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Capítulo 2 - Alessia

Author: Brenda Winter
last update publish date: 2026-04-07 06:11:36

Me levantei às pressas e logo Cat estava de pé, descendo o zíper do meu vestido para então subi-lo devagar e fazer a encenação perfeita para a mulher que acabara de abrir a porta sem bater.

- Alessia! - Nós nos viramos com a aura de mais pura inocência, e eu percebi a desconfiança nos olhos que refletiam os meus - os mesmos olhos azuis, mas endurecidos por anos de decisões implacáveis. - Achei que já estivesse pronta!

- Oh, sim, Mamma. Estava, mas precisei ajustar meu sutiã; estava um pouco apertado e Cat me ajudou - menti com a facilidade de quem crescera praticando.

Valentina Bianchi, minha mãe, não pareceu convencida, seus lábios se apertando em uma linha fina, mas assentiu mesmo assim, como se decidisse que o momento não era para confrontos.

- Muito bem! Seu pai aguarda na sala de jantar, não o deixe esperando! - Ela indicou a porta com um aceno de cabeça e sua postura rígida mudou de imediato quando se voltou para Cat. - E você, querida, venha comigo. Margareth está fazendo o seu bolo preferido! - Ela passou o braço afetivamente pelos ombros de Caterina e a guiou pelo corredor, como uma leoa, protegendo sua cria adotiva.

Caminhei atrás delas, sentindo o cheiro floral do perfume de Mamma se misturar ao ar carregado de tensão. Nunca me incomodei com o fato de o afeto de minha mãe sempre ter sido mais direcionado à Cat. Na verdade, me sentia feliz por ela ter uma figura materna que a acolhia, especialmente depois de perder a sua em circunstâncias que Papà descrevia como "lamentável".

Mas uma vez ou outra eu gostaria que minha mãe fosse tão compassiva comigo também - um abraço sem condições, um elogio sem estratégia.

Deixando de lado meus pensamentos egoístas, desci as escadas de mármore, cada degrau ecoando como um batimento cardíaco acelerado, e fui direto para a sala de jantar. Mamma entregou Cat à Sabrina, que andou em direção à cozinha junto à garota, rindo de algo que só elas entendiam, e veio até mim para que entrássemos juntas.

A tão respeitada Sra. Bianchi vestia um vestido justo e de corte reto na cor vinho, com mangas até os cotovelos, liso, que descia até abaixo de seus joelhos. O sapato lhe dava um ar ainda maior de elegância - um scarpin da mesma cor da roupa. Os cabelos negros soltos, com as pontas cacheadas, adornavam seu belo rosto, realçando os traços afiados e os lábios pintados de um vermelho sutil.

Ela era a personificação da graça mafiosa: bela, letal e impecável.

- Respire fundo, querida. Poderia ser bem pior, acredite! - Ela sabia bem como isso poderia ser pior. Minha mãe ainda era muito jovem se comparada à idade de meu pai quando se casou com ela; ela tinha 17 anos e ele 30. Um casamento arranjado que dera certo, pelo menos na superfície, mas que me ensinara lições sobre sacrifício cedo demais. Por esse motivo, não me irritei com as palavras que me disse. Apenas assenti e caminhei para dentro do cômodo, me concentrando em apenas colocar um pé diante do outro para não tropeçar com os saltos.

A sala de jantar era um espaço amplo e imponente, com paredes forradas de painéis de madeira escura que absorviam a luz suave das velas em candelabros de prata, e uma mesa longa de carvalho polido no centro, posta com porcelana fina de Limoges, talheres de prata esterlina e cristais reluzentes sob um lustre de cristal que pendia como uma coroa de luz, lançando prismas dançantes no ar. O aroma de assados, ervas frescas e vinho envelhecido preenchia o ambiente, misturando-se ao leve perfume de charuto que Papà sempre deixava para trás. Reuni coragem para erguer meus olhos e encarar o homem ao lado de meu pai.

Damiano Rossi.

E precisei de toda a minha compostura para sustentar seu olhar, pois em nada estava preparada para a beleza do homem à minha frente...

Ele estava de pé, uma presença imponente que dominava o espaço sem esforço, como se a sala tivesse sido construída ao seu redor. Os olhos de um castanho escuro, quase preto, me encaravam indecifravelmente, profundos como abismos que guardavam segredos inconfessáveis. Diferente da grande maioria, seus olhos não percorreram meu corpo com a lascívia habitual de homens como aqueles; se mantiveram nos meus, desafiando, avaliando, hipnotizando. Os cabelos escuros, recém-cortados, estavam um pouco maiores do que o habitual para um homem da máfia costumava usar; a barba estava rala, mas tudo isso só o deixava ainda mais bonito, com um ar de rebeldia controlada. Os lábios eram finos e rosados, nariz reto que aparentava ter sido emoldurado por deuses... Ele vestia um terno preto e elegante, sob medida, com uma camisa branca imaculada por baixo, o colarinho aberto revelando um vislumbre de pele bronzeada.

Era muito mais alto do que eu, pelo que reparei ao me aproximar. Considerando que usava saltos naquele momento e mesmo assim precisei erguer o queixo para continuar nosso embate de olhares, ele devia medir bem mais de um metro e noventa. Meu pai, sentado à cabeceira, sorria com orgulho, seu terno cinza contrastando com a gravata vermelha que simbolizava sangue e lealdade. Ele ergueu a voz, quebrando o silêncio carregado.

- Alessia, esse é Damiano Rossi. Meu Underboss que finalmente está de volta! - Fiz uma nota mental de não entrar nesse assunto, já que sabia bem o que significava "estar de volta" no caso dele: anos sumido atrás de grades, comendo o que lhe era oferecido em um ambiente tão hostil quanto a cadeia podia ser, e agora, voltava para reclamar seu lugar - e talvez mais.

- Damiano, essa é minha filha, Alessia Bianchi. - Sorri e aceitei a mão que ele me ofereceu sem desviar os olhos dos seus.

Sustentei o contato enquanto mantinha o olhar, percebendo a aspereza de suas mãos - marcas de lutas passadas, calos de poder - e a firmeza da mesma, como se ele pudesse esmagar mundos com um aperto.

- É um grande prazer, Sr. Rossi - falei, já um pouco constrangida com a troca de olhares que parecia durar uma eternidade.

- O prazer é todo meu, senhorita. - A voz rouca e grave quase fez minhas pernas fraquejarem e como se não bastasse, ele fez algo que me tirou o fôlego. Com o seu aperto firme em minha mão, ele a levou até os lábios, beijando delicadamente o dorso, ainda mantendo os olhos em mim. O toque de sua boca era quente, reverente, enviando um arrepio pela minha espinha. Senti as bochechas esquentarem e um calor incomum subir pelo meu pescoço, traçando um caminho até as orelhas.

Olhei de relance para Papà, que me pareceu mais do que satisfeito - um brilho calculista em seus olhos -, e fomos nos sentar à mesa de jantar. As cadeiras de encosto alto rangeram levemente sob nosso peso, e o vinho foi servido em taças que tilintavam como promessas frágeis. A noite mal começara, mas eu já sabia: Damiano Rossi não era só um convidado. Ele era o futuro, e eu, parte do acordo já acertado.

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