderia funcionar.Por isso preparou uma saída.O delegado guardou o tablet.— Talvez.Mas existe outro problema.Os arquivos enviados pelo sistema r
O primeiro pilar cedeu com um estrondo ensurdecedor.A Fundação Ferraz inteira pareceu estremecer.Uma nuvem de poeira tomou o corredor, tornando quase impossível enxergar mais de alguns metros à frente.Daniel segurou a mão de Verônica com força.— Não solte minha mão.— Nunca mais — respondeu ela, ofegante.Adrian vinha logo atrás, ajudando dois agentes da Ordem que haviam abandonado as armas e decidido fugir. Naquele momento, já não existiam lados. Existiam apenas pessoas tentando sobreviver.O calor aumentava rapidamente.Pequenos focos de incêndio surgiam ao longo do túnel.Uma tubulação rompeu, espalhando vapor escaldante.Daniel puxou Verônica para trás de uma coluna de concreto segundos antes de uma enorme viga despencar exatamente onde eles estavam.O impacto fez o chão tremer.— Estamos presos! — gritou um dos homens.Adrian iluminou o mapa de emergência preso à parede.Quase ilegível.Mesmo assim, conseguiu identificar um detalhe.— Existe uma saída de manutenção!Daniel ap







