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Capítulo 3 - Alessia

last update Data de publicação: 2026-04-07 06:12:08

O lustre de cristal pairava sobre nós como uma guilhotina de luz, fragmentando reflexos em mil prismas que dançavam sobre a mesa de carvalho polido. O ar da sala de jantar estava saturado com os aromas do jantar servido: alho caramelizado do risoto de funghi, o suculento gotejar do molho bordelaise no filé mignon, e agora, o doce café de um espresso fresco, misturado ao cacau amargo do tiramisù. Cada garfada era um ritual, mas meus sentidos estavam afiados para as palavras não ditas, os olhares que cortavam como lâminas.

Don Domenico Bianchi, o Boss incontestável da Outfit em Chicago (e meu pai) - presidia a cabeceira, seu terno cinza impecável contrastando com a gravata vermelha-sangue. À sua direita, Mamma, Valentina Bianchi, com seu vestido vinho que abraçava suas curvas maduras como uma segunda pele, mal deixava não transparecer sua empolgação com a união.

Já eu, Alessia, à esquerda de meu pai, sentia o tecido azul escuro do meu vestido colar à pele suada pela tensão, tentando não me ofender com esse acordo que tinha a mim como recompensa e tentando considerar que apesar de tudo, eu me casaria com um homem jovem e arrebatadoramente lindo, ao invés de algum velho nojento e agressivo.

Bem, essa última parte eu teria que conferir, afinal, Damiano é conhecido por ser implacável em seu trabalho...

À frente, Damiano Rossi parecia uma estátua viva de poder contido: o terno preto sob medida lhe caía mais do que bem, barba rala emoldurando lábios finos, olhos castanho-escuros que pareciam engolir a luz e os cabelos negros como o breu.

- Damiano, esses onze anos te mudaram! - disse Papà, girando o copo de Brunello di Montalcino, o vinho rodopiando como sangue em veias. - Mas acredito que não deveria esperar por menos, depois desse tempo é claro que voltaria um homem feito! - Papà inspirou profundamente - seu pai teria orgulho.

Damiano cortou um pedaço preciso de tiramisù, o garfo deslizando como uma navalha. Seus olhos não piscaram.

- Eu agradeço o reconhecimento, Don. Agora que voltei pretendo prosseguir com meu trabalho mais ativamente do que quando estava longe. - sua voz era baixa e controlada. Um homem intocável, analisei hipnotizada.

Eu não sabia ao certo o motivo da prisão de Damiano anos atrás, era pequena no e me envolviam bem menos do que agora com a família. Um "homicídio" pelo que ouvi e por motivos que eu desconhecia Papà lhe devia agradecimentos e daí o meu noivado, prometida à ele quando tinha apenas 10 anos.

Papà assentiu devagar, limpando os lábios com o guardanapo de linho enquanto comia. Eu tentava fazer o mesmo, mas meus olhos se voltavam para Damiano como se fossem imãs atraídos.

- Estou mais do que satisfeito por ter meu underboss de volta, mas adoraria que por hoje não falássemos tanto de negócios... Com uma excessão, é claro! - senti os olhos de Papà em mim e então ergui os olhos para me deparar com as pupilas negras que me avaliavam. Corei instantâneamente e voltei meu olhos para a taça de vinho à minha frente, tentando ao máximo não engasgar tão explicitamente com a comida que travou ao tentar engoli-la.

- Como preferir, se estiver confortável para todos, é claro. - fui obrigada a erguer meu olhar novamente após notar os segundos silenciosos que se seguiram após ele falar e encontrei me encarando, esperando por uma resposta.

Pela expressão de meu pai, a pergunta implícita de Damiano não o agradou: ele não achava nada relevante pedir opinião às mulheres quando os homens eram claramente o sexo dominante em nosso mundo.

Minha mãe parecia... Chocada, para dizer o mínimo, mas o pequeno sorriso no canto de seus lábios me dizia que ela aprovara a postura de seu futuro genro.

- Sim! - voltei-me para meu futuro marido. - Eu adoraria. - Papà pigarreou e erguer sua taça.

- Um brinde então, a uma nova união! E que possamos fortalecer os laços como família!

Nós brindamos, o cristal tilintando como algemas se fechando. Eu sorvi o vinho, sentindo seu tanino amargo na língua, enquanto minha mente girava: lealdade eterna incluía o meu noivado, comprometimento e deveres, de uma esposa deveriam ser cumpridos... Tentei não demonstrar meu nervosismo com a linha de raciocínio que seguia em meus pensamentos. Fui prometida anos atrás como "agradecimento" pelo sacrifício dele e agora teria que me dar por satisfeita.

"Poderia ser pior", a voz de Mamma ecoou em minha cabeça e sabia que de certa forma, ela tinha razão.

Senti o peso da observação de Damiano em meus ombros e como parecia ser o costume de agora em diante, meus olhos foram atraídos. Não sabia dizer se algo o desagradava ou não, pois sua expressão era ilegível, mas jurava ter visto um brilho de descontentamento em seus olhos, antes que ele os desviasse.

Mamma também observava tudo com olhos azuis calculistas, idênticos aos meus. Ela pousou a colher no prato vazio de tiramisù e sorriu, quebrando a tensão.

- Homens e negócios... sempre o mesmo. Damiano, talvez esteja cansado de lidar com tudo tão categoricamente. Talvez seja bom lembrar que a vida aqui fora pode ser um pouco mais descontraída. Por que não toma um tempo a sós com Alessia após o jantar? O terraço tem uma vista linda da cidade à noite. Ar puro para... esclarecer assuntos e se conhecerem um pouco. - Seu tom era maternal, mas afiado como uma lâmina de manteiga. Ela sabia do acordo desde que fora firmado; fora ela quem costurara os detalhes do vestido hoje, sussurrando: "Ele ficará encantado com você". - Um casamento não é feito apenas de negócios, não é querido? - Papà assentiu a contragosto, mas até mesmo ele reconhecia a necessidade de conhecer ao menos um pouco o seu cônjuge antes do casamento.

Damiano virou-se para mim, um sorriso lento que não subia aos olhos curvando seus lábios rosados.

- Uma ideia excelente, signora. Alessia? - Meu coração martelou, mas assenti, as bochechas aquecendo sob seu olhar.

Papà grunhiu aprovação, acendendo um charuto cubano, a fumaça subindo em espirais preguiçosas.

- Falaremos sobre a data do casamento posteriormente - 01 de novembro. Mamma havia me dito que está seria a data ofertada por Papà. Ocorreria na capela da família Bianchi em Lake Michigan.

Tais palavras caíram como um martelo. 01 de Novembro seria daqui há quatro meses. Eu, aos 21, casada com o homem de 30, o Underboss temido por toda a Organização, rico, impiedoso e lindo... Mamma parecia mais do que orgulhosa quando apertou minha mão sob a mesa, um gesto de "aceite".

Antes que Damiano respondesse, ele limpou a garganta, assentindo e então Mamma assumiu novamente a conversa, antes que o silêncio constrangedor se instalasse.

- E tenho certeza que Caterina irá adorar as boas notícias!

Damiano a olhou de imediato, os olhos suavizando pela primeira vez.

- Caterina? - A pergunta saiu casual, mas eu o vi fechando o punho. Entendi o que ele queria saber e então respondi.

- Mamma achou uma boa ideia manter o desejo de sua falecida esposa sobre o nome de sua filha... - ele me olhou, quase como se fosse uma agradecimento contido.

- Eu jamais poderia desonrá-la! - Mamma pôs a mão sobre o peito e pude ver o afeto estampado em seus olhos. - Sua filha é uma garota brilhante, Damiano. Sentirá orgulho ao conhecê-la!

Damiano abriu a boca para responder, os olhos escuros já não demonstravam sua emoção como há poucos segundos atrás, havia retomado a postura - 11 anos sem ver sua filha, anos trocados por lealdade à Outfit. - Eu...

CRASH!

A porta dupla da sala de jantar explodiu aberta com um estrondo de madeira contra parede. Uma figura pequena tropeçou para dentro, caindo de joelhos no tapete persa, as duas mãos magras apoiadas no chão para se equilibrar. O tilintar de talheres nos pratos ecoaram em uníssono.

Papà olhou calmamente na direção dela, estreitando os olhos, e Mamma engasgou com o vinho.

Eu apenas permaneci intacta, as talheres que antes estavam em minhas mãos caídas no prato enquanto olhava para o chefe de nossa família e a menina de cabelos negros que claramente ouvia detrás da porta.

Era Cat.

Seus cabelos negros ondulados cascateavam sobre o rosto corado, o vestido de algodão azul-marinho amarrotado da cozinha. Ela ergueu o olhar devagar, os olhos - castanho-escuros profundos, quase pretos, idênticos aos de Damiano - arregalados em choque puro e medo. O ar pareceu congelar. Os olhos dela correram para os dele do outro lado da mesa, de quatro no chão, como um cervo avistando o lobo. O reconhecimento era instintivo, elétrico: mesma intensidade, mesmo formato arredondado do rosto, o mesmo breu dos olhos.

Eu segurei a respiração, o coração na garganta, um pânico gelado me invadindo. Não agora. Não assim.

Cat acabara de descobrir tudo - ou o suficiente para ruir seu mundo. Ela sabia que o pai havia sido preso por cumprir com os deveres de um Homem de Honra, mas ninguém havia lhe contado que ele sairá, que viria até ela como seu pai, ou que se casaria com salua considerada irmã mais velha que agora seria sua madrasta.

Ela tropeçara na porta escutando, o que por si só já era motivo suficiente para que Papà ou Mamma a punissem.

Levantei-me num salto, o som de meus passos ecoando alto, clicando no piso, enquanto corria para ela.

- Cat! Você está bem? - A segurei pelos braços, colocando-a de pé. Detrás de mim ouvi cadeiras sendo empurradas e não precisei me virar para saber que Damiano estava de pé. - Venha, levante-se! - Minha voz saiu em um sussurro, mas Cat não olhava para mim, encara algo a diante e escutei passos vindo em nossa direção até ver o par de sapatos preto social ao meu lado.

Embora não precisasse olhar para saber que era ele, ergui meus olhos para me deparar com Damiano Rossi parado ao meu lado de pé, enquanto eu estava agachada ao lado de sua filha.

Ela piscou, ignorando-me, fixada em Damiano.

Ele não disse nada, sua atenção voltada para a menina. Oferecer-lhe a mão educadamente, como um cavalheiro que nós dois sabíamos que ele não era.

- Desculpe... - murmurou baixo, a voz trêmula, as mãos ainda no tapete, unhas cravadas nas fibras enquanto lentamente tentava se levantar, aceitando relutantemente a mão enorme que lhe era oferecida.

- Vejo que puxou a sua mãe no que se trata de curiosidade e rebeldia... - disse ele, em um tom sério.

Me levantei ao mesmo tempo que Cat, acompanhando-a de perto, me mantendo ao seu lado e pronta para defendê-la do próprio pai se necessário.

E o que pensei que seria uma reprimenda, tornou-se algo desconhecido me trazendo uma sensação completamente nova e confusa quando o vi sorrir pela primeira vez.

- Fico feliz em perceber que ela não me decepcionou. - a reação de Cat foi parecida com a minha, mas logo a menina relaxou e sorriu de volta e eu poderia jurar que seu sorriso abalou por um milissegundo a armadura impenetrável de Damiano quando seus olhos brilharam com afeto pela filha.

Papà grunhiu em desaprovação, colocando seu charuto no apoiador.

- Mas que diabos! Suas empregadas não conseguem manter uma criança sob vigilância , Valentina? - Mamma tentou responder, mas ele se levantou, resignado.

- Domenico, por favor... - falou Mamma, mas em nada ela poderia ajudar se ele decidisse puni-la.

Ao ver nosso pai se aproximar, a garota tremeu e encolheu perto de mim, olhos assustados e o aperto forte em meu braço quando inconscientemente me coloquei diante dela, encarando meu pai.

- Ela não fez por mal, Papà... - apertei levemente a mão dela em apoio.

- Saia da frente, Alessia. - ordenou, mas me mantive no lugar.

O homem a minha frente assumia a postura do Boss da Outfit e não de meu pai, agora irritado pela a minha audácia em contradizê-lo e enfrentá-lo.

Papà deu de ombros, já conhecendo bem a cena, acostumado com minha proteção com Cat e claro, estando mais do que disposto a infligir o castigo de sempre.

- Que assim seja, então. - Domenico Bianchi ergueu sua mão e eu esperei pelo tapa, ainda protegendo Cat, que choramingou baixinho por eu, mais uma vez, apanhar em seu lugar.

Esperei pelo tapa e meu rosto virou bruscamente para o lado quando a mão pesada de meu pai atingiu meu rosto, o gosto de sangue inundou minha boca segundos depois.

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Último capítulo

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